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O amor é sempre agora. Antologia do éden angolano, organização Adriano Botelho de Vasconcelos Destaque

Escrito por  Osvaldo Silva
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(Minha dor, ninguém a saiba –

Não há peito em que ela a caiba)

Viriato da Cruz.

(In: “Rimance da menina da

roça”)

***

falo do amor

que é renascimento

como alguém que atirando

pedras ao charco

se vai banhando por dentro

enquanto por fora

o seu tamanho se confunde

com o mundo

António Gonçalves.

(In: “Falando de amor”)

Novembro de 2008 - Nº 4

Revista Crioula – nº 4 – novembro de 2008

Resenhas — O amor é sempre agora. Antologia do éden angolano

 

Sendo a antologia uma obra de caráter sistemático, a sua leitura impõe-nos, com efeito, a tensão latente entre o particular e o geral. Ou seja, uma tensão dialética sempre implícita entre os traços sui generis de cada um dos textos coligidos e a dimensão global da antologia pretendida por um critério central de si enformante, seja ele estético, estilístico, temático-sociológico ou outro. Ao propor a coexistência possível de diferentes mundividências sobre um mesmo objeto, a obra torna-se um espaço onde defluem convergências e dissidências, unicidades e heterogeneidades. O antologista é, portanto, um artesão de tensões.

Pensando na antologia poética como um mundo semiodiegético – promiscuindo deliberadamente as fronteiras entre os gêneros literários (se é que ainda se pode considerá-las estáveis!) –, diríamos que ela representa uma unidade orgânica superior harmonizada pela articulação dos vários micro-estratos livres que a integram e que aqui chamaríamos de poemas. Nessa perspectiva, os distintos sujeitos poéticos nela reunidos, como que personagens discursivamente autônomas de um romance polifónico, articulam uma rede interdiscursiva e interdialógica de significações ancoradas em diversas modelações. Esse é o caso da obra O amor é sempre agora. Antologia do éden angolano sob organização tutelar do poeta e antologista angolano

Adriano Botelho de Vasconcelos, achando-se ainda os nomes das colaboradoras Seomara Santos, Filomena Gioveth e Neusa Dias. Dada às tampas em 2007, com chancela da União dos Escritores Angolanos e constituindo o volume 39 da Coleção “Guaches da Vida”, trata-se de uma antologia que colige, no total, 145 poemas de 50 poetas e cujo plano temático global, de que o título representa um inegável sintoma, é definido pela cosmogonia do amor. Com mais essa publicação, Vasconcelos dá continuidade ao seu projeto literário-antológico e reitera, invictamente, a condição de herdeiro de uma tradição que se inicia com reconhecido engajamento (e se quisermos não inocentar a jornada histórica das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa) em Mário Pinto de Andrade e as suas inequívocas inquietações antológicas. A propósito, vale lembrar que

Adriano Botelho de Vasconcelos é o registro autoral de Todos os sonhos – Antologia da poesia moderna angolana (2005), Caçadores de sonhos Colectânea do conto angolano (2005) e Boneca de Pano Colectânea de contos infantis (2005), somando-se ainda a sua produção poética com mais de trinta anos e uma das mais pujantes da poesia angolana contemporânea. E antes mesmo do que possamos suscitar sobre O amor é sempre agora. Antologia do éden angolano, ouçamos o que nos diz o seu próprio organizador, confessando as suas reais intenções, numa elucidativa passagem constante da introdução à antologia e que não resistimos à prazerosa tentação de reproduzi-la aqui:

A escolha da temática amorosa tem como objectivo situar o amor

no cerne das nossas vidas.

(...)

Decidi organizar a antologia de poemas de amor porque muitos

leitores necessitam das nossas ‘febres e luas’. E também para

que o caos existente nos dias de hoje, a solidão da sociedade

moderna, a poluição sonora e de gritos de angústias não se

sobreponham aos valores de afecto e de ternura, valorizando-se a

interioridade humana, sua fragilidade e as suas incansáveis

utopias. (VASCONCELOS, 2007, p. 31)

À luz dessas breves palavras, notamos que o que se propõe é a depuração catártica das perturbações de uma vida agitada por pulsões excessivas e anómicas do cotidiano algoz, isto é, uma tentativa de restauração de sentido ao mundo real por meio da memória poética afetiva. Todavia, as motivações líricas, consubstanciadas em processos de evocações subjetivas que visam projetar realidades possíveis, não reluzem dos mesmos tons: no éden angolano o amor não é monocromático.

A obra é dividida em três capítulos, nomeados: Poetas antologizados; Poemas musicados ou muito lidos nas tertúlias; e O Éden sem fronteiras: ‘Visitações necessárias depois de um cálice de vinho’. O primeiro capítulo, correspondendo à seção principal da antologia, acomoda um naipe de poetas consagrados no contexto das quatro últimas grandes gerações da Literatura Angolana, dentre eles António Cardoso, Arnaldo Santos, Costa Andrade, Jorge Macedo, Manuel Rui, Ruy Duarte de Carvalho, Adriano Botelho de Vasconcelos, José Luís Mendonça, Lopito Feijoó, João Maiomona, João Melo, Paula Tavares, Fernando Kafukeno, Trajanno Nankhova Trajanno e Amélia da Lomba. No entrecruzamento pluridiscursivo dos vários sujeitos poéticos, a tematização do amor agencia o mapeamento da celebração do encantamento e do desejo carnal ou espiritual (NETO,p. 47-50; FERREIRA, p. 101), a plenitude e o lirismo da vida (VASCONCELOS, p. 39; LOMBA, p. 59-60; KUDIJIMBI, p. 219) e o delírio de uma paixão idílica (GONÇALVES, p. 80-81; TALA, p. 175; ROCHA, p. 188; NETO, p. 245-246). Porém, a expressão da dilaceração interior não é secundarizada, configurando-se num processo de assimilação por associação entre as estratégias técnico-formais (de captações sensoriais e representações gráficas) e a enunciação de significados (NETO, p. 128). A expressão da dilaceração interior resulta, no maior dos casos, de um amor amargurado, porque não correspondido:

Esperei-te

não vieste

e quase a noite caía

nesta toda geografia

que foi a ausência de ti

(era o sol que me fugia

procurando madrugadas

do outro lado do além?

(...) (MELO, p. 135)

Assinalável é, também, a construção de descrições eróticas com as quais o corpo feminino é pontuado metaforicamente, o que estabelece uma perfeita negociação com o campo semântico sugerido pelo título (NETO, p. 47-49; TALA, p. 177; KUDIJIMBI, p. 220; FEIJOÓ, p. 225-228; ANDRADE, p. 119; MELO p. 153). Já num olhar mais sensualista, a pureza feminina, formulada pela conotação paradisíaca do éden, é traçada de forma cartográfica, ora como imponência cobiçada: “As pétalas dos teus lábios/ (...) Tuas mãos de delícia,/ (...) E o teu sorriso belo/ (...) faça-me viver o que sonho.” (ROCHA, p. 183), ora como revelação puramente apreciável: “Teus cabelos longos/ oh negra ardente/ como o sol das estrelas/ (...) Teu andar alungu/ oh negra ardente/ como o sol das estrelas” (KAFUKENO, p. 144). Ainda assim, os recortes românticos dessa poesia não se diluem na interiorização subjetiva do eu-lírico. Eles vão mais além ao inscreverem a união cósmico-simbólica entre o homem e a natureza (RUI, 239, 240-241; TAVARES, p. 255; CARVALHO, p. 261-265) e, até mesmo, propondo a da vida num tempo em que ao invés do “silêncio trágico da antiguidade:” o poeta esperasse “risos que pudessem autenticar/ a visível passagem dos pássaros.” (MAIOMONA, p. 171).

Quanto ao segundo capítulo, os poemas ali reunidoscorrespondem às vozes canonizadas pelo cancioneiro angolano ou notabilizados pelas tertúlias literárias. Nelas presentificam-se os nomes inconfundíveis de José da Silva  Maia Ferreira, Geraldo Bessa Victor, Agostinho Neto, António Jacinto, Alda Lara, Viriato da Cruz, Antero Abreu, Mário António, Aires de Almeida Santos e Ernesto Lara Filho.

Apologistas e fundadores da angolanidade literária, esses nomes concedem à antologia um valor significativo, na medida em que, com a sua presença, se intenta uma visão diacrônica e ontológica da (tematização do amor na) Literatura Angolana. A atmosfera do amor, na maior parte desses poetas, permeia o querer e a sensibilidade individuais em sintonia com a exaltação da esperança coletiva, mesmo que tal sintonia ganhe operacionalidade na experiência fatídica pessoal (LARA, p. 293; NETO, p. 301; LARA FILHO, p. 315; VICTOR, p. 321; ANTÓNIO, p. 329). Desse modo, o diálogo entre amor melancólico, nostalgia da infância e protesto social é sublime (SANTOS, p. 287-290; JACINTO, p. 309; CRUZ, p. 335- 337). Em conseqüência desse diálogo, a vontade interior confunde-se com a idéia-utopia da possibilidade de recuperação de uma fraternidade distante:

Neste dia

cresceram sempre rosas

Irei buscá-las

às planícies mais longínquas

às montanhas menos acessíveis

aos abismos

à amizade

e a distância que nos une (NETO, p. 306)

Por fim, no terceiro e último capítulo de O amor é sempre agora. Antologia do éden angolano destaca-se a dimensão universalista dessa antologia ao convocar outras geografias líricas – o éden sem fronteira –, atualizando poetas emblemáticos como André Breton, Bóris Spasternak, Camões, Camilo Pessanha, Charles Baudelaire, Martinho Lutero, Fernando Pessoa, Manuel Bocage, Pablo Neruda, Shakespeare e Stéphane Marllamé. Donos de projetos e percursos literários claramente vanguardistas, esses poetas encontram-se nessa opção de paginar a ditada pela revolta e ilusões interiores. Se, por um lado, “O poeta é fingidor./ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente./ E os que lêem o que escreve,/ Na dor lida sentem” (PESSOA, p. 390); por outro, a evasão não deflagra, necessariamente, um alheamento eufórico e emotivo para com o mundo real. O poeta, na sua sede de exorcismo e fuga para um universo idealizado, projeta imagens que visam superar a automatização e a degradação do mundo imperfeito:

Amar dentro do peito uma donzela;

Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;

Falar-lhe, conseguindo alta ventura,

Depois da meia-noite na janela:

(...)

Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;

Ditoso levantar-lhe os braços folhos;

É este o maior gosto que há no mundo.

(BOCAGE, p.395)

Como vemos, em sua busca de sentido, o poeta, qual o antologista, faz a sua opção. E é essa opção, quanto a nós, que singulariza a presente obra no panorama da publicação antológica angolana, aliás, porque desvela uma temática pouco atendida que pelos leitores, quer pela própria crítica da literatura angolana. Ademais, considerando os critérios adotados, o que parece conferir algum mérito à seleção de Adriano Botelho de Vasconcelos e colaboradores é justamente a síntese entre o particular e o geral que garante a rasura das distâncias do tempo e espaço literários. Assim, ler O amor é sempre agora. Antologia do éden angolano, mais do que um simples exercício de desautomatização interior, é viajar por um tempo-espaço sem limites, ou melhor, é compartilhar ânsias, angústias, desesperanças, confissões e acalentos de vozes múltiplas dessa comunidade imaginada sobrepostas no tempo presente da linguagem e do amor. 

1 Mestrando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela FFLCH-USP e bolsista do CNPq. Pesquisa: Os modelos de representação da História na ficção angolana pós-independência: um estudo comparado entre Os anões e os mendigos, de Manuel dos Santos Lima e Estação das chuvas, de José Eduardo Agualusa.

 

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