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Histórias Lusófonas das Margens do Índico: As Mãos Destaque

Escrito por  Anselmo Peres Alós
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No campo dos estudos sobre a Literatura Brasileira, uma das linhas de pesquisa mais profícuas atualmente é aquela dedicada ao revisionismo e à releitura dos cânones e da historiografia consagrados pela crítica.

Um exemplo pungente destas atividades de investigação pode ser dado pela recente “arqueologia literária” realizada por pesquisadoras brasileiras ao questionarem a invisibilidade da literatura de autoria feminina produzida no Brasil ao longo dos séculos XIX e XX. Ao reavaliar criticamente os motivos que levara à exclusão das escritoras brasileiras no século XIX, as pesquisas apontam para o fato que foi em função de interesses políticos, e não estéticos, que as vozes das mulheres escritoras foram silenciadas e excluídas dos manuais, dos dicionários bibliográficos e das histórias literárias no Brasil2. 

Todavia, há de se lembrar que outras nações de língua portuguesa (como o Timor Leste, por exemplo) apenas recentemente obtiveram o reconhecimento de sua soberania nacional. O estabelecimento do cânone literário de uma nação não é apenas um projeto estético, mas também um projeto político, projeto este que está permeado de interesses relativos à construção de uma imagem mais ou menos definida da identidade nacional. Fica evidente, assim, o fato de que as nações de recente independência política (tais como Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Cabo-Verde) ainda se encontram em processo de estabelecimento de seus cânones nacionais. Isto pode ser atestado pelo fato de que, fora desses países, a reflexão sobre as literaturas africanas em língua portuguesa se dá “em bloco”, pensando-se na maioria das vezes em um conjunto de nações africanas cujas literaturas são majoritariamente escritas em português. Este gesto crítico muitas vezes termina por rasurar diferenças irredutíveis entre diferentes literaturas nacionais africanas3. Entre as obras que realizam esta reflexão “em bloco”, cabe mencionar, a título de exemplo, livros reiteradamente citados, tais como Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, de Pires Laranjeira4, Estudos sobre Literaturas Africanas das Nações de Língua Portuguesa, de Alfredo Margarido5, e Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, de Manuel Ferreira6. As reflexões sobre as particularidades nacionais de cada uma dessas tradições literárias vêm sendo trabalhada em estudos monográficos, nos quais, na maioria das vezes, a atenção central é dedicada a uma obra ou a um escritor em especial, e não ao corpus de obras de cada uma dessas nações em particular.

Este gesto crítico carrega em si a ameaça de um novo colonialismo, a partir do qual substantivos como “angolanidade” e “moçambicanidade” passam a ser definidos apartir do olhar estrangeiro, em particular da crítica literária brasileira e portuguesa.Laura Cavalcante Padilha7, ao investigar a ausência de nomes femininos no rol das antologias de literatura africana, apercebe-se deste fato: “Lembrando o fato de o acervo crítico dessas literaturas se ter forjado inicialmente fora da África - na Europa e nas Américas, com Portugal e Brasil à frente - começamos por questionar até que ponto o cânone, “consagrado” por outras vozes que não as africanas, submeteu-se aosmesmos mecanismos de dominação e poder que sempre tiveram como meta elidir as diferenças, sobretudo se o objetivo recortado são questões como as de gênero e raça” (PADILHA: 1997, p. 62).

A preocupação de Padilha, no tocante à repetição do colonialismo no gesto hermenêutico de avaliação das literaturas africanas se dá particularmente em função das diretrizes de sua investigação, que dedica especial atenção à exclusão e ao silenciamento das mulheres como produtoras de capital simbólico nas nações africanas.

A preocupação com o fato de que o discurso crítico que se ocupa destas produções tem sido de origem exógena aos contextos de produção aflige tanto os críticos comprometidos com questões de gênero e raça quanto os próprios escritores africanos.

O poeta angolano José Luís Mendonça, em recente entrevista8, afirmou que “Angola éum país onde ainda não existe uma crítica literária audaz e regular”. Com relação aopapel da crítica brasileira na consolidação e legitimação de um corpus literário relativo às literaturas africanas em língua portuguesa, Mendonça diz que “os críticos brasileiros aplaudem tudo o que se produz aqui [na África] e lhes chega às mãos. Ora, o próprio poeta, o escritor em geral, também precisa que se diga em que aspectos pode melhorar sua obra” (p. 20). 

É neste contexto de discussão que se destaca o trabalho realizado pelas antologias literárias, cujo principal mérito é o de organizar uma amostragem diacrónica destas literaturas frequentemente descritas como “emergentes”. No caso específico de Moçambique, importa destacar o trabalho que vem sendo realizado por Nelson Saúte.

Em 1989, juntamente com Fátima Mendonça, Saúte organiza a Antologia da Nova Poesia Moçambicana: 1975-19889, dada à estampa em 1989. Em 1992, desta vez em parceria com António Sopa, organiza A Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas10, uma antologia de poesias versando sobre a mítica Ilha de Moçambique, situada ao norte do país, na Província de Nampula. Todavia, seu trabalho de maior fôlego como antologizador é As Mãos dos Pretos, publicado em 2001. O sucesso de seu trabalho junto ao público interessado pela literatura moçambicana foi tal que, apenas um ano depois de seu aparecimento, já estava a segunda edição vindo à lume. 

Há, em Moçambique, a necessidade de se realizar uma arqueologia literária que resgate a contística moçambicana, visto que um abundante número de narrativas que primeiramente apareceram em jornais e suplementos literários nunca chegou a ser publicado em livro. Tal como afirma Saúte, “as páginas literárias, que desapareceram praticamente do nosso panorama mediático nos sombrios anos 90, tiveram uma importante função no surgimento e na publicação de poetas e contistas desde sempre.

Algumas das experiências mais curiosas neste campo advêm das publicações e dos suplemetos culturais dos periódicos” (p. 14). O próprio Saúte, no prefácio à antologia, assinala que foi necessário remonar às esquecidas páginas do Itinerário, um importante periódico cultural moçambicano das décadas de 40 e 50, com vistas a resgatar textos de Rui Knopfli, Ruy Guerra e Virgílio de Lemos. Cada um destes contistas teve, em As Mãos dos Pretos, pelo menos um conto resgatado das páginas do Itinerário. Pela primeira vez, depois de quase meio século, contos como “Zampungana”, de Virgílio de Lemos (1954), “A Negra Rosa”, de Ruy Guerra (1949) e “Lumina”, de Rui Knopfli (1949) são publicados em livo e colocados novamente à disposição do leitor.

A leitura dos contos que compõem As Mãos dos Pretos evidencia a marca da violência, da contestação e da denúncia como elementos constitutivos da imaginação literária moçambicana. Talvez, nesta vocação para o “libelo acusatório” (expressão utilizada por Saúte para caracterizar a literatura moçambicana pós-independência) resida uma das grandes forças da narrativa moçambicana. Herdeiro das cicatrizes do colonialismo recente, é impossível para o escritor moçambicano da segunda metade do século XX (ou mesmo dos primeiros anos do século XXI) não fazer referência a presença constante da violência na imaginação coletiva dos seus compatriotas. A morte, o assassinato e o suicídio são temas recorrentes a receber tratamento literário por parte dos contistas moçambicanos, particularmente nas décadas de 80 e 90, quando a luta pela independência deu lugar à conflitos internos que findam apenas no final da década de 90. Veja-se por exemplo, contos como “Lukutúkuè”, de Ascêncio de Freitas, no qual o personagem-título, após ver seu filho Zeca morto pela PIDE11, comete suicídio arrancando os próprios testículos com sua lâmina de barbear, jogando-os aos pés dos milicianos colonialistas e gritando: “Toma pra vocês, toma... vocês pricisa, pra matar todo Zeca Lukutúkuè” (p. 92). Merece destaque também o conto “Caringana wa Caringana”, de Raul Honwana, no qual a cumplicidade dos chefes tribais moçambicanos com o tráfico de escravos português é denunciado de maneira pungente e dolorosa, através do ponto de vista de um pai que tem sua filha arrancada da família e entregue aos mercadores de escravos.

Ao longo de suas mais de quinhentas páginas, a antologia realiza uma mostra representativa de trinta e quatro contistas moçambicanos. Saúte tenta, simultaneamente, conciliar a presença de constistas consagrados, tais como Mia Couto, Paulina Chiziane e Ungulani Ba Ka Khosa, com a de contistas cuja obra foi publicada unicamente em jornais e suplementos literários, tais como Heliodoro Baptista. Tal como afirma no prefácio à antologia, “também quis resgatar aqueles que teriam deixado o seu testemunho ficcional nos jornais. É a antologia possível, que reflete, de certo modo, a ficção que surge em Moçambique” (p. 21). Todavia, há que fazer uma ressalva: ao contrário do que se possa imaginar, os contos reunidos na antologia não possuem uniformidade no que diz respeito ao requinte do trabalho realizado sobre a linguagem, ou mesmo na escolha dos temas a serem narrativizados. Isto pode ser notado particularmente em alguns dos escritores contemporâneos antologizados, os quais, ao tentar fugir dos scripts narrativos tradicionais, em nome de uma ficção supostamente urbana, não conseguem senão construir relatos prosaicos e superficiais, por vezes manchados com alguns respingos de crítica social. Tais contos podem, por vezes, parecer retratos realistas e socialmente comprometidos do cotidiano maputense, em especial aos olhos do leitor brasileiro ou português; mas para o conhecedor da dinâmica social na capital moçambicana, tais escritos não passam de um inventário de levianidades, já discutidas à exaustão dentro e fora das instituições literárias e – mais grave ainda – descritas em uma linguagem que carece de status literário.

Mia Couto, talvez em função do reconhecimento internacional que vem recebendo, acabou por tornar-se um modelo literário exaustivamente repetido por alguns escritores que, infelizmente, não conseguem alcançar o mesmo refinamento linguístico do autor de contos memoráveis como “Rosalinda, a Nenhuma”, “As Flores de Novidade” e “Ofélia e a Eternidade”, todos incluídos em As Mãos dos Pretos.

Alguns dos recursos estilísticos utilizados por Mia Couto, tais como a transcrição de provérbios tradicionais em sua prosa, a reinvenção da língua através da subversão da sintaxe-padrão do português culto, ou o hábil manejo na inovação lexical através de inusitadas combinações léxico-fonéticas (como, por exemplo, o verbo “nenufarfalhar”, em Histórias Abensonhadas12) não são manejadas com tanta habilidade por alguns escritores que começam a publicar seus escritos depois a partir da segunda metade dos anos 90, cujos nomes e escritos estão incluídos na antologia de Saúte.

É o próprio organizador da antologia o primeiro a salientar a existência de alguns desníveis entre os contos, no que diz respeito à sua “expressão inventiva”. Ainda no prefácio, Saúte afirma:

 

“Ao reler alguns dos autores aqui reunidos, ao confrontar-me com tantos

outros que distraidamente não lera, fiquei dividido entre o espanto da

descoberta de uma literatura pujante e a necessidade de valorização de

alguns outros autores que não têm, provavelmente, a mesma expressão

inventiva. Mas, sabe-se, uma literatura não é feita só de grandes obras. Pelo

que os outros também cabem no bojo desta viagem” (SAÚTE: 2002, p. 22).

 

Entretanto, isso não é demérito da antologia, mas sim uma de suas próprias condições de possibilidade. Em seus esforços por realizar o que chamou de “antologia possível”, cumpre destacar o trabalho de investigação e seleção realizado por Saúte, que obteve, como resultado, uma das mais representativas antologias da prosa moçambicana até então publicadas. Nelson Saúte não apenas escava os arquivos literários das bibliotecas maputenses, permitindo que contos de autores por vezes esquecidos voltem a circular entre os leitores. Seu permanente diálogo com escritores contemporâneos ligados à Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO) permitiu, inclusive, a incorporação de alguns texto inéditos para a antologia, tais como os contos “Ofélia e a Eternidade” e “A Confissão de Tãobela”, ambos de Mia Couto, “O Contador dos Dias”, de Júlio Bicá, ou “O Regresso do Vovô Siquice”, de Tomás Vieira Mário.

Infelizmente, mesmo em tempos de economias e culturas globalizadas, dificilmente o leitor brasileiro ou português conseguirá encontrar os livros de autores moçambicanos que não tenham sido legitimados pelo gosto das editoras brasileiras e portuguesas. É possível afirmar sem pusilanimidade alguma que esta antologia cumprirá um importante papel no estabelecimento de parâmetros avaliativos para a história do conto moçambicano, da mesma maneira que possibilitará aos leitores estrangeiros travar conhecimento com autores cujos escritos dificilmente ultrapassam a barreira geográfica dos oceanos Índico e Atlântico.

 

Notas de rodapé

 

1 SAÚTE, Nelson (organização e prefácio). As Mãos dos Pretos: Antologia do Conto Moçambicano. 2 ed.

Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002.

 

2 SCHMIDT, Rita Terezinha. “The Nation and its Other”. Revista Conexão Letras. Porto Alegre

(UFRGS). Volume 1, número 1, 2005 (p. 86-110).

3 Pode-se mencionar aqui a importância da insularidade para a poesia de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, um aspecto com relevância relativamente menor para lírica das nações continentais como

Angola e Moçambique.

 

4 PIRES LARANJEIRA. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Lisboa. Universidade Aberta, 1995.

 

5 MARGARIDO, Alfredo. Estudos sobre Literaturas das Nações Africanas de Língua Portuguesa. Lisboa:A Regra do Jogo, 1980.

 

6 FERREIRA, Manuel. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Lisboa: ICALP, 1987.

 

7 PADILHA, Laura Cavalcante. “A Diferença Interroga o Cânone”. In: SCHMIDT, Rita T. Mulher eLiteratura: (Trans)Formando Identidades. Porto Alegre: Palloti, 1997. pp. 61-69.

 

8 MENDONÇA, José Luís. “Carlos Drummond continua a fascinar-me”. Entrevista concedida à revista Poesia Sempre. Número especial dedicado à poesia de Angola e Moçambique. Número 23, ano 13. Brasília: Ministério da Cultura, 2006. pp 17-20.

 

9 SAÚTE, Nelson e MENDONÇA, Fátima (organização). Antologia da Nova Poesia Moçambicana: 1975-1988. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 1989. 

 

10 SAÚTE, Nelson e SOPA, António (organização). A Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas. Lisboa: Edições 70, 1992.

 

11 A PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) cumpria o papel de polícia política em Portugal, realizando violenta repressão contra qualquer oposição ao regime salazarista. A PIDE teve uma participação violenta na repressão dos movimentos independentistas nas ex-colônias portuguesas. Ainda que não se tenha evidências oficiais, a PIDE é considerada responsável pelo atentado que resultou na

morte de Eduardo Mondlane (então dirigente da FRELIMO), em 3 de fevereiro de 1969, e pela manipulação de alguns membros descontentes do PAIGC, os quais levaram a cabo o assassinato de Amílcar Cabral, em 20 de janeiro de 1973.

 

12 COUTO, Mia. Estórias Abensonhadas. Lisboa: Caminho, 1994

 

Dr. em Literatura Comparada (UFRGS)

Professor-Leitor de Língua Portuguesa, Literaturas Lusófonas

e Cultura Brasileira no Inst. Sup. de

Ciência e Tecnologia de Moçambique (ISCTEM)

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