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O Papel dos Escritores Angolanos na Construção da Identidade Nacional

Escrito por  Manuel Jorge
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No combate para a construção da Identidade Nacional, os escritores sempre estiveram presentes. Alí estavam eles quando lançaram o grito: « Vamos Descobrir Angola». Alí estavam eles também quando lançamos as «Sementes da Liberdade». Alí estavam eles, ainda quando enveredamos pelo «Caminho do Mato».

Eis a razão pela qual, Mário Pinto de Andrade sublinhou, em várias passagens da sua obra, que a literatura sempre se articulou com as diferentes fases da luta pela independência nacional.

Talvez possamos mesmo dizer que, os literatos foram os precursores dos grandes movimentos de massa, que exprimiram as reivindicações materiais do Povo Angolano. Na luta de libertação, a Literatura não era só Cultura. Ela era também Mensagem.

Encontramos o exemplo típico do que acabamos de dizer, num poema de Maurício Gomes. No seu poema, Bandeira, o poeta exprime-se da seguinte maneira.

Somos um povo à parte, Desprezado, Incompreendido, Um povo que lutou e foi vencido.

Por isso, em meu canto de fé, Clamo e proponho, negro, Que a nossa bandeira, Seja um pano negro, Negro da cor da noite, vem luar...

Sobre essa escuridão de luto e de pesar, Da côr, da nossa nossa côr, Escrever, irmão, Com a tua mão, rude e vacilante - Mas forte - A palavra a força: União.

Maurício Gomes, escreveu o seu poema em 1951 e, nele já estavam inscritas as premissas da problemática identitária angolana.

É que, o Nacionalismo é a expressão da luta de uma Nação para obter o reconhecimento da sua Identidade. Isto supõe, a existência de um substrato dos interesses particulares.

Ora, em Angola, as Autoridades portuguesas declararam, sempre, que a sua principal preocupação era a «assimilação» do Homem Africano.

Compreende-se, pois, que na Proclamação, adoptada em 1975, a União dos Escritores Angolanos, tenha constatado: 1º) A necessidade e a urgência de defender a dignidade e a especificidade cultural do homem angolano e, de salvaguardar, especialmente, as suas tradições culturais, historicamente perspectivadas e garantidas, por séculos de resistência popular, assim como as conquistas culturais, obtidas ao longo da luta pela independência nacional; “º) A necessidade e a urgência de activar, à partir dessas tradições e conquistas, o inventário cultural do País, no contexto particular do renascimento cultural africano, como contribuição, original, para um mundo verdadeiramente livre:

Tratava-se, no fundo, de uma incitação à pesquisa dos elementos susceptíveis de permitir a Construção da Angolanidade.

E, com efeito, a questão tinha sido enunciada, desde 1962, por Mário Pinto de Andrade, nos termos seguintes: « Como assegurar o renascimento cultural dos países anteriormente colonizados? Que espaço deverá ser reservado à tradição? Como elaborar uma cultura africana original que tenha conta, ao mesmo tempo, a tradição e das aquisições da Civilização Moderna?»

A essas questões, graves e profundas, Viriato da Cruz, trouxe alguns dados suplementares, quando dizia: « Os colonizadores portugueses, não negam a existência de uma cultura negra»; o que eles negam, atravez de uma argumentação que eles intitulam de «científica» e «definitiva» e, mesmo nos actos – o que é mais importante – é que tais culturas possam servir de base à verdadeiras e novas civilizações».

Compreende-se, pois, a razão pela qual a luta de Libertação National foi também uma luta pela Identidade Nacional. Porque, no fundo, a soberania não é senão o resultado do esforço feito por uma comunidade, que decide de a utilizar, para melhor afirmar a sua existência e a sua originalidade.

É essa originalidade que, Agostinho Neto sublinha, desde o limiar da independência. Segundo ele: «... no contexto angolano a expressão cultural resulta, senão de cópia – por exemplo – pelo menos do resultado de uma aculturação secular, que pretende reflectir a evolução material do povo, que, de independente tornou-se submisso e completamente dependente, para tornar-se de novo independente, em novas condições.»

E, é verdade que a cultura angolana é aquela que foi construída pela história. Agostinho Neto constatava esse facto, exprimindo-se da seguinte maneira: «A cultura evolui com condições materiais e, a cada etapa, corresponde uma forma de expressão e de concretização de actos culturais».

Era, pois necessário criar as condições para a afirmação da identidade nacional, ou melhor para a construção da Angolanidade.

Mas, o que á aAngolanidade? A Angolanidade é um dos múltiplos neologismo, que os nacionalistas angolanos forjaram, no decurso da luta de libertação.

O conceito aparece expresso, pela primeira vez, na linguagem escrita, num artigo de Fernando Costa Andrade, mais conhecido por Ndunduma. Segundo este autor: « É preciso entender-se por Angolanidade, não somente a negritude, mas também a perspectiva do homem novo, que Frantz FANON menciona, como sendo indispensável para um dialogo efectivo entre os homens de África e os dos outros continentes.»

Essa definição foi elaborada sob a pressão dos acontecimentos político-militares que precederam a independência. Ela não pode ser interpretada, fora do contexto histórico em que foi forjada. A realidade política e social de de Angola evoluiu muito, antes mesmo que a independência tivesse sido proclamada. Mas, sobretudo, depois que a independência fora proclamada.

É preciso ter em consideração a historicidade do fenómeno cultural angolano que, Agostinho Neto nos faz recordar da seguinte maneira: « O povo e o meio-ambiente foram, aqui em Angola, marcados pelo ferro da escravatura e a colonização marcará, durante muito tempo ainda, a vida do povo angolano».

Eis a razão pela qual, em virtude da aculturação, a negritude não pode ser o elemento central da construção da Angolanidade. Já era verdade, mesmo quando Geraldo Bessa Victor escrevia: « O Menino Negro entregou na roda». É o, ainda mais desde que a Negritude foi contestada, com argumentos sérios, por Adotevi, entre outros. Aliás, Fernando Costa Andrade, não propõe um «retorno às origens», pois no artigo supra-citado, esse autor sublinha, que: « a perspectiva da angolanidade, é a do homem angolano em luta contra os processos erosivos da alienação».

É, pois, a aculturação, independentemente da forma como foi introduzida (forçada, espontânea, natural ou controlada) que exige, que a cultura angolana seja analisada como um « fenómeno social total».

Porque, como diz Roger Bastide, «...a integração conduz à assimilação; a competição implica uma contra-aculturação. Os fenómenos de contactos culturais estão ligados as relações raciais e condicionadas por elas».

Talvez seja Alfredo Margarido, que nos permita re-situar a problemática cultural angolana, na sua historicidade, quando diz que: «... a Angolanidade é a substância nacional angolana». Porque, como realçou Agostinho Neto: ou das suas histórias».

A Angolanidade não se constrói, pela rejeição do substrato negro-africano, nem pela diluição numa cultura dominante e, ainda menos, pela aceitação da « pseudo-condição de mestiço cultural», para retomar uma expressão de Mário Pinto de Andrade.

É que, a noção de Angolanidade foi obscurecida com tempo e, parece por vezes imprecisa na sua formulação ou inexacta no seu conteúdo, porque é uma noção evolutiva. Aqueles que procuraram esclarecê-la, não tiveram em conta os factores da sua evolução.

Com efeito, a Angolanidade tem dois fundamentos: um político, outro cultural. No plano político, a Angolanidade aparece como um instrumento necessário, senão indispensável, para a criação e a afirmação da Identidade Nacional. Os exemplos abundam na literatura angolana. Encontramo-lo no romance, no ensaio e na prosa panfletária. Basta reler: Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Manuel dos Santos Lima, Luandino Vieira, António Jacinto Uanhenga Xitu, assim como todos os escritores dos fins do sécull XIX, e dos inícios do século XX.

Mas, esse fundamento político, vai sempre acompanhado com um fundamento cultural, que lhe dá a sua dimensão real.

Na verdade, a Angolanidade serve de revelador aos alicerces da cultura autónoma da Nação Angolana. Mário Pinto de Andrade apresentou a problemática da seguinte maneira: « No caso dos portugueses, a assimilação sempre se traduziu, na prática, pela destruição dos quadros negros-africanos e a criação de uma elite, quantitativamente reduzida...».

É, pois, compreensível que Agostinho Neto tenha proposto o estudo aprofundado: « ... das questões que advêm das culturas das diferentes nações angolanas, hoje, confundidas numa só, e dos efeitos da aculturação, dado o contacto com a cultura europeia».

É, assim, que a língua portuguesa se angolanizou. Basta ler Agostinho Neto, lembrando o pregão das Quitandeiras; Viriato da Cruz, descrevendo SO SANTO; António Jacinto sentindo a dôr dos Contratados, para o constatar, à cada passo. Oiçamos falar do Mestre Tamoda, de Uanhenga Xitu Óscar Ribas e, até mesmo, a prosa mais recente de Manuel Rui e de Agualusa. Em cada passagem encontramos o traço característico da Angolanidade.

Se, a língua portuguesa foi introduzida como língua oficial em Angola, ela perdeu muitas das suas características, porque como diz Alfredo MARGARIDO, ela foi « influenciada pela língua autóctone e determinará a criação-não do que se chama o português do colonizador – mas de uma forma híbrida, mais negra do que portuguesa».

No fundo, esta sempre presente na literatura angolana, aquilo que Luís Kandjimbo chama: «o paradigma endógeno».

Ele está presente, quando os escritores se apropriam a sua própria língua para testemunhar ou para contestar.

Mário Pinto de Andrade é o exemplo emblemático dessa tendência. Escutemo-lo em « Canção de Sabalu »:

« MONETU UA KAÇULE A UM TUMIÇA KU SANTOMÉ AIUÉ»

Mas também Agostinho Neto, lembrando: « Mussunda Amigo»:

« O IÓ KALUNGA UA UM BANGELE O IÓ KALUNGA UA MUBANGUELE-LE-LELE»:

E, quando a poesia se faz canção para lembrar o sofrimento do Povo Angolano, já não basta dizer:

PAXI NI NGONGO NI MAKU KU MUXIMA

Para lembrar as nossas «malambas» Quim Jorge, escreve, em forma de protesto:

TUA NU TAMBULULA KINUE XILE NI NZALA O KIKI NUA ZALESSA KIA KUTANDU IA XIETU NUANDALA KU TU JIBA

Era a época da alienação. E, para estigmatizar a alienação popular Tonito Também denuncia:

KI NGI BITA BU DIKALU AKUETU UA NGI XANA MONANGAMBEE MONANGAMBEE

Assim, a Identidade Nacional constrói-se num processo de « invenção da língua angolana», sem esquecer as línguas locais, que permitem realizar a unidade da Nação.

E, se nos referirmos ao elemento psicológico da Angolanidade, não é difícil constatar que o mundo dos valores e dos símbolos, assim como as expressões da vontade do povo angolano, não perderam, em nada, a sua especificidade.

Aquilo a que se chama, por exemplo, a « mentalidade », quer dizer: o conjunto das maneiras de viver, de sentir e de pensar próprio do povo angolano, foram fortemente influenciados pelo contacto directo ou indirecto com a civilização europeia. A contribuição tecnológica, desta última, e as suas técnicas comerciais e culturais, marcaram profundamente, as transformações das formas de expressão da « mentalidade angolana».

Os personagens das obras de Pepetela, Uanhenga Xitu, Manuel dos Santos Lima, Manuel Rui, Ruy Duarte e, tantos outros, exprimem sentimentos característicos do povo angolano, que ultrapassam, no entanto, as fronteiras de Angola, aproximando-nos, assim, do ideal universal.

Uma análise da literatura angolana contemporânea mostra bem que a sociedade angolana não se dissolveu nos cânones e valores propostos pela cultura dominante.

É talvez, no teatro que podemos melhor constatar tal realidade. De « Diálogos com peripécia», de João Maimona, ao « Auto de Natal», de Domingos Van-Dunem, passando por « Ana Zé e os Escravos» , de Mena Aabrantes e, « O Romance de Vavó Fuxi» de Henrique Guerra, está sempre presente a referência aos valores locais, como o ilustram, plenamente, as três obras adaptadas de Uanhenga Xitu: « O Alfaiate», « Kahitu» e « Che Felito».

Excelências, Minhas Senhoras, Meus Senhores,

A Angolanidade foi tecida pela acção conjugada de três factores: a realidade geográfica, a estrutura social e a organização política. Toda a Sagrada Esperança, de Agostinho Neto, está enraizada na terra e nas gentes de Angola. Quando se lê Ecos da Minha Terra, é ainda a identidade cultural angolana que se exprime. Como ela se exprime em Uanga e Ilundu, ou mais recentemente em Luunda, Nós os do Macullussu, Yaka, o Hábito da Terra ou Quem Me Dera Ser Onda.

A realidade política e social, também está presente. Encontramo-la em SO SANTOS, de Viriato da Cruz ou em Quitandeira, de Agostinho Neto. Ela está presente em Mayombe e, em Geração da Utopia.

É a realização do ideal de Viriato da Cruz: « O intelectual colonizado, mais cedo ou mais tarde, dar-se-á conta de que não se prova a sua Nação a partir da cultura. A nação prova-se no combate que o povo trava contra as forças de ocupação».

A « Geração da Utopia» também foi aquela que fazia « Poesia com Arma», porque soube utilizar a poesia com arma.

E o exemplo vem de longe. Basta escutar a poesia de Antero de Abreu, o apelo que ela contêm, a humanidade que ela encerra. Escutemo-lo, pois:

Irmãos, Unamos energias E, da nossa terra farta, façamo-la Mais farta. Da nossa terra bela, façamo-la Mais bela Da nossa terra grande, façamo-la Maior, E, cada vez mais, nossa. Irmãos Vamos lutar, Lutar cantando, Lutar morrendo, Que morrer na luta, é a morte Melhor.

Foi, assim, lutando e morrendo que, chegados às « Terras do fim do mundo» os poetas guerrilheiros, as transformaram enfim», em terras de nova cultura», em « terras de liberdade».

Foi, assim, que lutando com coragem, também os escritores angolanos: « ergueram bem alto a bandeira da independência », para retomar a expressão de Agostinho Neto.

E essa bandeira, foi aquela cujos contornos Maurício Gomes desenhou no poema que citamos no início. Por ser emblemático da tendência da época, prosseguimos aqui a citação. Escutemos ainda Maurício Gomes, em Bandeira:

« Traça depois teimosamente Estas palavras basilares, Edificantes: Trabalho, Instrução, Educação. E, com letras de ouro, Esplêndidas, (A mão mais firme já) Escreve, Negro, Civilização, Progresso, Riqueza. Em caracteres róseos, Esboça, comovido, A palavra-chave da vida Amor! Com letras brancas, Desenha com amor, A palavra sublime: Paz. A seguir, A vermelho-vivo, A vermelho-sangue, Com tinta feita de negros corpos desfeitos ............................ A vermelho-vivo, Cor do nosso sangue amassado, E; misturado com lágrimas de sangue Escreve, Negro, firme e confiante, Com letras todas maiúsculas, A palavra suprema (Ideal eterno) Nobre ideal Da Humanidade atribulada, Que por ela vem lutando, E por ela vem sofrendo) Escreve, Negro, Escreve, Irmão, A palavra suprema, Liberdade! A volta dessas palavras-alavancas Semeia estrelas às mãos-cheias ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... estrelas belas da nossa Esperança ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Estrelas que serão certeza da nossa Bandeira.

Podemos, pois constatar que a Bandeira de Angola, símbolo da Identidade Nacional do povo angolano, nasceu da imaginação dos poetas que desde os meados do século passado tinham esborçado os seus contornos.

E, agora que a esperança já é certeza, agora que a Independência aí está, adquirida por nós, depois de tanto sofrimento, construir a Identidade Nacional é, também, falar do Universal, com voz igual. Já não basta dizer, com Aires de Almeida Santos:

Tenho saudades, meu Deus, ... ... ... ... ... ... ... Tenho saudades de tudo ... ... ... ... ... ... ... Tenho saudade até Das saudades que senti.

Luanda, já não é a « Ilha Crioula», que Mário António de Oliveira descreveu, retomando o delicioso título de Paixão Franco. Onde está o « Muceque Burity », que cantou Tomás Vieira da Cruz? Onde estão as « cubatas velhas, vermelhas, com o tecto velho, vermelho e o neto da Ximinha ximbicando na lagoa », que Euletério Sanches imortalizou?

Não, o tempo mudou!

É preciso ir mais longe: abrir as portas do futuro, elaborar as condições de uma vida nova, que só os poetas, os escritores, os intelectuais podem imaginar.

Como dizia Agostinho Neto: « Temos que ser nós mesmo».

A Identidade Nacional é um ideal em construção. É por isso que concluímos, fazendo nossas as exortações de Maurício Gomes e homenageando, assim, os escritores angolanos:

Com letras de ouro, Escreve negro, Escreve irmão, A palavra União.

E o que nos une são as nossas diferenças, porque somos todos « Filhos da Pátria», para retomar a expressão de João Melo.

Manuel Jorge Paris, Janeiro 2002

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