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A Metapoética de Domingos Florentino

Escrito por  Augusto Kambwa
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A colectânea de versos À Luz Alfabetizada das Palavras apresenta-nos três prefácios, todos importantes não só pelo peso dos nomes que os subscrevem, bem conhecidos no nosso meio literário–Luís Kandjimbo, Ana Maria Mão-de-Ferro Martinho e o próprio poeta Domingos Florentino–mas também pelo próprio conteúdo dos mesmos. Nem outra coisa era de esperar.

A colectânea de versos À Luz Alfabetizada das Palavras apresenta-nos três prefácios, todos importantes não só pelo peso dos nomes que os subscrevem, bem conhecidos no nosso meio literário–Luís Kandjimbo, Ana Maria Mão-de-Ferro Martinho e o próprio poeta Domingos Florentino–mas também pelo próprio conteúdo dos mesmos. Nem outra coisa era de esperar. Mas o que mais me impressionou nestes prefácios é o facto de os três autores coincidirem numa ideia: a abertura do texto à pluridade de interpretações. Luís Kandjimbo intitula modestamente o seu breve prefácio como “sugestões de leitura” e “deixa ao leitor a liberdade [de interpretação] que lhe assiste”. A terminar o seu prefácio, Ana Maria Martinho entrega-nos a sua leitura, permitindo, se não solicitando, a “cada novo leitor [que] faça da poesia que segue a sua própria”. Enfim, o próprio poeta diz não saber se o que ele nos propõe é poesia e deixa “a quem quiser [o cuidado] de se encantar com [as suas palavras]”. Estes três testemunhos remetem-nos manifestamente para a teoria já consagrada da polissemia do texto literário tão bem defendida pelo francês Roland Barthes e pelo italiano Umberto Eco. Neste contexto, acedendo ao pedido que me foi formulado para apresentar este poemário, usarei também do meu direito de fazer a minha própria leitura, na esperança de ela poder motivar outros leitores que, por sua vez, poderão descobrir outras mensagens igualmente válidas.

Ora a minha leitura diz-me que um dos grandes temas desenvolvidos pelo poeta nesta sua segunda colectânea é a própria poesia. Assim, pois, fazendo poesia sobre a poesia, Domingos Florentino tenta elaborar uma verdadeira metapoética, ainda que sua particular, como é óbvio, e no-la propõe. Uma atitude que me lembra neste momento igual tentativa de António Gonçalves em quase todas as suas obras, mas sobretudo no Gemido de Pedra. Domingos Florentino sintetiza toda a sua teoria metapoética no seu prefácio. Começa por se recusar a definir a sua poesia e, por extensão, a poesia em geral: “se isto é poesia não sei”. Claro que esta declaração é puramente retórica, pois, logo a seguir, o poeta define, pelo menos indirectamente, o que é a poesia: a expressão de “vivências, anseios e sentimentos [da] alma”. E o seu prefácio assume assim o tom dum verdadeiro poema em prosa, tentando definir a sua poesia e com ela, natural e concomitantemente, definir-se a si próprio como poeta. Nesta tentativa de definição, Domingos Florentino lembra-nos os três conceitos clássicos do poeta e da poesia: o poeta nato e a sua poesia natural, o poeta inspirado e a poesia inspirada e o poeta-artífice da palavra e a sua poesia “laboratorial”, na sua própria expressão. Examinemos primeiro estes três conceitos e vejamos depois em que medida o nosso poeta os assume ou rejeita e até que ponto nós lhos podemos aplicar ou não. Chamo poeta nato àquele para quem a poesia flui naturalmente, sem esforço, fruto da sua tendência natural à emotividade e da sua fluência verbal, quer falada quer escrita. O português Barbosa du Bocage que dita o seu último soneto no leito da morte (“Já Bocage não sou...”), o francês Víctor Hugo que deixou tão volumosa e empolgante obra poética, as nossas carpideiras capazes de improvisar em pleno óbito os mais comoventes versos são todos, para mim, exemplos de autênticos poetas natos, mesmo se a prática contínua do verso os habilita mais facilmente à improvisação. É deles que se diz que o poeta nasce e o orador se faz. É evidente que todos os seres humanos nascem com todas as qualidades (e defeitos) próprios da natureza humana. O certo, porém, é que uns são mais ricos ou mais pobres que outros nisto ou naquilo. Logo, quem naturalmente tende mais para a emoção, terá mais inclinação para se exprimir nessa “linguagem especial da linguagem” que é a poesia, como a consideram os teóricos da literatura. Léopold Sédar Senghor escreveu que “a razão é grega e a emoção, negra”. Esta afirmação, bem acolhida a princípio, suscitou depois um grande alarido entre os negros por lhes parecer que Senghor lhes negava a capacidade de raciocínio, deixando-os com a estéril emotividade. Mas, como dizia, a afirmação de Senghor foi a princípio bem acolhida porque, na sua aposta pela defesa dos valores da raça negra, outrora tão vilipendiados, Senghor tentou simplesmente dizer que se os gregos se salientaram pelo raciocínio, os negros evidenciam-se pela emotividade, nada, porém, do que é humano sendo estranho a qualquer homem. Somos todos lógicos, emotivos e poetas, mas uns mais que outros nisto ou naquilo. Outro conceito clássico de poeta é o do poeta inspirado. Se, pela explicação dada, podemos considerar o conceito do poeta nato como eterno e universal, o do poeta inspirado é mais ligado aos tempos mais remotos e às culturas mais propensas ao sobrenatural. Com efeito, gregos, romanos, hebreus, chineses, indianos e outros acreditavam que (um) deus entrava no poeta e era esse deus que ditava aquilo que o poeta dissesse ou escrevesse. A isto os gregos, chamavam entusiasmo uma palavra que significa literalmente a entrada de (um) deus em si e os latinos medievais inspiração, literalmente a entrada em si do sopro, do espírito, ou duma ideia vinda doutrem. Os antigos romanos chegaram mesmo a identificar divindades específicas para cada tipo de poesia ou arte, as famigeradas musas, ainda hoje figurativamente evocadas. Verdadeiros sistemas religiosos nasceram e ainda existem hoje na base da ideia da inspiração ao proclamarem que os seus fundadores e seus sequazes imediatos escreveram verdades reveladas, inspiradas por (um) deus. Conhecemos todos algumas delas: o judaísmo, o cristianismo, o islamismo e (talvez em menor escala, mas também) o budismo, o bramanismo e outras religiões chamadas reveladas com os seus livros inspirados e por isso mesmo sagrados. O terceiro conceito, o do poeta-artífice da palavra, é o último a surgir expressamente na história da literatura mundial. O poeta-artífice da palavra é aquele que a maneja e manipula quase como o escultor manipula o barro. Ele constrói o poema. Aliás a palavra poeta vem do verbo grego poiein que significa fazer, especificamente, moldar ou dar forma a uma substância maleável. Como se vê, já vem dos antigos a ideia de que fazer poesia é, até certo ponto, moldar as palavras de modo a formar o poema. Mas é nestes últimos tempos que a factibilidade da poesia mais se impôs. Os poetas hoje em dia fazem verdadeiramente poesia na medida em que combinam palavras e frases não apenas para nos surpreender com ousadas figuras de palavras, de frases e sobretudo de pensamento mas também com verdadeiras obras de arquitectura gráfica, como a poesia visual. Exemplo típico desta poesia temo-la entre nós na “poesia experimental” de João Melo, na última parte da sua colectânea O Caçador de Nuvens.

Perguntemos agora a qual destes três conceitos adere o nosso poeta. Procedamos novamente por partes. Ao evocar os “ritmos repetitivos absorvidos no bamboleio dos corpos nos olocila da infância, [...] na sua aldeia natal”, Domingos Florentino aceita implicitamente ser alguém com quem já nascera o “bicho” da poesia e o roi desde a infância até hoje. A poesia nasceu com ele e é por isso mesmo que ele, poeta, se identifica com tudo aquilo que constitue o ambiente natural do seu país, “o sol, o deserto, a flor e o mar azul” e com aquilo que lhe escorre por dentro da alma: “a esperança, o amor, a lágrima”. Mas não é apenas no prefácio que Domingos Florentino se trai como poeta nato. Quando no poema intitulado “mar” ele nos diz que falar do mar / é manusear o princípio e o fim de tudo/ porque viemos do mar uterino de nossa mãe e /caminhamos para kalunga: a morte o mar”, (p.39) ele admite implicitamente que todos somos poetas natos, e portanto também ele, por termos vindo “do mar uterino da nossa mãe” e sê-lo-emos até ao fim, até à morte. Porque desde então, desde o mar uterino de sua mãe, o coração do poeta está “em expansão [permanente] desde o big-bang [primitivo] do “universo” (p. 52). E por isso mesmo o poeta nato não se engasga/ ao declamar/ o último verso/ do poema VIVER (p.46). Assim, a meu ver, Domingos Florentino é, como todos nós, mas um pouco mais que muitos de nós, um verdadeiro poeta nato que nos apresenta hoje as “vivências, anseios e sentimentos que lhe vão povoando a alma”.

Que pensa Domingos Florentino da inspiração em poesia? É ainda ao seu prefácio que vamos buscar o seu próprio testemunho sobre este assunto. Diz o poeta que “na esteira das Raízes do Porvir dá-se a liberdade de ser repetitivo”. Mas é precisamente dos ritmos repetitivos que dimana a força encantatória da poesia. E o encanto é fascinação, é magia, é de algum modo alienação mental, porque ele projecta-nos para fora de nós mesmo permitindo a ocupação do vazio assim criado pelo objecto ou pela pessoa que nos fascina. E nisto consiste o entusiasmo e a inspiração de que falei mais acima. Tem ritmo encantatório, por exemplo, o poema “ansia” a ponto de nos criar vertigem: como encantas/ quando cantas/ desencantada/ o/ encanto/ de/ sun city/ e que/ harmónica fala/ na/ fálica harmonia/ (p.25). Mas mais concretamente poderíamos perguntar se a poética de Domingos Florentino inclui o conceito de inspiração ou não. A resposta é afirmativa, não, obviamente, no sentido já ultrapassado do entusiasmo ou inspiração divina mas no sentido sempre actual da existência duma determinada fonte (pessoa, natureza, acontecimento ou objecto) que activa as nossas emoções. Confirmam-no os poemas “aspiração” (p.26), “ausência” (p.27), “mar” (p.39) e “rosa” (p.47), onde o nosso poeta se deixa “possuir” pelo mar, pela flor, pelo corpo humano, certamente o feminino, como sugere outro poema intitulado “seio” (p.48). O terceiro conceito de poeta é o mais assumido em nossos dias, embora se encontrem claros exemplos de poesia visual no longínquo século XVI na Inglaterra. Domingos Florentino, poeta do seu tempo não iria fugir a esta corrente moderna. Recorro novamente ao seu prefácio onde afirma “não ter tempo para ser poeta laboratorial”. Apercebemo-nos logo à primeira vista que o poeta se refere àquilo que chamaríamos a profissão de poeta, daquele que dedica o seu tempo a escrever poemas fechado num “laboratório”. Mas esta palavra “laboratório”, escolhida pelo poeta possivelmente de preferência a “escritório”, é exactamente aquela que sugere o moderno conceito de poeta e poesia baseado na manipulação, na moldagem ou arquitectura verbal. No poemário que temos em mãos esta arquitectura é visível em vários poemas, como “ânsia”, já citado. Também os poemas “palavras (in-amorosas)” e “sonho” ostentavam uma flagrante composição visual. Mas além da composição arquitectónica do poema o mais surpreendente e às vezes até desconcertante na poesia moderna é a textura das imagens numa aparente violação de todos os princípios da lógica ou do senso comum, do que resulta o hermetismo característico dessa poesia. A poesia de Domingos Florentino é, dum modo geral, de fácil acesso mas nem por isso faltam, aqui e acolá, imagens ousadas e surpreendentes. Leremos vezes sem conta o poema “ânsia” até nos vermos livres da vertigem que causa a sua composição espirolada e para tentarmos dar sentido ao “canto”, “encanto” e “desencanto” e à “harmónica fala |na| fálica harmonia” (p.25) que o poeta nos propõe. Apesar de aparentemente simples, o poema “rosa” (p.47) também desconcerta o leitor que queira encontrar lógica na combinação das palavras. Com efeito, parece haver clara subversão semântica por parte do poeta que “em verso/inverso/em sonhos diurnos/ no dia de cada noite” lamenta o tardar do “sorriso onírico” da “rosa alegre” mas que ainda não aprendeu a sorrir”. E são as palavras a matéria prima para a construção de todas imagens da sua literatura tal como elas o são, aliás, para toda a literatura. Elas não podiam por isso deixar de ter lugar de destaque na sua metapoética, consagrando-lhes dois poemas por inteiro, além de breves alusões noutros poemas. “Palavra/ que/brada. /que brada/ em deserto de silêncio”, e portanto falada, ou palavra “alfabetizada”, e portanto escrita (p. 44-45), traçada a partir do sul (p.38) a palavra do “poema da alegria” (p.28) “ilumina na escuridão” para se encontrar, “um recanto sem guerra”, banhado pelo rio da paz.

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