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Exilíos e Viagens em a Geração da Utopia, de Pepetela

Escrito por  Cláudio de Sá Capuano
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Em A Geração da Utopia, o escritor angolano Pepetela, traça, a partir de quatro movimentos temporais, a trajetória histórica da última metade de século XX em Angola.

Da década de 60 aos anos 90, a narrativa percorre momentos distintos do processo sóciopolítico e cultural por que vem passando o país.

A narrativa da primeira parte do romance, A casa, é ambientada na Lisboa do início dos anos 60 do século passado. Ali, os personagens, estudantes, oriundos de variados pontos das então colônias portuguesas na África, em sua maioria vivendo na Casa dos Estudantes do Império, circulam pela capital da metrópole colonial em pleno regime de Salazar, na época há cerca de quarenta anos no poder. Um ponto importante de observação na leitura a ser feita do romance é sem dúvida a multiplicidade de vozes ali representadas. Mesmo em se tratando de vozes, em vez de voz, o plural aqui aponta grupos plurais, em hipótese alguma homogêneos entre si. É o que elucida o pequeno trecho do romance, aqui transcrito:

As mesas estavam todas ocupadas, aos grupos de quatro. A maioria era de angolanos, todos misturados, brancos, negros e mulatos, estes bem mais numerosos. Os caboverdianos, que se misturavam facilmente com os angolanos, eram quase exclusivamente mulatos. Os guineenses e são-tomenses, mais raros, eram negros. Os moçambicanos eram na quase exclusividade brancos. E tinham a · Professor de Língua Portuguesa e Redação do Colégio Militar do Rio de Janeiro. professor de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Faculdade da Região dos Lagos (Ferlagos - Cabo Frio, RJ). tendência de se juntar aos grupos. Mesa unicamente constituídas por brancos era de moçambicanos. A british colony, como diziam ironicamente os angolanos.i A apresentação da complexidade das diferenças numa aparente massa homogênea é algo que se faz presente nas quatro partes do romance. Se por um lado o heterogêneo não chega a ser elemento surpresa, visto ser esse um dos mais significativos caracteres da Modernidade, por outro, no romance, ele funciona como ingrediente explicitador das intrincadas relações que se estabelecem entre os personagens, o que influenciará suas trajetórias pessoais, bem como a de todo o grupo. É que a viagem, no caso, imposta aos jovens oriundos das colônias, provoca o encontro que faz ressaltar mais as diferenças que as semelhanças. Nas palavras de Schollhamer, é preciso que (...) sublinhemos que se a viagem é um encontro com o outro, experimentado pelo viajante como uma dramatização da relação entre identidade e diferença, esse viajante - ele ou ela - é ao mesmo tempo catalisador para uma identificação do outro, do nativo, do explorado, do descoberto, ou do descrito e representado como objeto do seu discurso.ii

Apesar de serem cidadãos portugueses nascidos em África, os estudantes em Lisboa vivenciam um tipo peculiar de exílio. Esse termo, nos dicionários, é definido como o afastamento forçado ou voluntário da pátria. É também "desterro" ou "banimento".

Dependendo da focalização que se dê, cada uma dessas idéias é correlacionável à situação dos jovens estudantes, presentes na primeira parte do romance de Pepetela. Ir estudar em Portugal se constituía, a uma só vez, em um afastamento forçado e voluntário da terra de origem: era forçosa a decisão (e paradoxalmente voluntária) de viajar a Portugal, única possibilidade de se adquirir, pela formação acadêmica, um lugar considerado digno na sociedade natal. No entanto, o momento histórico ali vivido era altamente tenso. Desde as décadas anteriores, sobretudo a de 50, havia entre boa parcela dos africanos, fossem eles angolanos, moçambicanos, ou de qualquer outra então colônia portuguesa, a consciência da necessidade da autonomia em relação a Portugal, que há tanto tempo promovia um processo de colonização predatório. A base disso se devia aos movimentos de cunho sóciopolíticos ocorridos por toda a África sub-saariana, como o Pan-africanismo ou o desenvolvimento do conceito de Negritude, mas também era fruto do próprio processo de envelhecimento das práticas ditatoriais do regime salazarista, último remanescente da onda de extrema direita que varreu a primeira metade do século XX na Europa, que já não conseguia mais manter sob controle os cidadãos das colônias.

Por extensão, o termo "exílio" pode significar a própria solidão, ou um lugar triste, carente de alegrias. Ele tem, portanto, um pressuposto básico: o exilado é aquele que, de uma maneira ou de outra, vê-se afastado do local onde nasceu, de suas origens, de suas raízes. Por todo o romance, Pepetela, talvez mais explicitamente na sua primeira parte, consegue transmitir ao leitor a condição de exílio a que estão submetidos os estudantes, exílio esse que os agrupa em torno de uma instituição fundamental para o que aconteceria em termos de movimentos libertadores das colônias, como era a Casa dos Estudantes do Império. Aí se faz fundamental o manejo literário do texto. Agrupados por uma causa comum, os personagens são profundamente solitários se os virmos em suas reflexões pessoais, ou mesmo na tentativa de estabelecerem relações entre si. Há diversos obstáculos, senão abismos, que dificultam o estabelecimento de uma "transitividade" nas relações humanas. Talvez por isso estejam tão presentes, em todas as quatro partes do romance, os longos trechos de verdadeiros monólogos interiores, em que os personagens são profundamente humanizados. São seres contraditórios e fragilizados, apesar de terem em mente o sentido da utopia. O termo, integrante do título da obra, é ambíguo, pois aponta a uma só vez o grupo de faixa etária comum, que acreditava na possibilidade da construção de uma outra África, e a própria gestação do sentimento da utopia. Fica claro, especialmente na primeira parte do livro, um aspecto fundamental que é ignorado pelos que têm da África uma idéia vaga. Não há uma África pela qual todos lutam em conjunto. Não há nem mesmo uma Angola unida em torno do ideal de libertação do jugo do colonizador.

Tanto é que a independência aconteceu após mais de uma década de uma guerra colonial em plena segunda metade do século XX, e a ela se seguiram mais três décadas de uma sangrenta guerra civil, travada justamente entre as facções antes aparentemente unidas em torno do ideal de independência.

O trecho abaixo é o dialogo travado na primeira parte do romance entre os personagens Elias e Vítor. O primeiro, protestante, teve sua oportunidade de estudo a partir da atuação de missões evangélicas em Angola. Será no futuro o líder-fundador de uma seita libertadora. Na juventude, contudo, fora um ferrenho defensor da luta armada e da segregação entre negros e brancos. O segundo tornar-se-ia ministro do país já liberto, e mergulhado na corrupção, depois de ter passado alguns anos na guerrilha no período de luta pela independência. A primeira fala é do personagem Vítor: - Tu não acreditas mesmo que possamos viver todos juntos em Angola um dia, sem injustiças nem desigualdades? - Com brancos e mulatos não. Eles tenderão sempre a dominar-nos. - No entanto, os missionários que te formaram e ajudaram são brancos. - Americanos ou brasileiros, não portugueses. E muito menos portugueses nascidos em Angola, que se sentem com direitos sobre a terra por lá terem sido gerados. Esses são os piores, mesmo se tiveram uma mãe ou uma avó negra. Mãe ou avó que era apenas uma serviçal do branco. Esses transportam em si a supremacia da parte branca sobre a negra, vem desde a nascença. - Tinham que matar o pai para libertar a mãe. - É isso mesmo.iii

Remontam ao século XIX os primeiros registros do termo exílio no vocabulário portuguêsiv. Talvez por mera e curiosa coincidência também seja dessa época, segundo diversos autores que hoje pensam o assunto, a cunhagem do termo nacionalidade tal qual o concebemos na atualidade. Em seu profundo estudo sobre nacionalidade e surgimento das nações, Montserrat Guibernau nos aponta o fato de que o conceito de nação está ligado ao de identidade. Desenvolvida principalmente no final da Idade Média, ela se configura pela tomada de consciência do indivíduo sobre si mesmo. Junto a isto, há o fato de que a identidade individual está intimamente ligada à idéia da necessidade de inserção em um grupo que então se unifica por pactuar interesses comuns.

Ainda segundo a autora, "a nação representa uma dessas comunidades" e "a identidade nacional é o seu produto"v. Ora, o afastamento do grupo, ainda mais se por imposição de outrem ou por própria e imperiosa razão ideológica, faz do exilado alguém deslocado não apenas no lugar, mas também na sua própria existência.

Por mais complexo que isso possa ser, tal complexidade ainda está aquém do processo vivido pelos angolanos representados por Pepetela no romance. Apesar de pertencerem todos a um mesmo Estado politicamente estabelecido no continente africano, tendo sofrido todos a mesma opressão do colonizador, havia profundas diferenças ideológicas entre os grupos que viviam em Lisboa. Tais diferenças acirram os ânimos:

(...) havia muito subtilmente uma barreira que começava a desenhar-se, algo ainda indefinido afastando as pessoas, tendendo a empurrar alguns brancos angolanos para os grupos de moçambicanos. A raça a contar mais que a origem geográfica? /.../ Em Angola tudo estava a tender para uma guerra racial, havia uma repressão selectiva. Isso provocava reflexos em Lisboa.vi

A barreira a que o trecho acima se refere engloba justamente as sutis peculiaridades que diferenciavam brancos e negros. Processo semelhante se reproduz, já durante a guerra civil após a independência. Os angolanos do norte (os menos miscigenados) passam a ser considerados mais radicais, e talvez o fossem por terem sido submetidos de forma mais intensa aos processos de exploração colonial, enquanto que os de outras regiões, os mulatos, por terem tido maior aceso a benefícios, devido à parte branca da família, são os mais moderados. Tal divisão aparece em vários momentos do romance. Na primeira parte, A Casa, ela pode ser vista igualmente na conversa entre Elias e Vítor. Numa referência à necessidade do terror para criar no camponês a consciência de que era oprimido pelo colonizador, o personagem Elias discorda do pensamento conciliador do futuro guerrilheiro e (mais futuramente ainda) dirigente do país:

- Ouve, Vítor, é a única teoria que soube mobilizar populações inteiras para lutar com paus ou catanas contra o poderio colonial. Conheces outra melhor? - Conheço. A que diz que todos os angolanos devem lutar juntos contra o colonialismo, sem massacres de civis, sejam eles quem forem. E que congregue até mesmo os mulatos. - Utopias! Isso não funciona na prática. Eu sei, são idéias que correm na Casa dos Estudantes. Mas a casa é dominada pelos filhos dos colonos, sejam brancos ou mulatos. No fundo, querem apenas uma melhor integração no Portugal multiracial.

Todos falam da independência, mas a idéia não é a mesma. É mudar para ficar tudo na mesma, com o português dominando o negro. (...).vii

Ao trazer para o âmbito da literatura esse tipo de discussão, ainda na primeira parte do livro, Pepetela prepara o leitor para as três partes seguintes da obra. Na segunda, A Chana (década de 70), o personagem Vítor transformou-se no guerrilheiro (alcunhado de "Mundial"), que realiza uma forçosa viagem solitária (por ter-se perdido do restante do grupo) entre a selva e a savana de Angola. É também uma viagem interior na qual o personagem revê toda a sua trajetória política, assume suas fraquezas, opta pela deserção, mas o acaso lhe permite ao mesmo tempo sair da guerrilha e continuar na luta. É justamente a sua fraqueza de caráter que possibilita sua ascensão nos movimentos de libertação para ocupar, após a independência, durante o período da guerra civil até o presente, alto posto no governo.

Ambientada no princípio dos anos 80, a terceira parte, O polvo, trata novamente da questão do exílio. Uma das principais cabeças pensantes do movimento de libertação, o personagem Aníbal (cuja alcunha na guerrilha era "o Sábio") exila-se voluntariamente em um ponto ermo do litoral sul de Angola, completamente desiludido com os rumos políticos do país que ajudou a libertar do jugo colonial, para ali empreender um reencontro consigo mesmo, com questões íntimas, que determinaram, desde a infância, sua trajetória política e humana.

Por fim, a última parte, O templo, trata do período posterior à guerra civil, em que o país tenta se reconstruir, em um processo de emersão das ruínas da guerra, mas se vê às voltas com toda a sorte de oportunismo e corrupção que emanam do próprio governo, formado pelos antigos guerrilheiros. As trajetórias pessoais dos personagens que transitam na primeira parte do romance são ali contadas em retrospecto, de forma que o leitor (sobretudo o mais jovem, que não viveu a história da guerra, ou mesmo o leitor estrangeiro) possa tomar contato com o processo político-partidário por que passou Angola nos últimos 30 anosviii.

Em a Geração da Utopia, Pepetela, enquanto autor e ator no processo histórico do seu país, consegue, através de um misto entre a subjetividade das viagens interiores de alguns personagens e a suposta objetividade de alguns aspectos da trajetória da história recente de Angola, apresentar uma leitura justamente desse processo. Isso se dá por meio de uma escrita literária que envolve o leitor pela sua eficiência produtiva em termos romanescos e históricos. A leitura e a análise de cada uma das partes do romance, associada aos estudos da história do país (preferencialmente não apenas da história oficial), possibilitaria um rico estudo sobre a história recente de Angola a partir da visão literária de Pepetela.

Referências bibliográficas:

CUNHA, A. G. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

GUIBERNAU, Montserrat. Nacionalismos, o estado nacional e o nacionalismo no século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. São Paulo: Selo Negro, 2005.

PEPETELA. A geração da utopia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

SCHOLLHAMMER, Karl Erik. "O olhar antropológico - ou o fim do exótico". In: LOPES, Paulo da Moita e BASTOS, Liliana Cabral (org). Identidades: recortes multi e interdisciplinares. Campinas SP: Mercado das Letras, 2002.

i PEPETELA, 2000, pp. 17-18.

ii SCHOLLHAMER, 2002, p. 268.

iii PEPETELA, op. cit., p. 97.

iv É o que nos aponta o Dicionário Etimológico de A. G. Cunha. O autor, entretanto, deixa claro na introdução da obra que qualquer data ali atribuída pode ser recuada, em virtude da incipiência da lexicografia histórica portuguesa.

v GUIBERNAU, 1997, p. 83.

vi PEPETELA, op. cit., p. 18.

vii Idem, ibidem, p. 96.

viii O último capítulo do livro A África na sala de aula, de Leila Leite Hernandez traça um interessante panorama da história colonial e contemporânea de Angola, muito útil para o entendimento em termos históricos do livro de Pepetela.

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