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Aporias da Memória: Papéis Sociais na Narrativa de Luis Bernardo Honwana Destaque

Escrito por  Cláudio do Carmo
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Uma espécie de consenso quanto ao processo mnemônico, é o que apontam os estudos pontuais de Maurice Halbwachs1, pois detectaram que a memória individual se constrói a partir de uma memória coletiva.

Neste sentido, a percepção da individualidade se estabelece em relação ao social. Considerando as várias possibilidades semânticas relacionadas ao gênero, podemos assegurar em tais construtos típicos individuais uma hierarquia no sentido de uma ascendência do espaço público que infere e constrói o individual.

Presente na palavra organizada, através do discurso, ou mesmo na não-palavra, na ausência, quando seu uso é quase imperceptível, a memória desempenha um papel subliminar, constituindo uma narrativa que dá sustento a epiderme textual, visto que seus aspectos evocados de forma metafórica ou concreta constituem percepções de traços históricos e sociais, em razão da nublada estrutura sob a máscara das atitudes políticas.

Com efeito, nuances e propósitos da memória são minimizados como atos irrelevantes dada a sua pouca visibilidade na interferência do real.

O texto da memória social desprestigiado como capital político, visto não reunir condições aparentes para a sua eficaz dramatização, causa o transtorno das estratégias tradicionais ao veicular novas possibilidades, por vezes mais violentas no manejo do poder.

Sabemos que a memória no seu entendimento mais primário informa não só um fenômeno de caráter psíquico, mas, sobretudo, serve de instrumento a grupamentos

coletivos na construção de seu imaginário. A grande resolução neste momento é a nitidez destas construções, que até a pouco estavam a nosso dispor e agora parecem envoltas em complexos entendimentos de caráter volátil. Com efeito, as construções imaginárias da memória tinham nas formas concretas sua atuação ritual. E ganha contornos dramáticos quando tal referência se esvazia em forma de relações sociais e cotidianas que parecem não abastecerem nenhuma estratégia de risco.

A visibilidade da percepção de uma memória social e de suas possíveis implicações se torna complexa na medida em que seu texto é difuso e de contorno inócuo. Se por um lado esta caracterização favorece imperativos não-políticos na condução arbitrária de manipulações e dominações de caráter social, de outro modo estabelece, paradoxalmente, a possibilidade de refúgio e afrontamento na luta pelo poder. Tal condição se verifica a partir, mesmo, do relativo e proporcional lugar exercido pelo texto da memória que se reflete no papel secundário àquele exercido pela tribuna tradicional.

As relações sociais se acomodam como um significante evasivo no conjunto de decifrações da memória, no entanto este parece sinalizar certo corpus e ratificar uma relativa exclusão que se manifesta a serviço de desdobramentos políticos arbitrários, na medida em que estes textos (os capitais sociais) são ficções, pois pontuam um papel dúbio da verdade.

Vale assinalar, no entanto, esta esfera periférica que desempenha um título mais incisivo no desnudamento dos conflitos travados no texto da memória. Trata-se de um conjunto de discursos plenos no manejo de construção da memória.

É na memória coletiva que vamos encontrar as formas esvaziadas do cotidiano. Elas se mascaram e, com efeito, se tornam propícias a um sem-número de interpretações e estratégias de poder. Não raro, a apropriação da memória tem sido um artifício na arqueologia das sociedades. A nação, e toda a articulação que a define como a identidade, a personalidade cultural e política e mesmo a soberania, tinham no argumento dos bens simbólicos a razão material e visivelmente afetiva da sua existência. Desta forma, as narrativas legitimadoras da memória sempre estiveram presentes na percepção mais visível do estrato social.

Há um deslocamento da tônica. Se antes havia um relato uno e homogêneo no qual o imaginário nacional se assentava, agora prevalece a polifonia em que a construção desenha outros propósitos, menos visíveis certamente, e de ressonância reduzida.

A identidade antes argumentada como elemento definitivo e de forte conotação global, se descredencia com a emergência das formas afetivas locais. As identidades formam um novo esboço de nação, embora ainda subjugadas à burocracia hegemônica do Estado.

Na obra capital de Luis Bernardo Honwana2, Nós matamos o cão-tinhoso, o problema de uma memória que desempenha um papel de identidade tradicional se faz valer, ou seja excesso de memória que parece acentuar as origens de uma luta colonial já descontínua mas permanente simbolicamente. Ao mesmo tempo esta guerra das memórias3, que opõe de um lado a insistente fluência colonial e de outro a constatação da prevalência do esquecimento, querendo declinar de uma memória tão contundente são aspetos primordiais encontrados na obra.

Em "Inventário de Imóveis e Jacentes" um dos contos que teatraliza esta guerra das memórias percebemos a nítida aporia: "É por isso que não tenho assim tanta vontade de sair da cama, embora não tenha sono nenhum"4. A constatação do narrador, um misto de resignação pela letargia das pessoas em sua volta que nada percebem, nada vêem, que não querem lembrar, contrasta com a sua explícita ausência de sono, que registra a memória de um momento que não se quer esquecer.

Vislumbra-se sob o conjunto das identidades das exclusões os fragmentos de uma nação real que a construção hegemônica relega. Neste aspecto, o paralelo se faz capaz de demonstrar a convicção de posturas diferenciadas para um uso semelhante. São duas

narrativas exemplares: "As mãos dos pretos", cujo narrador, uma criança, busca num processo incessante de descoberta encontrar suas origens simbolizadas nas mãos brancas dos pretos que enseja a indagação. Afinal de contas por que as mãos dos pretos são brancas? Reside aí uma sucessiva peripécia que conduz a narrativa e faz destilando os vários papéis sociais representados e trazidos à luz por uma memória que se faz construir, memória que oprime e que expõe dramaticamente a dor individual a partir do social. Neste sentido Huyssen5 observa que há uma disseminação geográfica da cultura da memória tanto quanto é seu uso político e nem sempre é possível traçar uma separação entre um passado mitológico e um passado real, mas é certo que "a memória se tornou uma obsessão cultural de proporções monumentais".

As duas narrativas parecem encerrar ficções da memória no intuito de politizar as práticas de conservação da burocracia do Estado.

A mudança nas relações sociais ainda é um desafio a se distinguir na contemporaneidade, no entanto, nunca tivemos um conflito tão acirrado entre as memórias. A constituição da memória e sua apropriação demanda, em nossos dias, formas diferenciadas de mascaramento.

Se por um lado estamos diante das tradicionais estratégias burocratizantes do Estado na condução desta apropriação, por outro nos vemos diante de tentativas de autogovernabilidade da memória sobretudo quando nos deparamos com sua manifestação local e fragmentada. Se antes a eleição do monumento de pedra e cal significava a opção de uma elite e uma tradição inabalável, posteriormente haveria a desfiguração ou mesmo o questionamento desta tradição. Porém, é pacífico o entendimento na distinção das duas modalidades de representação.

A capacidade de negociação daqueles que estão à margem da memória imperativa torna-se a grande ameaça à combinação de resultados das forças que controlam o poder.

Elas carecem de classificação e, logo, de dimensão na sua eficácia na dramatização das relações sociais e políticas.

Tais modalidades narrativas parecem possibilidades de desestabilização. A cena contemporânea traz consigo a autoridade dos bens simbólicos que parecem se legitimar no cotidiano e na esfera do próprio indivíduo; não mais restrito tão somente ao espaço público clássico, mas abarcando um espaço público redimensionado em cogitações diferenciadas e reconhecimentos esvaziados ou relativos.

No inventário descrito por Honwana há um nítido paralelo entre forma e conteúdo que expõe a aporia entre o concreto e o sentimento latente que parece não morrer. Se por um lado as atitudes dos personagens nos levam a constatação de uma morte simbólica, por outro a presença observadora do narrador insiste em trazer à tona uma memória que se quer viva. O inventário se debruça sobre o que não é mais , no entanto presentifica o drama.

Alguns sinais do pesadelo da morte podem ser detectados nas falas plausíveis e sem brilho de personagens que já não são, não representam mais nada socialmente, pois suas referências foram aniquiladas pelo ambiente que não se reconhece. "As portas e as janelas estão fechadas", "o ar está pesado neste quarto", "Esta última tem as paredes enegrecidas pelo fumo". São sintomas de um espaço que sugere a imobilidade da morte, a impossibilidade da reação, enfim a resignação que é morte.

Assim, se os papéis sociais não se fazem mais representar pois padecem da letargia da morte que ficou no passado, o narrador traz à vida personagens e parece chamá-los a desempenhar papéis que adormecidos, a memória os incita a reapresentar.

Referências bibliográficas:

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.

HONWANA, Luis Bernardo. Nós matamos o cão-tinhoso. São Paulo: Editora Ática, 1980.

HUYSSEN, Andréas. Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.

JEUDI, Henri-Pierre. Memórias do social. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1990.

1 HALBWACHS, 2006, pp. 7-191.

2 HONWANA, 1980, pp. 5-96.

3 JEUDI, 1990, pp. 5-40.

4 HONWANA, op. cit., p. 39.

5 HUYSSEN, 2000, p. 16.

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