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O Negro e a (Des)Construção da Identidade Nacional na Obra Canaã Destaque

Escrito por  Cleidinalva Carneiro da Silva
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No fim do século XIX e início do XX, indivíduos pertencentes a "grupos minoritários" vítimas de pressupostos raciais excludentes viram-se de fora do projeto de nação ideal.

No caso da sociedade brasileira, entre estes indivíduos, encontra-se a população negra; os africanos desde que desembarcaram em solo nacional, foram considerados inferiores, bárbaros, incapazes. Sobre esse fato comenta Giralda Seyferth:

A nação imaginada pelo nacionalismo racializado, portanto, não tinha espaço para negros, nem mesmo para indígenas ou mestiços que, na hierarquia biológica dos esquemas classificatórias fenótipicos, estavam mais próximos das raças bárbaras.1

Na esteira da tradição literária em que a elite local estava acostumada a receber de fora, principalmente da Europa, o "modelo" de produção intelectual, assim também os intelectuais brasileiros das ciências sociais, receberam de fora os ditames de como produzir ciência social no fim do século XIX e início do XX. No entanto, questiona-se hoje se aqueles que abraçaram tais propostas estavam preparados, amadurecidos para aplicá-las à realidade brasileira; ou mesmo se as propostas eram aplicáveis ao contexto nacional. A sociedade brasileira do final do século XIX e início do século XX, foi atingida de frente pela onda de teorias raciológicas que empurraram muitos intelectuais para um abismo: a urgência em definir uma identidade, um povo nacional. A influência de tais teorias imprimiu uma dinâmica na postura de parte da população brasileira na tentativa de se firmarem conceitos ligados à raça, etnia e nação. Segundo Skidmore2, no começo do século XX, um país costumava medir de duas maneiras seu sentimento de identidade nacional. Essas vias eram uma estabilidade política e a outra era a produção literária nacional. Com a instauração da República e a abolição da escravidão, o campo político do Brasil ganhava novos aspectos, no entanto, a literatura ainda estava muito presa ao modelo europeu. Nesse período, havia uma confluência de estilos literários em curso no Brasil. Tínhamos produções parnasianas, realistas, simbolistas. Todas essas produções foram fiéis à fonte européia, mas adaptáveis à realidade do nacional.

Neste contexto, longe de qualquer classificação didática, começava a se delinear na produção nacional um estilo literário o qual tomava como objeto de produção a realidade do Brasil. Alguns autores livres dos grilhões de estéticas literárias, independentes e falando de regiões diferentes do país, começaram a produzir uma literatura distinta dos modelos até então vigentes. Assim, temos autores como Lima Barreto, Graça Aranha, Euclides da Cunha, Monteiro Lobato que iniciaram um movimento de ruptura no campo da literatura. Estes intelectuais funcionam como termômetro de uma ebulição de acontecimentos e mudanças ocorridos na sociedade brasileira em fins do século XIX e início do XX.

Esses autores mais tarde foram chamados de pré-modernistas, justamente por elegerem o elemento nacional para o fazer literário, postura que será a bandeira defendida alguns anos depois pelo grupo dos modernistas na Semana de 22. Com esses autores, veremos na literatura brasileira uma produção voltada para as questões nacionais. A gente brasileira, os conflitos sociais, os desejos do povo, os sofrimentos, a política apresentada de forma mais incisiva, entre outros elementos que figuram nos enredos dos romances. Como afirma o crítico literário Alfredo Bosi3: "creio que se pode chamar pré-modernista (no sentido forte de premonição dos temas vivos de 22) tudo que, nas primeiras décadas do século, problematiza nossa realidade social e cultural".

Os autores pré-modernistas tomaram o texto literário como instrumento para analisar as tensões que vivia o país nos âmbitos da política, economia e cultura. O texto literário é a materialização da percepção desses escritores sobre a realidade do Brasil naquele momento. Assim sendo, lançaremos mão da obra Canaã, de Graça Aranha, para analisarmos como negros da região de Cachoeiro do Espírito Santo, quatro anos após o evento da abolição, foram inseridos no projeto de nação brasileira.

1. O projeto nacional em Canaã

Desde o governo de D. João VI quando assinou o tratado em 1818, abrindo as portas do país para imigrantes suíços, com a desculpa de "promover e dilatar" a civilização, subentende-se o desejo de acolher em nossas terras imigrantes de pele clara. Após a independência, D. Pedro I dá continuidade à mesma política e destina recursos públicos para promover a imigração européia4.

Nos anos que se seguiram ao fim do império, houve uma confluência, tanto por parte do governo como por parte da elite intelectual, em vender uma imagem do Brasil de modo que ganhasse a simpatia dos imigrantes europeus que tinham os Estados Unidos, Argentina e Chile como opção de "nova pátria" no continente americano. O Brasil saia em desvantagem sobre estes países, pois era o único que tinha o clima tropical, o qual apresentava possíveis riscos à saúde. Neste aspecto, a imagem que seria vendida do país era de extrema importância para o sucesso da política imigratória.

Ainda com o intuito de europeizar a nação, investiu-se também em ambiciosas obras públicas. A re-modernização do Rio de Janeiro é um exemplo deste esforço5.

Paralelo ao projeto de re-modernização de centros urbanos do país, estava a luta incansável de literatos para elevar as letras brasileiras ao lugar de produto nacional. Em meio às vicissitudes do fim do império, o início da República, mais ou menos em fins dos anos 90, novos ânimos alcançaram a literatura brasileira. Foi fundada a primeira instituição oficial do país - a Academia Brasileira de Letras. Fato que impulsionou ainda mais o desejo de circunscrever no panorama mundial a "Literatura do Brasil".

Graça Aranha foi um dos membros da Academia Brasileira de Letras. Nascido no Maranhão em família abastada e culta, formou-se em direito, exerceu o cargo de juiz, depois de diplomata, representando o Brasil em várias missões pelo mundo. Como a maior parte dos intelectuais da época, foi abolicionista e republicano. Era uma figura respeitada no meio literato do Rio de Janeiro, amigo íntimo de Machado de Assis, José Veríssimo, Joaquim Nabuco entre outras personalidades importantes. Preocupado com a situação dos imigrantes no país, Graça Aranha publica em 1902, Canaã, romance que trata da realidade brasileira e da situação do imigrante que já era um fato. A obra aborda a relação destes imigrantes com os brasileiros, o processo de assimilação cultural, segregação dos grupos, entre outros fatores.

O romance narra a história de dois imigrantes alemães que vêem no Brasil a chance de recomeçar uma vida. A obra retrata uma realidade vigente no país que eram os conflitos sobre as teses raciológicas. Milkau e Lentz - os dois recém-chegados ao país -, num franco diálogo, dão voz ao pensamento da época por parte de muitos intelectuais brasileiros. Lentz profetiza a vitória do arianismo sobre as populações mestiças, fracas e indolentes; já Milkau, defende a convivência harmoniosa entre os povos sem distinções de raças. Num diálogo que ocupa um capítulo do livro, os dois imigrantes, em meio à exuberância da flora brasileira, discutem o destino da humanidade.

LENTZ - O homem brasileiro não é um fator do progresso: é um híbrido. E a civilização não se fará jamais nas raças inferiores. Vê, a História... MILKAU - Um dos erros dos intérpretes da História está no preconceito aristocrático com que concebem a idéia de raça. Ninguém, porém, até hoje soube definir a raça e ainda menos como se distinguem uma das outras; fazem-se sobre isto jogos de palavras, mas que são como estes desenhos de nuvens que ali vemos no alto, aparições fantásticas do nada... LENTZ - Até agora não vejo probabilidade da raça negra atingir a civilização dos brancos. Jamais a África... MILKAU - O tempo da África chegará. As raças civilizam-se pela fusão; é no encontro das raças adiantadas com as raças virgens, selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização. (...) LENTZ - Não acredito que a fusão de espécies radicalmente incapazes resulte numa raça que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, uma civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas (...)..6

Tem-se aqui, claramente, a representação da política do branqueamento adotada pelo governo brasileiro na tentativa de se desvencilhar do estigma de país mestiço que desde o fim do século XIX era internacionalmente reconhecido por sua miscigenação racial, uma "sociedade de raças cruzadas"7.

Os negros presentes na história aparecem de forma fortuita, numa cena na qual a atenção está voltada para os imigrantes que estavam a caminho do local aonde iriam se fixar, ou seja, depois que lhes fossem entregue suas porções de terra. Ao passarem por uma família de negros que vivia nas imediações, param um pouco a convite do aparente dono da casa para descansar. Sob o olhar do imigrante, vão sendo apresentadas cenas daquela realidade. É descrita com detalhes a situação de pobreza e miserabilidade em que viviam. À medida que Milkal vai puxando conversa, o senhor vai falando do passado e não esconde a saudade dos tempos de escravo e de seu antigo senhor, período em que fora acolhido na domesticidade da fazenda ao contrário da situação na qual se encontrava no momento, o desespero em ver seu mundo desmoronando sem poder fazer muita coisa.

- Ah, tudo isto, meu sinhô moço, se acabou... Cadê fazenda? Defunto meu sinhô morreu, filho dele foi vivendo até que o governo tirou os escravos. Tudo debandou. Patrão se mudou com a família para Vitória (...) Governo acabou com as fazendas, e nos pôs todos no olho do mundo, a caçar de comer, a comprar de vestir, a trabalhar como boi para viver. Ah! Tempo bom de fazenda!(...) Que importava o feitor?... Nunca ninguém morreu de pancadas. Comida sempre havia, e quando era sábado, véspera de domingo, ah! Meu sinhô, tambor velho roncava até de madrugada.8

O relato do negro ex-escravo nos dá uma pequena dimensão de como muitos desses brasileiros se encontraram após a abolição. Ao perderem o "porto seguro" que eram as fazendas também perderam a orientação sobre si mesmos. Estes homens não se sentiam partícipes da nação brasileira. Neste contexto, ainda que inconscientemente, tomaram consciência de que o "pertencimento" e suas "identidades" não eram fixos, foram negociados. Essa idéia é para Hall9 um reflexo da transformação das sociedades modernas que acabam afetando nossas identidades pessoais.

Pelo que se pode inferir do relato do ex-escravo, este não estava preparado para encarar a realidade que ora se apresentava; mudar de vida e assumir uma outra "identidade" ao que tudo indica, não fazia parte de seus planos; de modo que ao se ver de repente numa situação nova, demonstrou insegurança, fragilidade. É bem possível que aquele personagem mesmo tendo vivido toda sua vida em terras brasileiras, pensando-se como brasileiro, naquele momento estivesse sentindo-se sem pátria.

Em um outro momento do diálogo entre o negro e o imigrante, percebe-se que mesmo não tendo instrução, o senhor negro tinha consciência da ausência do papel do Estado para intervir na situação daquela população.

- Mas, meu amigo, disse Milkau, você aqui, ao menos está no que é seu, tem sua casa, sua terra, é dono de si mesmo. - Qual terra, qual nada...Rancho é do marido de minha filha, que está aí sentada, terra é de seu coronel, arrendada por dez mil-réis por ano. Hoje em dia, tudo aqui é de estrangeiro, Governo não faz nada por brasileiro, só pune por alemão.10

A situação vivida pelo ex-escravo era de dimensão muito maior do que sua consciência crítica poderia imaginar. Estas situações aparecem como "eventos históricos externos"; as diferenças sócio-culturais não surgem de contextos locais, ou seja, não foi um evento isolado daquela fazenda em Cachoeiro de Espírito Santo.

Trata-se de um contraste em conjunto com um sistema social preestabelecido, pelo Estadonação brasileiro, o qual deitou raízes por todo território nacional.

Sabe-se que as investidas estatais para melhorar as condições de vida dos negros recém libertos foram quase nulas. As medidas tomadas pelo governo não deram conta de acolher esses indivíduos na política do Estado. Como afirma Sansone:

Desde a abolição (extremamente tardia) da escravatura, esse descaso estatal aliou-se à ausência de qualquer estratégia para associar a negritude aos pobres (indignos) - pelo menos, não explicitamente na literatura nem nos pronunciamentos oficiais.11

Sem dúvida que para boa parte da população negra do Brasil da época, foi um colapso perceber que a estrutura do Estado que, com todo dissabor, ainda era uma proteção coletiva eficaz, estava em ruínas. Num estado de crise social, as pessoas normalmente culpam alguém ou a sociedade. No caso do romance em análise, o negro, em parte, culpa o filho do seu ex-patrão por haver se mudado com sua família para Vitória, e deixar os antigos escravos desamparados. Depois de forma incisiva, delibera a culpa para o Estado que prioriza os imigrantes em detrimentos dos brasileiros. Por isso, a fala do homem beira a melancolia quando relembra de seus tempos de cativo na fazenda, pois está desorientado pela instabilidade e transitoriedade do mundo em que habita assim, a "comunidade" da fazenda é um sonho agradável, uma visão de paraíso:

tranqüilidade, segurança física e paz espiritual12.

O personagem do livro de Graça Aranha dá voz a um seguimento da sociedade brasileira que tinha consciência que fora preterido pelo Estado. A instituição é materializada na fala do negro pela pessoa do "Governo". A comunidade ex-escrava compartilhava de uma consciência intrínseca à sua própria identidade de negro, excativo, sem amparo social, pois este amparo, que eram os senhores de escravos, sua referência de segurança, fora em muitas situações, obrigado pela política nacional a abrir mão do seu plantel de escravos mantidos em suas fazendas. O trecho abaixo nos dá um panorama da situação.

- Vosmecê vai ficar aqui? Daqui a um ano está podre de rico. Todos os seus patrícios eu vi chegar sem nada, com as mãos abanando... E agora? Todos têm uma casa, têm cafezal, burrada... de brasileiro Governo tirou tudo, fazenda cavalo e negro... Não me tirando a graça de Deus...13

Há no Brasil um sistema de hierarquização social que elenca gradualmente as classes de acordo com alguns padrões como origem familiar, cor, formação; estes padrões aliados às dicotomias que por três séculos foram os pilares da política escravocrata: elite/povo, branco/negro são dicotomias que se reforçam mútua, material e simbolicamente. Dessa forma, o preconceito racial era a ponte que mantinha a distância entre esses universos distintos e justificava a situação de exclusão em que muitos negros se encontravam. Assim se posiciona Guimarães14 sobre esta situação:

A doutrina liberal do século XIX, segundo a qual os pobres eram pobres porque eram inferiores, encontrava, no Brasil, sua aparência de legitimidade no aniquilamento cultural dos costumes africanos e na condição de pobreza e exclusão política, social e cultural da grande massa de pretos e mestiços.

Graça Aranha em Canaã, mesmo de forma pouco incisiva, descortina uma realidade a respeito da população negra pós-abolição. Ainda que a representação do negro na obra seja de maneira rápida, é evidente que sua presença ali não é nada inocente, ao contrário, quando o senhor ex-escravo ganha voz, percebe-se que seu discurso está carregado de poder, de intenções, de consciência, que põe em xeque conceitos, posturas políticas, ideologias. Mesmo só um dos personagens negros, dos poucos que aparecem, ter ganho voz, o silêncio dos demais é um eco sonoro que serve para legitimar a denúncia da situação de descaso em que vivia aquela parcela da sociedade brasileira.

Referências bibliográficas:

ARANHA, Graça. Canaã. 4ª ed., São Paulo: Editora Ática, 1998.

BAUMAN, Zygmunt. "Identidade": entrevista a Benedetto Vecchi. In: Zygmunt Bauman; tradução, Carlos Alberto Medeiros. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 30ª ed., São Paulo.

GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo. Racismo e anti-racismo no Brasil. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo; Ed. 34, 1999. 256 p.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira L. Louro. 10 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

SANSONE, Lívio. Negritude sem Etnicidade. RJ/SSA: Palla/Edufba, 2004.

SANTIAGO, Silviano. Uma Literatura nos Trópicos:ensaios sobre dependência cultural. 2ª ed. Rio de Janeiro: Raco, 2000.

SCHWARCZ, Lília Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil - 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

SEYFERTH, Giralda. "O beneplácito da desigualdade: breve digressão sobre o racismo". In: Racismo no Brasil. São Paulo/Petrópolis; ABONG, 2002.

SKIDMORE, Thomas E. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. Tradução de Raul de Sá Barbosa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.

1 SEYFERT, 2002, p. 24.

2 SKIDMORE, 1976, p. 95.

3 BOSI, 1994, p. 96.

4 SEYFERT, op. cit., p. 18

5 SKIDMORE, op. cit., p. 149.

6 ARANHA, 1998, pp. 35- 36.

7 SCHWARCZ, 1993, p. 11.

8 ARANHA, op. cit., p. 17.

9 HALL, 2005, p. 9.

10 ARANHA, op. cit., p. 17.

11 SANSONE, 2004, p. 105.

12 BAUMAN, 2005, p. 68.

13 ARANHA, op. cit., p. 18.

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