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Linguagem e Utopia: Uma Leitura de "A Estória do Ladrão e do Papagaio" e "Partida do Audaz Navegante"

Escrito por  Cristiane Santana Silva
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Introdução

Neste texto optamos por uma abordagem comparativa entre "A estória do ladrão e do papagaio" (Luuanda, 1964), de José Luandino Vieira e "Partida do audaz navegante" (Primeiras Estórias, 1962), de Guimarães Rosa.

 

Para iniciar esta discussão optamos por trazer à cena o ensaio "Céu-Inferno", de Alfredo Bosi, destaca como em Primeiras Estórias as personagens empreendem uma espécie de travessia entre os espaços do "céu" e do "inferno".

Deste modo, o percurso das personagens de Rosa, iria da precariedade da linguagem (do quase silêncio que marca o romance de Graciliano Ramos), decorrente de um gradual processo de opressão e exclusão do homem sertanejo, descrita por Bosi como o espaço do "inferno", ao "céu", alcançado na medida em que nas narrativas de "Primeiras Estórias" a linguagem é paulatinamente recuperada, ressemantizada e revitalizada.

Isto nos permite visualizar uma construção textual onde a linguagem é renovadora, Rosa tira suas personagens, e conseqüentemente seus leitores, de um estado onde parece "não acontecer coisa nenhuma" e lança-os numa profunda reflexão acerca de si próprios:

Sua função primordial [da linguagem roseana] (...) é descondicionar os nossos hábitos verbais e levar-nos a reexperimentar as idéias e sensações veiculadas. A comoção que nos agita arranca-nos, por assim dizer, à nossa letargia mental e nos obriga a repensar os objetos. A linguagem opera, desse modo, a contínua reativação das nossas vivências e nos abastece de conotações insuspeitas.i

Destarte, temos na leitura de "Partida do Audaz Navegante", e não obstante no conjunto da obra roseana, através de um intenso trabalho de elaboração estética, resultante em grande ludicidade da linguagem, uma inquietante reação à proposta do autor, a leitura desta estória incomoda e impulsiona, implicando uma (re)descoberta de uma espaço ficcional construído na alteridade.

Transportando-nos à outra margem do Atlântico, encontramos José Luandino Vieira, que a partir de uma postura marcadamente política, guarda com Guimarães Rosa uma escrita também lúdica, inventiva e (re)criadora. Em "A estória do ladrão e do papagaio", narrativa central de Luuanda, livro de três estórias que se complementam umas às outras, no sentido de apresentarem um percurso que vai da total alienação, passa pela conscientização, chegando uma efetiva ação nas lutas pela libertação de Angola das amarras coloniais, existe uma tensão instaurada pelo autor que encontra terreno fértil para sua manifestação estética na "convivência", dentro do corpo textual, do português (língua oficial, imposta na colonização) e o quimbundo, uma das línguas autóctones de Angola. Observemos o que afirmou Luandino, em entrevista, acerca da elaboração de Luuanda:

E como estávamos numa fase de alta contestação política – e um dos elementos dessa contestação política do colonialismo era afirmar a nossa diferença cultural, mesmo na língua - um bichinho qualquer soprou-me a dizer-me: "Por que é que tu não escreves em língua portuguesa de maneira que nenhum português perceba!.ii Grande parte da produção literária de Luandino se dá no cárcere, entre os anos de 1961 e 1972, quando cumpriu pena sob a acusação de exercício de atividades anticolonialistas.

Assim, que notamos em sua escrita, ademais da inquestionável qualidade estética, um engajamento junto às lutas de libertação de Angola, num movimento como o apontado por Laura Padilha:

Com o advento da escrita da diferença, ela emigra para a série literária da África de modo geral e da língua portuguesa em especial. No tempo da luta, dadas as condições históricas criadas pela censura pidesca, tal intenção buscava na metáfora (...) suas diversas formas de camuflagem. Encapsulava-se o signo lingüístico e literário e, com isso, amenizavam-se os riscos, embora não se pudesse evitar a prisão e/ou o exílio dos produtores textuais.iii

Em "A estória do ladrão e do papagaio", a linguagem se torna instrumento de luta, e como numa guerrilha, camufla-se, esconde-se, aparece de um modo dissimulado, como que para "enganar" o inimigo. Cria-se, assim, um código interno, para ser compreendido por aqueles que aderem à causa. Revelando, assim, um trabalho onde a palavra acaba por imbuída de uma missão conscientizadora do povo angolano, observável quando o narrador lança um olhar avaliativo/relativo, e indo além, irônico, sobre a utilização do português como língua de prestígio: "Nem uazekele kié-uakeza kiambote, nem nada, era só assim a outra maneira civilizada como ele dizia, mas também depois ficava na boa conversa de patrícios e, então, aí o quimbundo já podia se assentar no meio de todas as palavras"iv.

A utilização do português meio que tomado de empréstimo, como forma de assimilação no mundo colonial é questionada neste trecho, que aparece como a "outra" maneira civilizada de fala. Assim, o auxiliar Zuzé (personagem a quem se refere esta passagem), quando busca uma expressão mais angolana (entre patrícios) deixará o quimbundo se "assentar" no português. Note-se que a expressão resistente, de construção da identidade angolana, não se dará no outro, mas também não se dará num automático retorno a uma cultura pura, anterior à colonização, mas se fará a partir de encontros, na medida em que essa nova maneira de posicionar-se em relação à linguagem, e concomitante, de posicionar-se e constituir-se frente ao mundo, se forja no "assentamento" do quimbundo, ou seja, na construção de uma identidade híbrida, como o é o texto de Luandino Vieira.

OS ININTERRUPTOS CAJUEIROS

Uma das imagens que conduzirá tais narrativas, e que permitiu, além dos pontos já explicitados, esta aproximação entre os textos de Guimarães Rosa e Luandino Viera, é a do cajueiro, como metáfora, muito bem expressa em "A estória do ladrão e do papagaio", do fio condutor da vida, ponto de intersecção entre as narrativas do passado, do presente e as que se projetam: "Mas chove a chuva, vem o calor, e um dia de manhã, quando vocês passam no caminho do cajueiro, uns verdes pequenos e envergonhados estão espreitar em todos os lados (...)".

Em "Partida do audaz navegante", as personagens estão confinadas em casa por conta de uma forte chuva, e Brejeirinha, protagonista da estória, então observa o cajueiro, e a consideração da garota sobre o que vê é o "não interromper-se" da árvore mesmo na insistência de dias chuvosos: "E o cajueiro ainda faz flores - acrescentou, observava a árvore não se interromper mesmo assim, com essas agueirices, de durante dias (...)".

Assim, Brejeirinha também não se interrompe e inicia sua relação lúdica com a linguagem, sempre provocadora, questionadora: "Sem saber o amor, a gente pode ler os romances grandes?" E sabendo ou não o "código" de leitura dos grandes romances, Brejeirinha cria o seu próprio.

Segundo a crítica Maria Luiza Ramos, a personagem atua como espécie de filósofa ou artista. E é exatamente como uma criadora que aparece Brejeirinha, e na sua estória dentro da estória, a personagem vai tensionando a linguagem, reinventando e ressignificando vocábulos, ousada ao empregar expressões fora do uso corrente, modernizante e arcaizante ao mesmo tempo, dá à linguagem uma função poética, possibilitando assim, a (re)criação de novos espaços.

Já em Luandino Vieira, também partindo da imagem do cajueiro, damos encontro a Xico Futa, o mais-velho, se em Rosa temos a infância como o espaço da criação, aqui é a imagem do griot que se sobressai, como o portador do conhecimento a ser passado a diante, e então transformado e renovado.

A palavra de Xico Futa, em sua parábola do cajueiro, traz ao centro a escrita comprometida de Luandino. A palavra é o fio condutor da vida, as estórias contadas e recontadas guardam e projetam as vontades coletivas: Ou tudo que se passa na vida não pode-se agarrar no princípio, quando chega nesse princípio era também o fim de outro princípio e então, se a gente segue assim, vê que não se pode partir o fio da vida, mesmo que está podre nalgum lado, ele sempre se emenda noutro sítio, cresce, desvia, foge, avança, curva pára, esconde, aparece... O fio da vida que mostra o quê, o como das conversas, (...).v

Assim como o cajueiro, o fio da vida nunca se interrompe e aqui ele é conduzido pela linguagem, que também cresce, desvia, foge, avança. Ao trazer a tensão para a língua portuguesa, os narradores de Luandino traduzem o "como das conversas" e expressa, marcadamente, em seu texto o porquê de sua existência, contribuindo desta maneira, para a construção de uma angolanidade, ou ainda, como bem afirma Laura Padilha, o autor atuará como "um dos arquitetos intelectuais do sonho de uma terra alegremente livre e desperta".

Linguagem e utopia

O que temos exposto até o momento nos abre a possibilidade de apontar a linguagem, tanto em Rosa, como em Luandino, imbuída de um espírito utópicolibertário, que pretendemos discutir a partir de agora.

Os processos são diversos é verdade, se considerarmos o momento históricopolítico de concepção das obras, mas observamos nas estórias um percurso estético e temático que dá vazão à utopia: "E quando a minha literatura transborda a minha identidade é arma de luta e deve ser ação de interferir no mundo total para que se conquiste o mundo universal. Escrever então é viver. Escrever é lutar".

No citado ensaio de Manuel Rui, o autor fala de uma escrita que transborda identidade, transformando-se assim em instrumento de luta e para melhor explicitar este percurso e a sua relação com um projeto utópico, concentremos-nos na personagem Garrido (Kam'tuta) de "Estória do ladrão e do papagaio".

Garrido é um jovem, que por sua deficiência física, é tolhido de uma efetiva participação social (trabalho, família, amigos), mas em diversos momentos do texto notamos como a sua relação com a palavra é que permitirá o rompimento destas barreiras. Como nos afirma Fanon, "falar é existir de modo absoluto para o outro" e Kam’tuta, personagem movida pelos sonhos diurnos, encontra as válvulas de escape à sua exclusão, bem como se faz mais forte, nos momentos em que abre espaço à sua voz:

Inácia gostava ir em baixo da mandioqueira e ficar pôr conversas, deixar ele dizer muitas coisas nunca que tinha-lhes ouvido falar noutros, palavras que lhe descobriam o que não podia ser mas ia ser bom se pudesse ser. E João Miguel via nascer na frente dele, outra vez, o Félix. Era ainda o seu amigo que estava lhe falar ali, nascia dentro de Kam’tuta com aquelas frases corajosas que sempre soubera, aquela maneira de ficar ganhar mesmo quando lhe davam uma boa surra de pancada.vi

Assim, Inácia o aceita para ouvir a sua conversa, o amigo Via-Rápida ainda que não queira ouvir as verdades ditas pelo garoto, reconhece a sua grandeza enquanto se expressa. E nestas conversas é que se desenha o sonho de liberdade de Kam'tuta, que desemboca no plano de livrar-se do papagaio Jacó, que lhe aproximaria de Inácia e traria o reconhecimento dos demais.

Então, a estória de Luandino será arma, pois tanto temática, como esteticamente, opera uma tensão no texto que confere um dinamismo que exigirá igual esforço de seus leitores, ou seja, para interpretar o seu texto é necessário um mergulho na matéria narrada de igual hibridismo com que esta foi construída.

Sua escrita é construída e reconstruída com uma intenção revolucionária, da forma literária, num primeiro momento, mas visando a mudança das estruturas sociais que instauraram a tensão que o autor trabalha poeticamente, o que em última instância nos remete à idéia de "futuro autêntico", construída na utopia blochiana, ou seja, um futuro que é almejado através de um projeto utópico, mas que se concretiza no presente, se levamos em consideração que o texto se torna arma de luta.

A evolução das personagens, sua maior conscientização através do encontro com o griot, é o percurso que nós, leitores, percorremos na estória de Luandino, como que nos conscientizando também. E nesta relação se fazem, tomando de empréstimo uma expressão de Rita Chaves, as travessias entre intenção e gesto, pretendidas pelo autor. Em Rosa somos arrancados do sono letárgico para repensar o próprio fazer literário, e conseqüentemente numa expressão mais próxima, ao mesmo tempo local e universal, em Luuanda vê-se arquitetado um projeto de libertação nacional, e deste modo, somos convocados a participar destas (re)criações, e como co-autores estabelecer em nós e no texto os sentidos vários latentes nestas estórias.

Referências bibliográficas:

BOSI, Alfredo. Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo: Ática, 1988.

CHAVES, R. A formação do romance angolano: entre intenção e gestos. São Paulo: Universidade de São Paulo/Via Atlântica, 1999.

COUTINHO, Eduardo F. Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. (Fortuna Crítica 6).

FANON, F. Los condenados de la tierra. 3ª ed. México, D.F.: Fondo de Cultura Económica, 2001.

MÜNSTER, Arno. Filosofia da práxis e utopia concreta. São Paulo: Edunesp, 1993

PADILHA, L. C. Novos pactos, outras ficções. Ensaios sobre literaturas afro-lusobrasileiras. Porto Alegre: EIDUPUCRS, 2002.

RÓNAI, Paulo. "Os vastos espaços" (prefácio). In: ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2001.

ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2001.

RUI, Manuel. "Entre mim e o nômade - a flor". In: ABREU, Antero et alii. Teses angolanas (Documentos da VI Conferência dos escritores afro-asiáticos). Lisboa: Edições 70; Luanda: União dos escritores angolanos, 1981.

VIEIRA, José Luandino. Luuanda. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

"Um escritor confessa-se...". Entrevista de Luandino Vieira publicada no Jornal de Letras, Artes e Idéias, de Lisboa, em 9/5/1989, p. 10.

i MARQUES, apud RÓNAI, 2001, p. 37.

ii VIEIRA, 1989, p. 10.

iii PADILHA, 2002, p. 44.

iv VIEIRA, 2006, p. 50, grifo nosso.

v Idem, ibidem, p. 58.

vi Idem, ibidem, pp. 62-87.

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