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Um Contar Ferozmente Angolano

Escrito por  Cristiane Silva Ambrósio
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Angola, assim como outros países que se viram sob o jugo do sistema colonialista português, passou uma série de transformações no advento da Independência.

O país é fruto de uma experiência histórica em que combateram duas correntes ideológicas diversas. Mais do que duas correntes ideológicas, dois projetos de nação que se confrontam: de um lado, Portugal com sua política colonialista, do outro os partidos envolvidos na luta pela Independência nacional.

Concretizada a tão desejada Independência, as transformações sociais prometidas pelos movimentos revolucionários nem sempre responderam aos antigos discursos de igualdade. Findada a guerra colonial, o eclodir de uma nova guerra: a guerra civil. Acrescente-se a posterior inclusão de África no projeto capitalista e sua inserção no mundo globalizado. O resultado destes conflitos é exatamente a Angola que se apresenta profundamente marcada pelo desencanto.

Conhecedores dos acontecimentos históricos, aqueles que se propõem a falar da prosa contemporânea africana devem dialogar com uma característica comum a esta produção: a diversidade de propostas literárias. A não opção por um gênero permite que na produção de um mesmo autor possa haver o trânsito sobre diversas modalidades literárias de acordo com o que pretende dizer. Dentre as possibilidades literárias estão a poesia e o conto.

A poesia desde cedo foi uma importante arma para os intelectuais nas lutas travadas em busca da identidade, da conscientização, do clamor ao combate, do sentimento coletivo. De um sonho comum de liberdade à constatação da decepção em relação às utopias revolucionárias, a poesia responde a um apelo social de resistência. Esta atitude, diante da palavra escrita, permite a introdução de uma geração de escritores que em 80 iniciaram uma nova fase da Literatura Angolana. João Melo integra esta geração que segundo o crítico Luís Kandjimbo se caracteriza por ser a "geração das incertezas"1. Outra crítica, Carmem Lúcia Tindó chama atenção para o fato de, na poesia deste autor: "O erotismo, em sua poiesis, se faz arma de resistência para enfrentar medos e dores do passado e do presente povoado por fantasmas, pesadelos, gemidos"2.

Ao lado da produção poética de João Melo figura sua produção de contos. Forma privilegiada dentro do cenário das Literaturas africanas, as narrativas curtas permitem a captação breve e intensa do quotidiano expressa nas imagens dos musseques, na descrição detalhada da cidade, nas pessoas. O autor permite compor um cenário da realidade urbana de Angola. É, então, no limiar entre a poesia e conto que se encontra a obra de João Melo. Desta forma, cantar e contar se unem no dizer Angola. Da mesma força do cantar ferozmente, também se faz "um contar ferozmente angolano". Para exemplificar exatamente este postura de João Melo, o livro Filhos da Pátria foi selecionado. Reafirma-se mais uma vez a História em que alguns são beneficiados pelo poder em detrimento de outros aos quais o poder se abstém. Os primeiros são os chamados Filhos da Pátria. Aos últimos cabe a filiação a uma pátria outra ou até mesmo a uma paternidade desconhecida.

Deparamo-nos com três situações distintas: um ex-combatente dentro de um elevador indo ao encontro de um ex-companheiro de combate ("O elevador"); um menino, assaltante, relatando sua história ("Tio mi dá só cem"); uma menina justificando seu ato ("Feto"). Em cada uma das narrativas o desencanto que se expressa nas palavras, nos gestos, no corpo.

Nas três narrativas encontramos trajetórias que nasceram de um projeto comum de revolução, mas que acabaram por se distanciar no momento em que os interesses pessoais desvirtuaram os ideais coletivos. De fato, a nova sociedade que se ergue com a Independência se torna objeto de reflexão de várias narrativas contemporâneas, sob, não poucas vezes, o olhar irônico do narrador. E se utilizando deste instrumento de crítica que o narrador de João Melo nos dá conta da complexidade angolana.

Comprometido, o narrador utiliza recursos irônicos como estratégia de enunciação e denúncia da própria realidade social do país. Basta ouvir sua voz que ora se apresenta mordaz, ora se abstém propositalmente de emitir uma opinião. Os pequenos comentários que permitem ao leitor dialogar com as situações descritas como também discutir todo um projeto de nação.

E, assim, o leitor toma conhecimento de que no contexto angolano: "os mais velhos têm uma visão mais romantizada e rarefeita da história"3, enquanto os jovens não reconhecem o valor das lutas pela libertação. "(...) o que é profundamente lamentável, pois quem não conhece (e não assume) o seu passado torna-se presa fácil dos prestidigitadores do presente"4. Desta forma, ambição e o desinteresse contribuem para o desvirtuar dos discursos, o que permite depreender a degradação social. Trata-se, portanto, de uma revisão do passado histórico e de suas conseqüências no presente.

As palavras dentro deste contexto de transformações de uma sociedade colonial, para uma sociedade capitalista evidenciam mudanças significativas, tanto no campo dos significados, como também no campo das significações.

Revestem-se de novos significados e, na prática, contribuem para um jogo em que se evidencia a própria noção de poder:

(...) O Braço do Povo tem razão de fato, eu estava muito distraído! Como é que não percebi que o Funge com Pão, afinal, já se estava a organizar há muito tempo?! (Ele usava o verbo <>, no sentido que lhe está subjacente aqui, com evidente relutância.).5

Cabe lembrar aqui as palavras de Bourdieu de que "há no capitalismo neoliberal, uma luta simbólica incessante para desacreditar e desqualificar a herança das palavras, tradições e representações associadas às conquistas históricas dos movimentos sociais do passado"6. Envolvidas por toda uma estrutura baseada num projeto exclusivo, as personagens apontam que as palavras escondem sua situação social e a incapacidade das certezas: "(...) não sei se sou deslocado, refugiado ou outra coisa qualquer, não sei se amanhã vou acordar, se hoje terei de matar outra vez"7.

Ao mesmo tempo em que a realidade político-social instaura um certo esvaziamento das palavras, há o plano da individualidade, em que o indivíduo se encontra enlaçado com seus ideais e vivencia a profunda experiência do desencanto.

Após receber o suborno que constitui o passo inicial para o desmoronamento de seus ideais, o personagem Pedro Sanga de "O elevador", sofre de náuseas e vomita do terraço de um dos mais altos prédios de Luanda:

(...) Mas derrepente, e antes que pudesse esclarecer essa dúvida, sentiu asco. Apenas teve tempo de correr e agarrarse a um dos parapeitos do terraço, começando a vomitar sem parar, cada vez mais agoniado. Enquanto o seu vômito se espalhava, ajudado pela brisa, pelas ruas adjacentes (...) Pedro Sanga mal escutou o Camarada Excelência perguntar-lhe, jocosamente: -Epá, não me digas que as alturas te fazem enjoar?8

Demonstra, com esse gesto, como a perda de um ideal pode se refletir no próprio corpo. O corpo aparece aqui como resposta da alma perante o desencanto da realidade. Cabe lembrar aqui, o que diz Foucault a respeito da punição do corpo em Vigiar e punir: "Pois, não é mais o corpo, é a alma. À expiação que tripudia sobre o corpo deve suceder um castigo que atue, profundamente, sobre o coração, o intelecto, a vontade, as disposições(...)"9.

Esse castigo sobre a alma a que Foucault se refere fica evidente no conto "Feto". Na recusa da mãe ao filho que é jogado fora, nas suas perguntas frente à opinião pública que se mostra implacável, estão as vozes e as perguntas que devem ser feitas a um sistema cruel que oprime e julga a mesma sociedade que o produziu. A situação limite, as frases curtas, a não linearidade do discurso, a explosão com que as palavras são colocadas no discurso, evidenciam as conseqüências de um processo político em que as conseqüências da guerra e a não distribuição de renda obrigam uma menina à prostituição como forma de sobrevivência. Desencadeia-se assim um episódio (ou vários episódios) de uma situação em que o amor ao filho, esperado por todos, se torna sentimento impossível frente à realidade.

Tal como as personagens de "O elevador" e "Feto", a personagem de "Tio mi dá só cem" também vivencia uma situação limite. Diante do relato de um assalto em que acabou por matar um homem que estava ali, prestes a ter relações sexuais com uma menina, a personagem se vê (ou se viu) envolvida em lembranças de sua antiga situação em que as irmãs, a família da qual pretendia esquecer, retornam como uma avalanche de imagens. O que se pode depreender na avalanche do seu discurso é exatamente o desencanto da realidade circundante.

A narrativa exemplifica mais uma vez a situação social de Angola quando a menina, após ver o homem morto, avança sobre o personagem principal o acusando de ter ele, estragado sua possibilidade de ascensão. Tudo culmina num ato sexual que, segundo Bataille é o momento em que há a passagem de um estado de divergência, para um de convergência. Os dois se unem em busca do prazer. No entanto, enquanto que para ela este momento se constitui em criação de uma vida, para ele é o momento de questionar o porquê do processo que passou, até chegar a sua atual condição: a de mais um menino fadado a roubar para sobreviver. Sobrevivência quantificada na necessidade do valor monetário pedido nas frases insistentes: "Tio mi dá só cem". As três personagens em questão personificam os "inadaptados" em relação à pergunta do autor no início do conto o "O elevador": "Até onde é capaz de ir a capacidade de humilhação do ser humano? É tão grande quanto a sua capacidade de adaptação?"10. Fazemos nossas a afirmação de Walter Benjamin, para quem: "Em cada época é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela"11.

Palavras, gesto e corpo refletem e espelham a realidade. Cabe perceber que João Melo, ao dar voz a estas personagens, permite aos silenciados a fala. Como as personagens que se apresentam sempre no limite, as narrativas se constroem também num extravasar do Contar Angola ferozmente. Cada conto, cada situação, demonstra uma Angola a qual não se pode omitir. Cabe ao escritor, figura vigilante, reafirmar sempre seu compromisso com o ser angolano.

Referências bibliográficas:

BATAILLE, Georges. O Erotismo. São Paulo: Ed. ARX, 2004.

BENJAMIN, Walter. "Sobre o conceito da história" In: Magia e Técnica, Arte e Política. 6° ed., São Paulo: Editora brasiliense, 1993.

BOURDIEU, Pierre. Contrafogos: táticas para enfrentar a invasão neoliberal. Rio: Editora Zahar, 1998.

FOUCAULT, Michael. "O corpo dos condenados". In: Vigiar e punir. Petrópolis: Editora Vozes, 2004.

KANDJIMBO, Luís. "A nova geração de poetas angolanos". In: Austral. Revista de Bordo da TAAG, N°22, Luanda, outubro a dezembro de 1997.

MELO, João. Filhos da pátria. Luanda: Nzila, 2001.

SECCO, Carmem Lúcia Tindó Ribeiro. "Por entre sonhos e ruínas: reflexões sobre a atual poesia angolana." In: A magia das letras africanas. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora/Barroso, 2003.

1 KANDJIMBO, 1997, p. 21.

2 SECCO, 2003, p. 273.

3 MELO, 2005, p. 16.

4 Idem, ibidem.

5 Idem, ibidem, p. 23.

6 BOURDIEU, 1998, p. 147.

7 MELO, op. cit., p. 39.

8 Idem, ibidem, p. 29.

9 FOUCAULT, 2004, p. 17.

10 MELO, op. cit., p. 13.

11 BENJAMIN, 1993, p. 224.

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