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Explosões Textuais em o Último Vôo do Flamingo 1

Escrito por  Cristiane Silva Ambrósio
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1. A nação-mina: o panorama moçambicano

O leitor, habituado à escrita miacoutiana, sabe que em UVF irá ao encontro de uma leitura criativamente inesperada. Essa criatividade atinge seu ponto máximo, com as múltiplas facetas de uma explosão em Moçambique.

 

Os acontecimentos no romance relacionam-se à questão lingüística, cultural, política e até mesmo geográfica, como ocorre com Tizangara no final da narrativa. Tal fato é gerado por uma nação demasiadamente agredida, e que não suporta mais determinadas situações. Assim, "o que não pode florir no momento certo acaba explodindo depois"2. Por isso, ocupar essa terra é extremamente perigoso, pois é o espaço de uma nação disposta a explodir, sem previsão das conseqüências.

2. O colonizado(r) detona a primeira explosão

A explosão de corpos inicia o primeiro capítulo do livro. Em Tizangara, explodem tanto moçambicanos quanto soldados estrangeiros. Moçambique, como todo continente africano, foi palco de devastadoras guerras entre colonizador e colonizado, assim como disputas internas entre FRELIMO3 E RENAMO4. Tais conflitos construíram uma Nação-Mina silenciosa, como é descrito em UVF. Moçambique ainda guarda minas, que poderiam ser as causadoras das tragédias. No entanto, o africano destorce essa história, encontrando em sua própria cultura as respostas para os desaparecimentos dos soldados estrangeiros. Nesse livro, tudo ocorre de forma (in)explicável. O africano acredita na vingança da própria Terra-Mãe-África, em relação à morte dos soldados estrangeiros. Com o desenrolar da narrativa e diante de acontecimentos inexplicáveis, pouco a pouco o italiano e detetive Massimo Risi passa a acreditar em algo sobrenatural em Tizangara.i. ex

Segundo Le Goff, há uma memória coletiva que valoriza o poder dos povos. É através dela que se estabelece um jogo de poderes, obedecendo a interesses individuais ou coletivos. Isso é uma forma de manipular as massas, de modo consciente ou inconsciente. Assim, "a memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva"5.

Estimular a crença no poder da Terra é valorizar o próprio ser em África, que, através da explosão, expulsa toda forma de domínio, presente na consciência do povo. Essa luta contra as raízes profundas do colonialismo em solo africano significa a própria preservação da identidade.

A memória coletiva é não somente uma conquista, é também um instrumento e um objeto de poder. São as sociedades cuja memória social é sobretudo oral ou que estão em vias de constituir uma memória coletiva escrita que melhor permitem compreender esta luta pela dominação da recordação e da tradição, esta manifestação da memória.6

Hoje, embora Moçambique seja livre e independente, apresenta ainda influências de culturas estrangeiras, como na língua e nas formas de administração: "Durante séculos, quiseram que fôssemos europeus, que aceitássemos o regime deles de viver. Houve uns que até imitavam os brancos, pretos desbotados"7. Isso proporcionou a miscigenação entre duas culturas e o aparecimento do ser híbrido.

Segundo Bhabha, o hibridismo "representa (...) um questionamento perturbador das imagens e presenças da autoridade"8. É o desvio do caminho da aceitação passiva, proporcionando uma consciência crítica, em relação aos acontecimentos do passado: "O que fizeram esses brancos foi ocuparem-nos. Não foi só a terra: ocuparam-nos a nós, acamparam no meio das nossas cabeças. Somos madeira que apanhou chuva"9. Em UFV, o africano não aparece fragilizado, pois o período colonial transformou-o num ser crítico, que reflete sobre os acontecimentos e transforma seu espaço.

Essa relação de poder também transforma o estrangeiro através do hibridismo, pois "saberes negados se infiltram no discurso dominante e tornam estranha a base de sua autoridade"10. Ao longo da narrativa, o raciocínio do detetive não basta para a compreensão das explosões. Assim, pouco a pouco, ele deixa-se envolver pelos acontecimentos de Tizangara: "Quer saber toda a verdade do acontecido? Os soldados estrangeiros explodem, sim, senhor. Não é que pisam em minas, não. Somos nós, mulheres, os engenhos explosivos. Ou já esqueceu as forças da terra?"11 O escritor também se preocupa com questões de Moçambique, como miséria e subdesenvolvimento, mas não vê apenas no colonizador a carga de culpa, quanto aos problemas do país.

No teto, uma ventoinha espanejava o ar. Eu sabia, como todos na vila: o administrador Jonas tinha desviado o gerador do hospital para seus mais privados serviços. Dona Ermelinda, sua esposa, tinha vazado os equipamentos públicos das enfermarias: geleiras, fogão, cama. Até saíra num jornal que aquilo era abuso de poder. Jonas ria-se: ele não abusava; os outros é que não detinham poderes nenhuns.12 O romance revela a colaboração do próprio africano, desencadeando os acontecimentos, seja deixando-se subordinar, seja submetendo os próprios irmãos africanos à dominação estrangeira. Isso mostra a manutenção das relações de poder entre os próprios africanos, fato que também colabora para a grande explosão de Tizangara, ao final do romance.

3. A "brincriação" explosiva da linguagem

No período colonial, a língua foi um dos instrumentos para a dominação lusitana. Hoje, em Mia Couto, ela é objeto de "brincriações". O autor ressalta que não há o desgaste da língua portuguesa, mas sua remodelação, a fim de estabilizar a realidade de hibridismo na África: "Recriamos a língua, na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo"13, o híbrido, que retrata duas formas distintas de pensamento, trabalhando a relação de poder entre elas. Não há um processo desgastante na língua portuguesa, mas um acréscimo de "colorações moçambicanas", através do conhecimento da tradição oral do povo. Em Mia Couto, há o brincar com a linguagem, que joga com os ditados populares, neologismos, enfim, modifica a forma de expressão usual com uma dose de humor e ousadia. Todas as explosões textuais do romance contribuem para o desaparecimento de Tizangara, restando um imenso abismo, símbolo da ebulição e do transbordamento de um país.10

A explosão dos corpos domina e descaracteriza o estrangeiro em terra africana. No romance, a ironia rebaixa a posição, assumida pelo (neo) colonizador na história. Segundo Hutcheon, há duas formas de uso da natureza transideológica da ironia "para reforçar a autoridade e também (...) para fins de oposição e subversão"14. Através da ironia, o discurso do narrador adota uma postura escarnecedora em relação ao soldado explodido. Assim, "hífen carnal"15, "verme flácido"16, "apêndice órfão"17 são algumas expressões referentes ao órgão sexual do colonizador: "O tal sexo voador, depois de rasar a minha pessoa, se foi pespregar na pá da ventoinha. E ficou lá no teto, como equilibrista nas alturas do circo"18. Dessa forma, a brincriação com a linguagem denota uma explosão lingüística no romance, confirmando a grande capacidade criadora do autor.

4. Precipitação do fim ou do [re] início

O final do romance revela uma região que parece ter explodido completamente, restando um imenso precipício. É o caos, que precipita o homem ao fim de um ciclo ou ao (re) início dos dias, acarretando desespero ou esperança quanto ao futuro do país: "Num súbito: acordei em sobressalto (...) olhei para o lado e quase desfaleci: ali mesmo, onde estava a terra, não havia paisagem, nem sequer chão. Estávamos na margem de um infinito buraco"19.

Esse acontecimento é um convite a refletir sobre o panorama de um país arrasado pelos problemas sociais. O estrangeiro, diante desse episódio, torna-se totalmente perturbado, como se sua consciência tivesse sido também "explodida". Chamamos o italiano, que se desacreditou: o país desaparecera? Sim, a nação fora todo engolida nesse vácuo (...) Como explicar a seus superiores? Como relatar que um país inteiro desaparecera? Seria despromovido. Pior: internado por perigoso delírio.20 UVF distancia-se do Romance de Enigma21, a partir do momento que o Massimo Risi não encontra uma explicação racional para os acontecimentos, ao final da trama. Isso perturba o italiano, ao contrário do narrador-tradutor, que o acompanha nessa empreitada. Este não revela nenhuma surpresa quanto aos acontecimentos. O livro valoriza o universo maravilhoso do continente africano, ao explicar os fatos a partir de novas leis da natureza, que ocorrem apenas em Tizangara. Segundo

Todorov, "se (...) ele [leitor ou personagem] decide que se deve admitir novas leis da natureza, pelas quais o fenômeno pode ser explicado, entramos no gênero do maravilhoso"22. O estrangeiro, mergulhado nesse universo, hesita entre real e fruto da imaginação. Para o detetive, o continente africano permanece um grande mistério. Com o abismo, as personagens permanecem à espera de uma mudança no futuro.

O livro propõe semear novamente o amor na terra, que ainda sofre com a falta de ternura e vontade política dos governantes. Por isso, ao longo da narrativa, a terra mostra sinais de um ser em estado agonizante, que clama por justiça e que ao fim, desaparece: "E a terra, a nossa terra, alguém já perguntou se ela se está sentindo bem?"23

CONCLUSÃO

O romance O Último Vôo do Flamingo discute, na alegoria da explosão textual, o período colonial em Moçambique. Ao "brincriar" com a linguagem, Mia Couto descortina a relação entre colonizador e colonizado, resgatando valores e crenças populares da África. O autor critica fervorosamente a colonização e os africanos colaboradores, afirmando que, em momento algum, a terra foi tratada com ternura por eles. O romance revela o desabrochar da cultura moçambicana na língua portuguesa através das explosões textuais.

Referências bibliográficas:

BHABHA, Homi. "Signo tido como milagres". In: O local da cultura. Trad. Myriam Ávila. Belo Horizonte, UFMG, 1998. COUTO, Mia. O último vôo do flamingo. Lisboa, Caminho, 2000.

"Perguntas à Língua Portuguesa" (1997) .http://www.ciberduvidas.com/antologia/miacouto.html. Acesso em: 07/06/2002.

Le GOFF, Jacques. História e memória: Trad. Bernardo Leite. Campinas, UNICAMP, 1990.

HUTCHEON, Linda. Teoria e política da ironia. Trad. Júlio Jeha. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2000.

REIMÃO, Sandra Lúcia. O que é romance policial. São Paulo, Brasiliense, 1983.

TODOROV, Tzvetan. "Tipologia do romance policial e A narrativa fantástica". In: As estruturas narrativas. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo, Perspectiva, 2006.

1 Neste trabalho, a abreviação UVF refere-se ao livro O Último Vôo do Flamingo, de Mia Couto.

2 COUTO, 2000, p. 23.

3 Frente de Libertação de Moçambique. 4 Resistência Nacional Moçambicana.

5 LE GOFF, 1990, p. 477.

6 Idem, ibidem, p. 476

7 COUTO, 2000, p. 139.

8 BHABHA, 1998, p. 165.

9 COUTO, 2000, p. 158.

10 BHABHA, op. cit., p. 165.

11 COUTO, 2000, p. 85.

12 Idem, ibidem, p. 20.

13 Idem, 1997 (página da Web).

14 HUTCHEON, 2000, p. 52. 15 COUTO, 2000, p. 31.

16 Idem, Ibidem.

17 Idem, ibidem, p. 18.

18 Idem, ibidem, p. 94.

19 Idem, ibidem, p. 219.

20 Idem, Ibidem.

21 Segundo Reimão (1983), a narrativa, em que há um mistério a ser desvendado, pode ser "Romance de Enigma", quando a revelação do mistério ocorre no fim da historia, sempre resolvido pelo detetive e "Romance Série Negra", uma paródia do Romance de enigma, com cenas de violência, podendo o detetive envolver-se com as personagens ou mesmo perder sua imunidade.

22 TODOROV, 2006, p. 156.

23 COUTO, 2000, p. 165.

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