testeira-loja

Relações Étnicas e Discurso Racialista Em Antônio Cardoso e a Biblioteca de Literatura Angolana Destaque

Escrito por  Darliane Rocha
Classifique este item
(5 votos)
Em A "Fortuna" de António Cardoso, os personagens são apresentados num ambiente de musseque, bairro marginal de Angola similar à favela brasileira utilizandose a cor da pele como elemento categórico de descrição e hierarquização sociais.

Notamos que isto é realizado tanto entre os sujeitos das mesmas classes sociais, quanto entre aqueles de classes diferentes.

Pode-se notar que há um quadro fixo de referência de cor na novela angolana, construído por António Cardoso por entre os termos "branco", "preto" e "mestiço". Esses traços racializados em alguns momentos da novela angolana sofrem desdobramentos como a utilização das classificações de cores formando um continuum caracterizado pelos traços: "/+claro/" e "/+escuro/". Em A "Fortuna", os termos utilizados por Cardoso para caracterizar os personagens são: mulata, mulata escura, morena mais clara e branca. Outros termos também utilizados para as personagens: "nossa cor", preto e "negro". A ocorrência do termo negro, em A "Fortuna", não se configura como um eufemismo sendo a palavra "preto" utilizada com maior freqüência, sem necessariamente denotar caráter depreciativo. Já na semântica brasileira, o vocábulo "preto" agrega menosprezo e subalternização diferindo do termo negro caracterizado por ser menos depreciativo que o termo preto a depender da situação. Na narrativa, a classificação de cor é estabelecida apresentando, caráter relativo, pois traz personagens construídas de diferentes maneiras, como é o caso de Rosa, que na descrição realizada pela personagem identificada como Adjunto é considerada como "miúda mulata" e já para Alberto "menina de cor morena mais clara que algumas brancas do Puto". Percebemos que, no olhar de Alberto, que é negro e morador de musseque, Rosa é uma mestiça com traços e condições socioeconômicas atribuídos aos chamados "brancos". No olhar do Adjunto, que apesar de não ter suas características físicas definidas, vem de Portugal e é um funcionário público, para este Rosa é mulata "pé- descalço"i. Nas palavras de Cardoso, há diferenciação social articula-se a preconceitos, discriminação e retraimento:

Alberto já sabia quem era a família de Rosa. Procuraram informar-se. Foi com alegria que soube que o padrasto conhecera seus pais.Quanto às referências sobre D. Engrácia não ficou muito contente. Ainda sem ter visto, ficou logo a detestá-la, tais foram as informações. O facto de Rosa ser mestiça, para mais tão clara, preocupava-o. Com certeza a mãe veria nele um obstáculo. Daí o seu retraimento, as suas dúvidas e apreensões acerca do que pensaria Rosa, de quantos preconceitos estaria imbuída, ela que era neta de uma negra, menina de cor morena mais clara que algumas brancas do Puto até.ii

Percebemos que a relação de cor e etnia é definida através do olhar dos personagens que, de acordo com o lugar que ocupam e seus quadros de referências, classificam etnicamente a si mesmos e a outros. Essa classificação não é realizada apenas pelas características morfológicas dos personagens, mas principalmente pelo olhar de quem os descreve, considerando-se também outros elementos, como o tipo de trabalho que exercem e o lugar onde vivem e de onde vieram, apontar para relações de poder em cena.

Aconselhou-se com o primo: enfim, que hei-de fazer, um homem não é de pau... A miúda agradou-me. Este pôs reticências. Bem, aqui essas coisas quando acontecem conosco, às vezes podem dar escândalo, enfim, relativo. Mesmo até meter tribunal. Se é miúda mulata, ou, sobretudo, negra,assim, como direi, pé-descalço, em regra não acontece nada especial. Quando muito, gastam-se umas coroas. Mas como dizes que é miúda filha ou enteada, é o mesmo, de funcionário, para mais agora, enfim, o Governo que dar umas aparências, ele foi promovido, não sei, a mãe pode ficar brava.iii

A classificação de "branco", como para D. Engrácia mãe de Rosa que anseia que esta se case com um branco classe média, denuncia a ânsia de ascensão social. A classificação de branco passa também por outras referências: ser morador da Baixa, bairro oposto aos musseques, e possuir estabilidade econômica. Com isto, "um branco de musseque" não teria a mesma consideração de um branco da Baixa, bairro de classe média e alta, como pode ser observado no romance de Luandino Vieira Nosso musseque. Luandino constrói uma personagem branca e prostituta que não desfruta dos privilégios, geralmente atribuídos a outros brancos, devido a sua condição social, atrelado a julgamento moral.

O estabelecimento de uma espécie de continuum de cores para caracterizar personagens, imprime ao texto de Cardoso uma divisão racialista, que aponta também às implicações sócio-econômicas presentes no cotidiano das personagens moradoras dos musseques e, amiúde subalternizadas e marginalizadas. Nos últimos capítulos de A "Fortuna", António Cardoso constrói passagens que demonstram, em conseqüência de uma ideologia racialista que é o racismo, que lamentavelmente, vigora ainda em nossos dias tanto na sociedade angolana como na brasileira. "Quase teve de pular, ainda se abaixou e se inclinou pronto para o salto, mas os travões obedeceram, ao mesmo tempo em que uma voz encolerizada gritava: ó seu negro, não tens olhos? - seguido de som de uma porta que se abria"iv. Em contraponto a ideologia racialista e racista apresenta-se ostensivamente sem ser de forma inequívoca rejeitada ou desautorizada.

Nota-se a caracterização física geralmente, ressaltando a cor, exceto no personagem do Adjunto, que tem por características as atribuições desempenhadas e o fato de ter vindo de Portugal. Ao contrário dos demais personagens, ele não tem o nome definido. Sempre tratado por "Adjunto" ou "senhor Doutor", há indícios que a categoria de branco para este personagem não é marcada.

De acordo com Lívio Sansone é possível estabelecer nos cenários brasileiros uma caracterização de sujeitos mediante classificação de cor flutuante e relativa que ainda convive com o chamado "mito da morenidade", segundo ele em periferias urbanas. Na novela de Cardoso, verificamos uma classificação de cores, também relativa, porém há uma tendência à marcação das nuances ou variações com os termos "mais claro e mais escuro". Já na classificação brasileira, o que não se enquadra como "branco" e "preto" será, geralmente, classificado de moreno e aponta Sansone para uma categorização racialista, politicamente investida sujeita a vários graus de manipulação.

O musseque é representado no texto angolano não como um espaço homogêneo, mas curiosamente apresentando divisões, a exemplo da caracterização do lugar onde Alberto mora que é descrita como bem mais miserável e, conseqüentemente mais sujeita ao patrulhamento da polícia e a ocorrência de crimes.

Nota-se que Cardoso, na novela, vai classificando seus personagens por cor, no episódio do baile constatamos um choque étnico, entre indivíduos das mesmas cores, porém que não se identificam com outros grupos. Sendo que as relações étnicas contemplam as questões de grupos que são ligados por traços culturais em comum. Esta passagem do texto no qual nem todos os pretos podiam entrar que pode ser lido como uma diferenciação étnica, isto é, apesar de todos serem pretos existia algo que os diferenciava dentro do mesmo ambiente e numa situação informal e de lazer.

Alberto conhecia Mariquinhas de dois ou três bailes, embora mal dançasse e nunca bebesse. Aqueles bailes especiais de nga Zefa, onde só certos mindele e mestiços podiam entrar. Mesmo preto, nem todos... Quase só tocavam as músicas do "Ngola Ritmos", às vezes havia mesmo conjunto só com dikamnza, ngoma, puíta, hungu e kisanji, até bailarinas nossas.v

O filme brasileiro Cidade de Deus dirigido por Fernando Meirelles possibilita um estudo comparado das relações étnicas em espaços marginalizados colocando em diálogo musseques angolanos de A "Fortuna" e a favela carioca Cidade de Deus. No artigo "O segredo de Cidade de Deus", o crítico de cinema Marcos Pierry pontua a representação do negro como uma das importantes chaves de discussão do filme, que, apesar de possuir uma estética de periferia tem seu efeito de denuncia neutralizado pela indústria cultural.

Nos capítulos 15 e 16 do filme Cidade de Deus, verificamos que a personagem Bené que decide comprar roupas novas e de marca, comumente usadas por pessoas consideradas de classe média e alta. Bené contrata um branco de classe média e freqüentador da favela, para realizar suas compras no centro do Rio de Janeiro. O seu novo modo de se vestir relacionando-se com o mesmo grupo da Cidade de Deus, mas metamorfoseado por roupas de "bacana" e cabelos aloirados aponta para a tentativa de ser visto como mais influente, por estar ganhando muito dinheiro com a venda de drogas e também por desejar se passar por branco. Consideramos essa atitude como tentativa de ser identificado como "playboy" da Cidade de Deus, o que pode ser considerada como forma de branqueamento e ascensão social. O escritor angolano Mena Abrantes coordenador da Biblioteca de Literatura Angolana na qual se integra A "Fortuna", em entrevista, disponibilizou informações acerca da existência de diversas classificações para os mestiços de Angola, como cabrito que no português do Brasil corresponde a mulato. No entanto, este termo não nos é muito familiar em relação à classificação racial por sua vez Cardoso não utiliza preferencialmente termos que remetem a cor da pele. Na fala de Mena, notamos que é comum em Angola a velha noção de melhoramento racial seguindo a lógica de quanto mais branco maior a "superioridade" o que pode ser observado no personagem de D. Engrácia.

Em A "Fortuna" o termo "nossa cor" é utilizado como equivalente a "preto". A personagem Rosa é construída como referencial da relatividade do preconceito racial, aparece a desigualdade pelo fenótipo que lhe é atribuído. A cor da pele enquanto mecanismo de poder aparece como condição social, e assim as personagens re-encenam as relações de diferenciação e subalternização pela cor da pele. Apesar de o autor classificar preferencialmente seus personagens pela cor o racismo está presente na obra, em caráter relativo como parte de D. Engrácia, pois apesar de ser casada com um negro demonstra claramente oposição ao casamento da filha com um outro rapaz negro. Observamos um racismo de mão dupla que se dá não apenas entre aquelas personagens considerados brancos e as não brancas, mas também exercido por personagens caracterizados como não brancos que se mostram racistas em relação a outros que também não são considerados como tal sendo que o grau de hierarquização é atenuado pelas características sócio-econômicas das personagens.

O Adjunto, pela sua posição dispensa categorização de cor pela lógica ditada pela da posição social. Este personagem se considera superior em relação aos negros e mestiços, que ele coloca dentro duma mesma categorização. De acordo com esta lógica, quanto mais "pé descalço" for a personagem ela é considerada mais negra que as outras. Alberto via-o nitidamente e, então, falou-lhe: oiça, se tornar a aparecer em casa de Rosa, mato-o! - Sibilava as palavras entre os dentes cerrados. Fez-se silêncio. Ninguém na rua. Um silêncio que tocava os corpos de pesado que parecia. A princípio foi só o espanto, a surpresa, o absurdo da situação que invadiu o Adjunto, impedindo-o de raciocinar claramente. Mal cobrou o ânimo, articulou: mas... Mas quem é você para me dar ordens, seu pret. (quase instintivamente cortou o final da frase)... está bêbado ou o quê?!vi

A constatação da atuação do mecanismo de classificação racial, concordando com Kwame Appiah é realmente algo "desolador" por seus efeitos, que não se restringem à atividade discursiva, mas na maneira como a sociedade funciona e, conseqüentemente, na vida das pessoas. Saliento que, este texto mesmo tratando das questões de cor da pele e etnicinidade, suas implicações sócio-econômicas em Angola quanto e no Brasil. Este texto vincula-se a um trabalho de pesquisa que realizou um levantamento do referido nos corpus já citados. A escolha e o tratamento do tema realizado, por sua vez, não autorizam a legitimação de qualquer discurso racial e muito menos abrandam o racismo existente até hoje “lá e cá”. Ao lado da denuncia de racismo configuram-se dificuldades de definir posicionalidades, por outro lado como adverte Appiah: Falar de "raça" é particularmente desolador para aqueles de nós que levamos a cultura a sério. É que, onde a raça atua- em lugares onde as "diferenças macroscópicas" da morfologia são correlacionadas com "diferenças sutis" de temperamento, crença e intenção, ela atua como uma espécie de metáfora da cultura; e só o faz ao preço de biologizar aquilo que é cultural, a ideologia.vii

Observamos que nas duas obras estudadas há conceitos fluidos de cor e etnia de caráter relativo. O discurso racista e racialista também se fazem presente e exercem forte influência no processo de marginalização e subalternização dos negros e afrodescendentes nos ambientes dos musseques angolanos e nas favelas brasileiras.

No entanto, consideramos imprescindível questionar a necessidade ou escolha de António Cardoso em estabelecer sempre cores para suas personagens de maneira excessiva. Será que podemos considerar por habitus crítico ou uma repetição de padrões literários ocidentais etnocêntricos sistemáticos? Ainda que, denunciando o racismo através dos diálogos estabelecidos entre as personagens do Adjunto e Alberto, António Cardoso constrói um texto racialista que corrobora a representação do corpo como mecanismo de discriminação e subalternização num espaço considerado marginalizado de Angola no início do fim do colonialismo.

Em A "Fortuna", o recorte temático étnico-racial realizado contempla o tratamento dado a essas questões por António Cardoso nos seus musseques luandenses. Entretanto, é preciso destacar seu engajameto político nos movimentos de libertação de Angola sendo A "Fortuna" sub-intitulada uma novela de amor que trata paradoxalmente de conflitos relacionados com o regime Salazarista. Cardoso inicia a novela surpreendetemente com uma citação de Balzac: "Os escritores nunca inventam coisa alguma", e termina com a inscrição: "Pavilhão Prisional da Polícia Internacional e de Defesa do Estado, em Luanda, Fevereiro de 1962", atribuindo a novela um jogo ficcional entre amor, política e nação. Cardoso se destaca pelo combate ao regime ditatorial, por ter sido preso pela PIDE pela contribuição nos projetos sócio-culturais de Angola.

Destaco outro tipo de representação presente no poema "Meu Irmão" do moçambicano Albino Magaia, que contrapõe a escolha realizada por Cardoso em colorir suas personagens:

Meu irmão

não tem cor

nem nasceu do ventre

da minha mãe

Não tem cor

mas tem olhos vidrados

pelo sofrimento

Olhos iguais aos meus.

Meu irmão não é branco

não é preto

não é mulato

Não tem cor meu irmão

(...) Meu irmão não tem cor

habita todos os continentes

todos os subúrbios

tem coração grande

do tamanho da verdade

e o futuro que é nosso.

Meu irmão tem olhos

marcados

Chagados pelo

sofrimento e pela fome

sem ser branco, preto

ou mulato

nem amarelo sendo, também

não tem cor e apesar disso

É meu irmão.viii

Nesse poema, Magaia traz à cena a representação de fraternidade que excede comparações do corpo, locus e cores, conferindo as dores e necessidades comuns aos irmãos como possíveis pontos de identificação. As marcas destacadas são imateriais e não podem ser vistas por aqueles que possuem os olhos diferentes e não são vidrados pelo sofrimento. A irmandade, em questão, é constituída por quem tem olhos iguais e um futuro em comum, na qual a cor é explicitamente elidida.Temos assim, a dissociação de racialismo na formação de identidades e a na desconstrução de uma africanidade marcada pelo racismo tornadas possíveis pela combinação explosiva e insólita de política e literatura a interferir no presente.

Referências bibliográficas:

APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

CARDOSO, António. A "Fortuna". Luanda: Maianga, 2004. (Biblioteca de Literatura Angolana).

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva; Guacira Lopes Louro. 4. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

MACEDO, Tânia. Angola e Brasil; estudos comparados. São Paulo: Arte e ciência, 2002. (Via Atlântica, 3).

MAGAIA, Albino. "Meu irmão". In: Assim no tempo derrubado, 1982.

MEIRELLES, Fernando. Cidade de Deus (filme). Baseado no romance de Paulo Lins. Lumière e Miramax Films, 2002.

PIERRY, Marcos. "O segredo da Cidade de Deus". In: www.kinodigital.ufba.br.

SANSONE, Lívio. Negritude sem etnicidade: o local e o global nas relações raciais e na produção cultural negra do Brasil. Rio de Janeiro: Pallas; Salvador: EDUFBA, 2004.

SARLO, Beatriz. "Um olhar político: em defesa do partidarismo da arte". In: SARLO, Beatriz. Paisagens imaginárias; intelectuais, arte e meios de comunicação. Trad. Rubia Prates Goldoni e Sergio Molina. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2005, pp. 55-63.

VIEIRA, José Luandino. Nosso Musseque. Lisboa: Caminho; Luanda: Nzila, 2003.

SOUZA, Florentina da Silva. Afro-descendência em Cadernos Negros e Jornal do MNU.-Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

i CARDOSO, 2004, p. 65.

ii Idem, ibidem.

iii Idem, ibidem, p. 34

iv idem, ibidem, p. 61.

v Idem, ibidem, p. 35.

vi Idem, ibidem, p. 62.

vii APPIAH, 1997, p. 75.

viii MAGAIA, 1982.

Ler 7067 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips