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O Pós-Colonialismo Como Processo de Robert Fraser

Escrito por  Divanize Carbonieri
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No livro Lifting the sentence. A poetics of postcolonial fiction (2000), Robert Fraser define como pós-coloniais as literaturas que se originaram em países que passaram e foram além do julgo ou sentença do colonialismo.

De acordo com ele, essas literaturas, principalmente no que se refere à prosa de ficção, passariam por seis estágios em sua construção, compostos por narrativas: 1) pré-coloniais, podendo ser orais ou escritas, sendo retomadas e transformadas em vários estágios posteriores; 2) coloniais ou imperiais, escritas durante o período de subjugação política estrangeira e, de forma geral, em cumplicidade com ela; 3) de resistência, escritas principalmente num momento imediatamente anterior à independência e elaboradas com o objetivo de libertar a imaginação dos escritores nativos das amarras imperiais; 4) de construção da nação, proeminentes nos primeiros anos da nação recém-independente e marcadas por um sentimento de euforia e confiança no futuro; 5) de dissidência interna, influenciadas pela desilusão que se segue à emancipação política, com a investigação da herança da colonização e a crítica do desempenho das elites governantes; 6) transculturais, características das últimas décadas, em que a nação como um ponto de referência para a sensibilidade do escritor se dissolve, sendo substituída por conceitos de coletividade e identidade mais fluidos e mais complexos. Para Fraser, o termo “pós-colonial”, ao invés de se aplicar apenas às últimas fases desse esquema, se refere exatamente ao processo de se passar por todas elas sucessivamente, sendo observado a partir de um ponto de vista vantajoso situado no presente e que facilite a interpretação dos fenômenos em seu desenvolvimento no tempo1.

É possível afirmar que o esquema de Fraser tem ao seu centro a formação da nação-estado no contexto do mundo pós-colonial. Ele afirma que, apesar da multiplicidade lingüística, étnica e cultural presente na maioria desses países, a nação se tornou para eles um importante pacto de conveniência, sobretudo no momento em que buscavam se libertar do jugo imperial, com a consciência nacional e o nacionalismo predominando nas fases de resistência e construção da nação2. Isso pode parecer uma limitação, principalmente se levarmos em conta o questionamento de autores como, por exemplo, Rajagopalan Radhakrishnan, que é a favor de uma alegorização da "condição pós-colonial", tomando-a como uma alegoria para aquele espaço relacional revelado por diversas posições de sujeito subalternas e oprimidas em suas tentativas de buscar justiça e reparação para séculos de desigualdade3. Nesse seu ponto de vista, o pós-colonialismo não se refere pura e simplesmente às nações-estado emergidas após o colonialismo, mas sim a uma visão transcendente das configurações nacionais que possa enxergar os pontos em comum entre diversos grupos minoritários em suas lutas contra a opressão.

Mas acreditamos que, na verdade, a esquematização de Fraser acaba por englobar a conceituação de Radhakrishnan, pois ele entende o pós-colonialismo como um processo que não se restringe à formação da nação, apesar de tê-la ao centro, mas que contempla também os momentos anteriores a ela e, principalmente, a fase correspondente à atualidade, em que ela vem sendo questionada, alargada, transformada e até abandonada em virtude dos intensos processos de deslocamento e hibridismo que indivíduos e grupos têm sofrido nas últimas décadas. Também nos parece que a moldura fornecida por Fraser é bastante útil para o estudo das diversas literaturas pós-coloniais como um todo e das literaturas africanas em particular, principalmente porque ele se concentra em sua análise, como veremos, nos métodos particulares dos principais escritores, durante as várias etapas, para lidar com questões fundamentais, como a escolha da língua e os usos de pessoa, tempos verbais, tipologias, símbolos, mitos e cronotopos. Devido à exigüidade de espaço, concentraremos nossa discussão, neste breve artigo, na escolha lingüística e nos usos de pessoas e tempos verbais.

Os escritores pós-coloniais tiveram, desde muito cedo, que se debater com a questão da escolha da língua para produzir suas obras. Escrever nas línguas européias, herdadas dos ex-colonizadores, foi muitas vezes uma contingência moldada por diversos fatores, desde o predomínio delas na educação formal, sobretudo de nível médio e superior, até a necessidade de se expressar numa língua que possibilitasse a impressão de uma consciência nacional ampla, coisa que as inúmeras línguas indígenas eram geralmente sentidas como sendo incapazes de fazer, por estarem identificadas demais com seus respectivos grupos de falantes étnicos. Para Fraser, uma grande característica da literatura pós-colonial, no que se refere ao aspecto lingüístico, é o modo como uma língua se vê obrigada, no contexto ficcional, a realizar o trabalho de outras4. Nesse caso, o autor tem que lançar mão de várias estratégias de tradução. Dos escritores discutidos por Fraser, dois nos chamam a atenção exatamente por serem africanos.

No romance The interpreters (1965), o nigeriano Wole Soyinka discute a situação da Nigéria em seus primeiros anos como uma nação independente. Numa narrativa bastante marcada pela desilusão característica do quinto estágio proposto por Fraser, jovens intelectuais africanos têm que lidar, cada um a seu modo, com as irregularidades e erros das autoridades nigerianas num cenário urbano de decadência e sujeira que reflete a corrupção e a crise moral do país. O pintor Kola está produzindo um quadro dos orixás, as divindades do panteão iorubá, com os rostos de seus amigos.

A principal idéia parece ser a de que a cultura ancestral funciona como uma espécie de reservatório de energia para que os personagens e a nação que eles representam consigam vencer seus problemas. Para Fraser, existe uma relação entre o quatro de Kola e o romance de Soyinka, uma vez que, em ambos, uma concepção de mundo iorubá tradicional e uma preocupação com os problemas modernos da nação se sobrepõem.

Apesar de a ação se passar em Lagos, uma grande cidade nigeriana com inúmeras línguas, Soyinka escolhe o iorubá como o principal meio para expressar esse conhecimento ancestral, através do uso de vocábulos e expressões iorubás intermeados no inglês em que seu romance é prioritariamente escrito. Nas palavras de Fraser, "a situação da Nigéria moderna é 'interpretada' de fato em termos iorubás"5.

Diferentemente de Soyinka, o também nigeriano Gabriel Okara escolhe escrever seu romance The voice (1964) apenas na língua inglesa, sem a utilização de palavras africanas. Pertencente à etnia ijo, Okara emprega palavras inglesas para expressar conceitos de sua cultura. O protagonista Okolo, por exemplo, está em busca de "it", um pronome neutro da língua inglesa que está no lugar de sua busca por um significado para sua vida mais de acordo com a tradição ancestral de seu povo. Ele tem que enfrentar a resistência dos chefes de sua aldeia, cujos "insides" (ou faculdades interiores meditativas e espirituais) estão corrompidos pela nova ordem da nação, em que o dinheiro tomou o lugar dos valores ancestrais. O resultado é que o leitor se vê obrigado a buscar significados diferenciados para palavras inglesas comuns, sem o que não é capaz de apreender a totalidade dos sentidos do romance. Além disso, a leitura se torna uma atividade sempre aberta à formação de novos significados, já que cada leitor preencherá as lacunas a seu modo.

Detendo-se, em seguida, nos usos de pessoas e tempos verbais nos romances pós-coloniais, Fraser propõe para eles um desenvolvimento que acompanha os seis estágios de seu esquema. A terceira pessoa do plural antropológica ou imperial foi característica do discurso imperial presente nas memórias de colonos, governadores ou missionários e nos textos antropológicos escritos sobre os povos dos territórios colonizados. Dessa maneira, o colonizado é visto sempre como um "outro", apenas como um "eles", ou seja, como uma massa homogênea sem características distintivas entre seus indivíduos6. Essa pessoa do discurso é expressa através de um tempo verbal próprio, que Fraser chama de presente imperial ou antropológico, através do qual a vidas das populações indígenas são freqüentemente representadas como se ocorressem num presente ininterrupto e descuidado, para o qual as experiências passadas ou as previsões futuras seriam irrelevantes7. É como se, nesses discursos imperiais, os nativos fossem vistos como um grupo indistinto que realiza sempre as mesmas ações sem se basear em suas vivências passadas ou num planejamento futuro.

Como uma resposta à insultante terceira pessoa do plural imperial ou antropológica, surgem, entre os povos colonizados, narrativas expressas na primeira pessoa do singular como uma tentativa de liberação psicológica, um movimento em direção a uma visibilidade maior. Para Fraser, no começo, as narrativas pós-coloniais em primeira pessoa foram bastante marcadas por uma auto-absorção consciente. Ele afirma que a primeira pessoa do singular colonial marcou um discurso característico de uma certa fase das colônias de povoamento, como a Austrália e o Canadá, constituindose num protesto muitas vezes narcisístico contra o esquecimento num meio social e político opressivo que ameaça engolir o sujeito do discurso e contra o qual ele precisa afirmar sua liberdade8. Na África, a situação foi outra. Nas fases de resistência e construção da nação, sobretudo, os escritores africanos estavam muito mais interessados em representar as necessidades de uma coletividade mais ampla e não se deixavam levar facilmente pelo suposto encanto das narrativas de auto-afirmação pessoal pura e simples. Durante as décadas de 1950 e 1960, surgiram no continente africano inúmeras autobiografias explorando uma primeira pessoa do singular representativa de um grupo maior. Exemplos disso são L'enfant noir (1954) de Camara Laye e The African (1960) de William Conton. De acordo com Fraser, essas narrativas apareceram nos momentos imediatamente anteriores ou posteriores à independência e buscaram explorar a psique de uma comunidade emergente através da mente de um narrador-protagonista percebido como um representante dessa sociedade9.

Uma outra reação ao discurso imperial foi o uso acentuado da terceira pessoa do singular em romances surgidos nas fases de resistência e construção da nação e que tinham como finalidade recontar a história de suas sociedades a partir de seu próprio ponto de vista. Essa é a pessoa do discurso usada, por exemplo, em Things fall apart (1958) de Chinua Achebe, no qual o autor utiliza uma aldeia igbo como paradigma para a África no momento da chegada dos colonizadores europeus. Achebe tem como principal objetivo resgatar o passado histórico da África, contando-o a partir do ponto de vista dos próprios africanos, mostrando a lógica e a organização de sua sociedade e também revelando suas falhas e responsabilidades nos destinos futuros de suas nações. Por essa razão, as narrativas escritas na primeira ou terceira pessoa do singular durante as fases de resistência e construção da nação utilizam normalmente como tempo principal o que Fraser chama de passado histórico anti-imperial, que se contrapõe ao presente imperial ou antropológico e se configura por conferir um caráter único aos eventos, mesmo às ocorrências habituais, das culturas subordinadas. É um modo de reclamar o passado desses povos das generalizações feitas pelos estrangeiros. Fraser ainda afirma que, no romance europeu do século XIX, o uso do passado histórico era convencional, ainda que fosse ditado por pressões sociológicas e políticas. Já no caso da ficção pós-colonial de meados do século XX, esse tempo verbal é um recurso revolucionário, uma arma que os escritores têm para afirmar a importância de suas sociedades e o seu desejo de libertação10.

Nas fases de dissidência interna e transculturalismo, sobretudo nessa última, os autores têm em suas mãos todas essas pessoas do discurso e tempos verbais, podendo orquestrá-los da maneira que julgarem mais adequada aos seus objetivos estéticos e políticos. Em The interpreters de Soyinka e The beautyful ones are not yet born (1966) de Ayi Kwei Armah, dois romances do estágio de dissidência interna, ambos os escritores fazem novas experimentações. Soyinka intercala fluxos de consciência modernistas à tradicional terceira pessoa do singular e Armah narra a história de um homem comum, "The Man", através do pronome "ele", mudando, no meio da narrativa e sem maiores explicações, para "eu" e voltando, em seguida, para "ele" novamente. Essas experimentações se intensificam nas narrativas transculturais. O escritor somali Nuruddin Farah, por exemplo, em Maps (1986), utiliza três narradores intercalados: um em primeira pessoa, outro em segunda e o último na terceira pessoa do singular. Sem saber a princípio quem são essas vozes diferentes, o leitor percebe, na conclusão do romance, que se tratam das vozes de várias facetas da personalidade do protagonista Askar, numa espécie de julgamento interno por um crime do qual ele se considera moralmente culpado. O mesmo acontece com os tempos verbais. Tanto em Maps de Farah quanto num outro importante romance transcultural, The famished road (1991) de Ben Okri, há várias molduras temporais e a narrativa vai e volta sem ordem definida, configurando, na verdade, uma simultaneidade entre os tempos, como se todos ocorressem juntos.

À guisa de conclusão, gostaríamos de acrescentar apenas que o grande mérito de Fraser, a nosso ver, é propor que a nova crítica pós-colonial abandone a mistificação da teria pura e simples e se concentre na poética das obras dos escritores. É por isso que sua análise se concentra nos métodos individuais dos autores. A teoria deve, assim, partir da leitura das obras e não o contrário. Dessa forma, acreditamos que a discussão de sua argumentação é enriquecedora também para os estudos literários africanos realizados no Brasil.

Notas

1 FRASER, 2000, pp. 8-9.

2 Ibidem, pp. 26-9.

3 RADHAKRISHNAN, 1996, p. 183.

4 FRASER, 2000, p. 40.

5 Ibidem, p. 51, tradução minha.

6 Ibidem, pp. 65-6.

7 Ibidem, p. 100.

8 Ibidem, p. 69.

9 Ibidem, p. 76.

10 Ibidem, pp. 103-5.

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