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No Fim o Princípio: Raízes de Luuanda

Escrito por  Eliane Gonçalves da Costa
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A cidade parece ser, hoje, a condição material representativa da nossa realidade. Na modernidade, foi estudada e vista por muitos autores como uma espécie de espelho vazio para um sujeito sem rosto, nem perfil.

A cidade é o espaço da mudança constante, da alteridade, dos desafetos e também da total indiferença para com o outro, da extrema individualidade em resposta à extrema objetividade.

Nesse sentido, tornou-se um local de busca de identidade e alteridade. A literatura, em sua representação artística e função social, utiliza-se da existência física da cidade como uma possibilidade de reconstruí-la pelas palavras, dando novos contornos, criando personagens-arquitetos. Assim, transforma-se em objeto de desejo de poetas e ficcionistas, que vislumbram captam e registram o cenário urbano.

A compreensão da cidade moderna, que rapidamente se transformava, pressupunha o entendimento da geografia urbana como inscrição da subjetividade. De acordo com Kátia Canton a "idéia de metrópole carrega consigo uma fragmentação e uma mudança aguda no conceito de identidade (e de alteridade), deslocando as noções de tempo e de espaço"i. Cria assim, a imediata necessidade de recuperar o todo, ainda que saibamos dessa impossibilidade. As literaturas africanas de língua portuguesa, em especial, desenham, por meio do passado e da oralidade, o material preciso para suas edificações. Fortalecem tal idéia, pois reconhecem, nessas matrizes de passado e oralidade uma força ampla; um alicerce que, mesmo diante da edificação colonial, imposta por sua construção (que contraria a história de um povo e mistura as relações de passado, presente, futuro), constitui o elo para sonhar com uma nova Luanda. Decodificar a cidade passa a ser uma forma de identificar-se. Mas como pensarmos Luanda como uma metrópole, capital de Angola, sem pensarmos em seu passado colonial ou nos referirmos às marcas que a longa colonização deixou em seu espaço e em sua escrita?

CIDADE COLONIAL - LUANDA

A literatura em Angola está intimamente ligada a sua história. As estórias de Luuanda trazem, já no título, a cidade como representação do espaço de poder e símbolo da resistência. Segundo a professora Tânia Macêdoii, traz o musseque como matriz e elege Luanda como espaço da representação de sua poética, visto que é, até hoje, a "cidade da escrita".

Luanda, palco da revolução, é, antes de tudo, senhora que guarda a tradição, a natureza e suas belezas. Um passado que Vavó Xixi não vê, porque também é mantido preso, é a própria história da personagem mantida presa, um passado de memória, um segredo que, nesses tempos difíceis, fica escondido pela fome. Tudo isso é para vavó muito velho, muito antigo, sempre a vida dela lhe conheceu todos os anos, todos os cacimbos, todas as chuvas; e agora, nessa hora, a barriga estava lhe doer, a cabeça cadavez mais pesada, o corpo com frio.iii Além desse passado, também o espaço utópico é fundamental para Luuanda. Espaço em que o colonizador busca a construção de uma outra Lisboa - cidade portuguesa - que, como Salvador (Brasil) e São Paulo de Luanda (Angola), está dividida em cidade baixa e cidade alta.

Dividida em cidade baixa e cidade alta, tal qual Lisboa, a cidade se vê, num primeiro momento, desfigurada da paisagem natural e edificada sobre uma geografia nova e também opressora, pois afasta de seu centro os moradores, que vão construindo paralelamente uma outra cidade que, em Luanda, é representada pelos musseques. Em A imagem da cidade, Kevin Lynchiv sustenta que a legibilidade da paisagem urbana é um componente vital de toda cidade. Essa legibilidade é construída pela percepção de seus habitantes e constitui um processo que procede através de recortes e envolve uma série de referências ligadas não só ao meio ambiente, mas também à cadeia precedente de acontecimentos e à recordação de experiências passadas. As imagens, como afirma, são o resultado de um processo bilateral entre o observador e o espaço. O meio ambiente sugere distinções e relações, e o observador - com grande capacidade de adaptação e à luz de seus próprios objetivos - seleciona, organiza e confere significado àquilo que vê. O autor acrescenta que à medida que a cidade se torna um labirinto, dimensiona-se como símbolo poderoso de uma sociedade complexa, cuja leitura é a resistência ao caos.

CIDADE LITERÁRIA - OS LABIRINTOS DE LUUANDA

Numa época labiríntica, pensar na relação cidade-labirinto, nos impulsiona a origem do termo. Do grego labyrinthos, segundo o dicionário Auréliov é "edifício composto de grande número de divisões, corredores, galerias, etc. De feitio tão complicado que só a muito custo se lhe acerta a saída". Tal definição apresenta uma versão moderna da idéia de labirinto. Espaço polivalente, ligado ao mito de Teseu. "É antes de mais nada uma imagem mental, uma figura simbólica que não remete a nenhuma arquitetura exemplar, uma metáfora sem referente"vi. Talvez essa ausência tenha contribuído para a consolidação da metáfora contemporânea e apropriada da cidade como um grandioso labirinto. O século XX e suas metrópoles formam a grande imagem do labyrinthos, plural e misteriosa. Atravessar esses labirintos em busca de sentido seria ordenar, por meio da legibilidade, o caos da cidade. A leitura consistiria, então, na via pela qual os habitantespersonagens, levados pelas exigências de significação, reencontrariam a imagem da cidade por meio de pontos de referência que servem para articular seus discursos. Nesse labirinto, é difícil reconhecer a cidade, pois ela está mais presente na memória. A cidade muda mais rápido do que pode se acompanhar e compreender. É preciso buscar referências e sentidos no passado e na fala dos personagens. Escrever a cidade é lê-lavii.

Entretanto, para ler a cidade seria necessário que o personagem construísse uma nova sintaxe erigida a partir da perda, do descompasso, da diferença. Ou melhor, ser capaz de decifrá-la pelo intrincado e instável jogo do seu discurso, dando-lhe um traçado e uma geografia. Esse processo será feito na construção mítica de Luuanda, e na própria cidade (Luanda) que, como representação passa a ter nas marcas de sua construção, o passado inscrito no futuro. Assim, como sustenta Macêdo, é imprescindível reconhecer o papel de Luanda "na luta de libertação nacional, bem como o espaço preponderante que essa cidade ocupa no imaginário e na vida nacional dos angolanos contemporâneos"viii. A cidade para criar sua imagem, sobretudo após a década de 50, torna-se espaço literário. Luandino apresenta a cidade como marco zero de sua poética, (cabe ressaltar que os textos do autor são fortemente marcados por poesia - uma "poeti-cidade", se nos permitem a brincadeira com as palavras - sobretudo nas descrições de Luanda), o local em que o olhar (re)constitui o espaço é novo. De acordo com Rita Chaves , é pelas ruas de Luanda que transitam os personagens mais significativos; negros, pobres, brancos, imigrantes da metrópole ou das outras colônias percorrem os becos que ligam e separam os caminhos de areia das avenidas de alcatrão.O Makuluso, o Kinaxixe, a Cidade Alta, o Bairro Operário, mais que referências geográficas, constituem, nos textos de Luandino, representações culturais de um mundo em mudança.ix

Esse mundo transitório é ideal para construção de Luuanda. Segundo diversos estudiosos, é o livro que radicaliza a trajetória literária do autor. A cidade, tema recorrente em sua obra, torna-se a própria possibilidade da reconstrução (literária do espaço) e da rearticulação da linguagem.

A CIDADE E SEUS RITOS - LUANDA, LUUANDA

A queda das torres gêmeas - World Trade Center -, no 11 de setembro, é, pois, uma imagem marcante para a cidade no século XXI. De alguma forma, para o fundamentalismo, atingi-las funcionaria (e funcionou), como um "tiro" no coração da cidade, bem como uma paga divina, na Babel do capitalismo. Remete-nos a um mito, o da Babel bíblica, em que os descendentes de Noé, sobreviventes do dilúvio, decidem se fixar numa planície na terra de Sinear e ali, utilizando tijolos cozidos, edificar uma cidade e uma torre "cujo topo chegue até aos céus" (Velho Testamento). Quando iniciam a empreitada, o castigo, as línguas se embaralham, e a impossibilidade de comunicação divide as nações. A cidade, como local de mutações infinitas, pede um mapeamento de seus sentidos. A literatura, ao abordar a cidade, busca revelar seus diversos sentidos, sua polifonia. O professor Renato Cordeiro Gomes , ao estudar as representações da cidade na literatura, observa que a mesma é constituída de inúmeros símbolos, portanto, passível de combinações infinitas. Para o autor, é a linguagem que impossibilita a estagnação da cidade em seus signos a fim de que outra cidade imaginária possa existir, grafia urbana produzida pela atividade de leitura. Ler essas grafias urbanas, portanto, é detectar e decifrar o fio condutor de seu discurso, o seu código interno.x

Podemos tratar esse código interno como uma representação simbólica. Nessa perspectiva, é plausível aproximar o mito a esse "fio condutor do discurso". O mito, em sua acepção principal, é a narrativa de uma criação, explica como algo passou a ser. Portanto, Luuanda apresenta em suas três estórias, sua criação e a necessidade do reconhecimento da voz de seu povo, aqui tratado como personagens–arquitetos.

A análise de Luuanda, como cidade literária, dar-se-á na perspectiva do espaço como escrita, que cria a sua própria sintaxe. Seu labirinto pode ser decifrado na medida em que identifiquemos no espaço e nas personagens o fio condutor da narrativa. A saída de Luanda desemboca na entrada de Luuanda.

Lynchxi, numa leitura do espaço urbano, afirma: para que uma imagem se torne viável, comunicativa ou legível, o objeto deve ter uma significação afetiva para o observador, o que exige uma interação entre este e a coisa observada. Assim parece viável ler Luuanda nesse enfoque, pois tanto o mito quanto o rito recuperam, pela memória, uma relação adâmica entre o ser e a coisa.

Luuanda desponta como um rito de passagem em que o musseque numa grande ciranda, comemora uma nova cidade, edificada pelos símbolos que o povo angolano identifica. Esses símbolos tomam corpo na medida em que suas imagens vão redesenhando espaços. Tais espaços são descritos pela natureza e não são simples pontos de referência real ou simbólica, mas podem ser considerados personagens fundamentais na trama. Luandino, ao arquitetar Luuanda, coletivamente, leva-nos ao começo. Conhecer a origem das coisas, ainda segundo Eliade, "equivale a adquirir sobre as mesmas um poder mágico, graças ao qual é possível dominá-las, multiplicá-las ou reproduzi-las à vontade"xii. O tempo mítico, ritualizado, é circular, voltando sempre sobre si mesmo. É precisamente essa reversibilidade que liberta o homem do peso do tempo morto, dando-lhe a ilusão de que ele é capaz de abolir o passado, de recomeçar sua vida e recriar seu mundo. Os símbolos que compõem Luuanda ligam as duas cidades: a literária e a real. Compreendê-las é ir à origem, tomar parte de sua magia, sonhá-la com outras nuances. Olhar e efetivamente vê-la.

Referências bibliográficas:

BRUNEL, P. Dicionário de mitos literários. Brasília: Ed. UNB, 1988.

CANTON, K. "As nuances da cidade". In: Revista Bravo!. v. 54, mar./2002, pp. 49-51.

CHAVES, Rita. Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê, 2005.

MACÊDO, Tânia. Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo. Perspectiva, 2004.

GOMES, Renato Cordeiro. Todas as cidades, a cidade. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

VIEIRA, José Luandino. Luuanda. São Paulo, Cia das Letras, 2006.

i CANTON, 2002, p. 49.

ii CHAVES; MACÊDO, 2006.

iii VIEIRA, 2006, p. 22.

iv LYNCH, 1997.

v HOLANDA, 1993, p. 577.

vi BRUNEL, 1988, p. 556.

vii GOMES, 1994.

viii CHAVES; MACÊDO, op. cit., p. 179.

ix CHAVES, 2005, p. 21.

x GOMES, op. cit., p. 32.

xi LYNCH, op. cit..

xii ELIADE, 2004, p. 83.

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