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Laços Fraternos: Orlando Mendes e João Cabral de Melo Neto

Escrito por  Elídio Nhamona
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Fraternidade tem haver com irmandade e conseqüente pertença a uma origem paterna comum. A fraternidade a que neste texto nos referimos foi resultante do movimento encetado por Portugal na expansão marítima no século XVI.

A expansão propiciou partilhas culturais. Tais zonas de partilha de língua e cultura permitiram que houvesse um macrossistema onde circulam temas afins. O macrossistema existe em função do contributo específico de cada sistema literário. Neste conjunto, a literatura portuguesa é mais antiga e a brasileira e dos países africanos de formação recente.

Todavia, o macrossistema literário em língua portuguesa resulta também da interação com outros sistemas atrelados as línguas francesa ou inglesa, por exemplo.

Sobre as relações fraternas entre Moçambique e Brasil, Rocha1 refere-se que aproximação ocorreu no século XVI. A aproximação fez com que padrões e hábitos culturais de ambos os territórios fossem partilhados devido ao comércio e constassem no imaginário dos indivíduos e dos grupos. No século XIX, por causa do tráfico de escravos, as interações aumentaram a ponto de se desejar uma união política.

Nestas relações tivemos trocas recíprocas de costumes, tradições, vocábulos e linguagens. Por isso, Orlando Mendes saúda "com respeito e carinho os escritores brasileiros de que alguma produção mais ou menos subrepticiamente vinha ter às mãos da adolescência e juventude dos agora mais velhos"2. Na educação dos escritores moçambicanos que contribuíram para a formação do sistema literário moçambicano constaram escritores brasileiros.

O presente trabalho tem por objetivo fazer uma análise comparativa entre os poemas "A noite e os galos" de Orlando Mendes e "Tecendo a manhã" de João Cabral de Melo Neto3. Vê-se como Mendes capta e se apropria de temas e símbolos do poema de Neto. A apropriação, fenômeno intertextual e intersemiótico, é um labor dialético, um meio de interação entre os autores e seus respectivos sistemas literários.

1. "Os galos da minha terra"

Em "A noite e os galos", Mendes organiza o seu poema em versos livres constituídos por quatro tercetos, uma nona e uma estrofe de onze versos. O poema é articulado por conjunções copulativas e no fim pela adversativa "mas". No primeiro terceto, temos a clarificação do sentido da noite do título, uma claridade frouxa que se instaura e que é rapidamente perdida. A ausência de luz, não é somente derivada de uma situação presente, mas a gênese bíblica do homem, "a primeira escuridão". Escuridão que precedeu o se faça luz do princípio, o domínio das trevas, e subseqüente pecado original, estabelecendo relação temporal o título do livro, Depois do sétimo dia. A escuridão enunciada refere-se ao fenômeno físico, mas também a presença opressiva de um poder temporal. A pouca claridade esvai-se como um rápido, qual água que poderia matar a sede. Temos aqui insinuação de carências físicas e intelectuais. Na segunda estrofe, a noite é acrescida à lua cheia e ao dinamismo da vida nos partos e na mitose. A lua cheia é explicitada como um evento regular que ocorre de quatro em quatro semanas. Outro aspecto a salientar na lua cheia é sua plenitude manifesta no seu pleno brilho. A plenitude e o vigor da lua, dos partos e das mitoses ocorre de madrugada. Neste período noturno a natureza manifesta-se na sua máxima força. Na mesma estrofe, o sujeito poético enfatiza a "lucidez das insônias". Esta lucidez prejudica o descanso e a conseqüente renovação de energias para o trabalho do dia seguinte. Na sua discrição do trabalho, insinua que existe uma arrogância do estabelecido devido a um estado geral de trevas e falta de perspectivas animadoras.

À noite, tempo de gestação e conspiração se alarga na terceira estrofe "a gravidez", "a larva", "a semente" e aos "tecidos". O vigor e a vivacidade são realçados pelo uso de noções como "pulsar", "metamorfose", "germinação" e "renovação". O sujeito poético percebe - "sente-se" - estes estados nos organismos animais e vegetais e nas palavras abafadas. Nesta percepção cria-se paradoxalmente outro tempo obscuro, local. Na quarta estrofe, "os galos" agem em conjunto para desagrado do poder. O cantar dos galos na alta noite contradiz a lógica européia.

E na quinta estrofe, questiona-se aos leitores sobre o canto dos galos, que usam o seu impulso gregário para comunicação. O questionamento é feito na segunda pessoa do plural do indicativo do verbo ouvir. O sujeito poético alerta ao coletivo sobre a "calma aparente" da sua terra. Note-se que os galos estão em capoeiras, presos e com suas ações limitadas. Todavia unem-se para partilhar preocupações grupais. A última estrofe termina de forma exclamativa e se afina com a rebeldia incômoda do cantar coordenado dos galos. Estes galos comungam com o sujeito poético uma terra, por isso são "os galos da minha terra". Nas ações dos galos realça-se sua solidariedade perante a adversidade persistente. Portanto, temos no poema a consciência do tempo e do lugar de opressão. Mas esta situação criou condições para que clandestinamente ações de mudança ocorram e não cessem enquanto não levadas a bom termo. Assim, temos dois símbolos antônimos reiterados no poema: à noite como o tempo de opressão, arquitetados por forças inter (nacionais) e os galos - o bom augúrio favorável que no presente se articula para mudar o estado de coisas. Mas as oposições realçadas são na verdade complementos de um dinamismo histórico propiciado por tempo hostil e a assunção de pertença a um lugar por libertar.

2. Construindo o amanhã

Em "Tecendo a manhã", temos logo de início uma enunciação proverbial: "um galo sozinho não tece uma manhã". Esse enunciado é de seguida demonstrado ao se mostrar que o galo é na partilha de ações. No terceiro verso da primeira estrofe, temos a demonstração desta solidariedade grupal. São reiterados os agentes - os galos - e as ações - "apanhe", "lance" e "gritos". Todavia, a função de sujeito muda consoante o papel de cada no decorrer das ações. As frases são encadeadas pela conjunção copulativa "e" pelo ponto e vírgula, mostrando a coordenação contínua das ações por parte dos intervenientes. Porém, a construção coletiva da manhã só é possível pela capacidade de cada galo particular. A soma dos gritos cria condições para que o produto pretendido, a manhã, seja finalmente vislumbrado. "Os fios de sol", apesar de imperfeitos, vão inevitalvemente construir uma manhã consistente.

Na segunda estrofe, o produto ainda está em processo de fabricação, pois os verbos estão no gerúndio nos primeiros versos. Tais verbos indicam ações coletivas em beneficio comum. E aqui o produto é "tela", "tenda", "manhã". O produto resulta do esforço individual e produz uma sensação estético-visual. Também é tenda, lugar de morada, proteção para o grupo. Este lugar é seguro não somente em termos de conforto físico como também supre as necessidades espirituais dos galos. Produto, que de tão bem trabalhado, ganha autonomia e age assim de forma livre. Mas tal liberdade só é em função dos seus produtores, os galos. Em suma, Neto neste poema mostra a necessidade do indivíduo agir numa perspectiva comunitária, na construção de um desejado bem estar comum e que este seja de tal modo arquitetado que seja autômato em produzir efeitos benéficos4.

3. O lugar da escrita

Se afinidades fraternas permitem aproximações, vejo em Mendes uma apropriação contextualizada do poema de Cabral. No poema de Mendes temos referências ao seu tempo. Mendes considera que "a vivência do escritor é a condição básica da criatividade literária"5. O escritor vive numa cultura. Esta adquirida na socialização é um conjunto de feixes de sentidos e formas de ver o mundo que conformaram a sua mentalidade. Nesta sócio-esfera se transmite e adquire os hábitos, padrões e símbolos. Em "A noite e os galos", as transformações decorrem à noite e o sujeito poético se refere à noite colonial. Esta noite política está associada à outra, religiosa e cultural. Em 1940 foi assinada a concordata entre o Vaticano e o Estado Novo. A Igreja Católica passou a educar o indígena para nacionalizá-lo em hábitos e aptidões favoráveis aos interesses portugueses. A sociedade colonial moçambicana era guiada pelos aparelhos ideológicos do regime. Por isso, a consciência de opressão é recorrente em Clima (1959) e Depois do Sétimo Dia (1963), livros de Orlando Mendes6.

Em Mendes as ações decorrem à noite, no presente do indicativo e no gerúndio, mostrando assim ações em processo, reais e positivadas, enquanto que em Neto temos os verbos no presente do conjuntivo e no gerúndio, mostrando ações desejáveis em processo. Em Mendes temos um conjunto de condições favoráveis para o bom termo das ações dos galos explicitadas. Existe um conjunto de fenômenos vitais nos organismos vivos que são indícios de tempo apropriado para produzir a mudança. Mas o que propicia a mudança é a consciência da existência de um sistema opressor que faz calar as vozes que pensam na mudança. Em "A noite e os galos", discurso poético é construído no sentido de mostrar que está perante um lugar diferente, peculiar. Naturalmente a minha terra se articula com outros espaços descritos no poema como o "mundo" dos oprimidos.

Enquanto que em Neto já se tece a manhã, em Mendes a luz desejável do sol ainda é um mirante indefinido que está sendo anunciado por um conjunto de fenômenos ligados a natureza. A noite é o tempo em que decorrem as ações enunciadas, período de opressão e de construção da esperança. Por causa da opressão, se articulam um conjunto de ações para acabar com a noite. Há em Neto o processo de construção da manhã por meio do ato solidário dos galos e já se tem os benefícios da empreitada, enquanto que em Mendes existe um desejo de construção de um futuro diferente, melhor. Por isso, interpela o conjunto da sua sociedade sobre o canto dos galos. Vê no seu cantar um "instinto de solidariedade" que tem por objetivo a defesa do território. Há uma exortação poética que os homens estejam alertas como os galos, pois existem condições favoráveis para a mudança. Portanto, temos em "A noite e os galos" de Mendes uma apropriação de "Tecendo a manhã". Segundo Abdala Junior7, "trata-se de uma apreensão intertextual e intersemiótica múltipla da série literária em interação dialética com outras séries culturais". No sujeito poético de Mendes há o desejo e o incentivo à união de forças sociais para mudança. As forças têm como exemplo a ação dos galos. Nos poemas de João Cabral de Melo Neto e de Orlando Mendes, o galo é o símbolo do agir solidário para construção de uma melhor situação. Temos em ambos os poemas a indicação do caminho a trilhar, a unidade e a solidariedade, por um viver melhor e fraterno.

Referências bibliográficas:

ABDALA JUNIOR, Benjamim. Literatura, História e Política. 2 ed. São Paulo: Ática, 2007.

"Tecendo a manhã: João Cabral de Melo Neto". Orion, São Paulo, ano II, n. 2, p. 9, Dez. 1999.

NEWITT, Malyn. A History of Mozambique. London: Hurst & Company, 1995.

ROCHA, Aurélio. "Contribuição para o estudo das relações entre Moçambique e o Brasil - século XIX". STVDIA, Lisboa, n. 51, pp. 61-118, 1992.

SOPA, António. "Alguns aspectos do regime de censura prévia em Moçambique (1933- 1975)". In: 140 anos de imprensa em Moçambique. RIBEIRO, Fátima e SOPA, António (Coord). Maputo: Amolp, 1996, pp. 89-120.

MENDES, Orlando. "Vivência e Expressão literária". Cadernos de consulta, Maputo, n. 3, AEMO, [198- ].Depois do sétimo dia. Lourenço Marques: Publicações Tribuna, 1963.

MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

1 ROCHA, 1992.

2 MENDES, [198-], p. 9.

3 Idem, p. 123; MELO NETO, 1994, p. 345.

4 ABDALA JR., 1999, p. 9.

5 MENDES, [198-], p. 8.

6 NEWITT, 1995, pp. 445-516; SOPA, 1996, pp. 89-120.

7 ABDALA JR., 2007, p. 45.

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