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O Terrorista de Berkeley e a Cartigrafia Identitária de Angola

Escrito por  Robson Dutra
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Uma vez estabelecida a liminaridade do espaço-nação, sua diferença volta-se da fronteira "externa" para a finitude "interna" e a ameaça da diferença cultural deixa de ser um problema de "outro" povo. Transforma-se em uma questão do povo como um.

(Homi Bhabha)

 

Jean Baudrillard, um dos mais influentes pensadores da modernidade, reflete sobre o conceito de "verdade" questionando sua formulação e, sobretudo, o caráter absoluto que ele tem em nossos dias e o faz a partir de uma teoria calcada na ironia. Um de seus objetivos é apontar como o sentido de "verdade" se constitui de fragmentos ao invés de textos unificados por uma lógica rigorosa. Isso faz com que jamais tenhamos contornos absolutos do que nos rodeia. Nessa perspectiva, oposição e paradoxo tornam-se mais relevantes que o discurso linear, visto que, dada a evolução dos signos, as representações do real tornam-se cada vez mais complexas e, por isso, totalmente dissociadas de conceitos unificadores.

Com efeito, muitos são os filósofos, historiadores e teóricos da literatura que apontam o começo do século XX como o do início de marcas profundas de transformação nas artes, trazendo em seu bojo o Modernismo através de uma série de movimentos estéticos que se organizaram em torno de revistas e de manifestos que apontavam para novos rumos. Tal afirmativa já não é possível quando temos em mente a contemporaneidade ou a pós-modernidade, visto que os movimentos e os grupos referidos deixaram de existir. Soma-se a isso o fato de que a produção literária passou a se inscrever numa diversidade tal que é impossível fazermos uma escolha que possa representar as obras que foram produzidas após o esgotamento do signo da modernidade.

Um outro pensador, Jean-François Lyotard, embora também não se atenha especificamente sobre questões literárias, assinala a era pós-moderna como sendo o estado da cultura após as transformações que afetaram as regras da ciência, da literatura e das artes. Desse modo, se a modernidade corresponde à era da industrialização e seus efeitos nas relações entre os homens, a pós-modernidade é aquela da pós-industrialização e da informatização da sociedade. Como sabemos, a modernidade teve como marco principal a crença no racionalismo e no desenvolvimento de uma série de idéias que ratificavam a emancipação do sujeito racional e do trabalho como fruto do desenvolvimento e do progresso. Essa é a razão por que em grande parte de seus textos surge a figura de protagonistas que lutam por princípios éticos, pela paz universal, pela justiça, enfim, por um bem social ou individual em nome de sua "verdade". A pós-modernidade, por sua vez, se caracteriza pelo estilhaçamento deste sentindo e, uma vez mais voltando-nos às premissas de Baudrillard, se sustenta no racional, dando origem à multiplicidade, à heterogeneidade e à dispersão de valores e sentidos. A função narrativa de apresentar uma história em que as personagens têm de enfrentar adversidades em função de um objetivo perde sua razão, apontando, como afirma Lyotard, para a decomposição dos grandes relatos, a dissolução do vínculo social e a passagem das coletividades sociais ao estado de uma massa composta por átonos individuais lançados num absurdo movimento browniano. Se os movimentos estéticos do início do século XX possuíam vínculos sociais e objetivos críticos bem definidos, na literatura pós-moderna tais laços foram desfeitos e a multiplicidade de tendências que surge em função do estilo de autores impossibilita um estudo sistematizado das características literárias de um país na pós-modernidade.

Estas afirmativas se revelam extremamente relevantes quando as associamos à obra de Pepetela. Se em suas primeiras narrativas, mais especificamente aquelas centradas na fase inicial das lutas de libertação do colonialismo, o perfil de um herói com traços "épicos" surge aliado às utopias de libertação, vemos que, ao longo do processo histórico que seu texto ficcionaliza. Nelas dá-se a degradação desse tipo de personagem que resultará, posteriormente, em seu total apagamento. Assim, a contemporaneidade angolana é marcada pelo riso e pela descrença que, voltando às considerações iniciais desse texto, acentuam a fragmentação que resulta no florescimento de uma grande sorte de "verdades" de que Pepetela não abre mão em suas narrativas.

O Terrorista de Berkeley, Califórnia, publicado em 2007, é um romance bastante interessante por algumas razões. A que mais se destaca num primeiro olhar é, muito provavelmente, o fato de este ser o primeiro romance de Pepetela ambientado fora de Angola e mesmo da África. As poucas referências ao continente e a seu país restringem-se à enunciação, quando palavras de origem quimbundo ou próprias da variante do português angolano, como "muata, "mambo", "bófia", etc., são mencionadas.

Ainda que o nome Angola não seja referido explicitamente, há uma única menção direta ao universo africano e suas particularidades quando, ao fim da narrativa, os agentes federais invadem a universidade e encontram, numa sala trancada a chave, um professor de lingüística banto dormindo após o almoço. A personagem, ao fazer uso, nos EUA, de um costume africano serve de contraponto aos costumes e tradições, pois contraria uma rígida norma universitária que impede, em nome da moral e dos bons costumes, mas que também aponta para a ironia, que gabinetes tenham suas portas encerradas.

Uma outra característica relevante, que faz valer a premissa deste autor, em A Geração da utopia, de que "os ciclos são eternos", é o fato de o romance ter sido escrito por ocasião de sua ida à Universidade de Berkeley, nos EUA, em 2003, como escritor convidado. Pepetela resolveu produzir algo para si mesmo, como passatempo, e, mais uma vez, sem intenção de publicação, após haver exaurido as visitas turísticas a São Francisco e adjacências. Esta característica aproxima O Terrorista de Berkeley de obras como Muana Puó, As Aventuras de Ngunga e Mayombe, por exemplo, concebidas, similarmente, no pré-independência sem qualquer intuito de publicação, mas apenas como forma de refletir sobre o presente ou, no caso da que tem o jovem Ngunga como personagem, como romance de aprendizagem que serviria, igualmente, como cartilha para a aprendizagem da língua portuguesa nos primeiros instantes da revolução contra o colonialismo.

O Terrorista de Berkeley, Califórnia, por sua vez, é centrado na figura de Larry, um jovem norte-americano de notável conhecimento e que, por isso, cursa simultaneamente Matemática e Informática na universidade em questão. Desiludida com a falta de interlocutores entre seus colegas e o fim de abrupto de um namoro, a personagem decide explorar e, posteriormente, preencher o tempo ocioso invadindo páginas da internet - em geral de empresas californianas e de organismos governamentais. Sua intenção não é, todavia, prevalecer-se de suas "vítimas", mas também testar sua habilidade mental privilegiada, visto que os inúmeros segredos que lá descobre são de pronto esquecidos. A solidão do mundo virtual, entretanto, faz com que Larry abandone a empreitada para se dedicar à troca de mensagens eletrônicas com um afro-americano, Tomson, filho fictício de um mendigo de nome Tom, que conhecera entre o caminho da universidade e da casa de um casal de idosos americanos, de quem aluga um quarto externo à casa. Tom é um dos muitos homelesses americanos e vive na praça principal de Berkeley, como "dezenas de miseráveis que enchiam os passeios da praça à noite, aproveitando os recantos dos prédios com seus cobertores sujos e sacos-cama esburacados" (OTBC, p. 32), após ter sido abandonado pela esposa e pelos três filhos, cuja preocupação maior é enriquecer a qualquer preço e custo.

Assim, o sentimento de não pertencimento e de injustiça sofrido pelos diferentes tipos de miserabilidade que afeta ambas as personagens cria em Larry a necessidade de aprofundar temas como solidão, descaso, abandono e outra série de infortúnios que aniquilam nossa sociedade. Tal fato dá origem à criação do interlocutor imaginário e a uma série de mensagens, algumas delas com forte cunho de protesto, que os faz propor, como solução parcial de seus problemas, uma explosão metafórica de ícones norte-americanos que se associam a tudo aquilo que lhes causa desconforto. Assim, a ponte Golden Gate e outros pontos turísticos locais, como o metrô que atravessa a baía de São Francisco e alguns outros prédios famosos tornam-se alvos de possíveis atentados que, através de um processo de sublimação, poriam fim a parte das injustiças sofridas por estas personagens e pela sociedade de um modo geral. O que ambas desconhecem, todavia, é que, numa mescla entre a história e a ficção que bem caracteriza a prosa pepeteliana, os acontecimentos posteriores ao dia 11 de setembro de 2001 e que são enunciados como "rude golpe na moral americana" (OTBC ,p. 63), deram início a um exaustivo trabalho de investigação por parte do governo americano que passou a investigar criteriosamente todo tipo de mensagem eletrônica trocada no ciber-espaço. Neste ponto, surgem interseções com outras obras de Pepetela, como o abandono paulatino do mundo real pelo virtual que acomete João Evangelista, o esposo de Carmina Cara de Cu, em O Desejo de Kianda e, no que se refere à variante investigativa do romance como gênero literário, a retomada das narrativas policiais protagonizadas pelo detetive Jaime Bunda, personagem de Jaime Bunda, agente secreto e Jaime Bunda e a morte do americano que parodiam James Bond, paradigma do espião de primeira grandeza. Nelas, todavia, a personagem angolana se afasta da glamourização produzida pelo cinema, mas, no entanto, através de um processo obtuso de pensamento, descobre, a partir de um crime sem conotações políticas, uma série de delitos de maior gravidade que envolve personagens da elite angolana, numa séria crítica ao neoliberalismo e ao "esquecimento" dos ideais que nortearam estas mesmas personagens durante o processo de consolidação da nação.

Em O Terrorista de Berkeley, a narrativa focaliza grupos de inteligência do governo norte-americano, nomeadamente o FBI, que fazem um exame minucioso de todos os e-mails enviados e recebidos nos EUA, tentando descobrir outros crimes possíveis. Tal qual o chefe supremo do bunker onde Bunda trabalha, o Big Brother americano, tudo ouve, tudo vê, tudo sabe. Assim, descoberta das mensagens trocadas por Larry e Tomson, posteriormente transformado em Brad, conduz tais serviços a uma caçada desenfreada desses novos "terroristas", eixo-temático desta narrativa.

Através destes procedimentos, traços investigativos explicitados nos romances protagonizados por Jaime Bunda ressurgem, parodicamente, em Steven Watson, nome do chefe do grupo de combate ao terrorismo na região de São Francisco, que, por sua vez, faz alusão a outra personagem da literatura policial, nesse caso, ao Dr. John Watson, companheiro de Sherlock Holmes, personagem de Conan Doyle, figuras paradigmáticas dos romances investigativos.

Ressurge, também, na figura igualmente obesa e lerda de Juan Martinez, um imigrante mexicano que fora preso ao ser descoberto ilegalmente nos EUA e que, para livrar-se da cadeia, denunciou toda uma rede de venda de conveniências a estrangeiros, sem poupar nem mesmo sua família. Foi essa "prova de lealdade" que, associada à necessidade de alguém que falasse espanhol fluentemente, fez com que a personagem fosse contratada pelo FBI, passando, assim, a integrar os quadros oficiais do governo. É Martinez que "deixa cair o corpo gordo na cadeira, com a barriga sempre cheia de tacos e burritos" (OTBC, p. 9), numa alusão ao conceito de "gordura do poder" proposto por Mikhail Bakhtin para prevenir Watson da descoberta das primeiras mensagens.

Todavia, esse esforço desmesurado resulta, por diversas vezes, num riso irônico e dessacralizador quando se descobre, por exemplo, que a "bomba" a que algumas das muitas mensagens interceptadas no espaço fazem alusão não se associam à Al Qaeda, Bin Laden ou Asnobush, servindo tão somente para designar o utensílio usado "para puxar água de um poço, ou ajudar um asmático a respirar" (OTBC ,p. 11). A esses se somam muitos outros mal-entendidos decorrentes de particularidades das quatro mil línguas do mundo que são deixadas de lado ao serem traduzidas simultaneamente pelos mecanismos de investigação através de programas que desconhecem conceitos lingüísticos como conotação e denotação.

Quem as rastreia é Mao Zedong, nome que, se observada a pronúncia, parodia o de Mao Tse Tung, líder da China comunista que, obviamente se opõe ao conceito de "democracia" que norteia os EUA, sobretudo porque este Mao é bisneto de imigrantes que construíram a estrada de ferro na Califórnia, um dos ícones da sociedade capitalista. Na verdade, seu nome é outro, porém o distanciamento da comunidade e da família faz com que tanto os amigos quanto ele mesmo deixem de lado a verdadeira identidade - aparentemente desconhecida da diegese -, afastando-se, como Martinez, de suas origens.

Helen é outra personagem que se distancia de seus princípios. Apesar de norte-americana nata, ela abandona a militância na extrema esquerda durante a guerra do Vietnam, quando estudava na universidade de Stanford, para derivar para o extremo oposto. Isso é: em nome do futuro dos netos, a personagem se esquece das manifestações contra o imperialismo e pela paz mundial de que participou para integrar quadros oficiais do governo Bush. São, desse modo, os conhecimentos adquiridos num doutoramento em lingüística que lhe permitem ler cada mensagem, identificando, através da discursividade, a origem provável de seus autores.

Enfim, nessa empreitada surgirão outras personagens como Kate, outra investigadora do FBI, filha de mãe somali e de pai havaiano, que passará a ajudar Mao em seu trabalho e ainda um russo, perito em decodificação, remanescente dos antigos quadros da KGB. Na oposição a esta empreitada, ainda que inadvertidamente, está Nabakov, um colega eslavo de Larry em Berkeley que, incomodado com o cerco ao website da universidade, fecha provisoriamente, a entrada do FBI em seu sistema operacional. Todas essas personagens se ligam não apenas ao universo ficcional como acabam, num segundo olhar, sendo as que compõem o melting pot, ou seja, o caldeirão de misturas raciais que constitui a sociedade norte-americana.

No entanto, sobre todas recai o olhar crítico de Steve Watson que, em atitude pseudo-patriótica, renega a tendência de essas margens sempre presentes convergirem para o centro, escorado, muito provavelmente em frustrações pessoais e profissionais que resultam num rancor contra "a cambada de promíscuos derivados de mulatagens espúrias" (OTBC, p. 98). Tal se dá quando a personagem se refere tanto às diversas identidades que Larry passa a assumir ao fim da narrativa, como, por exemplo, a de Ahmed, um muçulmano, ou de Jennifer, "uma iraniana nascida nos berços do fundamentalismo xiita" (p. 90) quanto as diversas origens culturais daqueles que este inspetor tem sob seu comando. Assim, Pepetela faz emergir o que Homi Bhabha enfatiza ao afirmar que "o vir a ser de uma nação como sistema de significação cultural e como representação da vida social, ao invés da disciplina da organização política social enfatiza uma instabilidade do conhecimento" (BHABHA, 1998, p. 1) que Watson, metáfora, nesse caso, dos governantes norte-americanos, vem insistindo em querer estável a qualquer preço...

Uma outra faceta bastante relevante de O Terrorista de Berkely, Califórnia, está na maneira como a virtualidade passa a ter suas dimensões ampliadas a partir iniciativas como as de Larry, ao tentar aplacar, no cyber space, um pouco sensação de solidão e não pertencimento inerente à sociedade contemporânea. Assim, na medida em que a personagem vai-se enredando pelos labirintos dos organismos anti-terrorismo, o leitor se depara com uma indagação: até que ponto a virtualidade se opõe ou se une ao real? Pelo pressuposto de haja oposição entre essas duas instâncias e tendo em vista toda a parafernália tecnológica que caracteriza a busca desenfreada por informações "ameaçadoras", tem-se a impressão de que a virtualidade assinala o fim da realidade. No entanto, tendo em vista uma outra suposição que é a de que fazer acontecer um mundo real implica sua produção, o real jamais foi outra coisa senão uma forma de simulação que implica sua não existência. Assim sendo - e mais uma vez a contribuição de Baudrillard é imprescindível -, a virtualidade não é mais que uma hipérbole dessa tendência de passar do simbólico para o real, fazendo com que virtual coincida com a noção de hiper-realidade.

Com isso, a estrutura espiralada do real que se associa a uma outra espiral de natureza virtual acaba por ser subjugada por ela, fazendo-o tornar-se o simulacro de um outro simulacro. Sendo assim, a dita "realidade virtual" tornou-se um oxímoro, ou seja, fez com que deixássemos a concepção de que virtual era tudo aquilo que estava destinado a tornar-se ato para, então, ocupar o lugar do real. Na contemporaneidade que o romance de Pepetela enuncia, o virtual se tornou aquilo que ocupa o lugar do real, tornando-se sua solução final na medida em que efetiva o mundo em sua realidade definitiva, assinalando, simultaneamente, sua definição.

Nessa empreitada revela-se um outro postulado de Baudrillard, ou seja, o de que os Estados Unidos são "o grau zero da cultura", pois, paradoxalmente ao desenvolvimento que caracteriza esta nação, sua sociedade é regressiva, primitiva e altamente original em sua vacuidade que, através de procedimentos irônicos de Pepetela ainda crê num inimigo à distância quando, na realidade, ele já está perfeitamente integrado a sua sociedade, agindo de maneira imperceptível.

Desse modo, Pepetela traça uma caricatura dos nossos tempos e da paranóia desencadeada pelo terrorismo e pelo fundamentalismo que fazem que todos nos sintamos reféns do medo, de inimigos imaginários e imaginados que se encontram em tudo o que olha e se move. Portanto, torna-se inegável a certeza de que vivemos em uma nova fase da história, em um novo mundo organizado em torno de simulacros e simulações, no qual somos alcançados ininterruptamente pelo jogo de outros simulacros - muitos deles bastante perversos -, o que transforma radicalmente nossas experiências de vida, destrói os sentidos e as significações, e esvazia completamente o conceito de realidade.

Como molas-mestras deste processo estão os meios de comunicação metaforizados em O Terrorista de Berkeley, Califórnia, naquilo que conhecemos de mais moderno e vertiginoso, que é a internet. Por isso, não podemos deixar de lado o conselho de que "temos que pensar nas medias como se fossem, na órbita externa, uma espécie de código genético que comanda a mutação do real em hiper-real". Como lhe é característico, Pepetela lança mão do humor cáustico e da ironia refinada, deixando quase fugir a idéia de que foi ele próprio que teve o impulso e o prazer de a personagem principal de se fingir, num jogo perigoso, de terrorista. Por isso, o desenlace da narrativa é - numa outra alegoria de nosso tempo - caótico e violento. A morte de Larry, assassinado com doze tiros nas costas, caído sobe o computador, "como a tentar protegê-lo" (OTBC, p. 114) e a do senhor Davis, seu pacífico senhorio que enfartou diante da acusação de terrorismo que o levou à prisão, exacerbam a crueza de um processo histórico recalcitrante, que deixa escapar um forte gosto de impotência e incapacidade diante de forças ditas "maiores" e seguramente mais potentes.

Assim, deambulando por território norte-americano, Pepetela traz à cena um texto disfórico em que a desconstrução paródica revela o desmantelamento e a ruína, trazendo consigo uma série de reflexões sobre as dificuldades de sobrevivência no mundo atual. Por isso, torna-se crucial, numa última alusão crítico-teórica, fazer vir à tona o pensamento de Walter Mignolo em que "histórias locais" tornam-se vias de expressão de "projetos globais".

O Terrorista de Berkeley, Califórnia constrói-se a partir de interstícios, abrindo-se para as categorias daqueles conhecidos como "foras da lei", isto é, os imigrantes (legais ou ilegais, neste caso), a multiplicidade étnica e as diferenças culturais, recolocando, igualmente sua oposição "ao conhecimento racional e asséptico de teoria e conhecimento" (MIGNOLO, 2003, p. 157). Assim, em última instância, este texto de Pepetela mais uma vez insiste "nas ligações entre o lugar da teorização (ser de, vir de e estar em) e o locus de enunciação" (...), revelando que os "loci de enunciação não são dados, mas sim encenados" (ibidem, p. 165).

Desse modo, a partir de um não-lugar de pertencimento, sua narrativa provoca um deslocamento no modo de olhar a localidade, fazendo-nos entrever não apenas a Angola, a África, mas uma série de outros espaços muito mais próximos, conhecidos e ameaçadores...

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUDRILLARD, Jean. Senhas. Rio de Janeiro: Difel, 2001.

BHABHA, Homi. O Local da cultura. Belo Horizonte, UFMG, 1998.

JAMESON, Fredric. Pós-modernismo - a lógica do capitalismo tardio. Rio de Janeiro, Ática, 2004.

MIGNOLO, Walter. Histórias locais, projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2003.

PEPETELA. O Terrorista de Berkeley, Califórnia. Lisboa, Dom. Quixote, 2008.

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