testeira-loja

Literatura Angolana: Utopias Pré e Pós-Libertação

Escrito por  Leonardo Puglia
Classifique este item
(69 votos)
Assim como as demais formas de manifestação artística, a literatura produzida em um país está sempre inserida em um determinado contexto histórico em que as conjunturas política, econômica e social influenciam a forma e o conteúdo das obras de uma geração de escritores.

Com o fim do colonialismo, na segunda metade do século XX, o mundo assistiu a um turbilhão de transformações e convulsões político-sociais assolar países subdesenvolvidos, em especial, as nações africanas.

Tensões ideológicas típicas do período de guerra fria contribuíram para acirrar disputas políticas e, principalmente, para estimular o debate em intelectualidades emergentes. Em Angola, a evolução histórica não se deu de forma diferente, sendo a nação africana um exemplo ilustrativo de como as transformações políticas e sociais de um país são capazes influenciar sua produção literária.

O principal objetivo deste trabalho é discutir como a trajetória da Angola pós-independência contribuiu para a crescente hegemonia de uma postura de desencanto na produção literária, em contraste com a abordagem otimista dos anos de luta pela libertação. Devido às dimensões limitadas do estudo, duas obras ilustrativas de momentos bastante distintos da história da literatura angolana foram tomadas, para efeito de comparação. Pelo seu valor literário, artístico e emblemático, e pela relevância cultural de seus autores, foram examinados o conto "A estória do ovo e da Galinha", escrito, em 1963, por Luandino Vieria; e o romance "A Geração da Utopia", escrito por Pepetela, lançado em 1993. A intenção é mostrar como a perspectiva literária utópica vai se desintegrando durante esses 30 anos, diante das frustrações criadas pelo fracasso sócio-político deste novo Estado-nação. Este trabalho é resultado da implementação do curso de literaturas africanas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, iniciativa que provocou enriquecimento e diversificação curricular em seu Instituto de Letras, além de propiciar a estudantes de outros Institutos uma oportunidade nova de conhecimento de traços bastante significativos da história, cultura e da literatura africanas.

Luandino Vieira e a utopia libertária

O conto "A estória do Ovo e da Galinha" faz parte da coletânea "Luuanda", escrita por Luandino Vieira durante período em que permaneceu encarcerado na prisão do Tarrafal, em Cabo Verde. Apesar do cenário adverso, as estórias que compõe o livro são marcadas por uma perspectiva otimista diante da luta pela independência de Angola. Pela ótica do Luandino, esta abordagem seria fundamental enquanto instrumento de coesão e mobilização no processo que culminaria na libertação do país. Vima Lia Martin destaca a importância da utopia, que marca esse momento da obra do autor, na formação de uma consciência revolucionária:

"A elaboração literária de Luuanda deixa entrever uma perspectiva utópica da realidade. Concebida num momento histórico revolucionário, a obra sinaliza a consolidação paulatina do processo de resistência popular que se opõe ao poder colonial, sugerindo caminhos para a transformação efetiva da sociedade angolana". (2006, p. 86.)

O mesmo contexto de luta política que impele Luandino a difundir sua esperança na independência, obriga o autor a usar sua obra, também, como instrumento de contestação da ordem estabelecida. Nesse sentido, o conto "A Estória do Ovo e da Galinha" ganha especial relevância, diante de seu forte valor simbólico. Uma narrativa essencialmente política, onde a crítica social é impiedosa.

Com grande maestria, Luandino faz de um evento, aparentemente prosaico, uma contundente alegoria da situação política da Angola pré-independência e, em especial, da experiência colonial como um todo. Reside aí a eficiência da fábula, que é dotada de grande valor semântico, apesar de uma forma despretensiosa. Esta é a chave do sucesso do autor. Ao assumir a imagem do velho contador de estórias, como afirma Aparecida Santille, (1980) Luandino consegue transmitir uma aura de legitimidade. Recorrendo à cultura africana, ele remonta à memória da oralidade. "Minha estória. Se é bonita, se é feia, vocês é que sabem. Eu só juro que não falei mentira e estes casos passaram nesta nossa terra de Luanda." É com estas palavras que o autor encerra sua "estória." A escolha específica deste vocábulo para denominar o texto não é aleatória e funciona como mais um elemento de expressão da tradição oral.

Essa opção estilística não é mero recurso retórico, mas faz parte da essência do pensamento do autor. Como vemos no desfecho do conto, Luandino indica que o caminho mais provável para a liberdade de Angola está no resgate dos valores culturais africanos mais tradicionais. É na valorização da cultura indígena e o seu saber intuitivo, folclórico, e, por isso, perene, é que o povo angolano encontrará a salvação e a derradeira liberdade. Esses valores são representados pelas figuras dos meninos Xico e Beto e o seu conhecimento da linguagem dos animais, passado a eles por seu avô. Criança e idoso unidos pela tradição do conhecimento, representando, assim, a eternidade desse saber natural. São os dois extremos do ciclo da vida que se conectam pela tradição, pela integração com a natureza. Com isso, Luandino afirma que é no resgate da memória, das origens do povo africano, que os angolanos devem sedimentar as bases da construção de um país livre. Usando de suas habilidades, foram os dois meninos que conseguiram livrar a galinha Cabiri das garras da polícia, personificação da arbitrariedade e injustiça, elementos-símbolo da experiência colonial. A ave, ao voar, tem em suas penas refletida a luz do sol poente, criando a impressão de uma pigmentação vermelha e negra, as cores da bandeira nacional. Uma clara metáfora de uma Angola Livre. Um exemplo inquestionável da riqueza semiótica do estilo de Luandino e, principalmente, do otimismo do autor em relação futuro do país e ao processo de independência, traço presente em outras obras suas, como o livro "A Vida Verdadeira de Domingos Xavier".

Para garantir a eficiência da crítica à estrutura social angolana, mesmo diante das limitações de forma e espaço que marcam a estrutura do conto, o autor usa, com grande propriedade, figuras de linguagem como a metonímia, a alegoria e a metáfora. Luandino cria várias personagens metonímicas para representar instituições capitais na sociedade angolana. A figura de Sô Zé revela a elite comercial branca e seu oportunismo nas relações com o país e o povo negro. Azulinho mostra como a Igreja contribui para a manutenção de estruturas sociais perversas. Sô Vitalino personifica a exploração covarde da elite proprietária, sempre tentando seduzir, corromper e alienar o elemento negro, usando, para isso, de autoritarismo. Sô Lemos é um retrato tragicômico do fracasso e da ineficiência da burocracia estatal. O escárnio com que as pessoas tratam o "Vintecinco linhas" mostra o descrédito em que o sistema caiu aos olhos do povo angolano. Por último, temos a figura da patrulha policial a representar toda a truculência e arbitrariedade da autoridade repressiva durante um período de grande instabilidade política e de pouca liberdade civil. Essas técnicas metonímicas e alegóricas são recursos de grande eficiência e, por isso, bastante recorrentes na história da literatura. No Brasil, o dramaturgo Nelson Rodrigues usou a técnica com notável desenvoltura. Em alguns momentos de sua obra, chegou a criar figuras cruamente alegóricas, como recurso estilístico. Exemplos interessantes são as personagens do médico e do padre, na peça "Toda Nudez Será Castigada," onde o autor se recusa a atribuir-lhes nomes próprios, levando o caráter metonímico ao extremo. O resultado é impactante e contundente. O recurso não é usado em estado tão puro no texto de Luandino, mas é, sem dúvidas, um dos elementos estilísticos mais importantes da obra.

Outra característica fundamental do conto é o texto marcado profundamente pela oralidade. Luandino cria uma linguagem próxima à que é falada nas ruas de Angola, em especial, nos "musseques." Há uma presença fundamental de expressões em quimbundo, dialeto mais falado na região de Luanda, dando vida a uma nova forma de linguagem, pulsante e dinâmica. Tanto o Português quanto os dialetos indígenas são influenciados pelas diversas manifestações lingüísticas presentes no país. Esse domínio do texto pela oralidade é, ainda, uma forma encontrada por Luandino para reforçar e exaltar as raízes culturais de uma África ágrafa até o inicio da colonização, em que as tradições e as marcas culturais eram transmitidas oralmente, de geração para geração. Essa valorização da linguagem falada, também, funcionaria como uma tentativa do autor de restabelecer a historiografia africana anterior ao inicio do colonialismo, negligenciada por uma tradição científica eurocêntrica. O resultado de tal esforço é um texto rico e original, onde a sonoridade e estética não comprometem a verossimilhança. Um paralelo poderia ser traçado com regionalismo brasileiro, em especial as obras de Guimarães Rosa, onde a identidade nacional e regional era buscada na riqueza mórfica e semântica da linguagem falada pelo povo. Estudos comparativos entre as obras dos dois autores foram desenvolvidos por Maria Aparecida Santilli.

Essa opção pela valorização da oralidade, com uma tentativa de reprodução de uma linguagem popular, ganha ainda mais sentido na intelectualidade de paises em busca da independência política, como era o caso de Angola na época em que a obra foi escrita. Essa valorização da cultura indígena na literatura de Luandino marca um interessante contraste com a obra de celebres autores brancos de países africanos de língua inglesa, como o sul-africano vencedor do Nobel de literatura J.M. Coetzee, onde a abordagem da perspectiva do elemento negro na sociedade é mais distanciada e menos entusiástica em relação a seus elementos culturais tradicionais.

Como conseqüência da opção pela proximidade com a oralidade e a tradição cultural africana, Luandino assume uma postura narrativa de comprometimento e envolvimento emotivo. O narrador empatiza com as personagens e deixa-se envolver pela estória e pela linguagem, se integrando a um todo orgânico, como afirma Aparecida Santilli:

"Luandino - ator ("ator", regulador da narrativa), que concebe o texto, não se identifica como tal. O pano da estória fecha-se, entretanto, numa escrita que já não apresenta forma "neutra" ao objeto da "práxis", que já não se dispõe pragmaticamente à informação. Confunde-se o sujeito "real" do texto (ator), e o sujeito "fictício" da estória (herói), na empatia em que se embala o primeiro, pelo segundo, denunciada no significado emotivo sobressalente à camada informadora dos signos" (1980, p.267)

Esse tipo de envolvimento do autor com a narrativa e as personagens poderia ser interpretado como uma manifestação do comprometimento político de Luandino com a causa da independência. O conto, com sua riqueza metafórica, representaria uma inequívoca alegoria da fé do escritor em uma Angola livre, assim como o posicionamento do narrador em relação à narrativa seria uma representação do envolvimento direto do intelectual Luandino no processo político de independência. Como símbolo deste otimismo e desta fé do autor na luta pela liberdade política do país, temos a figura "embrionária" do ovo, elemento central da estória, além da gravidez de Bina, representando uma nação livre que está prestes a nascer.

Além de funcionar em sua essência como uma fábula, uma alegoria da situação política da Angola e da experiência colonial, o texto não deixa de contextualizar a estória, mostrando, em algumas sutilezas narrativas, traços típicos do momento vivido pelo país na década de 70, período marcado pela luta pela independência. Como milhares de angolanos, o marido de Bina está preso. É provável que a causa seja política. "Na polícia, hein? Se calhar é terrorista..." (2006, p. 149) Diz o sargento ao saber da situação da mulher. Outra fala do mesmo policial passa uma boa idéia do clima de tensão e autoritarismo político da época: "Estavam reunidas mais de duas pessoas e isso é proibido." (2006, p.150) Com poucos, porém, relevantes detalhes o autor consegue fazer um fiel retrato do momento do país. A presença desse elemento e a sutileza com que foram inseridos na narrativa mostram a excelência de Luandino na técnica definida pelo professor da Universidade de Susquehanna, na Pennsylvania, Tom Bailey, em sua teoria do "significant detail". Segundo o autor americano, devido às limitações de forma e espaço da estrutura do conto, detalhes narrativos aparentemente prosaicos e irrelevantes adquirem importância fundamental na construção semântica quando usados como figuras de linguagem, em especial, a metáfora e a alegoria. Segundo ele, esse recurso sempre esteve presente de uma forma difusa na história da literatura, mas começou a ser sistematizado e usado de forma mais deliberada e conscientemente nos contos do autor russo Anton Tchekhov.

Seus admiradores, James Joyce e Ernest Hemingway levaram este tipo de técnica a um novo patamar de excelência (2001, p. 147) Luandino é um autor que mostra pleno domínio no uso dos "detalhes significantes" tanto na construção de alegorias e metáforas, quando na contextualização histórica e construção de cenário.

Pelas suas qualidades literárias e pela sua importância no contexto político de uma época, a "Estória da Galinha e do Ovo", publicada, em 1972, no livro de contos "Luaanda," representa um marco na literatura de língua portuguesa. Através da criação de uma nova linguagem, integrando o português aos dialetos indígenas, e da crítica às estruturas sociais coloniais, Luandino se torna o oráculo de uma nação livre que está prestes a nascer. Com sua literatura, o autor quer contribuir com os elementos fundamentais para a construção da unidade cultural necessária a essa nova Angola livre. Na condição de escritor angolano, Luandino se vê impelido a usar sua arte como instrumento de mobilização e coesão na luta pela independência. O leitor só seria sensibilizado se sentisse no projeto libertário a possibilidade do sucesso. Não apenas êxito na emancipação política, mas também na construção de uma verdadeira nação. Com sua obra, Luandino estava disposto a propagar esse sonho libertário.

Pepetala e o fim da utopia

Em 1992, foi lançado o romance "A Geração da Utopia", de Pepetela. Cerca de 30 anos o separam da primeira edição de "Luuanda". O que se passou em Angola durante esse período influenciou fortemente a literatura do país, levando-a da utopia pré-independência à desilusão e cinismo dos anos 90. As duas obras são especialmente elucidativas no entendimento dessa trajetória. O que era fé no futuro em Luandino se transforma em desilusão, no trabalho de Pepetela. O projeto acalentado por uma geração havia fracassado. Angola alcançara sua independência em 1975, mas o processo de construção do país fugiria, por completo, dos planos de idealistas, como Luandino. É o que aponta Rita Chaves:

"O projeto de uma nação livre se vai estilhaçando na condução de um processo inicialmente banhado pela generosidade de um sonho coletivo. A utopia tem como adversário os próprios homens que investiam em sua construção. As diferenças deixam de ser diversidade para se transformarem em capital de negociação, em patrimônio para obtenção de vantagens na sociedade ainda em formação." (1999 p.229)

Deparando-se com o fracasso de um projeto de nação e imerso na realidade dura dos anos 90, Pepetela busca respostas. Diante dele, um cenário de total falta de perspectivas. Como acreditar, novamente, no futuro de uma nação onde o sonho de uma geração dera lugar a um quadro de corrupção, miséria e violência? Nem a experiência socialista, nem as transformações neoliberais foram capazes de apontar soluções mínimas para os problemas do país. No entanto, Pepetela não se arrisca a indicar caminhos. Para o escritor, o momento é de avaliação. Antes de embarcar em um novo projeto para o futuro, é necessário detectar e analisar os erros cometidos no passado. Contudo, nesse momento, a abordagem do passado deveria ser outra, bem diferente da encontrada em "Luuanda", conclui Rita Chaves: "Agora identificado com o período de gestação da liberdade, o passado não é nem glorificado, nem rejeitado. Transforma-se em objeto de reflexão mesmo para quem tão vivamente participou desse itinerário" (1999 p.157) Conquistada a independência desde 1975, a literatura não mais precisa ser usada como elemento de mobilização. Desiludido com o fracasso da utopia libertária e se deparando com a situação precária do país, Pepetela é impelido a adotar uma postura crítica e realista. A intenção agora é desnudar a evolução histórica da Angola moderna de forma honesta e impiedosa. Com "A Geração da Utopia", o autor busca fazer um balanço fiel desta trajetória.

No romance, Pepetela constrói uma verdadeira "epopéia" da nação angolana ao longo de 40 anos decisivos em sua história. Marcado fortemente pela experiência pessoal do autor, a narrativa reconstrói, com bases em um realismo notável, a evolução política, econômica e social da nação africana desde início do debate intelectual pela independência, nos anos 60, até a degradação dos anos 90, passando pelos duros anos de luta armada. No decorrer desse período, o idealismo de uma geração vai se dissolvendo em apenas dois caminhos possíveis: a corrupção moral, melhor representada pela figura de Vitor, em seu trajeto de jovem estudante em Portugal até a figura do ministro Mundial; ou a desilusão, presente na personagem de Aníbal, o guerrilheiro sábio que deixa as utopias sessentistas de lado, diante do caminho torto para onde a jovem nação caminhava.

Com sua opção pela reclusão e uma vida espartana, representada no capítulo "O Polvo", Anibal é tomado pelas pessoas como louco. No entanto, seu isolamento e a escolha de uma vida simples fazem de sua personagem uma ilha de lucidez circundada por um grande mar de insanidade. Anibal tem uma visão clara da dissolução política, econômica e, principalmente, moral que assola esse novo país livre, com que tanto havia sonhado quando jovem, e, por isso, se desilude. No entanto, sua desilusão não resulta em uma postura amargurada diante da vida e do futuro. Agora, mais do que nunca, Anibal personifica a figura do sábio. Ao contrário de muitos, ele não fecha os olhos para a podridão do sistema, mas adota diante dele uma postura de altivez e resignação. A personagem não evolui de um jovem utópico a um velho desiludido e amargurado. Pepetela, aqui, foge do óbvio e faz de Anibal um verdadeiro oráculo de uma nação que caminha na direção contrária ao desenvolvimento, última ilha de lucidez em um mar de insanidade. A imagem do profeta é evocada em um dos diálogos. Seu isolamento, ao invés de torná-lo esquecido por aqueles que, hoje, se lambuzam com o poder, faz com que estes se tornem ainda mais incomodados, invejosos da postura digna e coerente do Sábio.

O estilo objetivo, aliado às experiências biográficas do autor, faz da narrativa um contundente retrato da evolução histórica de Angola. O realismo de muitas cenas dá ao leitor a impressão de estar diante de um relato de quem realmente viveu a experiência. O elemento autobiográfico só acrescenta à obra e não compromete sua integridade. Pepetela não se deixa seduzir pela tentação emotiva e memorialista, mantendo sempre o foco e a objetividade na construção de uma narrativa essencialmente política. Na realidade, o caráter autobiográfico é um elemento fundamental na construção do contundente realismo atingido pelo autor, próximo das melhores obras de Hemingway, uma assumida referência literária. Ainda poderíamos traçar paralelos com a obra do brasileiro Graciliano Ramos, com seu realismo regionalista, marcado pelo elemento psicológico - traço especialmente nítido no capítulo "A Chana", no livro de Pepetela - e, principalmente, com a literatura de Jorge Amado e seu caráter de crítica social e política.

Assim como suas principais personagens, o autor nasceu em Angola; estudou em Portugal nos anos 60, freqüentando a Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa; foi guerrilheiro do MPLA, na luta pela independência; e se envolveu com o governo, sendo vice-ministro da Educação no governo de Agostinho Neto. Unindo esta biografia ao estilo objetivo de sua prosa, - o autor é hoje o único escritor angolano quase que exclusivamente identificado com o romance como forma de expressão (Chaves 1999) - Pepetela consegue dar um valor quase documental à narrativa de uma obra ficcional. Esse realismo é uma das principais virtudes do livro, sendo desencadeador de profundos debates e reflexões políticas nos diálogos de personagens divergentes, representando os diferentes campos de idéias que permearam esse processo de evolução histórica.

Estão presentes diversos elementos da marcha política de Angola. No capítulo "A Casa", vemos, com grande clareza, como o elemento racial vai gradativamente dividindo a nação, com o aprofundamento da luta pela independência.

Antes tratada com naturalidade, Sara passa a ser deixada de lado por seus companheiros estudantes, por ser branca. Com a iminência da luta, todos teriam que tomar partido, este é o pensamento que ganha força. A idéia de que os jovens brancos, politizados como Sara, sairiam em defesa dos privilégios de seus pais, assim que o conflito eclodisse, transforma o elemento racial em um irreversível divisor. Divisão esta que se torna elemento chave na dissolução do processo de evolução do país. A incapacidade da união e coesão é uma das principais razões da degradação política, social e econômica no processo de construção da nação.

No capítulo "A Chana", vemos a luta guerrilheira pela independência de uma perspectiva honesta e crua. Pepetela não hesita em mostrar como a divisão interna vai dissolvendo e corrompendo o movimento. Tribalismo, regionalismo... Angola parece fadada à desintegração. Guerrilheiros do leste se colocam contra os do norte, num conflito que parece só se aprofundar, e a guerrilha vai perdendo o verdadeiro foco. Como construir uma nação se os sentimentos regionalistas e os interesses pessoais parecem sempre vir em primeiro lugar? É o questionamento que faz Pepetela. Com sua opção pelo realismo, uma postura pessimista por parte do autor se torna uma conclusão inevitável, divergindo, assim, da perspectiva utópica de "Luuanda". Mais do que pessimismo, a postura de Pepetela é de fidelidade à realidade e pragmatismo. O início da narrativa com a palavra "portanto" e o epílogo em aberto como recursos estilísticos de abertura e fechamento de um romance, que, na realidade, funciona como retrato de um processo histórico marcado pela desilusão, degradação e corrupção, mostram o lamento e o pessimismo do autor diante da situação atual e futura do país. O capítulo "O Templo" fecha essa triste "epopéia" angolana, que na visão do autor, é uma história viva e em aberto. Para marcar o contraste, após retratar a honestidade e a coerência ética de Aníbal no capítulo "O Polvo", Pepetela mostra como o oportunismo e a desonestidade de certos elementos da sociedade são capazes de dissolver e destruir as conquistas de uma geração. Vitor, ex-guerrilheiro, hoje ministro; Malongo, ex-jogador de futebol e exilado, hoje empresário; e Elias, antigo militante da UNITA e FNLA, hoje profeta, se unem em um empreendimento espúrio que tem como objetivo o ganho pessoal através da exploração da boa fé do povo angolano.

Esse capítulo tem um forte teor metafórico, fazendo do projeto do templo uma contundente alegoria das relações sociais da Angola moderna. A figura de Vitor funciona como uma crítica à elite burocrática que se aproveitou, de maneira hipócrita, do processo de luta pela independência e dos conflitos internos para a conquista de benefícios pessoais. Malongo, uma personagem menos sutil do que o demagogo ministro Mundial, faz crítica a uma elite empresarial que se aproveita de relações privilegiadas e antiéticas com o poder, em favor de enriquecimento pessoal, se tornando uma elite tão, ou mais selvagem do que a colonial, como mostra o episódio entre Malongo e seu empregado. Sem deixar de mencionar Elias, uma obscura figura que por trás de uma pretensa solidez de caráter, esconde o oportunismo que o impele explorar a fé dos humildes como recurso de enriquecimento. São três figuras representativas da elite angolana unidas num projeto que tem como único objetivo enriquecer às custas dos pobres. Uma forte alegoria de como esses elementos sociais se relacionam com as camadas baixas da população e perpetuam seu "status".

A escolha da construção de uma seita religiosa como metáfora social funciona como opção realista e, portanto, de coesão com o resto do texto, por representar um elemento real e comum da sociedade angolana moderna. Diante de um cenário de degradação político-social e de vácuo ideológico, os anos noventa assistiram a uma proliferação de seitas religiosas oportunistas em países subdesenvolvidos. A trajetória de desintegração da utopia retratada no romance de Pepetela encontra seu ápice na ultima década do século XX, época em que o livro foi escrito. É o que aponta Ana Maria Duarte ao afirmar que "a década de noventa, do século XX, é a década de confirmação da morte de um sonho." Segundo a pensadora da Universidade do Porto, assistimos ao sepultamento da utopia diante do fracasso político, social e moral de "um Estado não institucionalizado, não burocrático, neo-patrimonial e que não consegue afirmar-se como entidade abstracta, autônoma e diferente dos seus titulares, onde as formas de controlo não existem" (2007, p. 84) Desiludido por uma evolução histórica pós-independência marcada por fracassos e diante do estado precário do país, o povo angolano acaba perdendo a fonte de força e coesão que marcara a luta pela independência: o sonho.

Outro traço interessante de "A Geração da Utopia" é a escolha não aleatória dos nomes das personagens, o que enriquece semanticamente a obra. Aníbal, o sábio, com toda a sua coragem e altivez, remete ao general cartaginês que atravessou os Alpes para lutar contra as arbitrariedades do império romano. O epíteto “Mundial”, por sua carga semântica de universalidade, ganha forte valor irônico quando atribuído ao individualista e egoísta Vitor. Elias, com sua charlatanice religiosa, recebe o nome de um dos mais tradicionais profetas da tradição judaico-cristã. A figura estereotipada do futebolista Malongo, mulherengo, despolitizado e hedonista, recebe um nome tipicamente africano. Assim como Sara, que apesar do relacionamento com Malongo, na verdade, faz par romântico com Vitor, a figura mais idealizada do romance, recebendo, por conseguinte, o nome da esposa do patriarca judeu Abrão, numa alusão à clareza, fé e altivez da companheira do herói bíblico.

Com "A Geração da Utopia", Pepetela atinge um notável feito literário, reafirmando sua posição como um dos maiores autores de língua portuguesa, tendo recebido o prêmio Camões, em 1997. Ele consegue condensar, em um romance, a experiência política, social e econômica de um país nos derradeiros anos de sua história e o faz, contanto, sem comprometer o valor ficcional da obra, ancorado em um estilo elegante e realista de forte presença autobiográfica. Nos diálogos de seus personagens, encontramos profundas reflexões sobre o processo histórico retratado, sem comprometer, no entanto, a atratividade da leitura. Diante do quadro crítico da Angola moderna, o autor conclui ser este um momento de reflexão. Nesse sentido, a obra se torna fundamental para esse novo capítulo da história de Angola, assim como fora "Luuanda", no período pré-independência. Enquanto a obra de Luandino foi crucial na construção de uma coesão e unidade revolucionária, "A Geração da Utopia" é fundamental em outro momento chave da história do país. Um momento em que o espírito crítico seria fundamental.

A Utopia libertária fracassara. Nem a experiência socialista, nem as transformações neoliberais foram capazes de solucionar os problemas da nação. O momento, portanto, seria de reflexão. Órfã de utopias, Angola precisaria analisar seu passado, antes de encontrar um novo caminho para o futuro. E é isso que Pepetela oferece ao seu país: um balanço crítico da trajetória histórica da Angola pós-independência. O autor não aponta caminhos, mas não poupa esforços na construção de uma obra fiel à realidade. É preciso ser crítico para despertar a consciência da nação. A utopia que nasce em "Luuanda" encontra sua morte no trabalho de Pepetela, não por vontade do autor, mas, sim, pelas necessidades de um novo tempo. Ele sente esses novos ares e conclui que a perspectiva não poderia ser a mesma. Diante desse novo contexto, Pepetela enxerga oportunidades. Para ele, esta seria uma chance para Angola, após anos de ação política frenética, se auto-avaliar enquanto nação, antes de encontrar uma nova utopia.

Referências Bibliográficas:

Bailey, T A Short Story Writer's Companion, Oxford University Press, New York, 2001.

Chaves, R. VIATLÂNTICA - Publicação da área de estudos comparados de literatura de língua portuguesa nº2, Pepetela: romance e utopia na história de Angola, Departamento de letras clássicas e vernáculas - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - Universidade de São Paulo, São Paulo, 1999.

Martin, V.L. "Luandino Vieira: engajamento e utopia". In: Maria do Carmo Sepúlveda; Maria Teresa Salgado. (Org.) Africa e Brasil: letras em laços, Yendis, São Caetano do Sul, 2006.

Santilli, M. A. A "Luuanda" de Luandino Vieira, Editora 70, Lisboa, 1980.

Santilli, M. A VIATLÂNTICA - Publicação da área de estudos comparados de literatura de língua portuguesa nº9, Departamento de letras clássicas e vernáculas - Faculdade de Filosofia, Letras e ciências humanas - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

Vieira, J. L. Luuanda, Companhia das Letras, São Paulo, 2006.

Pepetela. A Geração da Utopia, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2000.

Ler 37867 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips