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Vanguarda, Voz - Testemunha da Memória

Escrito por  Anna Maria Claus Motta
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Infância é um antigamente que sempre volta

Ondjaki

 

Bom dia camaradas, primeira obra do autor editada no Brasil, não reflete uma visão amarga, própria da memória da guerra. Prefere, antes, lembrá-la através da recordação doce de "lirismo", de acordo com Rufattoi: "A marca que assinala e diferencia a literatura de Ondjaki, e que se encontra caracteristicamente neste belíssimo Bom dia camaradas, é o lirismo".

Se a memória é o tempo que já não é, mas quer-se presente às vezes só pela evocação de momentos vivenciados intensamente, a vanguarda é o presente que possibilita a visita do passado, já desconstruído, no qual se viveu como testemunha. De um ponto de vista oposto ao de Ruffato em sua apresentação ao "camarada leitor brasileiro", em que a "história é narrada por um menino não nomeado"ii, o protagonista é um jovem estudante cujo nome é enunciado somente uma vez no percurso da narração, que vive o final dos anos 80. A narrativa se desenvolve a partir desse olhar que também é de "classe", isto é, de quem pertence a uma classe recémnascida e privilegiada da sociedade angolana, a Classe Média: sua residência tem dois andares e jardim; o pai é alto funcionário do Ministério e tem direito a carro com motorista; a família tem um cozinheiro, a mãe é professora, ele e as irmãs freqüentam uma boa escola pública, têm parentes em Portugal e "Ele" traz internalizadas as regras políticas, as práticas civis e as do aeroporto, pois as explica com facilidade e se comporta com a desenvoltura de quem as domina e obedece como "dever".

O romance inicia com um diálogo interessante entre o menino e o camarada António, sobre o tempo dos portugueses, brancos e colonizadores, que o cozinheiro demonstra sentir saudade e, buscando na memória, clarifica: "Ê!, menino, mas naquele tempo a cidade estava mesmo limpa... tinha sempre pão na loja, os machimbombos funcionavam (...). Era livre, sim, podia andar na rua e tudo..."iii.

O projeto que parece a princípio ser tão somente desengavetar um espaço inocente da memória detentora de fatos singulares de um escolar, cede lugar a outro espaço: o da cartografia da cidade natal do autor/narrador/protagonista. Luanda vai surgindo sem muita pretensão, em: "Estávamos a descer a António Barroso";

"Passamos no Largo da Maianga (...)"; "Depois subimos (...) para passar no Hospital Josina Machel (...)"; "Descemos a Praia do Bispo (...)"; "(...) passamos no Largo do Kinaxixi (...)"iv, etc.

Simultaneamente ao rodar com o carro pelas ruas e lugares fazendo de certa maneira às vezes de cicerone para "tia Dada" - Eduarda, o rotagonista vai apresentando com olhar crítico e frequentemente irônico o ambiente social, econômico e político em que vive, como se observa em:

Havia bué de água assim a escorrer no passeio, os miúdos tomavambanho nos buracos e no sítio onde a água saía tipo a fonte luminosa daIlha que nunca chegou a funcionar.

(...) minha tia pensava que se chamava Maria Pia (...) aquele devia ser onome que os tugas davam ao hospital. (...) Praia do Bispo, a avenida tinha acabado de ser arranjada porque há pouco tempo o camarada presidente tinha passado por ali, e como o camarada presidente passa sempre a zunir, com motas e tudo (...).

A marginal tinha FAPLAS com metralhadoras e obuses e de repente começamos a ouvir sirenes. "Deve ser o camarada presidente que vai passar".v

A voz da memória, do ponto de vista da infância/juventude, é uma das marcasdo lirismo da obra, por onde perpassam os fatos dolorosos, porque reais, suavizados pelo senso de humor e da observação na narrativa e nos diálogos: "O camarada João (...) Era magro e bebia muito (...) aparecia cedo lá em casa já bêbado, e ninguém queria andar no carro com ele"; ou o professor Ángel "Ele era muito simples, muito engraçado"; ou ainda: "Petra queria perguntar, e perguntou mesmo, como é que a visita do camarada inspetor ia ser surpresa se nós já sabíamos que ele vinha (...)"vi.

Voz da esperança e da indagação, como a confirmar os ensinamentos apreendidos, o protagonista inaugura: "Mas camarada António, tu não preferes que o país seja assim livre?"; "-Mas, António... Tu não achas que cada um deve mandar no país?"vii.

É certo que Ondjaki, ao pertencer à primeira geração descolonizada, torna-se "pioneiro", como para o "pioneiro-protagonista" é o convite da jornalista Paula, para a celebração do 1º de maio na Rádio Nacional, como se observa na pergunta feita pela mãe: "-Olha, a Paula vai fazer amanhã um programa sobre o 1º de maio e queria recolher depoimentos dos pioneiros... Tu queres ir?"viii. E também é pioneiro ao pertencer à classe média emergente que possui geleira, telefone e ar condicionado, ou "ar concionado"ix.

Assim como o tempo da história, percebe-se a presença da ficção no enquadramento das pessoas. O saber-dizer e o poder-dizer refletem-se no quererentender a verdade de "antigamente":

Sem cartão? E como é que controlam as pessoas? Como é que controla, por exemplo, o peixe que tu levas? (...) - Como é que eles sabem que não levaste peixe a mais? -Tu sabes que eles são militares? (...). No largo, uma camarada do ministério da educação veio distribuir bandeirinhas vermelhas, amarelas, umas do país, outras do MPLA(...).x

O discurso de despedida do professor Angel e da professora Maria aos alunos:

[...] muchas cosas han cambiado em su país em los últimos tiempos... Las tentativas de acuerdos de paz, la lhamada pressión internacional (...) niños angolenos... la lucha, la revolución, nunca termina...xi

Ondjaki enuncia a dura temática da pobreza que aparece entremeando todo o texto, de maneira sutil e natural. Demonstra como a percebia no "antigamente", pela memória, como algo absolutamente normal; o pouco que havia era pouco para todos, e na visão do narrador-criança, o mundo real é sempre mais transparente e simples.

Nessa perspectiva, o universo dos cartões de abastecimento, a falta de água que deixava todos os garotos fedidos sob o sol escaldante, a mistura de medo e atração diante do "Camião do Caixão Vazio", e os camaradas professores cubanos (uma realidade em Angola, desde meados dos anos 70 até o início dos 90, fruto do apoio ostensivo dado por Cuba e pela União Soviética ao Movimento Popular de Angola/MPLA), são indubitável e absolutamente aceitos, como se percebe nos fragmentos:

(...) muito de vez em quando, aparecia chocolate lá em casa (...) naquela quantidade de coisas (...) ela devia ter pedido a diferentes pessoas, com diferentes cartões de abastecimento (...).

(...) os professores foram connosco orientar-nos nas limpezas (...).

- Sim, dizem que eles violam as professoras, depois cortam a chucha e penduram no quadro...

(...) se calhar vão ter melhores condições de vida, quem sabe mais carne por semana, quem sabe um carro, quem sabe algum dinheiro a mais (...).xii

O autor insere Luanda sob a perspectiva da transfiguração da realidade: uma cidade-capital difícil de governar em que há desgastes causados pelos tempos da guerra e suas conseqüências; o povo e a forma como este trabalha e elabora suas dores e perdas, a partir da íntima familiaridade "da casa" - expressão utilizada por Damatta - entendida como as entranhas, e “da rua” — representada pela escola, através da disciplina Educação Visual e Plástica - EVP: "(...) toda gente desenhava coisas relacionadas com a guerra: (...) akás, (...) tanques de guerra soviéticos, (...) makarov's (...). Desenhar armas era normal, toda gente tinha pistolas em casa (...)"xiii.

A criação literária traz à tona uma memória repleta de poesia e encantamentos vividos, de descobertas, de amadurecimento, de afetos e, principalmente, de olfatos, dos cheiros que impregnam o quintal da memória e da sensibilidade do narrador: "Todos os dias ele (o cozinheiro António) tinha o mesmo cheiro, mesmo quando tomava banho, parecia sempre ter aqueles cheiros da cozinha"; "(...) dá vontade de beber leite com café e ficar à espera do cheiro da manhã (...)"xiv, etc.

A cronologia marca profundamente a linearidade do tempo no romance; a lógica parece determinar a apreensão da realidade, essa concebida como necessidade para a memória não se perder. Assim o narrador se manifesta, ainda com respeito às ações continuadas de António: "Abria a geleira, tirava a garrafa de água. Antes de chegar aos copos (...). O camarada António respirava primeiro. Fechava a torneira depois. Limpava as mãos, mexia no fogo (...)"; "-Vinte minuto, menino (...) vinte minuto (...)"xv.

Despretensiosamente e quase sem se fazer notar por entre o jogo da narraçãorememoração, finalmente o protagonista se anuncia escondido em Ndalu. Do anonimato emerge "nomeado" uma única vez, quando repassa os fatos da véspera, momento em que alunos e professores, como a professora de Inglês, fugiam do ataque do "camião do caixão vazio" à escola:

Ela ultrapassou-me a mim e a Romina com uma tal velocidade quequando eu olhei ela já tava a saltar o muro (...) ela saltou o muro sem tocar no muro, só pôs uma perna assim para o lado e com a mão pegou na perna aleijada e recolheu assim do tipo que estava a coçar a coxa, se não acreditam perguntem na Romina que também viu....xvi

E confirmada sua presença pelas falas da colega Romina: "Eu saí da sala com ele (...) nós távamos a correr na direção do buraco do canto da escola, quando a camarada-professora-foguete passou por nós (...)"xvii.

Agente de resolução do páthos Bruno, personagem-secundário-colega, negocia com Ndalu uma "gasosa" e alguns minutos de ansiedade, em troca da verdade que se revela cômica:

-Ê uê! E era o Caixão Vazio? -Nada... Tu não vais acreditar... -Era quem? Fala, Bruno...! -Era então o camarada inspetor!!! Desatamos numa gargalhada que até assustou os mosquitos.xviii

A partir daí o desfecho se precipita com a narrativa de várias perdas importantes e "cheiros de despedida que ficarão para sempre na memória": "tia Dada'" retorna a Portugal; aproveitando o lanche na casa de Romina os professores cubanos Angel e Maria despedem-se dos alunos. Encerra-se dessa forma singela o longo período de cooperação de Cuba a Angola: os professores-soldados preparam-se para retornar a Cuba: "Bueno... (tossiu) lo que les tengo que decir es que dentro de muy poco tiempo, yo, la camarada profesora Maria, el camarada profesor de Química y tantos otros cubanos que se encuentran aquí, van a regresar a Cuba"xix; Bruno irá com a família morar em Portugal e o ano letivo se encerra com uma fogueira de livros na própria escola. A morte repentina do fiel camarada António deixa Ndalu às voltas com a fantasia e o faz-de-conta, estratégias para elaborações internas: "-Camarada António, passa-me só o jindungo, faz favor... - e como ele não disse nada, provoquei-lhe: - Vês, António, aqui em Angola, agora já vamos ter eleições!, no tempo do tuga havia eleições? - mas ele não disse nada mesmo"xx. A melhor notícia de todas e pela qual António tanto ansiava, já não mais ouviria: era que "afinal estavam a dizer que a guerra tinha acabado"xxi; ou teria sido emoção demais e o coração de António, cansado de tantas contra-notícias já não suportara mais essa?

Parafraseando Chavesxxii, a "urgência histórica de um projeto ideológico" como é percebido em autores como Arnaldo Santos, Luandino Vieira, Manuel Rui, Pepetela e vários outros da literatura afro-angolana, igualmente importantes, pertencem à memória literária de um outro repertório, não se encontra presente no romance vanguardista de Ondjaki; as "ruas de Luanda", sim, marcam o cenário da estória e da história do tempo do autor e da perspectiva da qual lhe foi possível narrar.

Bom dia camaradas é um romance nascido dos compartimentos da memória. Já na dedicatória Ondjaki anuncia:

Ao camarada António (...) também para esses meus incríveis companheiros escolares: bruno b.,romina, petra, romena, catarina, aina, luaia, (...) murtala, [...] e todos os outros que estão incluídos nestas vivências, mas cujos nomes o tempo me roubou os nomes (...) à maria "che", que pôs o espanhol na boca dos camaradas professores cubanos [...].xxiii

No projeto gráfico da dedicatória da obra os nomes próprios vêm anunciados com letras "minúsculas", o que não ocorre no interior do romance. A partir dessa observação, é possível entender que os personagens evocados pelo autor na distância da memória vivida, anunciam o registro e corroboram a cientificidade dos conceitos em questão: de "lugares de memória", onde as lembranças da História e da memória se escondem e se cristalizam, porque a memória é o lugar-arquivo do passado vivenciado e dos vestígios, conforme afirma Noraxxiv; da memória constituída por "pessoaspersonagens" e do distanciamento da memória individual, como a "ligação fenomenológica estreita com o sentimento de identidade", como escreve Pollakxxv; da historicidade da memória individual e coletiva entendidas também como armazenamento de informações e patrimônio genético, de acordo com Le Goffxxvi; e da construção seletiva da memória, registrando o pensamento de Catrogaxxvii.

Para concluir evocamos Ondjaki que, também pela sua juventude de autor, representa a memória da atualidade angolana. Pela voz de Ndalu o autor-narrador reconstrói, através de esforço intelectual, psicológico e ficcional, uma fração de seu passado vivido, "um passado que nunca é aquele do indivíduo somente, mas de um indivíduo inserido num contexto familiar, social, nacional"xxviii. Contexto e memória compartilhados.

Referências bibliográficas:

CATROGA, Fernando. "Memória e História". In: PESAVENTO, Sandra Jatahy.

Fronteiras do milênio. Porto Alegre: Edita da Universidade/UFRS, pp. 43-69;2001.

CHAVES, Rita. "A geografia da memória na ficção angolana". In: Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005.

DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis - para uma sociologia do dilema brasileiro. 4. ed, Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Anotações da 1ª aula. PUC/MG; 12 fev. 2007.

LE GOFF, Jacques. "Memória". In: História e Memória. Trad. Irene Ferreira et al. Campinas: Editora da UNICAMP, 2003.

ONDJAKI. Bom dia camaradas; Rio de Janeiro: Agir, 2006.

POLLAK, Michel. Estudos Históricos. Vol. 5 a.10, Rio de Janeiro, 1992, pp. 200-212.

ROUSSO, Henry. "A memória não é mais o que era". In: FERREIRA, Marieta de Moraes & AMADO, Janaína. Usos & abusos da história oral. Cap. 7; pp. 83- 101.

i RUFATTO, in: ONDJAKI, 2006, p. 10.

ii Idem, ibidem, p. 11.

iii ONDJAKI, op. cit., p. 18.

iv Idem, ibidem, pp. 52, 53 e 62.

v Idem ibidem, pp. 52, 53, 54 e 55.

vi Idem, ibidem, pp. 19, 21 e 33.

vii Idem, ibidem, pp. 17 e 18.

viii Idem, ibidem, p. 26.

ix Idem, ibidem, p. 64.

x Idem, ibidem, pp. 49, 76 e 83.

xi Idem, ibidem, pp. 112-3.

xii Idem, ibidem, pp. 43, 44, 48 e 114.

xiii Idem, ibidem, p. 130.

xiv Idem, ibidem, pp. 18 e 23.

xv Idem, ibidem, pp. 17 e 24.

xvi Idem, ibidem, p. 90.

xvii Idem, ibidem, p. 76.

xviii Idem, ibidem, p. 105.

xix Idem, ibidem, p. 112.

xx Idem, ibidem, p. 136.

xxi Idem, ibidem, p. 135.

xxii CHAVES, 2005, p. 77.

xxiii ONDJAKI, op. cit., p. 05.

xxiv NORA, 1984.

xxv POLLAK, 1992.

xxvi LE GOFF, 2003.

xxvii CATROGA, 2001.

xxviii ROUSSO, 1992, p. 94.

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