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Memória e Resistência na Poesia de Noémia de Sousa e Esmeralda Ribeiro

Escrito por  Assunção de Maria Sousa e Silva
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A presença feminina nas literaturas africanas e brasileira impõe uma paisagem bastante significativa e promissora nas letras correntes no sentido de revelar tanto as realidades sócio-culturais desses países, sob o jugo colonizador, como também, problematizar a construção de um mosaico historiográfico a nos dizer constantemente que a história e a memória coletivas, legitimadas pelo status quo, perpassam sob o ponto de vista masculino seja narrador, seja autor propriamente dito.

Se na literatura brasileira, no final do século XX, apresenta-se um movimento de edificação das produções literárias de autoria feminina, como a visibilidade de obras de autoras como Raquel de Queiroz, Clarice Lispector, Cecília Meireles e, apenas, agora no século XXI é que vêm, ao cenário, re-edição de Úrsula de Maria Firmina dos Reis, publicações como Ponciá Vicêncio de Conceição Evaristo e aparecimento de contistas e poetisas dos Cadernos Negros - autoras afro-brasileiras; em Moçambique, a produção literária de autoria feminina, a saber, recente de maior visibilidade e publicação. Há poetisas reconhecidas como Glória de Sant'Anna, Clodilde Silva, mas limitadas ao seu país. Na prosa, Paulina Chiziane conseguiu transpor com reconhecida qualidade o cerco, exclusivamente masculino no mercado editorial, desde o seu primeiro romance Balada de amor ao vento a Niketche - uma história de poligamia"1. Então o que essas mulheres trazem de inovador no cenário literário desses países? Vamos aqui nos deter mais especificamente em duas poetisas negras, de épocas e lugares diferentes, Moçambique e Brasil, mas que apresentam aspectos similares na maneira de expor o eu poético feminino, no que se refere às preocupações sociais, marcadamente referenciadas pela memória do povo e resistência ou ao poder colonizador, no caso de Noémia de Sousa, ou à realidade de subjugamento, preconceito e discriminação em que se encontra o povo negro brasileiro, no caso Esmeralda Ribeiro. Junta-se a isso, a atitude de revelar nos versos um ser feminino complexo, sensível, que pauta sua inserção no espaço social de combate às injustiças, abrindo mão de seus próprios amores e vivências conformativas, enquanto a liberdade e justiça não se efetivarem.

Em sangue negro Noémia de Sousa agrupa-se a outros escritores como Virgílio de Lemos e Rui Guerra, em fins dos anos 40 e início dos 50, para, conforme Laranjeira, "fundamentar-se nas raízes da cultura tradicional e abrindo-se à participação comprometida com um projecto de mudança popular"2. Com isso o grupo modifica a percepção de literário em voga, fortalecendo o sentimento de moçambicanidade que começara a florescer. Neste sentido, os poemas do livro Sangue Negro de Noémia de Sousa representam um reforço substantivo para a consolidar o movimento de negritude naquele cenário. Craveirinha sinaliza, na apresentação da revista Vértice, onde foram publicados os primeiros poemas de Noémia, "a consciência de estar a lançar os fundamentos decisivos da poesia moçambicana"3. E António Jacinto sugeriria, posteriormente, que seria por aquela via que a poesia angolana poderia trilhar. Sangue Negro é constituído de partes como "Nossa voz", "Biografia", "Munhuana 1951", "Livro de João", "Sangue Negro" e "Dispersos". São partes que vão compondo o escopo de denúncia contra a violenta ação do colonizador, sobretudo no processo de Escravidão, acentuam os elementos de referências à realidade rural e aos elementos étnicoculturais moçambicanos e afloram intenso sentimento de fraternidade e busca de liberdade.

Em "Se queres me conhecer"4, o eu poético apresenta sua resistência ao colonizador, quando diz:

Se queres me conhecer,

Estuda com os olhos bem de ver

Esse pedaço de pau preto

Que um desconhecido irmão

maconde

De mãos inspiradas

Talhou e trabalhou

Em terras distantes lá do Norte.

Ah, essa sou eu:

órbitas vazias no desespero de

possuir a vida,

boca rasgada em feridas angústia,

mãos enormes, espalmadas,

erguendo-se em jeito de quem

implora e ameaça,

corpo tatuado de feridas visíveis e

invisíveis

pelos chicotes da escravatura...

Torturada e magnífica,

Altiva e mística,

África da cabeça aos pés,

- ah, essa sou eu: (...)

E nada mais me perguntes

Se é que me queres conhecer...

Que não sou mais que um búzio de

carne,

< Onde a revolta de África congelou

Seu grito inchado de esperança.

(25/12/1949)

E para esse dizer recorre ao recurso dialógico e, ao mesmo tempo, comparadístico do ser com o outro, ser / pedaço de pau preto, em que vai se expondo um corpo de "feridas visíveis e invisíveis / pelos chicotes da escravatura", como que para resistir, impossível não retomar profundamente às chagas contidas na memória e dela potencializar o sentido de pertencimento.O eu poético a indicar na impressão dos fatos da realidade africana, as marcas deixadas no corpo pela escravidão, referencia não apenas uma memória individual, mas coletiva, porque evidencia não só o que ele passou sobre impacto do acontecimento histórico, mas também o povo africano que representa. Aqui o episódio se revela como o que Halbwachs salientou: aquele acontecimento nacional que modifica as existências. Existem acontecimentos nacionais que modificam ao mesmo tempo todas as existências.

São raros. Não obstante, eles podem oferecer a todos os indivíduos de um país alguns pontos de referência no tempo. Em geral a nação está distanciada demais do indivíduo para que este considere a história de seu país algo diferente de um contexto muito amplo, com o qual sua história pessoa tem pouquíssimos pontos de contato.5

Pollak lembra-nos que a memória é "um fenômeno individual", todavia o mesmo remete a Halbwachs para estendê-la como um construto coletivo:

A priori, a memória parece ser um fenômeno individual, algo relativamente íntimo, próprio da pessoa. Mas Maurice Halbwachs, nos anos 20-30, já havia sublinhado que a memória deve ser entendida também, ou sobretudo, como um fenômeno coletivo e social, ou seja, como um fenômeno construído coletivamente e submetido a flutuações, transformações, mudanças constantes.

No poema "Deixa passar meu povo", o eu enunciador se investe de um compromisso ético-militante na "noite morna de Moçambique", onde o mesmo é embalado pelos sons de “marimbas” de outras vozes uníssonas dos "negros de Harlem", vozes negras de outros cantos que evocam a presença dos irmãos africanos no mundo, lembrando Pollak7, de "locais muito longínquos, fora do espaço tempo da vida de uma pessoa" em que fazendo parte da herança cultural do povo negro transforma em "sentimento de pertencimento".

Escrevo...

Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar. (...)

E enquanto me vierem de Harlem

vozes de lamentação

e meus vultos familiares me visitarem

em longas noites de insônia,

não poderei deixar-me embalar pela música fútil

das valsas de Strauss,

Escreverei, escreverei,

< com Robeson e Marian gritando:

Let's my people go,OH DEIXA PASSAR O MEU POVO!8 (25/1/50) É com a força das vozes de negros irmãos que o eu enunciador escreve e se recusa a aceitar o que não seja africano ou que venha a lembrar a presença do colonizador, numa construção poética lamentativa. Todavia, em outras passagens do poema, não se fecha para a solidariedade ao "companheiro branco", abrindo a possibilidade de diálogos. A poesia de Noémia revigora a memória coletiva pelo teor denunciador, passando uma profunda piedade pelos semelhantes, no entanto traz uma esperança alentadora, quando o sol que retoma a infância em "Poema de uma infância distante" se apresenta: "E este veneno de lua que a dor me injectou nas veias / em noite de tambor e batuque / deixará para sempre de me inquietar. / Um dia / o sol iluminará a vida. / E será como uma nova infância raiando para todos"9.

Laranjeira aponta a poesia de Noémia de Sousa como vigorosa pela fusão "de componentes estéticas dos dois movimentos” neo-realismo e negritude, fortalecendo uma estética "antiburguesa" e uma "ética antiimperialista", todavia sua poesia não foge à crítica de Rui Knopfli, após a inclusão de seus poemas em uma antologia de Alfredo Margarido, nos anos 60. O que se precisa reforçar é a importância da produção dessa poetisa no cenário moçambicano, reconhecidamente único em seu tempo, que imprimiu "o grito de ser mulher", conforme Secco. Noémia de Sousa se inclui na vertente estética moçambicana que traduz uma "afirmação coletiva, em que reivindicam raízes culturais negro-africanas"10. Em "Poema para um amor futuro"11, o eu poético reprime, como forma de resistência, o sentimento amoroso a espera de conquistar, primeiro, a vitória na luta de seu povo:

o homem que eu amarei

(...)

Ah, ele será humano, como eu,

E da mesma seiva generosa.

Completamente humano e verdadeiro

-que só assim eu o poderei amar.

(...)

Ah, sim,

Quando a paz descer sobre o campo de luta,

Poderei enfim

Dar-me completamente,

Minha alma, finalmente,

Poderá encher-se como um búzio, da música

do luar

E do murmúrio do mar.

E meu corpo adubado de ânsias,

Abrir-se-á charrua do seu desejo,

À semente então irmã gêmea da Terra,

Carregando em mim o mistério da vida,

Machamba aberta à chuva benéfica

E ao sol fecundo do seu amor.

E quando em mim se fizer o milagre,

Quando do meu grito de morte

Surgir a vitória máxima da vida,

Ah, então eu estarei completa.

Esse abrir mão do amor individual em prol de uma luta coletiva salienta não uma fragilidade ou resignação amorosa, antes se apresenta como uma atitude fiel de militante sócio-política que tem o corpo do poema como lugar de reverberação do serviço à coletividade.

Em naufrágios sentidos Esmeralda Ribeiro, paulista, jornalista, milita no movimento de mulheres negras brasileiro, atualmente organiza os Cadernos Negros, sua obra individual Malungos e Milongas12 inaugura seu trânsito pelo conto, além de escrever ensaios e poesias.Voz expressiva no cenário literário afro-brasileiro apresenta uma poesia autêntica, acessando os vãos da memória coletiva negra e da resistência numa sociedade que, sob o mito de uma democracia racial, ainda há muitos desafios a serem ultrapassados, para que a pessoa negra tenha acesso aos direitos que lhe são devidos. Sua inserção na literatura afro-brasileira vem consolidar a participação feminina negra e questionar o domínio da participação masculina no cenário editorial de produções afro-brasileiras. Juntamente com Miriam Alves, Conceição Evaristo, Ribeiro levanta a voz feminina negra para fora do país e cada vez mais é reconhecida aqui no Brasil.

Em seus poemas, a marca da identidade feminina resiste à exclusão e marginalização, seja negando os estereótipos que há século vem sendo reiterados para uma imagem inferiorizada da mulher negra; seja denunciando o amoldamento que se quer impor ao feminino, após de várias conquistas significativas. Por isso sua poética vai do simples, mas não conformista desabafo em "Rotina": "Há sempre um homem / me dizendo / o que fazer"13 à indignação da avó de uma de suas personagens do conto "Guarde segredo" quando diz: "Nós não devemos aceitar o destino com resignação"14.

A poética de Esmeralda Ribeiro revigora o sentimento de pertencimento do povo negro reverenciando ancestrais africanos. Nesse sentido, encontramos uma seleção de poemas exaltando os orixás femininos, como no último volume (nº 28) dos Cadernos Negros, como os poemas: "Sàlúbá", "Obá Xire", "Aoboboí! Oxumaré", "Ai ei eiô, mamãe Oxum" e "Èpàrèi, Iansã", "Odo Xererê, Odoyá, Iemanjá" e "Rirró, Ewa!". Saudando especificamente as divindades femininas guerreiras, o eu poético suplica proteção aos desvalidos "sem rosto na multidão". No primeiro, expõe a cruel realidade dos meninos de rua, vitimados pela fome e pela droga; no segundo, pede à "deusa do poder feminino" Obá Xire, justiça e força aos negros e negras guerreiros, e que esta peça a Exu e Xangô "que deformem o ato de discriminar", para em seguida, clamar a Oxum "mãe de todos os rios" desaguar "afluente brios quilombolas" fazendo valer e preservar a mística do povo negro, dando-lhe "poção de resistência", porque barreiras são vários no "lago artificial" que aqui se implanta. É preciso clamar a Iyalodê para que os rios artificiais, aqui metáfora da violência e da discriminação, não desemboquem em "nenhum Mar".

Indicando que o extermínio do povo negro, em dias atuais, resulta da violência policial e não especificamente da fome e da miséria, o eu poético de "Odo Xererê, Odoyá, Iemanjá" suplica a proteção de Iemanjá aos filhos quilombolas no canto triste e incisivo:

"Há homens que formam quadrilhas /vestidos de deus supremo/ fecham o círculo /e no centro estão aqueles de pele escura/ na roleta-russa acidental/ quem roda pra sempre / são as nossas emoções"15. Metonimicamente o ato do poder autoritário desenfreado na "roleta russa acidental" vem exterminar as emoções de quem vive a memória dos mortos nas encruzilhadas hediondas dos becos das cidades brasileiras. É pela memória evocada dos ancestrais, vivificando o poder criador, acolhedor e onipotente que meninos e meninas, homens e mulheres afro-brasileiros podem resistir no aqui e agora.

Mas também a força poética de Ribeiro vem nos poemas que tratam do universo feminino, como agentes de desconstrução do olhar do outro sobre a negra e construção do olhar negro. Em "Olhar negro", o eu poético apresenta-se com um ser em fragmentos, mas (conjunção recorrente em cada estrofe do poema) esse eu em "pedaços" está em contínuo processo de recomposição: "Naufragam fragmentos / de mim / sob o poente / mas, / vou me recompondo / com o Sol nascente / Tem / Pe / Da / Cós / Mas / diante da vítrea lâmina / do espelho,/ vou refazendo em mim / o que é belo"16. A concisão dos versos diluídos nas estrofes em que a escolha incide em líquidos vocábulos dão uma imagem do eu vulnerável às intempéries temporais. Eu em estilhaços, estrofes entrecortadas, vocábulos recorrentes reforçam o naufrágio humano oceânico, de forma que é pela lâmina, palavra, espelho, vida e vício que acontece o processo de desconstrução e reconstrução do olhar feminino negro.

A produção poética de Esmeralda Ribeiro se revela inventiva, arguta e indignada ao dizer sobre o mundo, para isso aviva acontecimentos que tendem a se banalizar, representações e ícones da cultura afro-brasileira, imagens positivas de seus ancestrais, pois para o estar no mundo, conforme este se configura à pessoa negra, necessário se faz mergulhar nas águas ancestrais, a fim de desmascarar as ciladas sociais. Voz atual, combativa e denunciadora da realidade por que passa a pessoa negra brasileira, assemelhase por isso à preocupação de Noémia de Sousa, como porta voz do povo moçambicano, no cenário combativo dos anos 50, contra o colonizador e em prol da afirmação de valores dos oprimidos e libertação de seu país. A memória se organiza, segundo Pollak, "em funções das preocupações pessoais e políticas do momento" e por isso ela é um "fenômeno construído" no aspecto em que o individual se circunscreve pelas experiências coletivas no agora ou no passado. Portanto, a memória nos revela um sentimento identitário do eu individual e do eu coletivo.

Referências bibliográficas:

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. SIDOU, Beatriz. (Trad.) São Paulo: Centauro, 2006.

LARANJEIRA, Pires. Literaturas africanas de expressão portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 1995.

LIMA, Luciano Rodrigues. "Poesia negra contemporânea: O redescobrimento do Brasil discurso poético, consciência e atitude". www.uneb.br/lucianolima/artigos/POESIANEGRACOMTEMPORANEA.doc. acessado em dezembro de 2006.

POLLAK, Michel. "Memória e Identidade". In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, pp. 200-212. (online) acessado em setembro de 2006.

QUILOMBHOJE. (Org.) Cadernos negros: os melhores contos. São Paulo: Quilombhoje, 1998.Cadernos negros: os melhores poemas. São Paulo:Quilombhoje, 1998.

RIBEIRO, Esmeralda e BARBOSA, Márcio. (Org.) Cadernos negros. V. 29: poemas. São Paulo: Quilombhoje, 2006.

SECCO, Carmem Tindó. A magia das letras africanas: ensaios escolhidos sobre as literaturas de Angola e Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABE Graph Editora/Barroso Produções Editoriais, 2003. SOUSA, Noémia. Sangue negro. Moçambique: Associação dos Escritores Moçambicanos, 1988.

1 1990 e 2002, respectivamente.

2 LARANJEIRA, 1995, p. 268.

3 CRAVEIRINHA, apud LARANJEIRA, op. cit., p. 268.

4 SOUSA, 1988, pp. 49-50.

5 HALBWACHS, 2006, p. 99.

6 POLLAK, 1992, p. 2.

7 Idem, ibidem.

8 SOUSA, op. cit., pp. 58-59.

9 Ide

10 SECCO, apud NOA, 2003, p. 281.

11 SOUSA, op. cit., p. 58.

12 1998.

13 QUILOMBHOJE, 1998a, p. 60.

14 QUILOMBHOJE, 1998b, p. 71.

15 RIBEIRO, 2006, p. 117.

16 QUILOMBHOJE, 1998, pp. 64-66.

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