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Impressão da Guerra na Literatura de Pepetela e Lobo Antunes

Escrito por  Carolina Barros Tavares Peixoto
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Introdução:

A guerra, como todos os feitos da humanidade, está sujeita a variadas interpretações. A história de um mesmo conflito pode ter diferentes versões.

 

Entre tantas outras podem estar as versões dos vencedores, dos vencidos, dos que participaram das frentes de batalha ou dos que lá nunca estiveram. Neste trabalho apresentamos as diferentes leituras da guerra feitas por dois participantes do conflito que levou à independência de Angola.

Antônio Lobo Antunes, recrutado pelas Forças Armadas Portuguesas, combateu os movimentos nacionalistas angolanos durante os dois anos do serviço militar obrigatório (1971-1973). Essa experiência foi fonte de inspiração para a escrita de Os cus de Judas, obra que lhe rendeu importantes prêmios literários. Pepetela, mesmo antes de ingressar na luta armada, participou da mobilização clandestina contra o colonialismo desde os tempos de estudante. Em Mayombe, o que deveria ser um relatório das atividades da guerrilha deu lugar a um romance que humaniza a luta pela independência e seus heróis, os guerrilheiros. Apesar das posições políticas bem marcadas indicarem trajetórias distintas, a literatura foi o veículo escolhido por ambos para registrar as impressões da guerra que vivenciaram em Angola. Memória e ficção entrelaçadas guiam as narrativas de seus romances aproximando os leitores de uma história que é pouco conhecida até entre os historiadores. Podemos dizer que as obras de Pepetela e Lobo Antunes aqui analisadas são marcadas por uma intenção testemunhal. Remetendo ao evento histórico da guerra entre os movimentos de libertação nacional angolanos e as forças armadas portuguesas, elas nos apresentam o passado numa tentativa de responder necessidades do presente. Cabenos então analisar os textos em relação com o contexto em que foram produzidos, considerando os elementos sociais não apenas como referências que permitem identificar no corpo dos livros a expressão de uma determinada época ou sociedade, nem como enquadramentos para situá-los historicamente, mas como fator da própria construção artística1.

1. Mayombe e Os cus de Judas, obras localizadas no espaço-tempo Os títulos fazem referência direta aos locais onde seus respectivos autores participaram das frentes de combate. Os cus de Judas são as terras do leste de Angola, também conhecidas como "terras do fim do mundo". Um vasto planalto onde a paisagem predominante é a savana, palco do avanço da guerrilha em nome da independência e, conseqüentemente, de grandes ações militares repressivas nos anos 1970. Mayombe é a densa floresta equatorial localizada ao norte deste país que Pepetela e seus companheiros de guerrilha queriam libertar. Aí o MPLA fundou sua 1ª Região Militar, espaço destinado, sobretudo à formação tática e política de militantes.

A geografia, a relação estabelecida entre os homens e o espaço, influencia a construção das narrativas literárias em questão. No texto de Lobo Antunes as ações militares ganham destaque. Não por acaso. Foi no leste angolano, justamente no início dos anos 70, que a guerra intensificou-se. Na escrita de Pepetela o enfoque principal não é dado à guerra, mas sim às razões que a explicam. "São razões humanas, de crença numa necessidade de justiça, de ódio à opressão..."2.

Destacam-se as discussões políticas em torno da elaboração de um projeto de identidade nacional. A luta armada é representada como um rito de passagem. O caminho revolucionário para tornar a terra angolana independente representa também o trajeto evolutivo dos homens que o percorrem. Os "homens novos"3 forjados durante a guerra de libertação nacional seriam a força de sustentação do país independente. De fato, na região da floresta do Mayombe ocorreram poucas ações militares. Mas o MPLA manteve ali um importante centro de treinamento de seus quadros.

"Escute. Olhe pra mim e escute, preciso tanto que me escute (...)"4. Os cus de Judas veio a público em 1979. A conjuntura política inaugurada pela Revolução dos Cravos5 estabeleceu a necessidade de "falar", em oposição ao silêncio castrador imposto pela censura que vigorou durante o Estado Novo português. Gozando da liberdade de expressão, Lobo Antunes usa o registro ficcional, acrescido de fina ironia, para evocar o que não poderia ser diretamente apresentado ou representado, os traumas provocados pela guerra. Seu romance está impregnado pelo mal-estar do sobrevivente que preferiria não ter participado de uma guerra vista como insana. A morte e uma sensação de absurdo dominam as cenas da maior parte do livro. Um capricho do Estado salazarista.

Ação despropositada imposta à sociedade para manter o decadente império ultramarino. Esses são os argumentos centrais da crítica social à guerra traçada em Os cus de Judas.

Em 1971 Pepetela escreveu Mayombe sem intenções de publicá-lo. O romance era o espaço onde o autor, então responsável por ministrar classes de formação política a outros militantes do MPLA, podia desenvolver os conflitos de idéias debatidas entre os guerrilheiros6. Na transcrição ficcionalizada desses debates aparecem as disputas pelo poder e alguns percalços enfrentados pelo movimento nacionalista como a escassez de quadros, as dificuldades para conquistar o apoio das populações locais, o tribalismo, o regionalismo, o papel dos intelectuais e o lugar dos mestiços na luta pela independência, a má administração dos recursos destinados à guerra, entre outros. A apresentação dos problemas em torno da construção da moderna nação angolana tem um caráter de crítica construtiva. O romance foi publicado pela primeira vez em 1980, cinco anos após a conquista da independência. Quando o autor considerou que o livro, apesar de inspirar a reflexão sobre os caminhos e descaminhos da luta de libertação nacional, já não poderia ser utilizado pelos inimigos para abalar a força e a legitimidade política do MPLA7.

"Vou contar a história de Ogun, o Prometeu Africano"8. O caráter plural da moderna identidade angolana pode ser inferido a partir da utilização da licença literária para fundir Ogun e Prometeu associando-os ao mito de origem da nação. A identidade angolana foi construída a partir da contraposição ao "modo de ser português", mas isso não significou um abandono dos elementos culturais ocidentais úteis à estruturação de uma moderna nação em Angola. Nesse sentido podemos destacar a manutenção da língua portuguesa como idioma oficial do país. Diante da pluralidade de grupos etnolingüísticos que formam a população angolana, a língua portuguesa, mal ou bem conhecida pela grande maioria graças ao contato com o colonizador, serve como instrumento facilitador das relações sociais tanto internas, como internacionais.

2. Literatura, Memória e História

Durante o trabalho de escrita, os autores selecionam detalhes, ordenam acontecimentos e estruturam a narrativa de maneira a destacar o que lhes parece mais significativo. Entretanto, suas noções de significado são elaboradas a partir da cultura em que estão inseridos. Aquilo que é factível de ser pensado é delimitando pelo conjunto de tradições mentais ou esquemas interiorizados que padronizam os modos de pensar de acordo com a época e o contexto em que os sujeitos vivem9.

Lobo Antunes é um psicanalista que vivencia e acompanha os reflexos da revolução portuguesa sobre a sociedade, mas principalmente, sobre os indivíduos. A partir da segunda metade dos anos 70, Portugal mergulhou num vertiginoso processo de modernização marcado por uma sensação de "aceleração" do tempo, uma fluidez das relações pessoais e da própria ocupação do espaço, sobretudo os centros urbanos, e uma supervalorização do indivíduo. Ao mesmo tempo, essa moderna realidade, onde as antigas relações sociais parecem dissolver-se, promoveu também uma preocupação com o esquecimento, gerando, em contrapartida, um movimento de recuperação e/ou construção de memórias.

Respondendo a essa conjuntura, Os cus de Judas funciona como um espaço para lembrar, um lugar de memória. Ao mesmo tempo, o texto em primeira pessoa e a utilização do discurso direto emprestam um caráter individualista ao romance. A guerra é retratada a partir da experiência de um único indivíduo: o autor que se confunde com o narrador, que por sua vez é personagem principal da dramatização. Lobo Antunes apresenta a sua versão da história da guerra colonial. Como obra literária a narrativa baseada na ficcionalização da memória do autor impacta o público leitor. Como fonte para o historiador ela ajuda a elaborar novos questionamentos sobre o posicionamento dos portugueses em relação ao problema colonial.

Pepetela é um sociólogo que logo após a independência toma parte no quadro de funcionários de primeiro escalão da administração do novo estado angolano.

Confessadamente preocupado com a construção da identidade nacional10, o autor faz de Mayombe um espaço de preservação da memória da luta pela independência sem deixar de apresentar e problematizar as diferentes tensões sociais desencadeadas por esse processo histórico. Dando voz a muitos narradores, o escritor se preocupa em demonstrar vários pontos de vista em relação à guerra, ainda que todos tenham em comum a consciência de que lutavam contra o mesmo inimigo: o colonialismo. O romance retrata a identidade angolana como "um todo formado de muitos"11.

Conclusão

Apesar do deslinde entre a história, ciência que se ocupa do "suceder real", e a literatura, que se vale da ficção para expressar uma intencionalidade estética, recorrer à imaginação pode nos ajudar a interpretar os fatos históricos de uma perspectiva mais próxima da dos atores sociais que os vivenciaram. O suceder fictício, pode e deve ser historicizado. A ficção, entendida enquanto representação do suceder estético pode ser considerada como um complemento do suceder real, pois nos revela uma outra parte da realidade, aquilo que não pode ser captado teoricamente pela ciência12.

O fundamento da literatura está na sua condição esclarecedora da aventura terrena do ser humano. As obras literárias e seus sistemas de pluralidades são signos e remetem, sem exceção, a categorias supra-estéticas: o homem, a sociedade, a história13.

Nossa intenção ao apresentar essa breve leitura de obras de Pepetela e Lobo Antunes foi revelar algumas imagens hermenêuticas do mundo propostas em Mayombe e Os cus de Judas, pois consideramos a literatura um útil recurso para melhor compreendermos a história. Sobretudo quando investigamos processos revolucionários que, por definição, promovem profundas transformações na consciência social e individual que, por sua vez, animam e estruturam as produções literárias.

Referências bibliográficas:

BOURDIEU, P. "A gênese do conceito de habitus e campo". In: O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000, pp. 59-73.

CÂNDIDO, Antônio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: Editora Nacional, 1985.

ANTUNES, António Lobo. Os cus de Judas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

FANON, F. Os condenados da Terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

HALL, Stuart. Identidades culturais na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998. LABAN, Michel. "Encontro com Pepetela". In: Angola: encontro com escritores. vol. 2. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1990, pp. 771-819.

MATUTE, Álvaro. "Historia y Literatura. Nexo y Deslinde". In: SERNA, Jorge Ruedas de la (org.). História e Literatura. Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Editora Unicamp, Imprensa Oficial do Estado e Memorial da América Latina, 2003. pp. 385-395.PEPETELA. Mayombe. República de Cuba: União dos Escritores Angolanos, 1985.

POLAR, Antonio Cornejo. O condor voa: Literatura e Cultura Latino-Americanas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000.

SECCO, Lincoln. "Trinta anos da Revolução dos Cravos". In: Revista Adusp, n. 33, out. 2004. pp. 6-12.

1 CÂNDIDO, 1985, p. 7.

2 PEPETELA, 1985, p. 138.

3 Notamos a influência da obra de Franz Fanon na construção literária de Pepetela. Segundo Fanon (1979), a criação de homens novos se daria pela descolonização das consciências, o que ocorreria no processo de luta pela liberdade. A mobilização das massas, quando efetuada por ocasião da guerra de libertação, introduziria em cada consciência a noção de causa comum, de destino nacional, de história coletiva. Conquistada a independência, essa argamassa, preparada em meio à violência da guerra, facilita ria a construção da nação.

4 ANTUNES, 2003, p. 70.

5 Processo histórico desencadeado em 25 de abril de 1974 pelo Movimento das Forças Armadas - MFA, que reunia militares descontentes com a conjuntura da guerra colonial e com a política de Estado adotada pelo governo português. O "25 de abril" transformou Portugal, deu um novo curso - antifascista e anticolonialista - à política, iniciou o processo de democratização do país e pôs fim à guerra contra os movimentos nacionalistas africanos em Angola, na Guiné Bissau e em Moçambique. Cf. SECCO, 2004, pp. 6-12.

6 Cf. Pepetela. In: LABAN, 1990, p. 774.

7 Idem, ibidem, p. 793.

8 PEPETELA, op. cit., p. 9.

9 BOURDIEU, 2000, pp. 59-73.

10 Cf. Pepetela. In: LABAN, op. cit., p. 771.

11 HALL, 1998, p. 57.

12 MATUTE, 2003, pp. 385-395.

13 POLAR, 2000, p. 16.

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