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A Escritura Engajada e Tansculturada de Luandino Vieira

Escrito por  Angela Cristina Antunes Conceição
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Primeiramente, convém situarmos uma breve alusão ao título deste artigo intitulado "A escritura engajada e transculturada de José Luandino Vieira" para a compreensão dos parâmetros

Primeiramente, convém situarmos uma breve alusão ao título deste artigo intitulado "A escritura engajada e transculturada de José Luandino Vieira" para a compreensão dos parâmetros da análise literária comparativa que nos propormos. Ao utilizar a palavra "escritura", consideramos como mais legitimada e forte do que "escrita" conotada como um ato de escrever; enquanto que "escritura" conota um registro histórico parcial da sociedade, um ato de assumir uma postura engajada ou quebra de barreiras. A alusão à engajada e transculturada nos remete a aventurar-se no circuito dos musseques por meio das duas ficções de José Luandino Vieira, A vida verdadeira de Domingos Xavier e Luuanda:

estórias, a fim de conhecer o drama da sociedade angolana diante da colonização portuguesa, assim o escritor assume uma voz popular, preocupando-se muito mais com denunciar a repressão colonial e cantar a luta de libertação nacional de Angola.

Com essa perspectiva, o escritor não cria do nada, pois tendo em vista a existência da matéria da tradição literária, como afirma Abdala Juniori, em um estudo específico sobre a comparação entre escritores engajados das literaturas de língua portuguesa, diz que o escritor absorve e metamorfoseia nos processos endoculturativos, desde a apreensão "mais espontânea" dos pequenos causos populares, ditos populares, canções etc., da chamada oralitura (literatura oral) até os textos "auto-reflexivos" da literatura erudita. Ocorre, nesse sentido, uma apropriação "natural" das articulações literárias sem que o próprio futuro escritor se aperceba de sua situação de ser social e de "porta-voz" de um patrimônio cultural coletivo.

Dessa forma, a motivação do nosso estudo é saber: de que modo Luandino Vieira consubstancia como um escritor engajado e transculturador nas obras A vida verdadeira de Domingos Xavier e Luuanda: Estórias? Resistência ao colonialismo, luta pela libertação nacional de Angola, a busca pela identidade nacional, denúncia social, utopia da transformação político-social do país, o desvendamento do cotidiano angolano se aglutinam no percurso narrativo dessas obras, permitindo a colocação da "projeção da busca identitária angolana" como um eixo de conflito comum, em torno do qual gravitam essas narrativas e suas personagens protagonistas.

Natural de Portugal, o escritor José Mateus Vieira da Graça, ainda criança mudou-se para Angola com seus pais portugueses, mas de fato angolano por adoção, ao conviver nos musseques, bairros populares de Luanda em sua infância e adolescência, constrói narrativas literárias emblemáticas e singulares. Entretanto, esse escritor tem uma trajetória engajada e transculturada, a começar pela adoção do pseudônimo de "Luandino" Vieira, utilizado inicialmente em suas produções literárias num dos jornais de Angola, e claro em homenagem a Luanda, como postula Chaves, "o amor por Luanda invade-lhe o nome"ii.

Ainda, Luandino esteve preso no campo de concentração de Tarrafal de Santiago( em Cabo Verde, outra ex-colônia portuguesa) durante o período de 1961 a 1972 por suas atividades militantes a favor da independência de Angola, onde escreveu a maioria de sua produção literária. Em 2006, recusou o Prêmio Camões alegando "razões pessoais e íntimas".

José Luandino Vieira é um dos escritores mais magistrais, diríamos até um dos mais proeminentes das literaturas de língua portuguesa, cuja produção literária é bastante rica e prodigiosa, pois ao rememorar o passado, o escritor insere a oralidade à escritura não para testemunhar uma História, contudo como um escritor intelectual comprometido nos problemas e tensões políticas e sociais de Angola, nos aporta a problemática de uma historicidade local, em seus movimentos, contingências e contradições, investigando e encenando situações que questionam as ansiedades e esperanças humanas.

Assim, Luandino Vieira é instituído, segundo ensina Denisiii, como um escritor engajado que assumiu, explicitamente, uma série de compromissos com relação à coletividade, que se ligou de alguma forma a ela por uma promessa e que joga nessa partida a sua credibilidade e a sua reputação. Para esse crítico francês, "engajar, no sentido amplo e literal, significa colocar ou dar em penhor, engajar-se é portanto dar a sua pessoa ou a sua palavra em penhor, servir de caução e por conseguinte, ligar-se por uma promessa ou juramento constrangedor".

Nesse sentido, como escritura engajada, o romance A vida verdadeira de Domingos Xavier é a história sobre o herói principal, Domingos Xavier (operário-militante), que foi preso e torturado até a morte, pela causa da independência do país. Logo, Luandino, além de narrar o percurso sofrido e simbólico de Domingos Xavier, retrata a história dos musseques dos bairros periféricos e dos luandinos revolucionários e compromissados com a luta, por exemplo as personagens: Xico Kafundanga, Mussunda, vavô Petelo, miúdo Zito, bem como trata da triste e tensa experiência da personagem esposa Maria nas andanças em Luanda em busca de informações sobre o paradeiro do esposo Domingos Xavier.

Por sua vez, a riqueza do livro Luuanda: estórias, constituído de três contos intitulados: "Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos”, ‘Estória do ladrão e do papagaio" e "Estória da galinha e do ovo", que já foi publicado em russo, alemão, checo, sueco, francês, italiano, inglês e dinamarquêsiv, sem dúvida, é indiscutível, desde o seu título significativo, a descrição sensível e expressiva da terra natal, a proposta de uma reinvenção da linguagem narrativa e lingüística, logo, suas estórias centram-se em tematizar Luanda, traduzindo os espaços sociais periféricos dos musseques angolanos por meio de situações do cotidiano angolano (fome, desemprego, exclusão social, relação entre o colonizado e colonizador, degradação, sobrevivência, maca entre os vizinhos, união):

Fechou os olhos com força, com as mãos para não ver o que sabia, para não sentir, não pensar mais o corpo velho e curvado de vavó, chupado da vida e dos cacimbos, debaixo da chuva, remexendo com suas mãos secas e cheias de nós os caixotes de lixo dos bairros da Baixa. As laranjas quase todas podres, só ainda um bocado é que se aproveitava em cada uma e, o pior mesmo, aquelas mandiocas pequenas, encarnadas, vavó queria enganar, vavó queria lhes cozer para acabar com a lombriga a roer no estômago...v

Na manhã seguinte, os jornais trouxeram grandes descrições da chuvada e fotografias mesmo dos estragos, mostrando ruas com buracos, árvores arrancadas, automóveis inutilizados, areia pedindo tractores. Do menino afogado na lagoa da Pameli ou da faísca que matou na criança refugiada e baixo da mulemba, ou das muitas cubatas que tinham caído nos musseques deixando seus moradores sem abrigo, ou sepultados em vida, nenhum jornal falou. Apenas o povo desses musseques soube e lamentou e chorou.vi Em busca de uma conscientização do leitor, Luandino Vieira também aborda a relação do colonizador e colonizado em Angola, assim, essa realidade é ilustrada:

Pés, mãos e pescoços amarrados numa só corda e o cheiro bom da terra molhada pelo cacimbo da noite entrando no nariz, dilatando o peito. O bater cego do cipaio a qualquer movimento.vii

Por isso ninguém que deu conta a chegada da patrulha. Só mesmo quando o sargento começou aos socos nas costas é que tudo calou e começaram ainda arranjar os panos, os lenços da cabeça, coçar os sítios das pancadas. (...) -Vocês estavam a alterar a ordem pública, neste quintal, desordeiras! Estavam reunidas mais de duas pessoas, isso é proibido! E, além do mais, com essa mania de julgarem os vossos casos, tentavam subtrair a justiça aos tribunais competentes! A galinha vai comigo apreendida, e você toca a dispersar! Vamos! Circulem, circulem para casa! Os soldados, ajudando, começaram a girar os cassetetes brancos em cima da cabeça. Muitas que fugiram logo, mas nga Zefa era rija, acostumada a lutar sempre, (...).viii

Dessa maneira, podemos considerar Luandino Vieira como um escritor engajado, conforme mostra Abdala Junior, seu engajamento real não pode permanecer na intenção de engajamento e ele se efetiva no texto artístico, numa articulação com a "ciência" e a "arte" dos temas relativos às carências de seu povo. Ele precisa ser verdadeiramente dialético para compreender a heterogeneidade de toda práxis, por mais específica que ela possa se lhe afigurar.ix

Por outro lado, ao definir a transculturação como processo de incorporação e transformação interculturais que opera nos contatos de diferentes culturas a partir da colonização, Rama constitui essa prática como uma proposta de estudo estético e temático nas narrativas literárias, em que se traduzem os conflitos e encontros entre a cultura popular e o erudito, entre o regionalismo e o universalismo, resultam mudanças, dando origem a algo novo, original e independente. De acordo com Ramax, haveria, pois, perdas, seleções, redescobertas e incorporações. Estas quatro operações são concomitantes e se resolvem todas dentro de uma reestruturação geral do sistema cultural, que é a função criadora mais alta desenvolvida dentro de um processo transculturador. Utensílios, normas, objetos, crenças e costumes só existem em uma articulação viva e dinâmica, que é determinada pela estrutura funcional de uma cultura.

Ao adentrar no percurso literário de Luandino Vieira, entre o local e o universal, percebemos que desempenha de modo paradigmático o papel de transculturador, ao mesmo tempo configura rupturas, integrando um projeto mais amplo nessas obras citadas, especialmente, o livro de contos, em que se apresentam um trabalho engenhoso da linguagem e proposta de nacionalização da língua literária e transgressões lingüísticas, pois utiliza, conforme Chaves afirma, "procedimentos que envolvem o campo lexical, morfológico e sintático, neologismos, procurando mesclar a língua portuguesa oficial com as línguas banto (expressões do quimbundo), e de tudo mais o mais que considere válido para conferir uma feição africana da linguagem"xi.

O trabalho artístico literário de Luandino Vieira simboliza o complexo cultural angolano, sua escritura incide sobre a vida dos moradores angolanos nos musseques, sobretudo pelo emprego da oralidade, pela construção semântica que surge o bilingüismo textual (português e quimbundo), os neologismos, criativos e inovadores recursos estilísticos e literários, assim, o autor constrói a trajetória discursiva densa de significados culturais e intelectuais com o objetivo de rebelar contra as estruturas lingüísticas impostas pelo regime colonial bem como denunciar e questionar as formas do poder e dominação.

Em termos do engajamento literário, Luandino Vieira foi e é um grande escritor angolano porque reivindicou uma literatura de expressão angolana, e, como analisamos, procurou revelar a situação da sociedade angolana da década de 60, portanto Luandino funde sua estética literária com a identidade nacional angolana engendrando ficções questionadoras e que desencadeiam em reflexões. Como bem aponta Macêdo, assim, ao questionar as estruturas de domínio do sistema colonial, reivindicando uma nacionalidade angolana, a escrita de Luandino Vieira acaba também por discutir, de maneira mais ampla, as formas de domínio a que o homem pode estar submetido. Dessa forma, as estórias apontam não só para a peculiaridade da situação angolana, como também para os valores universais.xii

Portanto, ao englobar os processos transculturadores tais como: os lingüísticos, artísticos, sociológicos e reflexivos, Luandino tenta criar e recriar, no relato uma escritura angolana, mista de revolução e mudança, de reflexão e questionamento, do particular para o universal e o exercício do engajamento literário.

Referências bibliográficas:

ABDALA JUNIOR, Benjamin. De vôos e ilhas: literatura e comunitarismos. Cotia, São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

AGUIAR, Flávio; VASCONCELOS, Sandra Guardini T. (orgs.). Ángel Rama: literatura e cultura na América Latina. São Paulo: EDUSP, 2001.

CHAVES, Rita. Angola e Moçambique: experiência colonial etTerritórios literários. Cotia, São Paulo: Ateliê Editorial, 2005.

DENIS, Benoît. Literatura e engajamento (De Pascal a Sartre). Bauru, São Paulo: EDUSC, 2002.

MACÊDO, Tânia Celestino. Da Inconfidência à Revolução (trajetória do trabalho artístico de Luandino Vieira). 160f. Dissertação. (Mestrado em Literatura Portuguesa), São Paulo: FFLCH, USP, 1984.

"Os rios e seus (dis)cursos em Rosa, Luandino e Mia Couto". In: Angola e Brasil: estudos comparados. São Paulo: Arte & Ciência, Via Atlântica, nº 3, 2002.

VIEIRA, José Luandino. A vida verdadeira de Domingos Xavier. São Paulo: Editora Ática, 1986.

Luuanda: estórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

i ABDALA JR., 2003, p. 112.

ii CHAVES, 2005, p. 21.

iii DENIS, 2002, p. 31.

iv Conforme nota do editor português in: VIEIRA, 2006, p. 138.

v VIEIRA, 2006, p. 18.

vi Idem, 1986, p. 63.

vii Idem, ibidem, p. 26.

viii Idem, 2006, p. 129.

ix ABDALA JR., op. cit., p. 116.

x AGUIAR & VASCONCELOS, 2001, pp. 265-266.

xi CHAVES, 2002, p. 53.

xii MACÊDO, 1984, p. 152.

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