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Da África Para o Brasil: A Participação do Negro na Formação do Folclore Nacional

Escrito por  Angelina Aparecida de Pina, Juraci Coutinho de Pina
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Introdução

A Constituição Federal (Lei 4.3/85, Art. 215) garante igual direito às histórias e culturas que compõem a nação brasileira, bem como o acesso às fontes da cultura nacional a todos os brasileiros.

 

Introdução

A Constituição Federal (Lei 4.3/85, Art. 215) garante igual direito às histórias e culturas que compõem a nação brasileira, bem como o acesso às fontes da cultura nacional a todos os brasileiros.

Para assegurar esses direitos, a Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, alterando a Lei 9.394 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 20 de dezembro de 1996, estabelece a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira na Educação Básica e inclui o "Dia da Consciência Negra" no calendário escolar.

A nova lei visa ao reconhecimento e à valorização da identidade, história e cultura dos afro-brasileiros, bem como à educação de relações étnico-raciais positivas, combatendo o racismo e as discriminações que atingem especialmente os negros.

Dessa forma, pretende que os negros possam conhecer e se orgulhar de sua origem africana, e os brancos possam identificar as influências e a importância da história e da cultura africana no seu jeito de ser, viver, pensar e se relacionar com as outras pessoas, notadamente as negras.

Procurando reparar os danos, que se repetem há cinco séculos, à identidade e aos direitos dos negros, essa ação política tem fortes repercussões pedagógicas, inclusive na formação de professores. Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-brasileira devem ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística, Literatura e História Brasileira. O Parecer CNE/CP 003/2004, de 10 de março de 2004, homologado pelo Ministro da Educação, propõe, entre outras ações educativas, a "educação patrimonial, aprendizado a partir do patrimônio cultural afro-brasileiro, visando a preservá-lo e a difundi-lo". Assim, este trabalho tem como objetivo investigar a decisiva participação de negro na formação do folclore nacional, expressão cultural legítima de nosso povo.

Arthur Ramos (1935 e 1937), Gilberto Freyre (1937), Rossini de Lima (1968) e Inezil Marinho (1980) são as principais fontes desta pesquisa. Folclore: conceito e características O interesse pelas tradições, histórias e superstições dos povos não é recente. Mas, foi apenas a partir do século XVIII, que começaram a se sistematizar os estudos em torno do assunto que hoje denominamos folclore.

A designação "folclore", cunhada a partir das raízes saxônicas folk (povo) + lore (ciência), apareceu pela primeira vez, em 22 de agosto de em 1846, em um artigo do arqueólogo William John Thoms, publicado no jornal The Athenaeum, sob o pseudônimo Ambrose Merton. No Brasil, a data foi escolhida para se comemorar o "Dia do Folclore" (Decreto federal n° 56.747 de 17/08/1965). Folclore é o conjunto de manifestações espirituais, materiais e culturais de origem popular, transmitidos via oral ou pela prática de geração em geração. Compreende, assim, as tradições, festas, danças, canções, lendas, crenças, superstições, comidas típicas, vestimentas e artesanatos - cultivados especialmente pelas camadas populares.

O estudo do folclore caracteriza a formação cultural de um povo e seu passado, além de detectar a cultura popular vigente.

O objeto de estudo do folclorista é o fato folclórico, que apresenta as seguintes características: tradicionalidade, oralidade, funcionalidade, aceitação coletiva, origem popular e espontaneidade.

Principais culturas africanas trazidas para o Brasil A escravidão negra implantada no Brasil no século XVI foi a responsável pela contribuição africana em nosso folclore. Os negros provinham de vários pontos do continente africano. Portanto, possuíam diversos estágios de civilização.

A cultura africana mais adiantada trazida para o Brasil foi a Yorubá, imigrada com os negros da Costa dos Escravos (sul da Nigéria), que forneceu o maior contingente para a servidão no Brasil, especialmente na capital da Bahia. Embarcados de diversos pontos da Costa Africana, foram em maior parte introduzidos na Bahia, recebendo a denominação Nagôs, palavra do Yorubá com a qual os franceses os designavam.

Outra importante cultura africana foi a Bantu, trazida para o Brasil pelos negros de Angola, do Congo, de Benguela e de Moçambique. Arthur Ramos resume essas quatro divisões em duas procedências gerais: (a) negros angola-conguenses e (b) negros da Contra-Costa.

Estas foram as culturas africanas que deixaram traços mais profundos no sentir, pensar e agir espontâneos das coletividades rurais e urbanas brasileiras.

Folclore afro-brasileiro O folclore afro-brasileiro faz parte do patrimônio cultural do país, constituído pelos "bens materiais e imateriais, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira" (Constituição Federal, Lei 4.3/85, Art. 216).

A cultura imaterial herdada dos negros é muito extensa e variada: danças, festas, contos, lendas e religiões são apenas alguns dos campos do folclore em que os africanos participaram de forma decisiva. Entre as danças de origem africana presentes no folclore nacional se destacam:

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1.Coco - também denominado "bambelô", é muito dançado na região praiana do Nordeste, sobretudo Alagoas. É uma dança de roda, cuja coreografia é mais um sapateado, acompanhado de palmas.

2. Frevo - teve origem na Capoeira, cujos movimentos foram estilizados para evitar a repressão policial. O nome vem da idéia de fervura (pronunciada incorretamente como "frevura"). É dança coletiva, executada com uma sombrinha, que serve para manter o equilíbrio e embelezar a coreografia. Atualmente, é símbolo do carnaval pernambucano.

3. Moçambique - freqüentemente executado em São Paulo, Minas Gerais e Brasil central. Os participantes formam uma esteira de losangos com bastões. Pulam, agacham e se sacodem, sem tocar nos bastões. Enquanto dançam, cantam e louvam aos santos, em solo e coro. Considerado por alguns folcloristas uma dança, por outros um folguedo (ou festa popular), o Maracatu é propriamente um desfile carnavalesco, remanescente das cerimônias de coroação dos reis africanos. A tradição teve início pela necessidade dos chefes tribais, vindos do Congo e de Angola, de expor sua força e poder, mesmo com a escravidão. Atualmente, faz parte do carnaval pernambucano.

A capoeira, trazida pelos negros de Angola, inicialmente, não era praticada como luta, mas como dança religiosa. Mas, no século XVII, para resistir às expedições que pretendiam exterminar Palmares, os escravos foragidos aplicavam os movimentos da capoeira como recurso de ataque e defesa. Em 1928, um livro estabeleceu regras para o jogo desportivo de capoeira e ilustrou seus principais golpes e contra-golpes. Hoje, a roda de capoeira é um importante elemento folclórico, sobretudo na Bahia.

Assim como as danças e festas, a literatura popular de origem africana é riquíssima. Ela contém uma vasta série de contos e lendas, que hoje integram o folclore brasileiro: (a) Contos totêmicos, ou seja, contos de animais, como: tartaruga, lebre, sapo, antílope, elefante, crocodilo, etc. (b) Contos de assombrações e entidades sobrenaturais, como a lenda do Quibungo, que significa "lobo". É uma espécie de entidade sobrenatural, meio homem, meio animal, que possui um enorme buraco no meio das costas, no qual atira os meninos que persegue para comer. Essa lenda se fixou na Bahia.

Ao lado das danças, festas e literatura oral, a religião integra o folclore do país como bem imaterial. Os escravos vindos da África tinham como religião o candomblé. Proibidos de praticar sua religião, os africanos associaram a cada orixá um ou mais santos católicos, conforme cada região do Brasil, para exercerem sua religião sem serem perseguidos. Aqui, dos orixás de origem africana, se tornaram mais populares os seguintes: Oxalá, Xangô, Yansã, Oxún, Ogun, Oxósse, Omolu, Yemanjá, Ibejis e Exu.

Segundo alguns seguidores, diferentemente dos santos católicos, os orixás são entidades que têm não apenas virtudes, mas também defeitos.

A cultura material de origem africana também é vastíssima, abarcando artesanatos e técnicas, tais como: a fabricação de instrumentos musicais, a culinária, a fabricação de utensílios de cozinha e a indumentária, entre outros. Entre os instrumentos musicais trazidos para o Brasil pelos africanos predominam os de percussão sob as mais variadas formas:

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1. Afoxé - cabaça coberta por uma redinha de malha, em cujas interseções se colocam sementes ou conchas.

2. Agogô - par de campânulas ou sinetas sem badalo, de ferro, conectadas por uma haste encurvada, do mesmo material, que se percute com uma baqueta de madeira ou ferro.

3. Atabaque - espécies de caixa alta, com couro somente na abertura de maior diâmetro, que se percute com as mãos.

4. Berimbau - arco de madeira retesado por corda de arame, com uma cabaça aberta presa à parte inferior externa do arco, tocado com uma vareta de madeira e com o dobrão (peça de metal), com acompanhamento do caxixi.

5. Caxixi - cestinha de palha, provida de alça, que contém sementes ou seixos, e em cuja base apresenta um pedacinho de cabaça ou de lata.

6. Cuíca - tambor cilíndrico, com couro em uma só abertura, em cujo centro está presa uma vareta de madeira, que friccionada com um pano molhado ou a própria mão produz o som.

A culinária brasileira, em especial a baiana, recebeu grande influência da Costa dos Escravos. Entre os pratos da cozinha brasileira trazidos pelos africanos estão: abará, acaçá, acarajé, bobó, caruru, mungunzá, muqueca, quibebe, sabongo, vatapá e xinxim.

Alguns utensílios de cozinha também procederam da África: pilão, pedra de ralar, peneira, colher de pau, alguidares, quartinhas e moringas de barro, almofariz.

A indumentária típica da baiana conta com peças de vestuário e ornamentos de origem africana: panos vistosos, saias largas e rodadas, xales "da Costa" e listados, turbante ou rodilha, braceletes, argolões, miçangas e balangandãs.

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Alguns bens materiais:

1. Alguidar.

2. Moringa.

3. Pilão.

4. Indumentária da baiana.

Considerações finais

Perseguido pelo branco, o negro praticava sua religião e suas tradições escondido, mantendo sua cultura viva. Mas, ao invés de se isolar, aprendeu a conviver entre grupos étnicos diferentes. Através do folclore, o negro se comunicou com a civilização "branca", impregnando-a de maneira definitiva.

As culturas africanas trazidas para o Brasil se amalgamaram com outras culturas - indígena e européia -, porém conservam características indeléveis de sua origem até os dias de hoje.

Referências bibliográficas:

FREYRE, Gilberto. Novos estudos afro-brasileiros. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1937.

LIMA, Rossini Tavares de. Abecê do folclore. 4 ed. São Paulo: Ricordi, 1968.

MARINHO, Inezil Penna. Introdução ao estudo do folclore brasileiro. Brasília: Horizonte, 1980.

RAMOS, Arthur. As culturas negras do Novo Mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1937.

O folk-lore negro do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935.

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