testeira-loja

Etnógrafos Escritores: Elementos Para Comparação Das Obras de Óscar Ribas e Câmara Cascudo

Escrito por  Alexandre Gomes Neves
Classifique este item
(1 Vote)
Nossa dissertação de mestrado na área de estudos Comparados de Literaturas em Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo tem por objetivo propor aproximações/diálogos entre o brasileiro Câmara Cascudo e o angolano Óscar Ribas.

Nossa dissertação de mestrado na área de estudos Comparados de Literaturas em Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo tem por objetivo propor aproximações/diálogos entre o brasileiro Câmara Cascudo e o angolano Óscar Ribas. Parece-nos produtivo colocar em diálogo dois intelectuais cujas produções se aproximam na composição de textos com caráter etnográfico, voltados para descrições de cultos religiosos e comportamentos sociais, na compilação de narrativas orais e no desejo de registrar e compreender os mais variados movimentos da cultura popular.

Câmara cascudo e Óscar Ribas transformaram-se em investigadores e "documentadores" de suas culturas baseando-se sobretudo em suas experiências e no contato direto e particular (nem sempre mediado por teorias) com as tradições que se dispuseram a documentar. Foi nesta perspectiva que fundaram suas "autoridades etnográficas", para utilizar a expressão de James Clifford. Num primeiro movimento aproximativo, incidiremos o olhar sobre dois romances:

Canto de muro de Câmara Cascudo e Uanga (feitiço) de Óscar Ribas. Romances que, para nós, estão cindidos entre a observação científica e o projeto ficcional. No caso de Canto de muro, verificamos uma relação, preponderante, entre Literatura e História Natural, no caso de Uanga (feitiço) entre Literatura e Antropologia.

1. Entre personagens e objetos de pesquisa Canto de Muro possui vinte e cinco capítulos, dos quais vinte e quatro são voltados para a apresentação e descrição dos hábitos dos personagens eleitos para este "romance de costumes" composto por Cascudo. No vigésimo quinto capítulo o autor deixa claro o plano ideológico da obra, que é criticar o que vê de desrazão no progresso técnico científico.

Acompanhamos ao longo do texto as vidas de morcegos, ratos, corujas, galinhas, urubus, guaxinins, titius, canários, corujas, aranhas, grilos, cobras, xexéus, tapiucabas, entre outras espécies. A linguagem de Cascudo é traçada entre o poético e as asserções factuais do pesquisador. Ora nos convida a lidar com as referências bibliográficas e os termos científicos originários de sua pesquisa e vastíssima erudição, ora nos delicia com imagens líricas tiradas de universos desconhecidos para a maioria de nós, sempre nos fazendo repensar sobre os destinos da espécie humana, o que confere a obra um indelével caráter filosófico.

No canto do muro tijolos quebrados, cobertos pelos cacos de telhas ruiva, aprumam-se numa breve pirâmide de que restos de papel, pano e palha disfarçam as entradas negras da habitação coletiva desde o térreo, domínio dual de Titius, o escorpião, e de Licosa, aranha orgulhosa, até o último andar onde mora um grilo solitário e tenor. (...)

No meio do quintal a mangueira estende a galharia robusta, derramando sombra e agasalho. É uma árvore bem velha, alta e copada mas de frutos azedos e reduzidos. Aquela imponência ornamental basta para justificar a presença poderosa.

Depois do sapotizeiro há uma goiabeira esquelética e que teima, como fêmea obstinada na fecundação, em cobrir-se de goiabas amarelas de polpa rubra e doce. No fim, hirto, senhorial, importante, o mamoeiro sacode o estirado caule bem alto, com uma coroa de folhas imóveis, guardando o bando de mamões compridos e desejados pela lonjura. Mamoeiro, sapotizeiro e goiabeira estão registrados nos livros graves como Carica papaya, L., mas o fruto lembrando uma grande mama conservou o aumentativo. Achras sapota, L., e Psidium guayava, Raddi, fecham a relação sisuda e definitiva.

Ao pé do sapotizeiro há um montezinho de pedras e aí instalou seu escritório o Cavalo-do-cão que ainda não tomou conhecimento de pertencer aos Himenópteros pompilídeos, raça guerreira e milenar.1

No trecho acima retirado do primeiro capítulo, "Canto de muro e seus moradores", a descrição das árvores e dos objetos que configuram o espaço ainda que ornamentada com adjetivos que buscam o pictórico e porque não dizer pitoresco, não deixa de ser também a representação de um habitat natural cuidadosamente projetado pelo naturalista para que possa descrever os hábitos das espécies que pretende observar. Aliás, é este mesmo o ponto de vista do narrador. A linguagem poética, que pinta o ambiente com cores quentes, disfarça o desejo de remeter o leitor a espécies concretas onde a natureza dos pássaros famélicos e das mangueiras que agasalham são fatos a serem retidos fora das configurações simbólicas que a linguagem literária normalmente possui. A introdução dos nomes científicos das árvores no final do trecho nos confirma a análise.

Contudo, de modo algum queremos sugerir que não haja nenhum nível de intervenção criativa. O espaço projetado pelo autor não é a reprodução direta de um meio particular e existente de fato. O que queremos sugerir é que o autor opera numa dialética entre o imaginado e o observado, dotando a matéria narrada de um caráter sensível sem retirar-lhe de todo a referência extraliterária. De um lado temos um espaço fictício que, segundo o autor, é o remontar de memórias da infância e adjetivações dotadas de tom irônico que conduzem a narrativa para o plano de uma prosa poética. De outro lado temos nas palavras de Tele Porto Ancona Lopes "um romance que fixa elementos da fauna e da flora, uma geografia regional e explora ditos, sabenças e práticas do nordeste brasileiro"2.

Tal movimento dialético torna-se o principal matiz do texto podendo ser observado num dos níveis concretos da composição que são os usos vocabulares. Retomemos o último parágrafo: "Ao pé do sapotizeiro há um montezinho de pedras e aí instalou seu escritório o Cavalo-do-cão que ainda não tomou conhecimento de pertencer aos Himenópteros pompilídeos, raça guerreira e milenar". Se por um lado temos a composição de metáforas que emprestam ao Cavalo-do-cão características humanas, por outro lado sua pertença é mesmo ao ramo dos Himenópteros pompilídeos. O processo de antropomorfização não é completamente realizado, de modo que o animal é um misto de personagem e objeto de uma escrita que não dispensa o compromisso com a informação e o conhecimento didatizado. É quase como se estivéssemos diante de um professor a nos dourar um conhecimento factível para que este se nos torne mais vivo na memória.

Antonio Candido ao refletir sobre a gênese da personagem do romance nos dirá que são três os elementos primordiais do gênero: o enredo, a personagem e as "idéias"; por idéias devemos entender os valores e os significados construídos no texto. Nos dirá o autor que dentre estes elementos "avulta a personagem, que representa a possibilidade de adesão afetiva e intelectual do leitor, pelos mecanismos de identificações, projeção, transferência, etc"3. É a personagem quem torna vivos o enredo e as idéias.

Considerando o processo de construção das personagens de Canto de Muro, podemos sugerir que a adesão do leitor não se dá em relação ao personagem em particular, mas a uma certa perspectiva adotada pelo narrador naturalista, que nos leva a observar junto a ele cenas e seres normalmente ignorados pela média das pessoas. A adesão ao texto pode ser melhor efetivada tendo-se em vista o conhecimento de particularidades sobre os seres descritos do que em relação aos seres em si, já que estes ao não ganharem pleno estatuto fictício, esvaem-se como seres particulares e projetam-se na leitura como exemplares de uma espécie.

Para Tele Porto Ancona Lopes4 "Canto de Muro trabalha com êxito a intertextualidade em sua estrutura; alia a ficção a dados absolutamente corretos da Zoologia, da botânica, da história, da mitologia, da geografia, permeados pelo folclore (...)".

O romance de Câmara Cascudo, no limite entre a ficção e a não ficção, constitui um tipo de narrativa que encontra seu sentido no conjunto da obra do escritor. Cada capítulo em que descreve os animais que elege como personagens é atravessado por dados de história, geografia, biologia, etc, além de alusões à "sabedoria popular", o autor circula o objeto em busca do maior número de faces. Em cada capítulo registra-se o movimento ensaístico dotado de perspectiva enciclopédica, bem ao gosto da escrita de Câmara Cascudo.

Em relação à escrita multiforme de Câmara Cascudo, Vânia Gico5 nos diz que "o conjunto da obra cascudiana, constitui um mosaico temático que se aproxima do itinerário de um bricoleur da cultura". A idéia de um bricoleur contém uma grave força interpretativa, na medida em que pode ser transferida do conjunto da obra para cada texto em si.

Câmara Cascudo utilizava tanto fontes orais quanto documentos escritos, além de valer-se muito de informações recolhidas através de correspondências que enviava para amigos e outros pesquisadores. Em Canto de muro nos surpreendemos com a articulação das fontes diversas que faz unir numa mesma prosa, ditos populares com descrições biológicas, notas e citações eruditas do campo da História, da Literatura, da Filologia, etc, misturadas a locuções populares. Mário de Andrade, em correspondência a Câmara Cascudo, datada de 26 de novembro de 1925, refere-se à fala de Cascudo como "serelepe".

Muito embora, o juízo íntimo de Mário de Andrade diga respeito às cartas de Cascudo, a sensibilidade do autor de Macunaíma é penetrante. A escrita de Cascudo é irriquieta, ela percorre os mais diferentes saberes, conjuga as mais distintas fontes, numa espécie de ensaísmo enciclopédico.

2. Ribas: entre a narração e a documentação Lançaremos-nos para a outra margem do Atlântico. Indo ao encontro do angolano Óscar Ribas que a léguas de distância, parece ter caminhado ao lado do nosso Câmara Cascudo.

Romance publicado pela primeira vez em 1950, Uanga (feitiço), ainda que possua uma intriga frágil, pode nos interessar pela enorme quantidade de dados etnográficos que traz acerca da cultura popular da Angola do tempo de Ribas. A forma do romance divide-se entre a seqüência de uma trama amorosa e a descrição de uma série de rituais populares.

O romance é dividido em 12 partes que por sua vez são seqüenciadas em capítulos. Antes de iniciar o romance propriamente dito o autor nos propõe uma abertura com o título de "Antigamente" em que podemos ler notas históricas sobre a cidade de Luanda, além de críticas a escravidão e elogios à modernização.

Na segunda parte, "Festa de Núpcias", somos apresentados aos protagonistas da trama, Joaquim e Catarina, os amantes que sofrerão os desencontros a que todo par romântico ficcional está fadado. Os protagonistas se conhecerão durante uma massemba e se casarão depois de cumpridos todos os ritos necessários antes e após o enlace. Na terceira parte, "A Carta", Joaquim vai a Cabíri para trabalhar, deixando Catarina em Luanda. Neste ponto começa a série de intrigas, Joaquim manda a Catarina uma carta com notícias através de seu amigo, Antonio Sebastião. Este por não saber ler, diz a Catarina que ela deve chorar e vai embora com a carta. Catarina entende que o marido morrera e começa a chorar, realizando depois todos os rituais de luto. Manuel e Tio João, amigos da família, interessados em saber o teor da carta, procurarão Antonio Sebastião conseguindo desfazer o equívoco. Na quinta parte, "Vingança", Antonio Sebastião, desmoralizado porque todos descobriram que não sabia ler resolve procurar Joaquim em Cabíri, para dizer que Catarina possui um amante e assim vingar-se por ter servido de chacota a todos. Na seqüência da trama Catarina e Joaquim brigarão e se reconciliarão novamente. Na última parte, "Uanga", acompanharemos a doença e morte da protagonista. Toda a trama é atravessada por extensas descrições de rituais: ritual para o casamento, para o luto, para descobrir a causa morte, para se recepcionar o nascimento dos gêmeos de Catarina, para se descobrir a causa de uma doença, enfim, o autor mostra-se muito mais interessado em relatar ao leitor elementos da cultura popular da Angola de seu tempo do que em comprometer-se com a trama romanesca. Além dos rituais citados veremos descrições de festas populares, com suas danças e códigos específicos, cantigas, ditos e narrativas populares.

O ponto crucial a ser focado, tendo em vista as críticas já realizadas ao trabalho do autor, é justamente a questão da forma. As descrições provenientes de uma observação de tipo científico projetam uma recepção que pode não ultrapassar o documental. Vejamos um trecho do início da segunda parte, intitulada "Festa de núpcias":

Nesse remoto ano de 1882, numa cubata situada no Cazuno, morava Joaquim, pedreiro dos seus vinte e cinco anos. A casa compunhase, como quase todas em que vivem os indígenas, de dois quartos e um corredor. O mobiliário era escasso. Num dos quartos havia uma cama, uma mesa servindo de banca de cabeceira, uma mala e, sobre um caixote, uma bacia de barro; no outro, além de uma cama e uma sanga, pouco mais existia; e na última divisão - a sala de jantar - figurava uma mesa, uma cadeira com as pernas desconjuntadas e alguns mochos. Pelas paredes de barro encarnado, sobressaíam estampas recortadas de ilustrações.6

Na primeira frase somos apresentados ao personagem Joaquim, como se este fosse um indivíduo particular sobre o qual veremos ser contada uma história particular. No entanto na frase seguinte Joaquim é transformado em categoria observável, o indígena. E a narrativa parece querer pertencer muito mais ao gênero científico chamado etnografia do que ao romance, gênero ficcional pretendido pelo autor. Um elemento chave do que estamos sugerindo é a utilização do vocábulo “indígena” no trecho acima e que será evocado em outras partes ao longo do romance. As personagens são afiguradas no texto como exemplares dos filhos da terra, dos nativos que se quer observar. Portanto, será preciso descrevê-los e ao seu contexto sócio cultural. O romance de Óscar Ribas opera na sua estrutura uma espécie de suspensão dos elementos narrativos para nos informar acerca dos aspectos culturais que constituem a sociedade por ele observada, instaurando a perspectiva do etnógrafo. Leiamos o trecho seguinte que destaca o momento em que os amantes se conheceram:

Conheceram-se numa massemba. Este bailado, rico de fogosidade e elegância, proveio do caduque, dança de Ambaca. Como afinidade, persistiu a característica fundamental - a semba ou umbigada. O caduque executava-se ao ar livre, sob a toada de goma, dicanza e uma lata, vibrada com duas baquetas grosseiras. Com o aparecimento da harmônica, nasceu então a massemba: substitui-se o tambor e a lata por aquele instrumento, pela sala se trocou o ambiente campestre.7

O trecho em questão é acompanhado por algumas notas explicativas, assim temos a explicação de goma - tambor comprido, e de dicanza - chocalho de bordão. Podemos ver através do trecho selecionado que os amantes são esquecidos para que se possa descrever um dado da cultura de modo bem detalhado, ou seja, a massemba. É como se houvesse uma suspensão da ação e do próprio enredo para que uma notação etnográfica venha à tona. As notas de rodapé utilizadas pelo autor só reforçam o caráter informativo do texto que é todo matizado por esta dialética entre o imaginado e o observado.

Não se trata apenas de compor o universo por onde circulam as personagens. O traçado do texto nos revela um caráter dual: temos de um lado a trama amorosa com as intrigas que levam ao desenlace dos amantes e, de outro lado, a descrição de dados da cultura que podem ser interpretados muito mais como intervenção etnográfica do que como dado que corrobora para a coesão interna da ficção. A consulta a obras ensaísticas do autor como, por exemplo, Temas da vida angolana e suas incidências (2002) ou Usos e costumes angolanos (1964), irá nos revelar o mesmo tipo de dados utilizados na composição do texto de Uanga (feitiço), o que nos indica que o compromisso primordial da obra é mesmo com a descrição de elementos da cultura popular.

Sobre o romance em questão escrevera Rita Chaves: "A finalidade em evidência da obra revela que sua natureza será de fato definida para além das fronteiras do terreno literário"8.

Para a autora, podemos entender o texto literário de Óscar Ribas como um texto imbuído da necessidade de se recobrir áreas como a História, a Sociologia, a Antropologia, etc, áreas a que o pensamento letrado ainda não recobriu. A comparação entre Câmara Cascudo e Óscar Ribas nos revela uma gama extraordinária de similitudes capazes de reiluminar as obras de ambos. Muito embora este estudo privilegie os romances Canto de muro e Uanga (feitiço), deveremos ultrapassar um pouco os limites que nos impusemos para alcançar os autores em outras dimensões. A análise de Made in África, por exemplo, nos revelará o ensaísmo praticado por estes analistas da cultura popular, estes documentadores de tradições. Made in África também nos revelará uma interessante perspectiva de Câmara Cascudo em que não só a África é vista do lado de cá, como também o Brasil é visto do lado de lá do Atlântico. Se tal perspectiva não fora precursora, certamente deve ser entendida como marcante na história das nossas narrativas de viagem.

Referências bibliográficas:

CANDIDO, Antonio. (et al.) A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2007.

CASCUDO, Luis da Câmara. Canto do muro. Romance de costumes. Rio de janeiro: José Olympio, 1959.

CHAVES, Rita. A formação do romance angolano: entre intenções e gestos. São Paulo, Via Atlântica, 1999.

GICO, Vânia. Luis da Câmara Cascudo: itinerário de um pensador. Tese de doutoramento em Ciências Sociais, PUC/SP, 1998.

LOPES, Tele Ancona Porto. "Canto de muro". In: SILVA, Marcos. Dicionário crítico Câmara Cascudo. São Paulo: Perspectiva, 2003.

RIBAS, Óscar. Uanga (feitiço). União dos escritores angolanos, 1985.

Usos e costumes angolanos. Salvador: Universidade da Bahia/Centro de Estudos Afro-Orientais, 1964.

Temas da vida angolana e suas incidências. Luanda: Edições Chá de Caxinde, 2002.

1 CASCUDO, 1959, pp. 3-4.

2 LOPES, 2003, p.24.

3 CANDIDO, 2007, p. 54.

4 LOPES, op. cit., p. 25.

5 GICO, 1998, p. 106.

6 RIBAS, 1985, p. 31.

7 Idem, ibidem, p. 44.

8 CHAVES, 1999, p. 145.

Ler 8265 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips