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Angola Nas Letras: A Literatura Como Evidência Histórica

Escrito por  Alexsandro Bastos de Brito
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Os diversos povos, que habitavam o continente africano, muito antes da colonização feita pelos europeus, dominavam várias áreas do conhecimento humano: com técnicas de agricultura, mineração, ourivesaria e metalúrgica.

Os diversos povos, que habitavam o continente africano, muito antes da colonização feita pelos europeus, dominavam várias áreas do conhecimento humano: com técnicas de agricultura, mineração, ourivesaria e metalúrgica. Eles tinham conhecimentos em vários campos da ciência, como a astronomia e a medicina.

Infelizmente, as imagens que se tem da África e de seus povos não é relacionada com a produção intelectual nem com a tecnologia. Ela aparece em grande parte, trazida pelos meios de comunicação, com crianças famintas e famílias miseráveis, povos doentes e em guerra ou paisagens de safáris com mulheres de cangas coloridas. Essas idéias distorcidas contribuem para desqualificar a cultura negra e acentuam o preconceito em relação a grande maioria dos indivíduos lá convivemi. O pouco caso com a cultura africana e seus diversos povos se refletem em vários espaços, particularmente, na sala de aula. O segundo maior continente do planeta, aparece em livros didáticos, grosso modo, quando o tema é escravidão, deixando aquém a noção de diversidade dos seus povos e minimizando, por outro lado, a importância dos afro-descendentes. Neste sentido, entrou em vigor a Lei nº 10.639, que tenta corrigir este silêncio e distorções, incluído o ensino de História e Cultura Africana nas escolas do Ensino Básico. É certo que uma norma não mudará a realidade de imediato, mas pode ser um impulso necessário para introduzir em sala de aula um conteúdo rico em conhecimento e em valores.

Uma boa ferramenta para introduzir, discutir e pensar a África são os textos literários de escritores africanos. No Brasil, um destaque especial, aos romances de países de língua oficial portuguesa. Neste sentido, destaca-se a obra do escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, cujo pseudônimo é Pepetela que é uma palavra umbundo que traduz o sobrenome Pestanaii. Ele nos apresenta as primeiras contradições internas da guerrilha em Angola, especificamente dentro do Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA)iii, o qual era guerrilheiro. Em seu livro, Mayombe, para discutir estas questões o palco principal é uma grande floresta tropical localizada em Cabinda, no qual busca organizar seu trabalho de acordo com a vivência dos guerrilheiros, donde as motivações que levaram as personagens à revolução liderada pelo MPLA, são justificadas, em muitos casos, pela experiência individual e não exclusivamente por uma atitude política.

O romance Mayombe é uma narrativa que gira em torno de um líder guerrilheiro, o comandante Sem Medo que conduz o seu trabalho em meio a grandes dificuldades. Os problemas levantados na narrativa (racismos, sexismo, oportunismo, confronto entre os diferentes povos, dentre outros) são uma alternativa utilizada para demonstrar as dificuldades internas do movimento. Por conta disso, a todo o momento este grupo é questionado sobre o triunfo da revolução que traria a independência de Angola. A narrativa prende-se a apresentar um fato típico do período que são as guerras de guerrilha, no qual descreve um grupo cujo pressuposto ideológico é a bandeira do marxismo-leninismo.

Seu trabalho nos dá uma dimensão da vida dessas pessoas na guerrilha. Por ser um escritor gestado no ambiente revolucionário, Pepetela, constrói ao nível ficcional uma realidade extremamente presente no seio das sociedades africanas. Um bom exemplo são as disputas entre diferentes povosiv que será uma tonante dentro do romance Mayombe. Tais disputas são apresentas como motivo de discórdias naturais e como justificativas para quebra de hierarquia, formação de complôs, flexibilidade nas punições em favor de um ou de outro grupo. Estes fatores poderiam colocar em risco não só a estrutura administrativa e disciplinar do MPLA, mas a própria prática de guerra durante os combates contra as forças colonialistas. Pepetela dá voz aos personagens, que em grande parte da obra apresentam-se em primeira pessoa. Revelando por vezes sua formação intelectual advinda dos estudos na Europa como é o caso do kikongo Sem Medo. Neste sentido, aparece com maior clareza a importância de "formar" guerrilheiro não só preparados para pegar em armas. Isto se torna explicito na manutenção das aulas de formação geral, sobretudo de política ministrada pelo professor Teoria.

A formação política dos guerrilheiros era uma preocupação constante dentro do MPLA. À medida que o colonizador utilizava-se de uma pedagogia a serviço da exaltação do português, silenciando as culturas africanas consideradas inferiores, surgem escritores voltados para seu povo, para terra e chamam a atenção para o drama angolano. Neste sentido, a literatura é utilizada como veículo de ensinamento, fazendo germinar a palavra que irá florescer, transformando-se em arma contra o colonizador.

O que expomos até agora, nos ajudou muito a pensar o teórico alemão Wolfgang Iser, ao afirmar que é amplamente aceito que "os textos literários são de natureza ficcional" e por isto se coloca de forma oposta à realidade. Esta oposição faz parte de um "saber tácito" que ao reconhecer o texto enquanto ficção, não nega a carga de realidade que ele pode trazerv. Desta forma, este teórico chama atenção para não fazermos confusão no sentido de acharmos que a literatura é a reprodução do real.

Contudo, reconhece que o texto pode trazer a reprodução de parte da realidade como requer outras ciências, em particular a História. Neste sentido, o texto pode servir como um dos elementos de explicação de uma dada realidade se tomarmos outros elementos de análises aliados a esta ferramenta.

Desta forma, só assim poderemos perceber o significado real da literatura como mecanismo de compreensão da realidade. Assim, o texto se apresenta aqui como fonte ou evidência histórica, para utilizarmos um termo bem próximo a nós historiadoresvi. O certo é que mesmo considerando o texto literário como ficção não se pode deixar de levar em consideração que ele traz da realidade vivida estas concepções para compor a sua estrutura.

Visto por este prisma, Pepetela, tem a necessidade de trabalhar os ideais políticos do movimento. Busca convencer a sociedade angolana que na verdade, os fatores que impediam o crescimento e gerava a miséria dentro de Angola, era a exploração dentro do território pelos europeus. Este fato torna-se bem explicito na

argumentação da personagem Comissário que afirma "(...) Isso é exploração colonial. O que trabalha está a arranjar riquezas para os estrangeiros, que não trabalha"vii.

No trabalho apresentado por Pepetela é possível perceber como as identidades começam a se formar e se reelaborar em virtude das experiências dos indivíduos que compõem o grupo. A noção de identidade social na contemporaneidade está muito associada à noção de identidade culturalviii. A identificação dos indivíduos como parte de um determinado grupo, estabelecem dinâmicas de exclusão e inclusão que são gestadas muitas vezes pela necessidade do momento.

A identidade complementa-se através da comparação com outros grupos, no sentido em que se desenvolve um processo de avaliação positiva das suas características, por oposição ou exacerbação das diferenças. Neste sentido, pode-se evidenciar que uma identidade social é resultado da criação de uma visão de mundo, partilhada pelos membros de um grupo na definição do lugar social do indivíduo no grupo. Idéia percebida quando o professor Teoria, um mulato em busca de aceitação, admite temer participar dos combates.

Um mestiço mostrar o medo? Já viste o que daria? Tenho procurado sempre dominar-me, vencer-me...compreendes? É como se eu fosse dois: um que tem medo, sempre medo, e outro que se oferece sempre para as missões arriscadas, que apresenta constantemente uma vontade de ferro (...) Sei que sozinho, sou um covarde, seria incapaz de ter comportamento de homem.

Mas quando os outros estão lá, a controlar-me, a espiar-me as reações, a ver se dou um passo em falso para então mostrarem o seu racismo, a segunda pessoa que há em mim predomina-me e leva-me a dizer o que não quero, a ser audaz, mesmo demasiado, porque não posso recuar... É duro!ix É através da identidade que os indivíduos reconhecem-se e interagem com o universo, sendo portanto, evidente a estrita relação entre identidade e culturax. Os percursos de identificação se manifestam de forma gradativa e encadeada, que possibilite gestar uma identidade nacional comum. As identidades ocupam e aparecem em quase todos os espaço, algumas de nossa própria escolhas, mas outras, influenciadase propostas, pelas pessoas em nossa volta. Neste sentido, o meio no qual convivemos é fundamental na formação da identidade.

A "identidade cultural angolana no seu sentido óbvio, não existe"xi. Não existe em Angola, como também não existe em qualquer outro país. Porém, neste território, assim como em outros países jovens, construído a partir de um mosaico de pequenas "nações culturais', a distância que vai da nomeação ao óbvio é naturalmente maior.

Em outras palavras, as identidades se constroem e se reconstroem constantemente no interior das trocas sociais. Identidade e alteridade estão intrinsecamente relacionadas numa relação dialética que transparece através do Muatiânvua Querem hoje que eu seja tribalista! De que tribo? Pergunto eu. De que tribo, se eu sou de todas as tribos, não só de Angola, como de África? Não falo eu swahili, não aprendi eu o haussa com um nigeriano? Qual é minha língua, eu, que não dizia uma frase sem empregar palavras de línguas diferentes? E agora, que utilizo para falar com os camaradas, para deles ser compreendido? O português. A que tribo angolana pertence a língua portuguesa?xii Consideramos que a identidade é sempre uma concessão, uma negociação, um resultado de relação de poder expresso no campo de valoresxiii, a literatura ajuda a ponderar esta jovem nação que reuniu em suas fronteiras diversos povos de diferentes identidades que buscam elementos para identificar a nação que se formou.

Neste sentido, cabe ponderar para efeito de análise uma estreita relação entre História e Literatura. O problema não está em estabelecer a relação entre estes dois campos do conhecimento humano. O problema reside em saber de que Literatura e de que História se fala. Na medida em que se busque a superação de uma historiografia marcada por uma narrativa simplificada que se supunha espelho do real, a literatura se apresenta como um bom elemento de investigação dos caminhos trilhados pelo homemxiv.

Nesta reflexão proposta, a relação possível entre ficção e história, destacando a crescente preocupação em entender as formas de apreensão e reprodução discursiva do real, aponta para um caminhar junto cada vez mais sólido entre estas disciplinas.

Por tudo isto, o texto literário —Mayombe — apresenta-se como uma evidência privilegiada de uma realidade concreta. Ele articula a função e força do texto literário como denúncia, ocupando em vários momentos o lugar de evidência histórica. Aparece constituído numa dinâmica que a todos envolve e compromete, numa unidade de movimento intensamente dialético.

Sendo assim, o texto literário analisado como evidência histórica, torna-se um elemento profícuo no campo da investigação que agora nos aventuramos a investigar através de trabalho de pesquisa, a fim de desenvolver subsídios que auxilie a compreender a formação de um povo que teve a sua formação construída sobre a égide do colonialismo português.

Referências bibliográficas:

BAUMAN, Zygmunt. Identidade: Entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

BETTS, Raymond F. "A dominação européia: métodos e instituições" In: BOAHEN, A. Adu. (org). História Geral da África, vol. VII: A África sob dominação colonial, 1880-1935. São Paulo: Ática; Unesco, 1991.

CHALHOUB, Sidney e PEREIRA, Leonardo Affonso de M. (org’ s). A História Contada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

CHAVES, Rita. A formação do romance angolano. São Paulo: USP. 1999. COSTA E SILVA, Alberto. A Enxada e a lança: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG: UNESCO, 2003.

HALL, Stuart. Identidade na pós modernidade. Rio de Janeiro: DPIA, 2000.

ISER, Wolfgang. O fictício e o imaginário: perspectiva de uma antropologia literária. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1996. PEPETELA. Mayombe. São Paulo: Ática, 1982. THOMPSON. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

VENÂNCIO, José Carlos. Literatura versus sociedade: uma visão antropológica do estudo angolano. Lisboa: Veja, 1991. WHITE, H. Trópicos do discurso: ensaio sobre critica de cultura. São Paulo: EDUSP, 1994.

i BETTS, 1991, pp. 334-337 e COSTA E SILVA, 1992, pp. 72-83.

ii CHAVES, 1999.

iii O MPLA foi uma organização política fundada em 1956, sendo responsável pela independência de Angola em 1975.

iv Fizemos a opção em nos referir as comunidades através da designação "povo" e não utilizar o termo "tribo". Esta é uma alternativa que acreditamos contribuir para não ajudar a reforçar o discurso de inferiorização que o termo "tribo" adquiriu ao longo do tempo. Assim, só será mantido o termo "tribo" em citações da obra analisada.

v ISER, 1996, p. 13.

vi CHALHOUB, 1998.

vii PEPETELA, 1982, p. 34.

viii BAUMAN, 2005, pp. 34-35.

ix PEPETELA, op. cit., p. 43.

x HALL, 2000, p. 43.

xi VENÂCIO, 1991, p. 96.

xii PEPETELA, op. cit., p. 133.

xiii THOMPSON, 1998.

xiv WHITE, 1994.

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