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O Papel Dual da Educação em Angola Colonial: Instrumento de Repressão ou Agente Transformador da Realidade?

Escrito por  Aline Casati de Almeida
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A colonização portuguesa em África estabeleceu como método de dominação não apenas a força bruta, mas outros recursos de controle, como a dominação cultural.

A colonização portuguesa em África estabeleceu como método de dominação não apenas a força bruta, mas outros recursos de controle, como a dominação cultural.

Citando Kabengele Munanga:

Convencidos de sua superioridade, os europeus tinham a priori desprezo pelo mundo negro (...). A ignorância em relação à história antiga dos negros, as diferenças culturais, os preconceitos étnicos (...) mais as necessidades econômicas de exploração, predispuseram o espírito do europeu a desfigurar completamente a personalidade moral do negro e suas aptidões intelectuais.i O africano foi designado um ser primitivo e a colonização uma missão civilizatória que levaria a cultura à África. Dessa forma, o europeu entrou no território africano ignorando a existência de uma cultura local e iniciou um movimento de desculturação do negro e o seu distanciamento das tradições nativas. Esse processo de desculturação teve como principal aliado a educação. A escola foi então usada como um dos veículos de opressão utilizado pelo colonizador.

Os sistemas e métodos de educação européia a que os negros eram submetidos, colocavam-nos como meros receptores dos padrões culturais de outros povos; a educação a que tinham acesso gerava neles dúvidas sobre a sua própria capacidade, desintegrando sua estrutura intelectual e social. Através desse sistema de educação, os africanos tomavam os conhecimentos e hábitos estrangeiros como referência, esforçando-se em reproduzir o que lhes era transmitido.

Esse processo educativo postulava que o africano era um ser inferior e, como tal, só poderia se esclarecer e progredir, ou seja, se libertar da condição de selvagem, através da incorporação da cultura da metrópole. De acordo com Kabengele Munanga, os colonizadores defendiam tal dominação justificando que: "uma vez civilizados, os negros seriam assimilados aos povos europeus considerados superiores, ou seja, tornarse- iam iguais aos brancos"ii.

Muitos negros acreditaram na missão civilizatória da metrópole ou apenas cederam à "força" colonial e no papel de educadores foram os reprodutores dos padrões e cultura européia, assimilados, auxiliaram no processo de desculturação, apagamento da cultura nativa e imposição do modelo europeu. Outros, porém, encararam a educação como meio de libertação, recusaram o embranquecimento cultural e buscaram valorizar suas raízes, aceitar sua herança sóciocultural.

Estes negros não negaram o conhecimento europeu, utilizaram-se dele para dar luz a um movimento de reação a dominação de que foram vítimas. A língua portuguesa foi por eles tratada como um recurso para lutar contra o colonizador. Essa escola passou a representar o ambiente em que o colonizado toma consciência de suas raízes e busca na incorporação de elementos da colônia, seu objeto de luta e preservação.

Muitos autores angolanos vão tratar em suas obras desse papel dual que a educação desempenhou em território africano no período colonial e pós-colonial. O conto "A menina Vitória", de Arnaldo Santos, retrata a escola no período colonial como instrumento no processo de silenciamento do negro; é a representação da educação formal introduzida pelos portugueses em Angola. Neste espaço o educador assume o discurso autoritário, preconceituoso e extremamente repressor.

A personagem que assume o papel de educador representante do poder colonial, que silencia e reprime é a menina Vitória. Vitória é uma mestiça, que tinha se formado na Metrópole. Tal vivência fez com que esta adquirisse não só a língua e conhecimento português, mas também assimilasse a cultura e a ideologia dominante. Detentora do conhecimento do colonizador, Vitória assume a postura da metrópole e torna-se uma aliada no processo de opressão de seu povo. Ela rasura toda a cultura de seus antepassados e busca, tanto ideologiacamente como até fisicamente, se assimilar aos colonizadores.

A professora da 3ª classe, a menina Vitória, era um mulatinha fresca e muito empoada, que tinha tirado o curso na Metrópole. Renovava o pó-de-arroz nas faces sempre que tivesse um momento livre, e durante as aulas gostava de mergulhar os dedos nos cabelos alourados e sedosos de uns meninos que sentavam nas primeiras filas.iii

Vitória representa a figura do assimilado, o negro instruído na escola do colonizador que é massacrado com a idéia de sua inferioridade; alienado, acaba por se convencer que a única saída estaria na absorção dos valores culturais do branco superpotente. Dessa forma, Vitória passa a representar o discurso do poder e se transforma em instrumento de manutenção da dominação portuguesa em Angola. Em seu contato com os alunos ela reproduz a prática discriminatória e repressora da metrópole, como nos mostra os trechos: Vergado na cadeira, não tirava os olhos do livro, nem mesmo quando a menina Vitória se referia a ele, quase sempre com desprezo, ao recriminar outro aluno. "Pareces o Matoso a falar...", "Sujas a bata como o Matoso...", "Cheiras a Matoso..." - e ele grudava-se mais à carteira, transido por aqueles comentários impiedosos.iv

Tal repressão muitas vezes serve para desculturar os alunos, distanciá-los de suas raízes. A professora não permite que eles se expressem em sua língua materna e reprime a manifestação de sua criatividade: Fora também transferido da Escola 8, e mesmo no dia da apresentação a menina Vitória não escondera a sua má impressão, com alusões veladas à sua bata de brim grosso. Porém o seu azedume cresceu quando, tempos depois, o Matoso lhe respondeu distraidamente em quimbundo. O quê, julgas que eu sou da tua laia...?!v

A personagem Vitória ajuda a manter e reproduzir o modelo repressor: ao assimilar e transmitir padrões europeus, ela nega sua origem e toda a cultura autóctone e leva os alunos a interiorizarem valores que em nada se assemelham aos seus e que lhes sugerem a inferioridade da herança negra. Os alunos, temendo as críticas da professora, acabam por entender que a saída é assimilar a cultura européia e rechaçar a sua cultura natal. Contudo, nem todos os alunos assumem tal postura submissa.

O conto de Arnaldo Santos também nos apresenta um personagem que retrata a revolta contra a opressão colonial. Ele se chama Matoso. Este aluno é o símbolo da resistência negra, pois representa a busca da manutenção dos valores culturais africanos.

É através dele que se expõe o universo negro: o quimbundo, a cor negra, os elementos característicos da África são evidenciados no texto a partir de Matoso. A postura de silenciar que o personagem assume não demonstra aceitação, e sim resistência. Há também outro personagem que, unido a Vitória e Matoso, compõe brilhantemente uma escala ideológica que vai da assimilação total da cultura européia à resistência a essa assimilação. Gigi seria o personagem que representaria o entre-lugar, aquele que busca absorver a cultura da metrópole, mas se sente extremamente ligado as suas raízes. Este personagem caracteriza o africano que ao mesmo tempo aceita e recusa a colonização. A escola colonial criou muitos "Gigis", pessoas que acreditaram que através da assimilação dos valores culturais dos brancos, poderiam assemelhar-se a eles e conquistar o mesmo poder que estes detinham, mas frustraram-se ao compreenderem que essa igualdade era impossível e que a anulação de sua cultura só contribuía para sua dominação.

A partir destes personagens, Arnaldo Santos, mostra-nos uma escola que assume um papel antagônico ao que se espera de uma instituição de ensino, já que reprime a livre expressão e a criatividade dos alunos, não os prepara se para tornarem cidadãos autônomos, críticos, que saibam refletir acerca de sua situação. Esta escola é o instrumento do poder colonial, já que busca a formação de alunos apenas capazes de imitar e reproduzir o modelo metropolitano. Segundo Maria da Carmo Sepúlveda Campos, neste conto, "temos a representação, por excelência, da escola que inibe e conduz ao fracasso os menos privilegiados, acentuando, portanto, as diferenças sociais".

No conto "Mesene" de Boaventura Cardoso encontra-se Kaxenketela, um professor que é o oposto da personagem Vitória. O mesene caracteriza o mestre que usa a educação como meio de libertação, de objeto de luta contra a opressão colonial. Este personagem assume o papel emancipador da educação, representando o negro detentor da cultura branca, que leva tal cultura até seu povo, não com o objetivo de que estes a assimilem e ignorem sua cultura natal, e sim para que se apropriem da língua e do conhecimento da metrópole para seu benefício e defesa. Já no primeiro parágrafo, fica claro o papel elucidador que o protagonista tem: Ouviam Kaxenketela atentamente iluminando suas cabeças. Homens e mulheres, na vontade de pelejar a ignorãncia, tomavam do Mesene a lição na cartilha de João de Deus. Bê-a? Ba - cantava o coro atento.vi O conto retrata os problemas vividos pelo colonizado: a falta de transporte, a precariedade do sistema de saúde, a miséria, a fome das sanzalas e, aliada a essa situação de extrema pobreza a repressão e a violência exercida pelas forças políticas da região contra a população angolana. Diante deste terrível quadro a educação surge como o meio de transformar tal realidade.

O protagonista de Boaventura Cardoso possui competências que são postas a serviço da coletividade. O fato de deter a cultura européia não o afasta de suas origens, o Mesene não se distingue do povo da aldeia, a única marca de seu status é fato de ter uma bicicleta, a qual os membros da aldeia recorrem quando é preciso transportar um doente ao hospital. Dessa forma a posição de importância alcançada por Kaxenketela não se dá devido apenas à detenção do conhecimento dos brancos e a sua inteligência, e sim pela maneira como utilizava desse material para beneficiar seu povo, não permitindo que o poder colonial os massacrasse, o que fica claro no trecho:

No kasputo dele refinado na gramática zé maria relvas, Kaxenketela passava muitas noites na sonecagem de requerimentos para tratar do bê i e mukandas das pessoas que não sabiam ler nem escrever ele também que fazia. Ainda sô chefe

que é sô chefe muitas vezes tinha que ir no dicionário buscar o sentido das palavras carasvii

No entanto, essa atitude de se apropriar da cultura do colonizador como objeto de resistência, fez com que a administração colonial o visse como político, agitador e terrorista; o professor representava um perigo para o poder local, pois queria instruir, tirar a população da ignorância e para detê-lo prendem-no, afastando-o de sua missão: -Que reunião é essa? - berrou sô chefe a força da sua autoridade toda, encorajada nos cipaios encacetados. -Estou a ensinar estes velhos, meu chefe - Mesene na atrapalhação. Orvalhos de suor, quenturas de febre, vontade de verter, ali mesmo tudo junto que rebentava quase. -A ensinar...Você mazé é um grande político, andas a agitar os teus patrícios. Estás preso. -Não sei o que é política, meu chefe. Estou só a ensinar... -- conseguiu arresponder. -Cala-te, seu terrorista.viii O protagonista de Boaventura Cardoso representa o educador que enfrenta a alienação cultural, já que compreendia que para a nação africana fazer-se independente era preciso resgatar a história, a tradição (as aulas de Kaxenketela eram dadas sob a sombra de uma árvore), as superstições, recuperando a força da raça, da cultura. Para que isso ocorresse, os estudantes deveriam deslocar sua atenção dos livros europeus e voltar seu olhar para a África: o "Mesene em vez de ensinar no livro ensinava outras cuezas que não estavam no livro"ix.

Foram mestres como Kaxenketela que impulsionaram os movimentos em prol da libertação e independência do povo africano, a partir do momento em que formaram indivíduos críticos, que iniciaram uma retomada de si, aceitando sua herança sóciocultural e reagindo contra a agressão branca.

Os contos analisados permitem traçar um panorama sobre o papel dual da educação. Esta pode servir como um instrumento de muita eficácia na repressão e dominação de alguns povos, na propagação do preconceito e difusão da ignorância, aspectos que parecem avessos ao ato de educar. Mas também pode servir, e esse foi meu principal foco nesse artigo, para libertar, conscientizar, formar seres humanos capazes de se posicionar de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes situações sociais, perceber-se integrante e agente transformador do ambiente e adotar uma postura de repúdio as injustiças, respeitando o outro e exigindo para si o mesmo respeito.

Referências bibliográficas:

MUNANGA, Kabengele. Negritude: usos e sentidos. SP: Ática,1985.

SANTOS, Arnaldo. Prosas. Lisboa: Edições 70, 1980.

CARDOSO, Boa Ventura. Dizanga Dia Muenhu. SP: Ática, 1985.

CAMPOS, Maria do Carmo Sepúlveda. Estórias de Angola: fios de aprendizagem em malhas de ficção. Niterói: EDUFF, 2002.

i MUNANGA, 1985, p. 09.

ii Idem, ibidem, p. 13.

iii SANTOS, 1980, p. 40.

iv Idem, ibidem, p. 40.

v Idem, ibidem, p. 41.

vi CARDOSO, 1985, p. 33.

vii Idem, ibidem, p. 35.

viii Idem, ibidem, p. 34.

ix Idem, ibidem, p. 35.

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