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Etnicidade e Identidade Nacional na Obra de Chinua Achebe Após a Guerra de Biafra (1967-1970)

Escrito por  Alyxandra Gomes Nunes
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Este ensaio é dedicado ao professor Jacques Depelchin In response to Biafra´s attempted secession, the nigerian government crushes the resistance of the Ibos. Particularly horrifying is the government´s use of the politics and strategy of starvation. Between 600,000 and 1,000,000 Ibos are killed in battles and massacres, or die of famine and disease.i

Este ensaio é dedicado ao professor Jacques Depelchin In response to Biafra´s attempted secession, the nigerian government crushes the resistance of the Ibos. Particularly horrifying is the government´s use of the politics and strategy of starvation. Between 600,000 and 1,000,000 Ibos are killed in battles and massacres, or die of famine and disease.

Apresentação

Este ensaio tem por objetivo apresentar uma leitura de parte da literatura de Chinua Achebe no que concerne sua fase de produção que lidava diretamente com a temática da guerra de secessão de Biafra. A mesma aconteceu no período de 1968 a 1970 e marcou profundamente tanto a literatura nigeriana quanto todo o processo identitário deste país. Em 1958, Achebe estreava no campo literário com Things fall apart [O mundo se despedaça], romance de fundação da literatura nigeriana em língua inglesa e criador de toda uma escola literária. Em 1971, ele publica Beware, soul brother, primeiro livro de poesias que reúne uma temática em torno da guerra de Biafra, com textos inspirados diretamente no front da batalha e negociação.

Ao lado de autores como Wolè Soyinka, Christopher Okigbo, Buchi Emecheta e Ken Saro Wiva (ativista ecológico ogoni assassinado pelo governo nigeriano em 1994), Chinua Achebe (cujo nome em igbo, traduz um longo significado filosófico e existencial: Chi = Deus, nua = lutará, lumogu = por mim) aparece como um dos ficcionistas mais populares da Nigéria. Achebe é o tipo de escritor que, à semelhança dos autores engajados, consegue conjugar intencionalmente História e ficção. Ao nos debruçarmos sobre as realidades africanas, estamos de certo modo, em busca de nós, pois a História do Negro no Brasil completa-se com o conhecimento da experiência africana, e nos obriga a voltar o olhar para o outro lado do Atlântico, interpretando suas diferentes realidades e literaturas. Um olhar sobre a produção literária nigeriana nos ajudar a compreender e refletir sobre as realidades igbo, nigeriana e africana. Além de permitir ao leitor uma investigação que vai além do que a análise documental histórica pode proporcionar, pois a verdade da literatura é uma verdade ficcional que não tem o compromisso com uma construção de verdade, mas o compromisso com uma elaboração outra de verdade sobre fatos históricos. O dizer da literatura é um dizer não documental que documenta ao longo da permanência de autores e de sua crítica.

Non-Commitment

Hurrah! To them who do nothing

see nothing feel nothing whose

hearts are fitted with prudence

like a diaphragm across

womb´s beckoning doorway to bear

the scandal of seminal rage. I´m

told the owl too wears wisdom

in a ring of defence round

each vulnerable eye securing it fast

against the darts of sight. Long ago

in the Middle East Pontius Pilate

openly washed involvement off his

white hands and became famous. (Of all

the Roman officials before him and after

who else is talked about

every Sunday in the Apostle's Creed?) And

talking of apostles that other fellow

Judas wasn't such a fool

either; though much maligned by

suceeding generations the fact remains

he alone in that motley crowd

had sense enough to tell a doomed

movement when he saw one

and get our quick, a nice little

packet bulging his coat-pocket

into bargain - sensible fellow.

September, 1970

O poema Non-Commitment foi em princípio invocado para traduzir o local de onde sempre fala Chinua Achebe quando publiciza suas opiniões acerca da função da arte em seu fazer poético; bem como do lugar ao qual são chamados os intelectuais quando se trata de fazer de sua prática acadêmica uma instância de reflexão que ajudará a conduzir o povo a uma revolução nos seus hábitos. Datado de 1970, ano da resolução pelo fim do conflito, não de sua cura, este poema integrante da terceira parte do livro Beware, soul brother traduz parte da desilusão do autor com aqueles que poderiam ter feito algo para ajudar na prevenção do conflito mas que lavaram suas mãos e, tal como a referência a Pilatos, deixaram o genocídio ocorrer até que centenas de milhares de igbos tivessem sido massacrados.

A guerra do Biafra assemelha-se em muitos aspectos ao que aconteceu nos anos de 1994/1996 com os Ogoni. Essa etnia ousou levantar sua voz contra a empresa multinacional de petróleo Shell e o governo central ditatorial da Nigéria, por este estar permitindo a extração indevida de petróleo, sem qualquer controle, o que causa poluição das águas dos rios e da floresta, e conseqüentemente aumenta o número dos índices de desemprego e mortes na população local. Os Ogoni acabaram inevitavelmente pagando o preço dessa rebeldia com a vida. O escritor e ex-candidato ao prêmio Nobel, Ken Saro Wiva, foi enforcado em 1995 pelos militares por atuar entre as lideranças deste povo.

Enquanto a região de Biafra permaneceu separada do restante do país, Achebe trabalhou para o Ministério da Informação de Biafra divulgando a causa de seu povo e tentando angariar fundos para a região.

O livro Beware, soul brother foi primeiro publicado na Nigéria em 1971, um ano após o fim da guerra de Biafra, e inaugurou uma série de publicações de Chinua Achebe que foram inspiradas nas questões identitárias que nortearam o conflito e as resoluções para seu término oficial.

A guerra de secessão da região de Biafra, na atual Nigéria, aconteceu em terra dos ibos entre os anos de 1967 e 1970. A compreensão deste evento para a história da África e da Nigéria não é de somenos importância para a compreensão e interpretação do que hoje se configura como a nação nigeriana que comporta várias outras nações em seu amplo território, mas com uma representação política geral que inclui três grandes grupos étnicos, a saber: os haussás-fulanis do norte da Nigéria, os iorubás do sul e os ibos do leste nigeriano, região da república de Biafra. Muitos dos poemas que aparecem no livro foram produzidos no calor da guerra, visto que Achebe, ele mesmo, atuou como representante do povo biafrense na luta contra o governo da Nigéria.

No prefácio assinado pelo autor, está atestado que numa segunda publicação, com a qual trabalho, foram mantidos os 23 poemas originais, alguns foram revistos, uns poucos reescritos e a um foi dado um nome totalmente novo. Há sete novos poemas que foram adicionados aos 23 originais e formam agora um total de 30 poemas na edição revista e ampliada de 1972. O agrupamento dos poemas em torno de temas deu-se de maneira aleatória, tal como eles mesmos sugeririam ao poeta.

Beware, soul brother está dividido em cinco partes: "Prologue", "Poems about war", "Poems not about war", "Gods men and others", "Epilogue". Constitui-se trinta poemas cujos temas perpassam o absurdo e a incompreensão de uma guerra contra civis inocentes, desespero, amor, esperança, desgoverno, soberba, renascimento, indignação, morte, etc. Característica interessante de notar é que a paz não é assunto que entre em nenhum poema deste volume. Acreditamos que o fim diplomático e cronológico da guerra não significou o fim do conflito nem a sua cura, pois se tivesse havido alguma resolução de fato para a questão de identidade dos igbos no território da Nigéria, este movimento de separação de uma nação, que foi forjada dentro dos limites territoriais da antiga colônia britânica, não estaria sendo atualizado hoje em dia com a existência de movimentos como o MASSOB (Moviment for the sovereign of Biafra). Este movimento é mantido tanto em território nigeriano por seus ativistas, quanto por igbos que moram exilados em diferentes países do mundo. Segundo Carroll (apud Ojinmah), este livro de Achebe "constitute a moving account of the poet's experience during this period and a serching examination of his role after the fighting has ended". Na primeira parte do livro aparece o poema de abertura intitulado 1966. Este poema datado de 19 de novembro de 1971, em Nussuka, trata dos eventos anteriores ao início da guerra efetivamente, pois segundo a historiografia, a mesma iniciou-se com o ataque de 1967, entretanto, em 1966 houve vários incidentes ao longo do país e que pavimentaram os conflitos da guerra maior que se daria em território dos igbos. Os eventos a que faz alusão o poema estão representados pela broca que vai indolentemente e sub-repticiamente cavando cavando no fundo nas trevas dos ódios silenciados para um dia dar vazão em forma violenta. Deixando o caminho pavimentado para que outros apareçam e completem o serviço. O eu-lírico fala de um tempo mítico, do Gênesis, durante o qual um caos residual foi encontrado, e com ele um ódio artesiano que somente seria encontrado com um meticuloso trabalho de busca e perfuração, mas cuja conseqüência fora o jorrar de sangue que assustou a Deus tão somente.

1966

absent-minded

our thoughtless days

sat at dire controls

and played indolently

slowly downward in remote

subterranean shaft

a diamond-tipped

drillpoint crept closer

to residual chaos to

rare artesian hatred

that once squirted warm

blood in God´s face

confirming His first

disappointment in Eden

O ano de 1966 é extremamente referencial e simbólico, pois representa o início de um conflito no qual as pessoas não acreditavam muito, visto que andavam tão soltas e isoladas e distraídas que foram pegas de surpresa por controles tão avassaladores. O ódio veio de baixo e devagar, mas fora ao âmago dos sentimentos ao ponto de causarem dor no criador e desapontamento com aquelas criaturas que foram intencionadas para viver no Éden. First shot é o poema que abre a sessão do livro "Poems about war", e não poderia ser diferentemente, pois é com o primeiro tiro que tudo começa de fato, o caminho fora pavimentado antes com as mentes ocupadas em outros assuntos que não a guerra. O que chama a atenção do leitor neste poema é o caráter anônimo das pessoas que estão presentes nesse primeiro tiro e em todos os outros que sucedem em meio a um subúrbio nervoso. Ainda que a estação dos trovões, que é referida no texto, seja algo que está localizada num tempo futuro, os clarões causados pelas armas de guerra e os barulhos que as mesmas causam irão operar intensos barulhos que irão reverberar muito mais adiante "ahead in the forehead of memory". Na tradição oral dos igbos há um provérbio que diz "But fighting will not begin unless there is first a thrursting of fingers into eyes. Anybody who wants to outlaw fights must first outlaw the provocation of fingers thrust into eyes". Logo, este primeiro tiro pode fazer uma alusão a este ditado que dá as regras do início de uma luta.

Tanto First shot quanto 1966 tratam do caráter avassalador e destruidor das forças que levaram à guerra civil a região de Biafra e a república da Nigéria; as mentes que deveriam estar pensando numa forma eficiente de evitar o conflito maior que estava por vir acabaram por distrair-se em outros assuntos que não o comprometimento com os interesses da população. A referência bíblica no poema remonta à irmandade e fraternidade que idealmente deveria haver entre seres criados para viverem num mesmo mundo criado por um mesmo Deus - numa referência ao Deus do Cristianismo.

O poema que segue ao primeiro é intitulado Refugee mother and child pode ser lido como o mais impactante dos que estão na seqüência desses poemas sobre a guerra.

Nele, o poeta consegue expressar antagonicamente sua maior dor e melhor esperança, ao mesmo tempo em que eleva a um nível de iniqüidade a representação cristã da Virgem Maria com o menino Jesus em relação a uma mãe com seu filho moribundo.

Refugee mother and child

No Madonna and Child could touch

that picture of a mother´s tenderness

for a son she soon would have to forget

The air was heavy with odours

of diarrhoea of unwashed children

with washed-up ribs and dried-up

bottoms struggling in laboured

steps behind blown empty bellies. Most

mothers there had long ceased

to care but not this one; she held

a ghost smile between her teeth

and in her eyes the ghost of a mother's

pride as she combed the rust-coloured

hair left on his skull and then -

singing in her eyes - began carefully

to part it...In another life this

would have been a little daily

act of no consequence before his

breakfast and school; now she

did it like putting flowers

on a tiny grave.

O título do poema conduz o leitor diretamente a um campo de refugiados no caos de uma guerra, ao longo do poema vislumbramos mulheres e crianças misturadas num chiqueiro humano que exala odores de diarréia, fezes, urina e fome, todos fazem parte daquela porção da humanidade que é menos humana e que por isso merece morrer e não fará falta na contabilidade da guerra. A imagem da Virgem Maria com o menino Jesus não é capaz de traduzir por si só a dor de uma mãe com a fome e o estado de miserabilidade de seu filhinho. Ainda assim, em meio a tanta animalidade, esta mãe consegue ter tamanho carinho por seu filho, a ponto de arrumar seu esqueleto como se o preparando para mais um ato rotineiro de ir à escola. Em meio a crianças que se equilibram sobre pernas esqueléticas e barrigas vazias, muitas mães há muito tempo entregaram os pontos e não mais se importavam se sobreviveriam ou não. No meio de tantas, havia uma, uma única mãe que não entregara os pontos e não entregaria jamais, esta mãe representa a esperança de um povo, pois a mãe é o símbolo da regeneração, do cuidado, da esperança, da gestação de um novo mundo. Se aquele povo tivesse tido a oportunidade de viver um outro tempo, aquele ato de cuidado quotidiano seria mais um ato corriqueiro sem maiores conseqüências; mas em tempos de guerra, aquela mãe continuava firme, meio que se preparando para o dia da morte. Neste poema, o autor sucede em evocar o pathos através de uma direta descrição dos danos causados aos civis - tanto mães quanto crianças. A estratégia utilizada pela inteligentsia nigeriana foi a de que a fome era uma arma legítima para exterminar os igbos, ao lado dessa descrição de um campo de refugiados, o leitor percebe que e eliminação começava pelos mais fracos e incapazes de se defenderem: as crianças e suas progenitoras.

No epílogo, o poema We laughed at him encerra a coletânea deste primeiro livro inspirado pela guerra civil, e nele, o eu-lírico assume uma culpa coletiva desde os primeiros versos por não acreditar num certo homem visionário: "we laughed at him our/ hungry-eyed fool-man with itching/ fingers who would see farther than all. We called him/ visionary missionary revolutionary/ and you know, all the other/ naries that plage the peace, but nothing would deter him". Este homem que via sempre adiante de todos vira algo que não queria ver, que não precisava ver, mas avisou aos outros, encontrando-se impotente diante de tanta maldade, ele mesmo arrancou com seus próprios dedos, seus olhos e retina, e lamentou-se atrás de sua cortina de sangue que saía de suas órbitas. “He was always against/ blindness, you know, our quiet/ sober blindness, our lazy - he called it - blindness." Este homem pagou seu preço por não conseguir ninguém que visse com ele, que previsse com ele o holocausto que o futuro lhes aguardava. Os versos que concluem o poema e o livro são: "...but nobody worries much/ about him today; he has paid/ his price and we don't even/ bother to laugh any more". Não há do que rir, não há o que comemorar, não há paz. Se antes as pessoas riam deste homem, ele teve seu fim, mas no presente, ninguém mais se importa em rir do que quer que seja. A desesperança triunfou sobre a utopia de um mundo melhor.

A questão da etnicidade perpassa todo este livro na medida em que sabemos da condição de inspiração e produção do mesmo. Etnicidade e tribalismo para Achebe são uma herança do colonialismo que costura as atrocidades de semelhantes contra semelhantes, numa permanente crise governamental que assola a Nigéria desde a primeira república. Finalizamos com as palavras de Achebe sobre compromisso e arte:

Yes, I believe it’s impossible to write anything in Africa without some kind of commitment, some kind of message, some kind of protest. Even those early novels that look like very gentle recreations of the past - what they were saying, in effect, was that we had a past. That was protest, because there were people who thought we didn't have a past. What we were doing was to say politely that we did - here it is. So commitment is nothing new. Commitment runs right through our work.

Referências Bibliográficas

ACHEBE, Chinua. Beware, soul brother (poems). Ibadan: Heinemann, 1972.

The trouble with Nigeria. Fourth Dimention Publishers, s/d, s/l.

LINDFORS, Bernth & INNES, C.L. Critical Perspectives on Chinua Achebe. Washington: Three Continents Press, 1978.

OJINMAH, Umelo. Chinua Achebe, new perspectives. Ibadan: Spectrum Books, 1991.

RITTNNER, Carol; ROTH, John K. & SMITH, James M. Will genocide ever end? St.

Paul, Minnesota: Paragon House, s/d.

i RITTNER, ROTH & SMITH, s/d., p. 10.

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