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Onde Canta o Ossobó: Vozes Literárias Femininas do Arquipélago de São Tomé e Príncipe

Escrito por  Amarino Oliveira de Queiroz
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Situado na costa atlântica do continente africano, o arquipélago de São Tomé e Príncipe constitui outro pequeno enclave luso falante ao qual os brasileiros estamos historicamente vinculados desde o período colonial, muito embora sua expressão literária

Situado na costa atlântica do continente africano, o arquipélago de São Tomé e Príncipe constitui outro pequeno enclave luso falante ao qual os brasileiros estamos historicamente vinculados desde o período colonial, muito embora sua expressão literária por certo represente, entre nós, juntamente com as do Timor Leste e as da Guiné-Bissau, o conjunto menos conhecido e estudado dentre as literaturas produzidas nos países de língua oficial portuguesa. Este trabalho tem por objetivo sinalizar um breve diálogo com a literatura santomense, nele privilegiando a interação oralidade/escrita em alguns exemplos de sua poesia e de sua prosa de ficção, bem como destacando elementos evidenciadores de uma afirmação identitária nacional, particularmente flagrados através da produção de autoria feminina.

A figura do pássaro ossobó é uma referência literária recorrente no país desde o período identificado como o de literatura portuguesa de ultramar, tanto na poesia quanto na prosa de ficção, assim como no cancioneiro e no imaginário popular das ilhas. Reportandose a essa particular referencialidade, Maria Fernanda Afonsoi lembra que muitos textos africanos estão povoados de pássaros que interferem constantemente na vida dos homens, sendo mencionados em várias passagens literárias por desempenharem um papel fundamental na diegese das obras. Presente por todo o arquipélago de São Tomé e Príncipe, o ossobó, ou cuco esmeraldino, é apreciado pela beleza de seu canto e pelo colorido de sua plumagem. Para além do mero arroubo ufanista ou do lugar-comum assentado numa evocação de pretensos exotismos equatoriais, paira sobre ele a crença popular de que, por desencadear uma força mística, seu canto teria o poder de romper, de forma suave e agradável, o grande silêncio que domina o interior da mata. É identificado ainda como o pássaro da chuva, por anunciar-lhe a vinda e o tempo bom que se firma depois das tempestades. Esta sua habilidade canora traduziria, portanto, revestindo-se em sensível metáfora, a própria consistência de grande parte da produção literária santomense. Seu canto, evocado literariamente através de vários textos poéticos e ficcionais, metaforizaria ainda a escrita nacional de autoria feminina, irrompendo poeticamente contra o silêncio sobre o qual vem sendo relegado o contributo literário das mulheres africanas em geral e das santomenses em particular.

Chama-se precisamente Ossobó um texto poético datado de 1928 e assinado por Marcelo da Veiga (1892-1977). Também se intitula Cantos do Ossobó a coleção de volumes que vêm sendo publicados nos últimos anos pela União dos Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe, avançando pela poesia e pela prosa de ficção nacionais.

Empenhados na tentativa de identificar não apenas onde, mas também como e o que canta o ossobó, torna-se necessário traçar um breve esboço da trajetória literária santomense, privilegiando nela a interação oralidade/escrita flagrante em alguns exemplos da poesia e da prosa de ficção. Sabe-se que desde os seus primórdios a emergente literatura escrita do país é tributária da tradição oral, com registros realizados já no século XIX através dos poemas em língua forroii assinados por Francisco Stockler. Também Caetano da Costa Alegre (1864-1890), considerado o primeiro poeta nacional de língua portuguesa, trataria de evocar em seus Cantares Santomensesiii uma relativamente longa coleção de quadrinhas seqüenciadas e independentes, todas elas calcadas na poesia de tradição oral, valendo-se ora de forma lírica, ora satiricamente, de questões relativas à diferença racial, aos conflitos de ordem sentimental ou, ainda, às relações hierárquicas de poder na experiência entre mandatário e subalterno. Além das cantigas e dos provérbios populares, destaca-se um considerável número de fábulas e sóias, contos orais santomenses que, para além da divulgação através da oralidade vêm encontrando, de maneira cada vez mais freqüente, outras modalidades de registro. O formato impresso é uma delas, com a publicação em antologias de recolhas, mas o trabalho de recontação incorporado pela prosa de ficção se faz presente na obra de alguns autores nacionais, conforme veremos mais adiante. Através de endereços específicos da internet surge a modalidade virtual, igualmente interativa, onde um contador inicia por escrito a sua sóia, deixando-a propositadamente incompleta para que na seqüência outro contador virtual digite novo fragmento do texto e possibilite, assim, a continuidade do processo.

Precedido por escritores como Francisco Stockler, Marcelo da Veiga, Caetano da Costa Alegre, Francisco José Tenreiro, Sum Marky, Maria Manuela Margarido ou Alda Espírito Santo, o período pós-independência revelaria nomes importantes como os de Albertino Bragança, Sacramento Neto, Frederico Gustavo dos Anjos, Maria Olinda Beja, Francisco Costa Alegre, Carlos Espírito Santo, Conceição Lima, Fernando Macedo, Aíto Bonfim, Jerónimo Salvaterra, Inocência Mata, Rafael Branco ou Armindo Vaz d`Almeida, aos quais se sucederiam, entre outros, os de Mé Sossô, Carlos Neves, Manu Barreto, Amadeu Quintas da Graça, Manuel Bernardo, Manuel Teles Neto, Otilina Silva e Maria Fernanda Pontífice, assim como os dos velhos e novos contadores e contadoras de sóias em performance verbal, escrita, impressa e virtual. Não obstante, a situação de invisibilidade a que está relegado o continente africano diante do cenário mundial globalizado vem servindo para reforçar o desinteresse, a desinformação e, conseqüentemente, o preconceito em relação às manifestações culturais e artísticas de seus povos, o que também compromete o conhecimento, a apreciação e o estudo de sua expressão literária. Fatos como estes nos levam a pensar sobre as estratégias de sobrevivência desenvolvidas pelos povos do continente na contemporaneidade, dentre elas as que envolvem as expressões artísticas avaliadas, por exemplo, a partir de algumas de suas escritoras.

Os registros de uma presença feminina santomense na poesia e na prosa de ficção remontam ainda à primeira metade do século XX, através de nomes como os de Aurora Jardim (São Tomé, 1898-1988) e Sara Pinto Coelho (Príncipe, 1913-1990), muito embora em ambas as autoras não estejam precisamente delineados os contornos de uma motivação que se pudesse traduzir por reivindicação nacionalista. De acordo com os estudiosos da escrita africana contemporânea de autoria feminina Verónica Pereyra e Luis Mora, muitos dos textos das escritoras africanas estão impregnados de compromisso político e reivindicação nacional. Neste sentido, las autoras lusófonas han sido pioneras, sufriendo incluso prisión por sus actividades nacionalistas, como es el caso de Maria Manuela Margarido, de la isla de Príncipe, que escribe "por el cielo pasa la angustia austera de la revuelta / con sus garras / sus ansias / sus certezas", o de la santotomense Alda Espírito Santo, cuya obra "É nosso o solo sagrado da Terra" (1978) se convierte en ejemplo de poesía de protesta y de lucha y en la que afirma: "la mujer africana es doblemente colonizada, esclava doméstica, sierva de la colonización, tiene una misión secular a desempeñar en la etapa de la liberación".iv

O sentido político de que se valeu Alda Espírito Santo ao referir-se à tarefa empreendida pelas mulheres na perspectiva das várias etapas de liberação que se lhes configuram repercute, em realidade, como uma missão secular e permanente, podendo ser avaliada em muitos momentos de sua própria poesia e de sua experiência política, aspectos que conviveram de modo indissociado em toda a sua trajetória particular, não estabelecendo disparidade entre a criação literária e a atuação político-social, o ideal estetizante da palavra e sua efetiva empregabilidade numa militância política cidadã.

Nascidas ambas em 1926, Alda em São Tomé e Manuela na ilha do Príncipe, em suas obras individuais poderão ser identificadas zonas de confluência que apontam para um comprometimento ideológico dessa palavra poética na defesa dos ideais de libertação individual e coletiva. O aparecimento e a projeção destas autoras na literatura de São Tomé e Príncipe correspondem, cronologicamente, ao processo de tomada de uma consciência de classe e de identidade nacional no país e nas outras colônias portuguesas da África, o que naturalmente conduziria ao acirramento das lutas pela independência:

É preciso não perder

de vista as crianças que brincam:

a cobra preta passeia fardada

à porta das nossas casas.

Derrubaram as árvores de fruta-pão

Para que passemos fome

E vigiam as estradas

receando a fuga do cacau.

A tragédia já a conhecemos:

a cubata incediada,

o telhado de andalav flamejando

e o cheiro do fumo misturando-se

ao cheiro de anduvi

e ao cheiro da morte (...)

(Manuela Margarido, Vós que ocupais a nossa terra) Senhor Barão

Chegou na ilha...

Saquitel de três vinténs

Enterrando na terra barrenta

A bengala histórica

Donde surgiria

A Árvore das Patacas

- Lenda do cacau

Escrevendo a história

..............................................................................................................

O cacau subiu

Encheu bolsas

O Senhor Barão

Vem descendo a Casa Grande

Enxotando os moleques do terreiro

Montando cavalo alazão

No giro das dependências

Descendo à cidade

Recebendo vénias

Mais vénias

"Senhor Barão"

"Senhor Barão"

................................................................................................................

(...) Mas cuidado gentinha

Senhor Barão tem imitador

na terra. (...)

(Alda Espírito Santo, Senhor Barão)

A disposição mais narrativa e coloquial deste poema de Alda Espírito Santo acentua a sua tendência para uma interlocução com o leitor. O discurso poético que se funda na oralidade e se fixa na escrita parece buscar, através da estratégia de sua performatividade, uma movimentação que permita a ultrapassagem simbólica da forma impressa, sugerindo uma relação mais íntima e interativa entre a poeta e o seu público, o que reduziria, portanto, a distância entre a leitura passiva, individualizada, e a corporeidade do gesto, da enunciação coletivizante na palavra viva. O arquipélago de São Tomé e Príncipe, diga-se de passagem, é pródigo na encenação de autos teatrais populares como os do tchiloli, tradicionalmente encenados por sua população e profundamente enraizados em seu imaginário. Dirigindo-se abertamente à pessoa comum, em ambas as autoras se confirma uma flagrante preocupação em alinhar através da voz poética um discurso de sensibilização política, realizando uma denúncia social onde suas falas se solidarizam com os segmentos menos favorecidos da população das ilhas. A relação entre oralidade e escrita também alcança momento de expressão na prosa desenvolvida por Alda Espírito Santo. Seu livro Mataram o rio da minha cidade revela um conjunto de relatos variados onde convivem lado a lado a sóia, as crônicas da emigração, a prosa memorialista, o canto e o texto dramático. No conto que dá nome ao livro, a escritora assume literalmente um papel de contadora de histórias, reproduzindo, perante o leitor , o comportamento de um kontadô soya, ou seja, lançando mão da postura sedutora que antecipa o ato da contação em si. A recorrência a vocábulos e expressões em língua santomense é uma constante através de todo o texto escrito, onde também são trabalhados alguns códigos da oralidade como o musical e o paralingüístico, caracterizando desta forma a entoação, a intensidade, a pausa, o ritmo e a qualidade da voz, aspectos tão caros à performance dos contadores e contadoras de histórias.

Pensando no exemplo de Alda Espírito Santo e Maria Manuela Margarido, para além do fato de serem mulheres escritoras africanas, que outras aproximações poderiam ser feitas entre a obra das duas poetas e a escrita de autoria feminina no pós-independência de São Tomé e Príncipe? Elegeremos três nomes contemporâneos e representativos desta literatura: a professora, ensaísta, cronista e crítica literária Inocência Mata, a professora, poeta e ficcionista Maria Olinda Beja, e a poeta e jornalista Conceição Lima. Uma primeira inter-relação entre elas poderia ser avaliada já a partir de pelos menos seis aspectos convergentes: a expressão comum em língua portuguesa, a experiência da emigração, a realização de estudos superiores na Europa, a militância na educação ou na vida social do país, a temática africana de suas obras e a busca de uma afirmação identitária santomense, refletindo evidentemente um grau variado de envolvimento com o tema em suas expressões individuais. Considerando mais precisamente a escrita destas autoras, prevalece a poesia sobre a prosa em Alda e Manuela, mas o oposto disto em Inocência Mata, que se concentrou na ensaística. Transitando regularmente entre duas linguagens aparecem, da poesia para a prosa de ficção Olinda Beja, e da poesia para a prosa jornalística Conceição Lima. Ou seja, a atividade poética, que se destacou historicamente como uma expressão por excelência da literatura santomense, também em sua vertente feminina, passa a compartilhar, nos textos do pós-independência, um espaço de relevância com a experiência literária em prosa, fato comprovado pela aparição de outros nomes masculinos e femininos não estudados neste nosso recorte, como é o caso de Ana Maria Deus Lima, Otilina Silva ou Maria Fernanda Pontífice. Isto sem contar as próprias investidas de Alda Espírito Santo nesta direção, que incluem artigos de reflexão crítico-literária. Optaremos então por eleger três das seis vertentes de confluência anteriormente apontadas: a experiência da emigração, a temática africana e a afirmação identitária santomense.

A ausência física das ilhas, por variados motivos e em diferentes momentos, não parece conformar para estas autoras qualquer alheamento e subseqüente alienação frente às especificidades locais. Ao contrário, tendo Lisboa como pouso, pôde Inocência Mata diversificar sua experiência pessoal e profissional, abrindo-se para uma perspectiva mais ampla de cidadania e militância intelectual. Atuante no cenário universitário lisboeta, a escritora Inocência Mata vem se dedicando a estas atividades em diferentes recortes, emanando em seu labor investigativo um pensamento crítico-reflexivo cada vez mais comprometido com a realização escrita de autores e autoras santomenses, angolanos, bissau-guineenses, moçambicanos ou brasileiros. Esta pertença pessoal e intelectualmente multifacetada se reproduz na publicação de uma ensaística igualmente diversa, que se dedica inclusive à apresentação e à organização de obras literárias que contemplam também o contexto santomense. As temáticas voltadas para especificidades literárias africanas, tendo como elo de ligação a oficialidade lusófona são recorrentes na reflexão teórico-crítica de Inocência Mata, da mesma forma como o sentimento de pertença continental, particularizado na insularidade santomense e na experiência da emigração é vivenciado na produção literária de Olinda Beja e de Conceição Lima. Maria Olinda Beja tem publicado diversos títulos em poesia e prosa de ficção.

Ausente do país natal durante muitos anos, significativos momentos de sua obra poética seriam permeados por uma busca da origem, traduzidos na evocação nostálgica da infância e na tentativa de compreender, através dos meandros da memória e da imaginação, sua própria pertença geográfica e afetiva, ainda que este mesmo exercício acabasse por ilustrar a consciência de uma identidade cultural que se afirma mesclada, híbrida. A temática africana recorrente em sua obra repercute não apenas sobre o passado, mas se debruça sobre o presente e se projeta para o futuro, denunciando o desequilíbrio ecológico e o comprometimento do patrimônio natural das ilhas decorrentes de ações predatórias como as que se fazem anunciar através do crescimento da atividade turística e da exploração das jazidas de petróleo. Um dado estrutural interessante reforça a relação entre oralidade e escrita bem como aproxima a realização poética de Olinda Beja e a arte performativa dos cantadores de socopé e dos contadores e contadoras de sóias: a sua atividade declamatória, constantemente conduzida em paralelo às intervenções perante o público durante as palestras, conferências e comunicações por ela proferidas, muitas das quais sob um acompanhamento musical que evoca o cancioneiro tradicional do país através do popular ritmo do socopé. Como de ordinário acontece com a poesia de Manuela Margarido ou Alda Espírito Santo, questões como estas, relacionadas à interseção entre a oralidade e a escrita, à identidade cultural híbrida do povo santomense, à própria experiência pessoal da emigração assim como às preocupações de ordem social, política e ambiental, que se colocaram para o país no passado e que se colocam com similar força na contemporaneidade, alinham os textos de Olinda Beja à escrita de Conceição Lima. Mas na poesia de ambas são também percebidas dicções delicadas do desejo, bem como se faz revelar, com igual paixão e empenho, a expressão lírica dos afetos mais fundos.

Conceição Lima é a mais jovem das três últimas escritoras santomenses aqui tratadas. Sua obra literária encontra-se dispersa em diversos jornais, revistas e antologias de vários países, tendo publicado somente em 2004 o seu primeiro livro de poesias. Militando entre o jornalismo e a literatura, a temática africana e a identidade cultural santomense em sua obra aparecem permeadas muitas vezes por um caráter relacional entre o factual e poético. A herança católica do povo santomense em natural simbiose com as crenças tradicionais africanas conforma outro referencial poético de expressão sofisticada em sua poesia. A figura feminina, como se sabe, desempenha um papel primordial dentro do universo mítico e religioso de várias culturas autóctones do continente. No poema A lenda da feiticeira, por exemplo, evocando o híbrido repertório de lendas, fábulas e sóias que povoam o imaginário popular de São Tomé e Príncipe, esta presença é valorizada pelo próprio sentido reiterativo dos versos, procedimento característico de uma escrita calcada na palavra oral, performatizada:

A senhora Malanzo era velha, muito velha.

A senhora Malanzo era pobre, muito pobre.

Não tinha filhos, não tinha netos

Não tinha sobrinhos, não tinha afilhados

Nem primos tinha, nem enteados.

Era muito pobre e muito velha

Muito velha e muito pobre era

Era velha, era pobre a senhora Malanzo.

Pobre e muito velha

Velha e muito pobre

Era velha e pobre

Era pobre e velha

Velha pobre

Pobre velha

Velha

Pobre

Feiticeira

(Conceição Lima, A lenda da feiticeira)

O jogo alternado dos adjetivos "velha" e "pobre", "pobre" e "velha", repetidos insistentemente, realiza uma denúncia da situação de marginalidade e inferiorização social da mulher no contexto das culturas patriarcais, assentando a condição feminina em papéis sociais cristalizados. A personagem em questão é segregada e punida socialmente em diversos níveis: por já não ser jovem; por não ter concebido; por ter envelhecido sem gerar descendência ou riqueza; por ter ousado transgredir o velho papel previamente estabelecido; por ser considerada, portanto, indesejável, perigosa, feiticeira, alienando-se da célula familiar estruturadora e da convivência social plena. Conforme reitera Inocência Mata, em prefácio ao referido livro inaugural de poemas, a poesia de Conceição Lima situase num plano de reflexividade que constrói o relato de uma geração, mas onde também são enfatizados o fluxo histórico e a análise da consciência individual, em confronto com a coletiva. A experiência da emigração, a temática africana e a afirmação de uma identidade afro-insular santomense, temas igualmente evocados por Conceição Lima através de sua poesia fornecem, portanto, importantes elementos de análise e assimilação da realidade sociocultural de seu país.

Como já vinha ocorrendo com Alda Espírito Santo e Maria Manuela Margarido desde os tempos anteriores à independência nacional, a produção textual das escritoras santomenses reflete, também a partir da atual realidade de São Tomé e Príncipe, o significativo espaço que a mulher africana oficialmente lusófona vem ocupando nas emergentes literaturas do continente. A consolidação de um Estado autônomo e democrático, ultrapassadas a experiência pós-independência e a fase turbulenta que a jovem república vivenciou nos anos imediatamente seguintes se configura como uma tarefa à qual têm se dedicando, através de suas obras, o conjunto das escritoras e escritores contemporâneos em suas atuações internas e em suas investidas no exterior, lutando, como nos fragmentos poéticos de Conceição Lima, "para que a palavra amanheça e o sonho não se perca". E é militando em frentes as mais diversas, mas não necessariamente divergentes, que nomes como estes, de Inocência Mata, Olinda Beja ou Conceição Lima se somam às tantas outras vozes insulares que tratam de concertar, como faz o pássaro ossobó no interior da mata, um grande e afinado diálogo das ilhas consigo próprias e com o mundo.

Referências bibliográficas:

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BEJA, Olinda. A Ilha de Izunari. São Tomé: União dos Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe/UNEAS, Colecção Canto do Ossobó - 2, 1a ed., 2003. APA, Livia; BARBEITOS, Arlindo. Poesia africana de língua portuguesa (Antologia). Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2003, pp. 256-257.

ESPÍRITO SANTO, Alda. Mataram o rio da minha cidade. São Tomé: União dos Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe/UNEAS, Colecção Canto do Ossobó - 6, 2a ed. (revista), 2003.

GOMES, Aldónio; CAVACAS, Fernanda. Dicionário de autores de literaturas africanas de língua portuguesa. Lisboa: Editorial Caminho, 1997.

LIMA, Conceição. O útero da casa. Lisboa: Caminho, 2004.

MATA, Inocência. Emergência e existência de uma literatura: O caso santomense. Lindaa- Velha, Portugal: ALAC, 1993.

PEREYRA, Verônica; MORA, Luis. "Las voces del arco iris. Textos femeninos y feministas al sur del Sahara". In: Derechos para Tod@s Número 9 julio - agosto 2002.

i AFONSO, 2004, p. 368.

ii O forro, ou santomé, é uma língua derivada do contato entre idiomas africanos e o português.

iii APA, BARBEITOS, 2003, pp. 256-257.

iv PEREYRA, MORA, 2002.

v Palha de coqueiro.

vi Originário da Índia, o andu é um arbusto ramificado que produz grãos comestíveis.

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