testeira-loja

"Gaiola de Moscas", de Mia Couto: Entre o Literário e o Dramático

Escrito por  Ana Cláudia da Silva
Classifique este item
(5 votos)
O Sesc Araraquara trouxe a público, em maio de 2007, a encenação "Gaiola de moscas", do Grupo Peleja, em adaptação do conto homônimo de Mia Couto1.

O Sesc Araraquara trouxe a público, em maio de 2007, a encenação "Gaiola de moscas", do Grupo Peleja, em adaptação do conto homônimo de Mia Couto1. Na peça, confluem as pesquisas realizadas pelo grupo de atores sobre o Cavalo Marinho, uma brincadeira popular que tem lugar na cidade de Condado, ao norte de Pernambuco. O conto aborda um episódio situado no sertão moçambicano, do qual participam três personagens: Zuzé Bisgate, sua esposa Armantinha e Julbernardo. Zuzé ganha a vida como biscateiro; em seu sobrenome, Bisgate, estão imbricados a sua função e o material com que trabalha: "bisgas", ou seja, cuspes. Zuzé vende salivas para lustrar os sapatos dos moradores do povoado. Com o tempo, porém, torna-se alcoólatra e isso afeta sua produção. Zuzé, então, descobre outra ocupação: a de vendedor de moscas, que o cliente deveria criar com desvelo, a fim de que os insetos lhe enfeitassem o funeral. Certo dia, chega ao povoado Julbernardo, cujo trabalho era o de pintar a boca das mulheres. Armantinha se atiça e vai à sua banca encomendar pintura. Zuzé, enciumado, ataca Julbernardo e, na briga, é esfaqueado e morre.

O que salta aos olhos, na primeira leitura, é o insólito das ocupações profissionais das personagens, que são o tema do conto. Trata-se de funções inventadas a partir de nadas; pode-se dizer que as personagens procuram extrair o seu sustento da mais absoluta penúria. João Carlos Colaço, ao fazer um balanço das políticas de trabalho em Moçambique, sugere que o fracasso das políticas trabalhistas tanto coloniais quanto socialistas reside na recusa de um modo de vida próprio das comunidades tradicionais, nas quais "trabalhar não significava ter 'empreg0' [...]; significava, acima de tudo, desenvolver uma atividade que garantisse a sobrevivência e a reprodução dos vínculos, dos valores e das crenças que garantiam a coesão do grupo"2. Ao contrário disso, tanto no sistema colonial quanto no regime socialista que o substituiu, o trabalho foi tornado obrigatório, gerenciado pelo Estado; até mesmo as associações sindicais nasceram atreladas ao Estado, com a função de amenizar os conflitos de classe, destituídas de poder representativo e de reivindicação3. O trabalho concebido como emprego passou, então, a ser considerado um meio privilegiado de modernização do país.

Com relação à empregabilidade, dados de um relatório de 2005 da Organização dos Trabalhadores de Moçambique (OTM), que reúne catorze sindicatos trabalhistas, apontam um índice de 60% de desemprego no país, incluídos nesse percentual os trabalhadores ligados à economia informal. Apesar dos resultados positivos que o país vem alcançando nos últimos anos nos setores da educação, da saúde e de infra-estrutura, há ainda um contingente de 54% dos moçambicanos vivendo abaixo da linha de pobreza absoluta, com um rendimento inferior a um dólar por mês4.

Inexiste no país, segundo o relatório da OTM, uma política de emprego estruturada, bem como programas de assistência financeira e social ao desempregado, o que agrava a situação. Embora a economia informal tenha uma participação importante no crescimento do país, não há dados estatísticos sobre ela. A literatura, entretanto, registra essa situação e a recria, transformando a miséria em motor da criatividade humana. Assim, a situação geral que nos apresenta o conto de Mia Couto torna-se familiar ao leitor brasileiro, que presencia também em nossa sociedade uma dificuldade muito grande de inserção no mundo do trabalho, tanto nas zonas urbanas quanto nas rurais. Ana Cristina Colla, diretora do espetáculo "Gaiola de moscas", ao falar sobre o trabalho dos integrantes do Grupo Peleja, afirmara: "Eu acho que o conto já tem uma transposição direta pra Brasil [...], porque é um universo muito parecido, também, com o da brincadeira"5. Daí nasceu a idéia de uma colagem - como ela mesma nomeia o processo adaptativo6 - que resultou no espetáculo. As semelhanças entre o trabalho realizado pelo Peleja e o universo literário de Mia Couto são muitas, tal como relatam seus atores-dançarinos:

A aproximação do universo deste conto [...] com o que a gente vê em Pernambuco [...] vem de um universo fantástico. Quem faz o Cavalo Marinho são os cortadores de cana e as pessoas que trabalham na feira; são pessoas muito pobres, donas de uma cultura que é muito rica; é uma parte da população bem marginalizada, de uma cidade muito pequena que se chama Condado [...]. As pessoas que fazem o Cavalo Marinho são, na maioria, analfabetas; os mestres que detêm esse conhecimento muito profundo [...] são pessoas muito pobres, sem dentes, que vivem um cotidiano muito duro e, ao mesmo tempo, fazem essa manifestação [...] que tem uma força muito grande e um lirismo muito bonito.

A morte, também, é muito presente: lá em Moçambique, por causa da guerra; em Condado, a morte vem da pobreza e de morte matada - de brigas com facas; as pessoas andam com peixeiras... Há também a questão da cor: andando na cidade de Condado, nós somos estranhos, porque a maioria da população ou é negra, ou cabocla; nós, para eles, somos brancos como o povo da televisão, que é muito diferente deles.

Nós começamos, então, a ver que há uma relação entre esse mundo e a história de vender cuspe, que é mesmo uma escassez, da qual sai uma atividade muito criativa, muito viva. Isso que a gente vê na cena, na manifestação popular, o Mia Couto tira das palavras, tal como o Guimarães Rosa faz.7

Nesta declaração estão presentes alguns elementos constantes na crítica coutiana: a idéia de que há um universo fantástico subjacente às criações; a presença de uma população marginalizada e desprovida de condições básicas de subsistência, que se aproxima do perfil das personagens coutianas; a presença dos mestres, mais velhos, a transmitir pela oralidade e pela experiência toda uma cultura que subsiste na manifestação festiva; uma sociedade composta, majoritariamente, de negros e mestiços; a arte que nasce da escassez quase absoluta de recursos; a aproximação com o universo cultural de Guimarães Rosa.

Essa reunião de elementos da cultura popular brasileira, expressos na brincadeira do Cavalo Marinho, e da realidade moçambicana, representados no texto literário de Mia Couto, resultou num espetáculo belo, alegre e comovente que tem encantado as platéias do estado de São Paulo. Na origem da montagem teatral está a experiência de leitura de Ana Cristina Colla, que afirma: "Descobrir Mia Couto pra mim foi uma 'experiência dos sentidos'. [...] É tão cênico e rico em cores, gestos, suores, que não resisti à tentação de encená-lo"8.

Não são apenas esses elementos, entretanto, que sugerem uma grande adaptabilidade do texto coutiano para o teatro. Sábato Magaldi lembra que os elementos essenciais do teatro são o ator, o texto e o público e o veículo para a comunicação entre o primeiro e o terceiro é o diálogo9. Nas narrativas de Mia Couto, os diálogos ganham destaque: eles aparecem, seja nos contos ou nos romances, sempre grafados em itálico e, na sua maioria, destacados como parágrafos independentes, antecedidos de travessão.

Os itálicos e a pontuação não comparecem na sua escrita apenas para distinguirem a palavra falada do corpo do texto, mas também para dar-lhe relevo, destacando a sua importância - afinal, é no mundo da oralidade africana que Mia Couto recolhe os elementos para as suas composições.

Todos os diálogos do conto "Gaiola de moscas" foram mantidos no roteiro da adaptação teatral, evidenciando um empenho em preservar o texto original. Estes aparecem muitas vezes desdobrados e encenados por várias personagens. O conto conta com um narrador e quatro personagens individualizadas e nomeadas (Zuzé Bisgate, Armantinha, o cliente Chico Médio e Julbernardo, o pinta-bocas), além de três grupos de personagens, sem número definido - os clientes de Zuzé, que, "fosse da saliva, fosse da conversa ele lustrava"10, se enfileiravam frente à banca do engraxate; um grupo de personagens que adverte Zuzé sobre os anseios de Armantinha, ávida de outros beijos que não os de seu marido e a gente ("metade do povoado"11) que se aglomerava diante da banca de Julbernardo para apreciar sua arte de pintar as bocas das mulheres. O texto adaptado pelo Grupo Peleja, por sua vez, apresenta dezoito personagens, interpretados pelo grupo de cinco atores-dançarinos. Dentre essas, contamos o desdobramento do narrador em cinco narradores que se alternam; a presença de Zuzé Bisgate e Armantinha, que também se desdobra em três personagens (Armantinha 1, Armantinha 2 e Armantinha 3), unificadas, no final, em apenas uma; três moscas que cantam, desmaiam e rezam, valorizando o negócio do vendedor de moscas; uma velha, cliente de Zuzé; duas garotas-propaganda que anunciam a chegada de Julbernardo; o próprio Julbernardo e duas vizinhas, que atiçam a discórdia entre ele e Zuzé Bisgate.

Percebemos, na adaptação do conto para o teatro, a transformação do narrador em personagens que ora narram, dirigindo-se ao público como contadores da história, transmutando, assim, o sumário narrativo em cena dramática; estes narradores também interagem e dialogam com as outras personagens, cumprindo as funções atribuídas, no conto, aos grupos de personagens que representam o povo.

Outras mudanças em relação ao texto original são também significativas. O triplo desdobramento da Armantinha, no início da peça, constitui uma alteração importante, visto que confere à personagem feminina maior destaque. Nesse sentido, temos também a substituição do cliente Chico Médio, do conto, pela velha, na adaptação teatral. Assim, enquanto o leitor encontra uma preponderância de personagens masculinas no conto, o espectador se depara com um grupo maior de atrizes-dançarinas no espetáculo.

A transposição do texto literário para o teatro tem sido uma das preocupações do autor, conforme declaração feita por ocasião do recebimento do Prêmio União Latina de Literaturas Românicas, em abril de 2007: "Eu gostaria muito que se considerasse que Moçambique é um país que tem diversos espaços lingüísticos e que [...] a minha obra poderia ser traduzida [...] para as línguas originais de Moçambique, que ela pudesse ser convertida em teatro12". Assim, a investigação da adaptação teatral realizada pelo Grupo Peleja no Brasil pode abrir caminhos para a divulgação da obra coutiana junto a um público que se encontra, por vezes, fora do alcance do texto literário, cumprindo não apenas o desejo de seu autor, mas também a função humanizadora da literatura que, segundo Antonio Candido, é um direito inalienável de todo cidadão13.

Referências Bibliográficas:

BARRETO, T.; LARANJEIRA, C.; BRUSANTIN, B. Entrevista. [mai. 2007].

Entrevistadora: Ana Cláudia da Silva. Araraquara, 14 ago. 2007. 1 cartão USB (49 min.). Texto não publicado.

CANDIDO, Antonio. "O direito à literatura". In: Vários escritos. 3. ed. revista e ampliada. São Paulo: Duas cidades, 1995.

COLAÇO, J. C. Trabalho como política em Moçambique: do período colonial ao regime socialista. In: FRY, Peter (Org.). Moçambique: ensaios. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2001. pp. 91-108.

COLLA, A. C. Entrevista [ago. 2006]. Entrevistadora: Joana Abreu Pereira de Oliveira. In: OLIVEIRA, J. A. P. Catirina, o boi e sua vizinhança: elementos da performance dos folguedos populares como referência para os processos de formação do ator. 2006. pp. 191-195. Dissertação (Mestrado em Arte). Instituto de Artes, Universidade de Brasília, Brasília, 2006.

"Gaiola de moscas" [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por em 29 mai. 2007. COUTO, Mia. Contos do nascer da terra. Lisboa: Caminho, 1997.

Entrevista [abr. 2007]. Entrevistadora: Adriana Brandão. Disponível em . Acesso em: 03. mai. 2007. GRUPO PELEJA. "Gaiola de moscas": proposta do Grupo Peleja de adaptação para encenação do conto "Gaiola de moscas" de autoria de Mia Couto. Campinas [2005?]. Texto não publicado, gentilmente cedido por Ana Caldas Lewinsohn.

MAGALDI, S. Iniciação ao teatro. 7. ed. São Paulo: Ática, 2004.

ORGANIZAÇÃO DOS TRABALHADORES DE MOÇAMBIQUE. Relatório Nacional. Maputo, 2005. 13 p. Disponível em . Acesso em 16.10.2007.

1 COUTO, 1997.

2 COLAÇO, 2002, p. 92.

3 Idem, ibidem, p. 105.

4 OTM, 2005, p. 4.

5 COLLA, 2006.

6 Idem, ibidem.

7 BARRETO et al., 2007.

8 COLLA, 2007.

9 MAGALDI, 2004, p. 16.

10 COUTO, 1997, p. 148.

11 COUTO, 1997, p. 150.

12 COUTO, 2007.

13 CANDIDO, 1995.

Ler 6798 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips