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A Sacralização e a Dessacralização em Montello e Pepetela

Escrito por  Ana Lúcia Gomes da Silva Rabecchi
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A literatura brasileira tanto quanto a angolana tem sua gênese no resgate de uma memória coletiva solapada pelo monologismo da historiografia oficial. Para essas literaturas, a construção de um projeto identitário foi a seiva primeira que as nutriu.

A literatura brasileira tanto quanto a angolana tem sua gênese no resgate de uma memória coletiva solapada pelo monologismo da historiografia oficial. Para essas literaturas, a construção de um projeto identitário foi a seiva primeira que as nutriu.

Ricoeur afirma que a Identidade não poderia ter outra forma do que a narrativa, pois definir-se é, em última análise, narrar. Uma coletividade ou um indivíduo se definiria, portanto através de histórias que ela narra a si mesma sobre si mesma e, destas narrativas, poder-se-ia extrair a própria essência da definição implícita na qual esta coletividade se encontra.i

Com isso, Ricoeur está querendo dizer que a identidade é indissociável da narrativa e conseqüentemente da literatura, que na sua engrenagem pode fazer emergir os mitos fundadores de uma comunidade ao recuperar a sua memória coletiva ou mesmo desmistificá-los. Esta busca de definição identitária por um indivíduo ou por uma comunidade pode caracterizar duas funções da literatura como apontou o poeta e crítico antilhano, Edouard Glissant, estudando a formação das literaturas nacionais Há a função de dessacralização, função de desmontagem das engrenagens de um sistema dado, de pôr a nu os mecanismos escondidos de desmistificar. Há também uma função de sacralização, de união da comunidade em torno de seus mitos, de suas crenças, de seu imaginário ou de sua ideologia.ii

Assim, no Brasil o Romantismo exerceu essa função sacralizante desde que procurou recuperar e solidificar seus mitos fundadores, inventando a imagem do índio. Por outro lado, o modernismo concebeu a identidade nacional no sentido de sua dessacralização, o que corresponde, segundo Glissant, a um pensamento politizado e mais questionador. Segundo Zilá Bernd, "A formação da literatura brasileira caracterizou-se, pois, por uma espécie de errância, por movimentos alternados de predominâncias ora de forças sacralizantes, ora de forças dessacralizantes"iii processo que vai da autonomização à construção de uma identidade nacional, apontando os mecanismos de exclusão (ocultação ou invenção do outro) e de transgressão (resgate dos discursos excluídos).

Não é nossa intenção discorrer sobre o conceito de identidade. Nossas considerações rápidas se dão em razão de considerar uma problemática que parece central sobretudo ao flagrarmos as diferenças motivadas, até certo ponto, pela especificidade do contexto histórico-social do romance de Montello em relação ao de Pepetela.

Ancorados num cenário histórico os romances Os tambores de São Luís (1975) do maranhense Josué Montello e A gloriosa família - o tempo dos flamengos (1997) do angolano Pepetela mantêm um diálogo com a história maranhense e angolana. O primeiro, escrito na terceira pessoa, apresenta-se montado em flashes ritmados pela memória de um ex-escravo, já octogenário, que durante uma caminhada numa noite de 1915, volta ao passado, no século XIX. Esse passado revisita toda sua luta de escravo a homem livre em São Luís do Maranhão, revivendo com isso a saga do negro maranhense, no período compreendido entre a passagem da Monarquia para a República, marcado pelo declínio da escravatura e do patriarcado escravista. O segundo, escrito na primeira pessoa, é a memória de um escravo mudo e analfabeto que revive os sete anos de invasão holandesa em Luanda, no século XVII, fazendo uma crônica da família Van Dum, como metonímia de Angola. Testemunha ocular da história, o narrador-escravo faz um contraponto com a História Geral da Guerras Angolanas, escrita pelo português António de Oliveira Cadornega, transformando-a numa crônica da família Van Dum.

A posição do narrador já denota a perspectiva de cada romance. O narrador de terceira pessoa de Montello, onisciente usa a estratégia da memória do velho para recordar o passado, muitas vezes de forma saudosista, em que pese o valioso resgate da memória da presença negra em nosso país, preserva o que se pode chamar de convenção romântica ao alongar-se em excessivas descrições dos castigos impostos aos escravos e na visão do instituto escravocrata como deformação moral. Embora esse narrador domine a narrativa, seu senso crítico não vai muito além da história oficial, enfraquecido também pelo excesso de descrição. O narrador de primeira pessoa de Pepetela participa da história que conta como agudo observador dos fatos, porém sem ter a participação efetiva nela. Essa forma de mediação da história inverte a perspectiva de cada narrador, podendo dizer, grosso modo, que em Montello o romance se chega a desmascarar alguns aspectos importantes da escravidão mascara outros na medida em que sua estrutura narrativa se constrói como adesão a uma ordenação discursiva tradicional, tendendo à função sacralizadora e celebrativa da história. O texto recupera a história oficial sem nenhuma transgressão e o uso nostálgico da temporalidade o mantém preso muitas vezes ao horizonte mítico, dado pela totalização entre presente, passado e futuro.

Neste romance, o discurso de Montello gira em volta de seus mitos, de suas crenças, de seu imaginário ou de sua ideologia, de recuperar a memória coletiva da escravidão num tom edulcorante da história, tendendo a um discurso monológico que intenta a reconstituição do processo de construção do Maranhão e quiçá da nacionalidade brasileira, com a ajuda do negro. Há ainda em Montello certa consciência ingênua ao aderir a um projeto nacional já ultrapassado, orientado para a formação de uma nação brasileira mestiça, miscigenação que tende ao branqueamento dos brasileiros, o que reforça o discurso hegemônico e se filia sobretudo aos argumentos paternalistas de Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala), o que corresponde à percepção do homem branco daquilo que é ou não aceitável, como no seguinte excerto em que Damião ao olhar para o rostinho de seu trineto (...) não podia deixar de lembrar-se do Barão, com a sua famosa teoria de que só na cama, com o rolar do tempo, se resolveria o conflito natural de brancos e negros, no Brasil. Tinha ali mais uma vez a prova, na sua própria família. Sua neta mais velha casara com um mulato; sua bisneta, com um branco, e ali estava seu trineto, moreninho claro, bem brasileiro.iv

O texto de Montello atua ora como fator de reforço desta hegemonia, corroborando a ideologia "oficial", de forma mais fraca como dissidência à fala exclusiva do poder. Apesar de ser constante os castigos dos negros pelos seus senhores, o narrador é pego muitas vezes num discurso nostálgico e tradicionalista da velha ordem patriarcal, como ao descrever a sinhá velha com sua "bondade inata", que enfatiza a relação paternal entre senhor e escravo. Outras vezes disseminando o estereótipo do negro de "bodum caprino", animalesco, sensual.

O narrador de Pepetela, de primeira pessoa, curiosamente é alguém que está dentro da história como observador dos fatos, porém sem ter a participação efetiva neles, pois na posição de escravo da personagem principal, Baltazar Van Dum, sua única missão é acompanhar o seu dono correndo atrás aonde quer que ele vá. Como uma sombra de seu dono ele se esquiva de tudo para pôr-se como uma instância enunciativa, espalhando recortes de vozes ao narrar o que "vê, ouve e imagina", além de desvelar a presença virtual do autor implícito ironizando as concepções cristalizadas, pois como diz o narrador, ele conta não só o que "vê, mas o que ouve e imagina". É, pois, o conjunto desses elementos que permite a audição/leitura de uma história contada a partir de escrupulosas, detalhadas e judiciosas observações.

Assim, esse discurso polifônico tem uma função de dessacralização, de desmontagem das engrenagens oficiais e de desmistificar a História. O romance se constrói como um esforço para contrapor à fala autorizada da história oficial, fazendo vir à tona as verdades contidas no saber popular, quase sempre oral, ocultado pela inegável legitimidade que possui, no mundo ocidental, a palavra escrita.

Em Pepetela é constante o ritual de transgressão que pratica, revertendo os valores estabelecidos e questionando a ordem simbólica geralmente imposta pela elite dominante. A começar pela própria posição do narrador, um escravo mudo e analfabeto, cuja única liberdade é usar a sua imaginação. Aí está delineado o que parece ser o grande paradoxo desse narrador. Como pode alguém sendo mudo contar uma história?

O que parece um aparente absurdo é aproveitado por Pepetela para evidenciar o universo de prodígios, mitos, milagres e surpresas que cercam o mundo africano, quase sempre desconhecido do colonizador.

Como narrador, o escravo mudo e analfabeto participa da História e até a subverte, como personagem está à margem da história que conta. Desde o começo a construção desse narrador já se encontra explicado no fato de ter nascido "para ser o relator do seu dono", de forma que toda sua vida decorre em função disso: "Não era a minha missão nesta vida, a de servir de relator do que acontecia com o meu dono?"v.

Seu olhar da margem, longe de torná-lo alheio aos acontecimentos, torna-se a estratégia para ouvir e imaginar o que se passa à sua volta porque (...) Baltazar era muito pouco observador, o que ele tinha a menos tinha eu a mais, para compensar tudo o que ele tinha e eu nada. Mas já disse que sou muito bom observador, não tenho mais nada para fazer.

Desisti de levar mais longe o pensamento, felizmente sou escravo, não preciso de matar a cabeça a resolver problemas tão complicados, para isso existem os donos de escravos.vi

Com onisciência dos fatos, pois os relata após terem acontecidos, esse narrador de A gloriosa família transcende o limite do tempo e do espaço ao fazer o seu relato "(...) eu é que estou a saltar de um tempo para o outro, pois é a única liberdade que tenho saltar no tempo com a imaginação"vii.

Eu não vi, quem sou eu para entrar na casa onde despacham os nobres diretores da majestática Companhia das Índias Ocidentais? (...) tudo o que possa vir a saber do ocorrido dentro do gabinete será graças à imaginação. Sobre este caso e sobre muitos outros. Um escravo não tem direitos, não tem nenhuma liberdade.

Apenas uma coisa lhe não podem amarrar: a imaginação. Sirvo-me sempre dela para completar relatos que me são sonegados, tapando os vazios.viii

Com esse procedimento o narrador-escravo deixa claro que se vale das informações de outros e da imaginação para completar seus relatos. Há uma plurivocidade de vozes que circundam o discurso do narrador, a começar pelo Prólogo, que é um fragmento da História Geral das Guerras Angolanas, além das epígrafes que vêm no começo de cada capítulo, com os quais a narrativa trava diálogos.

O narrador testemunha não pode ver tudo, assim se vale das histórias dos outros e da imaginação para preencher o que não lhe é permitido saber. Tal atitude empresta a esse narrador a pecha de pouco confiável, o que torna a narrativa especialmente irônica, colocando sobre os ombros do leitor um fardo especial de deleitável raciocínio, à medida que ele procura compreender aquilo que a própria personagem que está contando a estória se diz não entender. Em várias ocasiões comenta não entender o porquê do "outro" - o europeu - agir e pensar de tal modo.

Mas logo em seguida, retoma a sua superioridade dizendo que ele também tem o "sentido da história", com isso querendo dizer que o africano também tem História.

Em A gloriosa família, o autor ao escolher semelhante narrador, intencionalmente dá a palavra aos que não tiveram voz na História, fazendo do anônimo escravo o protagonista narrativo que, da margem da historiografia, ressurge para dar o seu ponto de vista crítico, embora afirme que deseja ser imparcial nos seus relatos, como preceitua a história tradicional. Testemunha de todos os eventos esse escravo é um cronista atento e minucioso, não da história eurocêntrica de Cadornega, mas a outra, a que ficou silenciada pelos interesses do colonizador. Ao contar a história às avessas, o narrador–escravo vai questionando e transformando as fontes com a sua própria história e seu apurado senso crítico não só da História, mas do espaço, política, religião, família, amor.

Não é preciso muito esforço para reconhecer que o romance de Montello apesar de sua tentativa de denúncia da escravidão resguarda um tom edulcorante da História com uma ordenação discursiva tradicional, tendendo à função sacralizadora, enquanto o romance de Pepetela faz emergir um discurso transgressivo que através de mecanismos múltiplos procura relativizar o discurso hegemônico, esquema que se pode depreender da função dessacralizante de sua linguagem literária.

Referências bibliográficas:

BERND, Zilá. Literatura e identidade nacional. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1992.

GLISSANT, Édouard. "La poétique de la relation". In: Le discours antillais. Paris: Seuil, 1981.

MONTELLO, Josué. Os tambores de São Luís. 9 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

PEPETELA. A gloriosa família - o tempo dos flamengos. 2 ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1998.

RICOEUR, Paul. Temps et récit. Paris: Seuil, 1985 (Tomo 3).

i RICOEUR, 1985, p. 432.

ii GLISSANT, 1981, p. 189.

iii BERND, 2003, p. 20.

iv MONTELLO, 1985, p. 608.

v PEPETELA, 1998, p. 246.

vi Idem, ibidem, pp. 55, 231 e 175, respectivamente.

vii Idem, ibidem, p. 16.

viii Idem, ibidem, p. 140.

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