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Remanescentes Africanos em Narrativas Orais e Canções na Estrada Real - Diamantina

Escrito por  Ana Ribeiro Barbosa
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Mário Fernandes Rodrigues

Lúcia Valéria do Nascimento

Introdução

A investigação em lingüística africana e, conseqüentemente na cultura afrobrasileira, tem despertado cada vez mais o interesse de pesquisadores de todo o mundo por formarem um universo empírico importante para o conhecimento das línguas

 

A investigação em lingüística africana e, conseqüentemente na cultura afrobrasileira, tem despertado cada vez mais o interesse de pesquisadores de todo o mundo por formarem um universo empírico importante para o conhecimento das línguas naturais como um todo, assim como por apresentarem participação na constituição da tradição e costumes de comunidades descendentes dos africanos. É relevante reconhecer que há muitas línguas moribundas prestes a desaparecerem e, junto com elas toda a cultura que carregam - tais como contos, canções, lendas, valores espirituais e práticas sociais relacionadas às crenças religiosas, conhecimentos de medicina popular, dentre outros. A figura do narrador ou contador de histórias é mantenedora da memória viva do grupo ao qual pertence, pois une o fio de uma vida às outras tantas, passadas e presentes e revela que a memória histórica da região é refletida e elaborada pelo imaginário nos contos e casos populares. Há urgência em resgatar a memória desses narradores, uma vez que apresentam idade bastante avançada e as gerações seguintes não mais se interessam em aprender seus conhecimentos. Os poucos registros feitos até hoje se deram através da transcrição da oralidade, uma vez que a realidade da região do Vale do Jequitinhonha é de extrema pobreza, com alto índice de analfabetos e semi-analfabetos que utilizam as narrativas orais como único meio de transmissão da cultura de geração para geração.

1. A Estrada Real no Vale do Jequitinhonha Desde a década de 70 pesquisadores vêm comprovando a origem africana dos negros da região do Alto Jequitinhonha. Essa origem é comprovada em traços de línguas africanas no dialeto local, nas cantigas, crenças e costumes sustentados pela população da região.

A região por onde passa a Estrada Real possui um vastíssimo patrimônio histórico-cultural. Os estudos referentes a ela ganham relevância não somente para a historiografia como também para a geografia, a antropologia, a sociologia e para os estudos lingüísticos e literários. Registrar e divulgar esse patrimônio, promovendo seu reconhecimento e sua valorização, especialmente no ambiente universitário e escolar, é o que nos propomos fazer neste projeto.

Portanto, no presente projeto pretende-se pesquisar a memória e os valores em narrativas orais, assim como os registros dos elementos do sobrenatural nas narrativas e canções. Tais pesquisas sobre esse acervo estão sendo orientadas segundo o seguinte foco: reconhecimento e registro de práticas caracterizadoras da cultura africana.

2. Objetivos Como objetivos gerais a pesquisa espera contribuir para o conhecimento do importante papel da Estrada Real na história lingüística e social de Minas Gerais; estimular a pesquisa da tradição oral na região, promovendo o intercâmbio entre docentes que atuam no ensino superior e professores da zona rural; estender a ação do projeto também aos estudantes universitários e à comunidade em geral.

Como objetivos específicos têm-se: realizar o registro sonoro e escrito de narrativas orais e canções de descendentes africanos na Estrada Real - Diamantina; analisar a documentação tendo em vista a identificação de elementos do sobrenatural oriundos das culturas africanas remanescentes na tradição oral da região, relacionando esses elementos com os análogos encontrados nos romances de Mia Couto; processar a digitalização do corpus; disponibilizar os dados para pesquisas futuras.

3. Resultados As histórias que alguns habitantes da região nos relataram fazem parte de uma herança de crenças, tradições e costumes que estão guardadas na memória de alguns dos habitantes da região do Vale do Jequitinhonha. Esse acervo cultural só é transmitido oralmente e a oralidade é um dos meios pelos quais se cria o fantástico nas narrativas.

Marquesi encontrou esse aspecto em suas pesquisas pelo Vale: Em Chapada do Norte, cidade que me chamou a atenção por causa da persistência de crenças em feitiçarias, não foi possível gravar as histórias de alguns contadores, nem fotografá-los, por acreditarem que, ao registrar sua voz, teríamos a posse de suas almas. Um registro que Marques faz da crença nessas histórias pelos moradores do Vale é, por exemplo, o fato de muitos contadores de caso iniciarem suas histórias assim: "Conforme reza a tradição, que eu ouvi de meu pai, que ouviu de minha avó...", ou ainda, como o caso de um deles que dizia: "Falo porque vi e vivi e posso provar!".

Sobre esses aspectos, o pesquisador analisa: "(...) quão fluídas eram as fronteiras entre história e ficção, quão imprecisos eram os limites dos objetos que investigava"ii. 3.1. Sr. Crispim Nas entrevistas realizadas em nossa pesquisa encontramos histórias permeadas de crenças ricas em fenômenos extraordinários. Sr. Crispim foi o entrevistado que nos forneceu a maior parte das narrativas orais a cerca do fantástico e suas histórias tiveram incrível semelhança com o sobrenatural contido nas obras de Mia Couto. Sr. Crispim é negro e detentor dos conhecimentos sobre os vissungosiii e sobre o "povo sabido"iv. Sr. Crispim é um típico contador de histórias.

Ele nos relatou diversas histórias repletas de crenças e elementos sobrenaturais sustentadas pelos moradores da região, como no caso a seguir que se trata de quando seu tio morreu e um cunhado deste não quis que os familiares e amigos cantassem o vissungo, canto ritualístico entoado nos cortejos fúnebres. Como outros dois tios do Sr. Crispim não concordam e cantam, aquele que não queria faz um feitiço para penalizálos. (...) Quando pensou que não, um tirô e o outro respondeu. E era tempo de povo sabido... Quando o Firmiano respondeu, ah, meu Deus do céu! O home mas ficô, mas ficô nervoso, mas não disse nada, não brigou não. Aí pegou meu tio de maduro, pegou meu tio João (...). O homi enrolô um cigarro, lá e preparô o cigarro lá assim de nada... tal, tal veio, entregou meu tio João. Que ele era parte de amigo do meu tio, aí o meu tio sempre pegou o cigarro e fumou, foi só enquanto ele puxô um trago no cigarro... Quando pensô que não, quando Firmiano tira lá o vissungo, cadê Juão dos Santo respondê? O Firmiano bole lá. Quedê o oto respondê? "Ahhhh". Tá roco de tudo. Ficô roco, cadê a voz saí? Aí o Firmiano vei’ de lá pra cá. Chegô cá e falô 'sim: "Ah, cumpade! O que que o sinhô viu? Que o sinhô num tá tocano, o sinhô num tá respondeno?" "Ah, ahhhhh, ciigarrr, ahh [sussurrando]" Quando meu ti’ falô cum Firmiano, Firmian' falô 'sim: "Iscuta aqui ocê guardô o toco do cigarro?" "Tá 'qui, no bolso daaah camiiisa, tá aqui. [sussurrando]" "Ah nu tem pirigo, não. Num tem pirigo não. Não, não. Se ocê guardô o toco do cigarro, se ocê tivesse jogado ele fora tava ruim, mas se ocê guardô o toco do cigarro, tem pirigo, não." Tá bão, pega ele me dê cá o cigarro aqui, agora cê pega o cigarro, agora cê vira aqui, cê põe fogo aqui agora - falô, falô as coisas dele lá, fez umas coisinha lá e falô agora cê pega o cigarro lá o lado que você queimou cê vira pra boca, e o lado que cê pôs pra boca, vira e põe fogo. Ah minina quando pensou que não assim, meu tio fez e as voz do meu ti' vortô, mas vortô normar.

(...). Outra história interessante que Sr. Crispim nos contou também a respeito do povo sabido: (...) - E desceu Horácio, desceu Remundo Saracura atrás de Juca e tava na grama lá. Um jogou o chapéu pra riba e o outro tirou a apertadeira e jogou pra cima. O chapéu virou gavião e a apertadeira virou cobra! E avoava assim uma na frente da outra assim o - o gavião na frente da cobra e a cobra atrás, nos ares assim o huhuhum. Juca Rosa t’aqui assim: "-Tá veno, Tamiro, cê tá vendo, eu num te falei com cê, eu num falei que ele também é sabido, aí oh!” Foi lá, olha um chapéu virá um gavião, e apertadeira virá uma cobra atrás do gavião, isso é coisa impossível, né gente? Isso é coisa de horrorizar! (...) - (...) Aí quando fez, o cumpadri Juca tá olhano, mais Tamiro, ele tá olhano, quando pensô que não, um falou com o outro assim: "-É... eu agora quero minha apertadeira." E o outro dizia, também: "-Agora eu quero o meu chapéu." - E dessas palavras dêz lá, de repente o tal gavião veio e caiu no pé que é do chapéu, e o da apertadeira, a apertadeira veio e caiu, a apertadeira perfeitinha. (...) - Isso é coisa impressionante! Isso é coisa terrível! (...).

É esse o perfil das narrativas orais coletadas nessa pesquisa. Um mundo de contos, cantos, crenças e costumes tradicionais que compõem expressões culturais étnicas de raízes africanas.

3.2. Mia Couto e o realismo maravilhoso Mia Couto é um escritor com formação jornalística (o que lhe atribui um olhar etnográfico sobre sua narrativa) que ultrapassa o estético e assinala "o encontro entre o cultural e o tempo histórico no qual está inserido. É possível conhecer hábitos, costumes e linguagens de uma sociedade a partir de seus textos literários"v. Ou seja, através de suas obras é possível saber um pouco sobre a África, especificamente Moçambique, país natal do escritor. Sua obra traz personagens "sobreviventes de guerras, de fome" que estão em "busca pela própria identidade" encontrada justamente nas crenças espirituais que compõem o místico e o sobrenatural em suas narrativasvi.

Encontramos nas obras de Mia Couto diversas semelhanças com os casos que Sr. Crispim nos contou. Segue dois trechos de um de seus romancesvii que se relacionam com as histórias relatadas, respectivamente: (...) Curozero Muando (...) é o único coveiro de Luar-do-Chão. Vai abrindo alas entre a cerimoniosa multidão, cantarolando a canção: -Juro, palavra de honra, sinceramente, vou morrer assim. Apaga o cigarro no cabo da pá, cospe nas mãos a preparar-se a árdua tarefa. Abstinêncio sugere ao meu pai: -Vá lá pedir que não cante aquela canção... O coveiro levanta a pá com um gesto dolente. O metal rebrilha, fulgoroso, pelos ares, flecha rumo ao chão. Contudo, em lugar do golpe suave se escuta um sonoro clinque, o rasposo ruído de metal contra metal. A pá relampeja, escoiceia como pé de cavalo, e veloz, lhe escapa da mão. (...) Certo é que a pá tinha embatido em coisa dura, tanto que a lâmina vinha entortada. Curozero Muanda (...) passa os olhos pelos presentes como se esperasse instruções. Meus tios, porém, permanecem mudos, em afinado calafrio. Uma nuvem pesa sobre o lugar. O coveiro decide abrir uma cova mais ao lado. (...) Em vão. Também ali surge, à flor da terra, uma pedra intransponível. (...) -O que está a passar? -Não sei, patrões, nunca vi uma coisa assim. Parece a terra se fechou. (...) -Isto é feitiço irmão. Isto é resultado de feitiço. (...)viii (...) Ainda olho para trás. Fulano esperava, certamente, que eu o fizesse. Pois ele está acenando a chamar-me a atenção. Pega na gaiola e lança-a no ar. A gaiola se desfigura, ante o meu espanto, e se vai convertendo em pássaro. Já toda ave, ela reganha os céus e se extingue. (...)ix Trajano Filhox já havia chamado atenção para o fantástico, denominado por ele como "rumor", associado à cultura africana, especificamente à crioula: Os rumores são endêmicos no mundo da cultura crioula, e essa endemia é histórica, tendo lugar nos diversos momentos em que a sociedade crioula se deparou de modo mais intenso com o seu permanente dilema estrutural de ser ou não ser crioula, isto é, de não ser portuguesa nem tradicionalmente africana. (...) a fixação dos rumores pela escrita também recria a noção de verdade, que passa a ser pensada como a adequação e correspondência entre aquilo que é narrado no discurso e os fatos acontecidos.

Controlando a multiplicidade de sentido dos rumores, a escrita quer para si uma verdade que parece se recusar a uma hermenêutica, por desnecessária, pois, sendo escrita, ela é transparentemente verdadeira: não é torcida ou inventada, não envolve a utilização das qualidades basicamente humanas da fantasia e da imaginação, não passa, portanto, pelos sujeitos sociais. Maria Aparecida Santilli, em um estudo sobre os contos de Mia Couto, "nos quais o fantástico opera como surpreendente, ao excepcionar o acontecimento com o timbre do insólito que advém do maravilhoso, ou do sobrenatural", discute até onde a ficção não relata a verdade: (...) condizendo com Bosi que "O romancista imitaria a vida, sim, mas qual vida? Aquela cujo sentido escapa a homens entorpecidos ou automatizados por seus hábitos cotidianos. A vida como objeto de busca, e não a vida como encadeamento de tempos vazios e inertes. (...) nesse horizonte de transcender a vida real o espaço da literatura, considerado em geral como o lugar da fantasia, pode ser o lugar da mais exigente verdade".

É sobre esse encantamento da realidade que essa pesquisa aspira analisar. Afinal, o realismo maravilhoso não se trata de uma criação de mundos imaginários, mas apenas uma representação metafórica, porém verossímil dos fatos.

A narrativa fantástica confunde o leitor com elementos do maravilhoso e do mimético, que causam estranhamento e insegurança em suas supostas crenças do que é ou não real.

Conclusões

Como definiu Santosxi, a literatura oral constituída por contos, cantos, lendas, anedotas, cantorias e provérbios, "elabora o seu universo a partir de textos orais transcritos ou textos escritos a partir de uma oralidade rememorada". E é através da realização desta pesquisa em literatura oral que estamos adentrando no universo fantástico da cultura africana encontrada no entorno da Estrada Real.

A literatura de Mia Couto nos remete a uma realidade vivenciada no cotidiano da pesquisa, pois as histórias contadas pelos moradores do Vale do Jequitinhonha trazem semelhanças com o enredo dos romances do moçambicano. Essas conformidades ajudam a comprovar a descendência cultural africana na região, especificamente o aspecto fantástico que circunda a oralidade dos remanescentes africanos.

Referências bibliográficas:

COUTO, Mia. O último vôo do flamingo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Terra sonâmbula. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

LAGE, Isabela Lima e. Re-atalhos: o olhar de Mia Couto sobre o mundo que o cerca. 51f. Monografia (conclusão de curso) - Centro Universitário do Leste de Minas Gerais, Faculdade de Comunicação Social, Coronel Fabriciano, 2006.

MARQUES, Reinaldo Martiniano. "História Oral e Literatura: narradores populares do Vale do Jequitinhonha, entre a letra e a voz". In: Encontro Nacional de História Oral, 5, 1999, Belo Horizonte. (Comunicação).

NASCIMENTO, Lúcia Valéria do. A África no Serro-Frio. Vissungos: Uma Prática Social em Extinção. 129f. Dissertação (Mestrado em Lingüística) - Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2003.

Pesquisa: Remanescentes Africanos em Narrativas Orais e Canções na Estrada Real. Universidade Estadual de Minas Gerais, Fundação Educacional do Vale do Jequitinhonha, Faculdade de Filosofia e Letras de Diamantina, Diamantina, 2007.

TRAJANO FILHO, Wilson. Rumores: Uma Narrativa da Nação. 1993. Disponível em: < http://www.unb.br/ics/dan/Serie143empdf.pdf> Acesso em Março 2007.

SANTILLI, Maria Aparecida. "O fazer-crer nas histórias de Mia Couto". In: Via Atlântica: Revista da área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. n. 3. São Paulo, USP, 1999.

SANTOS, Idelette Fonseca dos. "O texto da literatura oral: a abordagem etnotextual". In: CONGRESSO ABRALIC, 1. 1988. Porto Alegre. Anais... v. 2. p. 132-136.

i MARQUES, 1999.

ii Idem, ibidem.

iii Os vissungos são cantos afro-brasileiros entoados pelos negros durante os cortejos fúnebres (encomendar alma do defunto) e no trabalho no garimpo (para aliviar a carga do trabalho e também para receber alguma coisa daqueles que passavam pelos garimpos "de multa").

iv Pessoas que têm poder sobrenatural.

v LAGE, 2006.

vi Idem, ibidem.

vii COUTO, 2003.

viii Idem, ibidem, pp. 177-179; grifo do autor.

ix Idem, ibidem, p. 246; grifo do autor.

x TRAJANO FILHO, 1993.

xi SANTOS, 1988.

1 Estudante do Curso de Letras da Faculdade de Filosofia e Letras de Diamantina, Fundação Educacional do Vale do Jequitinhonha, Universidade Estadual de Minas Gerais (FAFIDIA-FEVALE-UEMG).

2 UEMG/FEVALE/FAFIDIA.

3 Professora Mestra, Orientadora do Projeto de Pesquisa (FAFIDIA-FEVALE-UEMG).

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