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Paulo Lins e o Conto "Destino de Artistas": Visão Inusitada Do Mundo do Samba

Escrito por  Adélcio de Sousa Cruz
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Samba e literatura: rio sem vau?

Sendo parte tão importante do quesito brasilidade é de se estranhar por que razão o mundo do samba é tão pouco presente como cenário e principalmente como intertexto para a literatura contemporânea brasileira.

 

Samba e literatura: rio sem vau?

Sendo parte tão importante do quesito brasilidade é de se estranhar por que razão o mundo do samba é tão pouco presente como cenário e principalmente como intertexto para a literatura contemporânea brasileira. Não é de se estranhar também que apareça apenas - se pensarmos na sua invisibilidade no âmbito da literatura canônica - nos textos produzidos por autores afro-brasileiros. Destaco logo de início a mineira Conceição Evaristo1 em seu conto "Ana Davenga", no qual se mesclam o ambiente da favela, o samba e o crime. O carioca Nei Lopes2 marca presença com 171 - Lapa Irajá - casos e enredos do samba, um livro de contos e crônicas. Com exceção desses autores, poucos se aventuraram a percorrer esse universo praticamente inexplorado.

Rio sem vau: essa talvez seja a metáfora que indique a distância e o obstáculo que separa o mundo das letras daquele que se refere ao samba. Arrisco algumas hipóteses a serem ligado à própria identidade das letras dos sambas, que se constituem em narrativas cantadas, formadas por características que se assemelham muitas vezes às da crônica, àquelas do diário e até mesmo do conto - personagens, capacidade de síntese, uso da linguagem cotidiana.

No entanto, esse rio é atravessado algumas vezes por escritores que decidem retirar da invisibilidade um rico campo de personagens e temas. O breve texto que apresento agora trata de um desses valiosos momentos, que simultaneamente desvenda parte das identidades que integram a sociedade brasileira e desmascara a face inócua e hipócrita da cordialidade.

Uma visão inusitada Paulo Lins em seu conto "Destino de artista"3, publicado em Literatura Marginal 1 - edição especial da revista Caros Amigos - nos apresenta duas personagens que possuem a condição representacional bastante explorada pelo cinema brasileiro: compositor de samba. Mas não se trata do samba comum e sim do samba-enredo, aquele que faz desfilar durante o carnaval uma de nossas instituições nacionais de cultura: a escola de samba. Lins apresenta um ponto de vista incomum sobre esse mundo que, tanto no cinema quanto nas poucas páginas literárias de textos considerados canônicos, é retratado com ares e cores que não ultrapassam uma visão romântica do universo sambista.

Azeitona e Empadinha, alcunha dos compositores, se defrontariam com um desafio até então inesperado, pois o tema do enredo daquele ano seria nada menos que a Transamazônica. Azeitona saiu com vantagem devido ao trabalho escolar de seu filho, que possuía o mesmo assunto: a famigerada estrada, obra monumental do regime militar. Já Empadinha, passava por maus bocados porque ficara estagnado diante da dificuldade imposta pela "infeliz estrada". Porém, havia um problema maior:

E que mais lhe afligia era que, nesse ano, a disputa seria honesta, porque Amendoim havia morrido e sempre era ele quem ganhava com qualquer samba, não porque comprasse os jurados, mas pela violência. Amendoim já havia matado 95 pessoas e duas delas eram compositores de samba vencedor. Daí em diante, ganhou todas as disputas, até morrer com quatro tiros numa quebrada do morro. (p. 16)

O narrador apresenta o dilema e suas personagens como se falasse de coisas absolutamente corriqueiras, fossem essas letras e melodias de samba-enredo ou o regime político vigente no país. Estranha esta aparente naturalidade, como se tudo corresse desse modo desde o início dos tempos. Ali naquele espaço, fazer samba e matar 95 pessoas são atos que praticamente se equivaleriam em importância. O narrador alerta: não é a corrupção que decidia pelo samba vencedor, era a violência. Isso era aceito, não tacitamente, mas sob aquele silêncio comum às "pessoas de bem" que assistiam a ascensão de regimes atrozes como ditaduras e o nazismo, para ficar em dois exemplos apenas.

Qual outro fator é comum à construção dessas personagens? Vamos aos nomes por elas recebidos. Azeitona é o sambista sortudo, pois seu filho lhe dera o "esqueleto" da composição "de bandeja". Já Empadinha só logrou sucesso após literalmente comprar outro trabalho de escola do aluno Mauricinho. Mas além de ter trabalhos escolares como base para suas criações musicais, os dois possuíam, em comum, um recurso vastamente utilizado para nomear personagens subalternas em toda a literatura brasileira: a reificação ou despersonificação, retirando deles as qualidades inerentes aos seres humanos. Pareceria mera brincadeira com palavras se não fosse a presença de outro recurso: a metonímia. As duas personagens se complementam, pois a primeira seria o conteúdo da outra - um dos elementos que favorecem o sabor da “empada” é exatamente a "azeitona". Acrescente-se ainda a ironia, pois está sugerida a possibilidade de uma parceria entre os dois compositores. Sugestão confirmada mais tarde quando, num flash back, a narrativa relata ao leitor que os dois ganharam os apelidos quando crianças, pelo fato de andarem sempre juntos. Mas quem disse que não há confronto entre subalternos? Lembrando ainda: o quesito definidor do samba-enredo era a violência... Afinal, como sugeria o nome de Empadinha, ele próprio sentia-se sem conteúdo e incapaz, porque lhe faltava a consistência de um "recheio": ser um bom compositor.

Breve análise cabe ao nome da personagem Mauricinho. Normalmente, esse nome é transformado em alcunha atribuída aos jovens de classe-média alta. Porém, neste conto de Paulo Lins, recebe novo significado: o "mauricinho" é ironicamente aquele que possui consciência política típica de um militante de esquerda, um verdadeiro oxímoro em pleno morro carioca ou ainda de acordo com Roberto Schwarz4, mais uma personagem repleta de "idéias fora do lugar". É justamente esse garoto que provoca outra decepção para Empadinha ao criticar duramente o samba-exaltação à ditadura, a qual, naquele período, governava o Brasil, e agora era laureada por uma letra de rimas fáceis. Àquela época, consciência crítica da conjuntura parecia não fazer parte do repertório da comunidade.

Divórcio este defendido no roteiro pelo escritor carioca em parceria com a diretora Lúcia Murat5, para o filme Quase dois irmãos (2005), e cujo embrião talvez estivesse sendo experimentado no conto. Contudo, Mauricinho não está livre de contradições. Ele aplica sobre Empadinha um discurso politizado, mas o faz somente após receber os cinqüenta cruzeiros pelo, digamos assim, “empréstimo” do trabalho escolar.

Não bastava o clássico dilema de Empadinha ecoando a personagem Pestana do conto "Um homem célebre", de Machado de Assis6 (quando o sambista se vê às voltas com as dificuldades da criação artística, representada aqui pela questão do samba), fora imputado a ele outra pena: a de ser mais um alienado, como os outros compositores de samba-enredo. O texto exibe então, tanto a característica da intertextualidade - ao fazer alusão ao conto machadiano - quanto a marca metalingüística, por tratar de uma obra literária que traz no bojo de sua trama o dilema da criação de uma peça de arte, no caso aqui, um samba-enredo.

O desfecho da trama irá entretanto surpreender o leitor, não pela descrição de uma cena em que o sangue parece encharcar a página, mas justamente pelo efeito oposto, provocado por sua ausência. Os dois sambistas se confrontam na final que decidiria o samba-enredo da escola. Ao perceber o franco favoritismo de Azeitona, Empadinha decide aproximar-se do ex-companheiro de infância e parcerias. Um almoço é marcado para iniciarem a tentativa de renovar os laços de irmandade rompidos no passado. O resultado está transcrito a seguir:

Por fim, começaram a comer com muito apetite, mas logo depois Azeitona começou a passar mal e, em seguida, Empadinha. Os dois tiveram o mesmo tipo de convulsão. Valdirene chamou os vizinhos para ajudar a levar os dois para o hospital, onde chegaram mortos. Depois da autópsia o pessoal ficou surpreso com a causa mortis de ambos: parada cardíaca por envenenamento. Mas tudo ficou esclarecido quando o enfermeiro trouxe dois vidros de ratofudex, que encontrara nobolso de cada um, um veneno fulminante para ratos. (p.19)

A conclusão da história despeja apenas parte da violência sobre o leitor, mesmo podendo-se perceber o crescente clima de eletrificante tensão que percorre toda a narrativa - prerrogativa de narradores oniscientes. A despersonificação de Azeitona e Empadinha está completa, agora, através de outro recurso tão utilizado pela literatura brasileira canônica do Realismo/Naturalismo: a zoomorfização, pois ambos morrem - como se diz popularmente -- estrebuchando como ratos. Finda-se também a sonhada cordialidade, reforçando ainda mais sua não-humanidade. A palavra convulsa toma de assalto à fala subalterna, neste sítio de embates em que a questão está relacionada à capacidade de instituir-se ou institucionalizar-se como artista. O "ratofudex" é esta palavra convulsa não pronunciada, escrita em letras hirtas na etiqueta de um vidro imaginário que está nas mãos, imaginárias de um enfermeiro também imaginário. A literatura produzida por Paulo Lins é feita igualmente disso: um contínuo assalto à nossa imaginação.

Conclusão

O conto de Paulo Lins faz mais do que simplesmente digladiar com as figuras de linguagem, referentes à despersonificação, muito utilizadas pela literatura canônica. Ao escolher a metonímia para expor o processo de desumanização dos afro-brasileiros, Lins interpela leitores e demais autores contemporâneos e os convida a refletir sobre a naturalidade com que é encarada a presença do crime e da violência no universo fora do "asfalto" Racismo e todas as formas de preconceito atuam preferencialmente via metonímia, porque julgam a complexa constituição de um grupo ou mesmo um indivíduo por um detalhe, por somente uma de suas partes. Em "Destino de artista", os estereótipos relativos ao mundo do samba estão expostos como notas que não deveriam pertencer às melodias deste gênero musical. O embate entre a empada e a azeitona, metaforizado ali, remete ainda ao conto machadiano, "Um apólogo"7, em que a agulha e a linha travam disputa por mérito. Transparece uma forma absurda de individualidade: a busca pela supremacia a todo custo, bem própria destes dias atuais.

O concurso de sambas-enredo, por sua vez, traz à tona um tema considerado de importância nacional que, paradoxalmente, ignora boa parcela da população que constitui seu próprio povo. Normalmente, esta comunidade é convocada apenas no momento de aprovação dos temas nacionais ora via plebiscito, ora via um "samba-exaltação".

Quanto ao desfecho escolhido pelo narrador, possui o impacto de um projétil de grande calibre: a zoomorfização. Ao serem transformados metaforicamente em "ratos", em sua hora derradeira, as personagens possibilitam ao leitor a lembrança de outras tantas vítimas desta violência perpetrada por figuras de linguagem. O narrado nos alerta sobre o perigo de pseudo-inocentes recursos literários. Haverá sempre um vidro de "ratofudex" à espreita? Quando não atinge diretamente o corpo, deixa marcas profundas no espírito...

Referências bibliográficas:

EVARISTO, Conceição. Ana Davenga. In: Cadernos Negros: Os melhores contos. São

Paulo: Quilombhoje, 1998. p. 31-41.

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. "Um homem célebre" (pp. 497-504). "Um apólogo" (pp. 554-556). In: COUTINHO, Afrânio. Obra completa vol 2. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997.

MURAT, Lúcia. Quase dois irmãos. Roteiro de Lúcia Murat e Paulo Lins. Brasil; Chile; França: Imovision, 2004.

LINS, Paulo. "Destino de artista". In: FERRÉZ (org.) Literatura Marginal I. São Paulo: Casa Amarela; Editora Literatura Marginal, s/d. p. 16-19.

LOPES, Nei. 171, Lapa-Irajá - casos e enredos do samba. Contos/Crônicas. Rio de Janeiro: Folha Seca, 1999.

SCHWARZ, Roberto. "As idéias fora do lugar". In: Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000. (pp. 09-31)

1 EVARISTO, 1998, pp. 31-41.

2 LOPES, 1999.

3 LINS, s/d, pp. 16-19.

4 SCHWARTZ, 2000, pp. 09-31.

5 MURAT, 2004.

6 ASSIS, 1997, p. 497-504.

7 Idem, ibidem, pp. 554-556.

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