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Crítica Literária, Poesia Afro-brasileira, Poesias Africanas de Língua Portuguesa e as Relações Raciais no Brasil

Escrito por  Alan Fernandes de Souza
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Introdução

A crítica literária brasileira ao longo de sua existência tem se constituído como um poderoso instrumento de inclusão (ou de exclusão) de uma vasta gama de produções literárias no que se convencionou chamar de cânone literário.

 

Introdução

A crítica literária brasileira ao longo de sua existência tem se constituído como um poderoso instrumento de inclusão (ou de exclusão) de uma vasta gama de produções literárias no que se convencionou chamar de cânone literário. Na sofisticada crítica acadêmica podemos acompanhar uma verdadeira "guerra" entre duas vertentes, dois enfoques teóricos diferentes para análise de seu objeto de pesquisa: o dos culturalistas e o dos esteticistas. O argumento mais utilizado pelos adversários dos estudos culturais é de que os professores que se debruçam sobre este tipo de estudo submetem suas análises literárias a critérios de raça, gênero e classe. Nossa temática neste trabalho é a critica literária e as relações raciais no Brasil com a ambição de construir, ampliar a reflexão e problematizar afirmações que têm merecido análises mais profundas.

Discutindo a crítica literária e as relações raciais no brasil As características mais comuns do modelo de relações raciais, não somente no Brasil mais em toda a América Latina, convergem basicamente, para o modelo pigmentocrático e clientelistai. Este modelo possui sua gênese em sociedades préindustriais (como no caso do Afeganistão, Índia, Irã, Oriente Médio, Paquistão e Turquia) dominadas por uma hierarquia "determinada pela linhagem e o conceito de nobreza"ii. Neste modelo de sociedade, as demandas sócio-raciais coletivas são pormenorizadas e disfarçadas por uma falsa idéia de inclusão. Aliando-se a tal problema, percebe-se que a integração e a ascensão de sujeitos racialmente subalternizados se dão, na grande maioria das vezes, através de um processo de mestiçagem ou a democracia vai se dar mediante a pigmentação epitelial. Estas características deveriam ter sido aniquiladas na emancipação das antigas colônias, entretanto, as elites republicanas projetaram no corpo sistêmico que compõem o Estado o mesmo comportamento racializado do período colonial. Sendo assim, a escola e as universidades, como instituições que compõe o corpo do Estado, não ficam imunes a todas as características elencadas acima. E como a crítica literária é acadêmica, seu discurso possui as mesmas características. Nesse sentido, as instituições educacionais acabam escolhendo textos cujos autores e temáticas reforçam ou mascaram as desigualdades. A "literatura de temática negra" não está excluída totalmente dessas instituições, já que tal apagamento comprometeria ainda outra ideologia que permeia esses espaços, cujo eufêmico nome de batismo é: democracia racial. No entanto, segundo Zilá Bernd, a "literatura negra ou afro-brasileira" esta excluída dos espaços de consagração por razões ideológicas: interessa que haja obras sobre o negro para provar o caráter multiétnico da nação brasileira, mas não interessa dar voz ao oprimidoiii. Ora, é justamente nesse aspecto que reside o grande problema da crítica tradicional e suas correntes teóricas que não respaldam, ou até opõe-se aos estudos culturais. Nessa perspectiva, a crítica tradicional ou fica em silêncio à cerca da questão, algo típico do "racismo à brasileira", ou se posiciona de forma teórica e ideologicamente comprometida com o grupo hegemônico. É possível que, nesse contexto, se crie um campo fértil para o florescimento de afirmações como a que segue: "Mas não se pode mudar a história passada; que a literatura tenha sido, em nossa tradição, uma prática de homens brancos das classes dominantes é um fato histórico documentado"iv. Segundo Antonio Candidov literatura, em seu sentido mais amplo, corresponde a todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações. Nesse sentido, ainda segundo Candido, não há povo que possa viver sem a literatura, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação.

Sendo assim, a literatura corresponde a uma necessidade universal e constitui também um fator indispensável de humanização. Abraçando este conceito de Candido e tomando a afirmação de Perrone-Moisés podemos concluir, portanto, que existe algo de etnocêntrico, racista e machista no reino da critica literária. Não quero propor generalizações, nem tão pouco colocar a dicção da autora na condição de metonímia da critica literária. Porém a afirmação da autora me permite flagrar o discurso comprometido em celebrar e reafirmar o comportamento narcisista dos brasileiros de ascendência européia. A afirmação de Perrone-Moisés é um exemplo clássico de reafirmar o mito da superioridade intelectual de um grupo étnico e de um gênero sobre outros, pormenorizando todos os fatores culturais ou até mesmo históricos que implicaram nesta tradição. Segundo Bentovi, "ter a si próprio como modelo e projetar no outro as mazelas que não é capaz de assumir" são atitudes, do ponto de vista psicológico, que sob certos prismas específicos, até podem ser observadas como normais. No entanto, afirmações dessa natureza, no campo das relações raciais, visam justificar e legitimar desigualdades, apropriações de bens e manutenção de privilégios. No final do século XIX, no Brasil, as elites tiveram medo de um grande levante negro - a chamada "onda negra"vii. Neste contexto o ideal de branqueamento se consolida justamente do medo branco, de um país visivelmente não-branco. É possível que este medo brancoviii, acompanhado dos resquícios dessas teorias raciais, esteja se reconfigurando (se é que um dia ele deixou de existir) e atuando na contemporaneidade, no campo da crítica literária, através do posicionamento contundente dos opositores aos estudos culturais. Talvez esses temam a "onda culturalista" devido a suas implicações sociais. Percebe-se que, ao advogar o estudo da "literatura por ela mesma", propõe-se ocultar, silenciar, omitir, pormenorizar todas as práticas excludentes construídas pelos grupos sociais hegemônicos. Nesse sentido, os discursos apocalípticos daqueles que são contra a "onda culturalista", no fundo, são instrumentos utilizados para frear transformações acadêmicas e sociais que a poesia não hegemônica pode provocar. É inegável que se deva estudar a estética do texto, mas não se pode entronizar este tipo de estudo como sendo o único possível. O legado cultural dos negros, em outros campos artísticos, é mais legitimado do que a arte literária. Parece-nos que os seguintes fatores podem estar envolvidos com a questão: a) a literatura possui como matéria prima a língua e esta, como afirma Barthesix, é o “objeto em que se inscreve o poder”; b) por que a poesia "amplia nossa consciência ou apura nossa sensibilidade"x. No campo da crítica que o problema pode ser mais grave, pois, o que se encontra na "bolsa de valores" da crítica literária tradicional é uma invisibilidade, uma subrepresentação, uma classificação hierarquizada das literaturas de grupos nãohegemônicos ou, o que é pior, mercado de valores, o silêncio. Segundo Barthes, "(...) o pecado maior, em crítica, não é a ideologia, mas o silêncio com o qual ela é recoberta: esse silêncio culpado tem um nome: é a boa consciência ou, se se preferir, a má-fé"xi. Neste momento, é preciso reafirmar que o “silêncio” ocorre para deslegitimar não somente a poesia afro-brasileira, mas, as produções literárias de grupos nãohegemônicos em geral, pois, há um interesse dos grupos majoritários em promover a invisibilidade de tais produções. Bentoxii chama a atenção para a questão do silêncio, a omissão, relacionando isto com o lugar que o branco ocupa nas relações raciais brasileiras, indicando seu forte componente narcísico de autopreservação. O que está em jogo é a negação do diferente e o controle do poder. Os grupos hegemônicos têm consciência do poder que se inscreve na língua e também da capacidade que a literatura tem de promover a emancipação dos sujeitos sociais. É deste fato que resulta toda forma de resistência em respeito à literatura negra, ou a qualquer outra literatura de grupos não-hegemônicos. Conforme Eliot, para que haja poesia é preciso dois resultados: o prazer e a "diferença, para além do prazer, que a poesia pode oferecer às nossas vidas". Se isto acontece, a literatura amplia a consciência e apura a sensibilidade de qualquer nação. Entretanto, isto só acontece "quando se trata de uma civilização sadia"xiii. Ocorre que em uma sociedade como a brasileira, se levarmos em consideração a sua estruturação pigmentocrática, ou se preferirmos assim dizer, racialmente (des)estruturada, a expressão "civilização sadia", não pode ser utilizada sem maiores questionamentos para não corrermos o risco de lançarmos mais combustível no fogo que alimenta o mito da democracia racial. Talvez a crítica literária brasileira não seja civilizadamente saudável, seguindo assim, o comportamento crônico de sua sociedade. É possível que o crítico mais afinado com as tradições da norma somática, ao se deparar com a poesia afro-brasileira, se comporte como se estivesse caído de páraquedas num território geográfico, lingüístico, racial e culturalmente, estranho. Possivelmente deriva deste fato a apreciação e a hostilidade que tantas vezes permeia o discurso da crítica tradicional. No Brasil, o termo poesia afro-brasileira ou negra não possui um conceito teórico definido. Acreditamos que isto ocorra por conta do estado "pouco saudável" de sua sociedade. Todavia, empregamos o termo aqui por acreditar que poesia afro-brasileira é, basicamente, uma rebelião, através da palavra, não somente contra a opressão racial, mas, em favor de uma legitimação da "cultura" e "da experiência negra". No entanto, este é o grande problema do Brasil, pois expressar cultura e experiência negra é falar através de um código que nos é própria, mas que, ao mesmo tempo, o país "não (re)conhece".

Conclusão

Por tudo que se pode inferir, podemos concluir que o modelo de relações raciais, pigmentocrático, da sociedade brasileira e o componente narcísico da norma somática são elementos que permeiam a crítica literária brasileira e acabam construindo obstáculos para as literaturas de outros grupos. Os estudos culturais dão, no plano da crítica literária, uma visibilidade aos sujeitos anteriormente invisíveis. Neste sentido, talvez seja possível afirmar que os estudos culturais estejam para as ações afirmativas, assim como os adversários que insistem em desqualificá-los estejam para um conservadorismo que deriva da necessidade de manutenção do status quo sócio-racial.

No embate contra os estudos culturais o que está em jogo não é somente a dita preservação do objeto literário, mas sim, a manutenção de privilégios institucionais. É preciso ir além, prestar a atenção no que verdadeiramente está sendo defendido ou questionado. É possível que as características sócio-raciais brasileiras também estejam arraigadas nesse embate e marquem a crítica literária canônica.

O fato é que, apesar das teorias raciais, "cientificistas" terem sido refutas desde meados do século XX, essas ainda continuam sendo revisitadas, remodeladas, recauchutadas, e reaparecem na contemporaneidade em livros de autores consagrados. Isto agrava ainda mais o problema que envolve as relações sócio-raciais no Brasil, pois o discurso do senso comum ganha mais uma vez a legitimidade através do discurso acadêmico. Percebe-se com essa postura que parte da crítica contemporânea não tem lutado "contra os estereótipos e seu reino"xiv e não tem construído um, "(...) trabalho sutil de desativação dos discursos da arrogância"xv. Pelo contrário, o que se tem visto nos desmandos da crítica literária é: autoritarismo, perpetuação de estereótipos, e discursos arrogantes que pouco colaboram com o desenvolvimento do senso crítico. Um estudo sistemático sobre relações raciais na dicção da critica literária brasileira ainda está por ser feito, portanto, não se pode exaurir a questão nesse ensaio ficando esta pretensão para um outro momento. A falta de um consenso entre as duas vertentes de crítica literária não se deve ao fato de uma teoria anular a outra, mas sim, por que o que está em jogo é uma maior rotatividade do exercício do poder. Uma colisão implicaria em uma maior visibilidade das literaturas de grupos não-hegemônicos e uma democratização do poder institucional acadêmico. Isto, sem dúvida, seria sábio, e o aprendizado, então, "seria com um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível"xvi.

Referências bibliográficas:

AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda Negra, Medo Branco: O Negro no Imaginário das Elites, século XIX. 2. ed. São Paulo: Annablume, 2004.

BARTHES, Roland. Aula. Tradução de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 1977. Crítica e Verdade, São Paulo, Perspectiva, 1999.

BENTO, Maria Aparecida da Silva & CARONE, Iray (Orgs). Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis/RJ: Vozes, 2002.

BERND, Zilá. Negritude e literatura na América Latina. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.

CANDIDO, Antonio. "O direito à literatura". In: Para gostar de ler: Vários escritos.

São Paulo: Duas Cidades, 1995.

MOORE WEDDERBURN, Carlos. "Novas Bases para o ensino da história da África no Brasil". In: Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal n. 10.639/03. Brasília: Ministério da Educação, 2005.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Altas Literaturas: escolha e valor na obra crítica de escritores modernos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

T. S. Elitot. "A Função Social da Poesia". In: De poesia e poetas. São Paulo: Brasiliense, 1988.

i Cf: MOORE, 2005, p 326.

ii Idem, ibidem.

iii BERND, 1987, p. 78.

iv PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 198.

v CANDIDO, 1995.

vi BENTO, 2002, p. 31.

vii Idem, ibidem.

viii AZEVEDO, 2004.

ix BARTHES, 1977, p. 12.

x ELIOT, 1991, p. 29.

xi BARTHES, 1977, p. 160.

xii BENTO, op. cit..

xiii ELIOT, op. cit., p. 31.

xiv BARTHES, 1977, p. 61.

xv Idem, ibidem.

xvi Idem, ibidem, p. 47.

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