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A Representação do Feminino em Boaventura Cardoso: Uma Análise de "Nga Fefa Kajinvunda"

Escrito por  Alessandra Casati
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A ocupação colonial na África acompanha o confronto de duas civilizações distintas que se organizam em um mesmo espaço de forma a criar uma sociedade dividida em dominadores e dominados.

A ocupação colonial na África acompanha o confronto de duas civilizações distintas que se organizam em um mesmo espaço de forma a criar uma sociedade dividida em dominadores e dominados. De acordo com Kabengele Munanga: "O caráter antagonista das relações existentes entre elas é ilustrado pela função instrumental à qual é condenada a sociedade dominada"i, desta forma este processo de oposição resulta em uma profunda desvalorização e descaracterização do povo africano.

A relação de dominação está comprometida com uma visão alienada do outro, que serve ao processo de exclusão colonialista, citando novamente Kabengele Munanga: "O colonizado é assim remodelado em um retrato-acusação, uma imagem mítica". No contexto colonial, o africano tem a sua cultura rejeitada. Além disso, a ocupação da pátria pelo estrangeiro marca também uma perda da identificação geográfica, tornando-o um estranho em sua própria terra. Ainda de acordo com Kabengele Munanga: "Colocado à margem da história, da qual nunca é sujeito e sempre objeto, o negro acaba perdendo o hábito de qualquer emancipação ativa, até o de reclamar"ii. A partir destas reflexões sobre a identidade, constatamos que são estes os conflitos que cercam a personagem central do conto, a qual, em sua tentativa de auto-afirmação, é silenciada violentamente pela força repressora da colonização, que partilha das mesmas relações de poder do patriarcado.

O colonialismo tem as suas bases na exclusão e na propagação da diferença entre classes em uma sociedade. O patriarcalismo, que se constitui um conjunto de normas, também sempre esteve baseado em práticas autoritárias e de exclusão. Segundo Saffioti, a estrutura da sociedade traça os destinos dos sujeitos nela inseridos, de forma que as raças/etnias se constituem destinos, bem como a classe social e o gênero. Portanto, a esta exclusão colonial, referida anteriormente, se sobrepõe uma outra, de origens mais antigas, o patriarcado, que na opinião de Saffioti é o mais antigo sistema de dominação.

Ainda segundo ela, é impossível separar as três categorias de dominação - patriarcado, raça e classe social. Citando a autora: "Na realidade concreta, eles são inseparáveis, pois se transformaram, através deste processo simbiótico, em um único sistema de dominação-exploração, aqui denominado patriarcado-racismo-capitalismo".

O conto "Nga Fefa Kajinvunda", de Boaventura Cardoso, revela e reconstrói as relações de dominação anteriormente citadas que coexistem na sociedade africana. Além de estar presa ao regime de dominação do colonizador, o qual se considera superior ao povo colonizado, a personagem feminina está sujeita à vivência de uma ideologia masculina, que recria o processo de colonização e também a vê como inferior. Através do drama vivido por ela, ficam evidentes as violentas relações de poder entre homem e mulher, e, ainda, entre colonizador e colonizado. Através da protagonista feminina, o autor coloca a atenção sobre a figura excluída em todos os níveis. Nga Fefa é a personificação do desprivilegiado e marginalizado. Porém, nela também podemos reconhecer as marcas da força, da coragem e da emancipação feminina e a reação do oprimido, que responde com violência à violência sofrida.

O conto se inicia com gritos: "Kuateno! Kuateno!", que ajudam a reproduzir o clima de confusão depois do acontecimento de um roubo e introduzem uma componente sonora no texto. A protagonista Nga Fefa agarra o ladrão. A partir deste momento, ela será descrita através dos seus feitos notáveis que impressionavam as outras mulheres e até mesmo os homens. A apresentação da personagem a identifica como uma quitandeira de personalidade forte, desafiadora, contestadora, que usufrui o seu poder da palavra, mas é morta depois de desafiar uma cliente branca, como podemos perceber, por meio das seguintes passagens:

Nga Fefa Kajinvunda, como lhe chamavam por causa da força dela na discussão, refliona, quem lhe punha só desafio?, nem mesmo os polícias se podiam com ela. (p. 39)

Nunca recuava no medo das pessoas. Nga Fefa tinha homem no corpo dela de mulher. (p. 41) Sô Zé pensava por ela ser mulher podia lhe ganhar na luta logo. Se enganou. Eu sou mulher mas você não brincas comigo hen, caloteiro, não tem vergonha - Nga Fefa falou autoridade nas palavras. (p. 40)

Nga Fefa, uhn parece mentira! Nga Fefa agarrou mesmo o ladrão. Com uma aduela tirou-lhe a vontade de correr. (p. 41)

A história centrada nesta personagem feminina, dirige a nossa percepção para um cenário que o colonialismo impõe às sociedades africanas, onde as mulheres se defrontam com a misoginia, o patriarcalismo, a violência e a miséria. Neste contexto, reconhecemos as marcas de ideologias repressoras que objetivamente desejam silenciar o outro, o que fica evidente nos excessos coloniais (fim trágico de Nga Fefa), no espanto da senhora branca ao falar com uma quitandeira que a responde e nas ameaças sofridas pelas mulheres por seus companheiros. Vejam-se os trechos:

Desde então os maridos proibiram as mulheres de andar com Nga Fefa, não fossem aprender os truques. As recomendações traziam ameaças de espancamentos. (p. 41) Receosos de ver Sô Zé apanhar nas fuça, os homem estavam. Era uma mulher.

Vergonha para eles se Nga Fefa ganhava. (p. 40) Nunca tinha ouvido dizer quitandeira falar assim numa senhora. Estava no hábito dela ir no mercado e entrar na discussão do preço, altivamente. Com o criado lá em casa, com a gente do musseque com quem às vezes falava, comportamento único. Tempo ainda colonial. Pensou que a quitandeira estivesse maluca. (p. 42)

Os polícias vinham acompanhados da senhora triunfante, apontando Nga Fefa: é aquela negra! (...) Chegaram e nem mais que avançaram saber como é que a maka foi. Começaram só no castigo da quitandeira. Nga Fefa ainda deu uma paulada na cabeça dum chui. Aqui é que a luta de verdade começou. A senhora no estimulamento da fúria colonial: dêem-lhe mais! Força! (p. 43)

Nestas passagens, o oprimido é submetido à violência e transformado em um sujeito submisso e subserviente, a tentativa de silenciamento é efetivada.

No plano da forma, a presença de palavras em kimbundo na abertura do conto é significativa, fazendo uma clara referência ao lugar de onde a história vem e à voz silenciada dos oprimidos. Outras palavras na linguagem kimbundo e marcas de oralidade estão presentes no conto e também funcionam como ecos da voz subversiva dos colonizados.

A linguagem aparece no conto como forma de subversão e será o meio pelo qual os personagens liberam o seu ódio pelo colonizador. A linguagem é o que separa as duas culturas. Palavrosamente as quitandeiras caçoavam a mulher da Baixa, desaparecendo.

Nos kimbundos delas escondiam toda a fúria contra o colonialismo que não podiam falar na língua da senhora abertamente. Anos de opressão se transformavam em liberdade nas falas kimbundas. (p. 42)

No conto, portanto, Nga Fefa vai simbolizar a resistência do povo africano contra o colonialismo e das mulheres contra o patriarcado. A sua expressão, comportamento e trejeitos retomam as características do musseque, espaço legítimo da classe marginalizada.

No espaço literário, a personagem é um símbolo do movimento de resistência africano. Porém, a sua postura subversiva da ordem imposta pela ideologia dominante vai tornar Nga Fefa uma presença inaceitável dentro da realidade colonial. Segundo Edward Said: "Para o colonizador, a manutenção do aparato incorporador requer um esforço incessante. Para a vítima, o imperialismo oferece duas alternativas: servir ou ser destruída"iii, o que efetivamente acontece no final do conto.

A personagem feminina é a figura de força no conto e através da sua voz é recuperada a fala das mulheres africanas que pretendem questionar a hegemonia do patriarcado.

Nga Fefa no chão e o homem masculinamente vitorioso. Mas, boxeiramente se levantou e lançou as mãos na garganta masculina. (...) Nga Fefa derepentemente baçulou o homem e a vitória dela com Sô Zé no chão. (p. 40) Elas, do lado delas, não queriam também ver Kajinvunda debaixo do corpo musculoso. (...) As mulheres rebentavam gritos e arrogantemente perguntavam onde se escondera a masculinidade. Você? Você não és zohomem mé- dedos na indicação da vítima.(...) Não estava lá mais nenhum homem. Desapareceram. Só as mulheres é que ficaram. (p. 40) As identidades femininas se constroem no conto através das relações entre estas e o mundo opressor ao seu redor, evidenciando níveis diferentes de dominação. Recebe especial atenção no texto, a presença de duas imagens femininas principais e distintas, uma emancipada e desafiadora (representada por Nga Fefa) e outra rancorosa e mais apática (representada pelas quitandeiras do Xamavo). Diferentemente de Nga Fefa, as outras mulheres não dispõem da mesma coragem e força da protagonista. A voz das mulheres da quitanda só aparece aliada à voz principal e contestadora de Nga Fefa, pois estas não se mantêm no questionamento da superioridade branca, o que fica claro nas seguintes passagens: Primeiro umas isoladamente, depois já em grupos notáveis as quitandeiras saíam lentamente da praça tropeçando em caixotes e kindas. Formigas deslizando pareciam. Os polícias vinham acompanhados da senhora triunfante, apontando Nga Fefa: é aquela negra! Medo ainda no princípio, a quitandeira fez coragem depois. Olhou à volta. Ninguém não estava. (p. 42)

Na narrativa, é importante também o papel que a sonoridade ocupa. Várias vozes poderão ser ouvidas, ao longo do conto. Podemos "ouvir" os gritos na confusão durante o roubo, os incentivos durante a briga com Sô Zé, os desabafos contra a opressão, os gritos dos fiscais e da senhora branca. A quitanda Xamavo se torna o lugar privilegiado onde vozes, antes silenciadas, se manifestam e se libertam, inclusive a das outras mulheres que anseiam por liberdade.

Convém ressaltar que o conto revela o sentimento de profundo ódio subjacente à aparente tranqüila convivência entre dominador X dominado no espaço do Xamavo. Ódio este que se libera e, como aponta Franz Fanon, é visto como a única solução para a personagem de obter respeito e de se auto-afirmar neste espaço repressor.

Nga Fefa ainda na socagem do adversário. Tiveram de lhe dizer chega, vontade era muita. (p. 41) Começaram só no castigo da quitandeira. Nga Fefa ainda deu uma paulada na cabeça dum chui. Aqui é que a luta de verdade começou. A senhora no estimulamento da fúria colonial: dêem-lhe mais! Força! Kajinvunda sem força, estendida no vermelho sangue da morte. (p. 43) As relações de gênero e poder que perpassam a história são marcadas pela violência. Há a tentativa de manipular a figura feminina, através da autoridade patriarcal e colonial, porém esta última não é reconhecida pela protagonista. Até o fim, todas as tentativas em moldar e controlar esse sujeito feminino são falhas, porém o fato de a personagem representar um sujeito firme que enfrenta e vence o sistema patriarcal, leva a personagem à morte. A sua morte reafirma a permanência das mulheres nos moldes patriarcais e coloniais e representa a solução do sistema para a sua rebeldia.

Referências bibliográficas:

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CARDOSO, Boaventura. Dizanga dia Muenhu. São Paulo: Ed. Ática, 1985.

MUNANGA, Kabengele. Negritude: Usos e sentidos. São Paulo: Ed. Ática,1985.

SAFFIOTI, Heleieth. Conferência - "O segundo sexo à luz das teorias feministas contemporâneas". In: (Org) MOTTA, Alda Britto de Motta.

O Poder do Macho. São Paulo: Ed. Moderna, 1987.

SAID, Edward W. Cultura e Imperialismo. São Paulo:

Companhia das Letras, 1995.

i MUNANGA, 1988, p. 10.

ii Idem, ibidem, p. 23.

iii SAID, 1995, p. 210.

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