testeira-loja

"Do Apogeu Ao Caos": A Casa Portuguesa em Angola, por Henrique Galvão e Antônio Lobo Antunes.

Escrito por  Jeane de Cássia Nascimento Santos
Classifique este item
(1 Vote)
RESUMO: O artigo em questão estabelece algumas reflexões sobre a casa portuguesa nos romances O velo d'oiro e O Sol dos trópicos, de Henrique Galvão, e O Esplendor de Portugal, de Antônio Lobo Antunes.

RESUMO: O artigo em questão estabelece algumas reflexões sobre a casa portuguesa nos romances O velo d'oiro e O Sol dos trópicos, de Henrique Galvão, e O Esplendor de Portugal, de Antônio Lobo Antunes.

PALAVRAS-CHAVE: Espaço; colonialismo; racismo; violência; retornados.

KEY-WORDS: Space, colonialism, racism, violence, returned ones.

Ao escrever a respeito do advento do romance, na Inglaterra do século XVIII, Watt (1996:49) evidencia que o avanço econômico da burguesia, aliado à disponibilidade para a leitura de romances, provoca um novo direcionamento para a publicação de livros, até então patrocinada pela nobreza. Nesse cenário, surge a figura do editor ou livreiro que, "junto com alguns impressores, possuía ou controlava todos os canais de opinião". Dessa forma, os escritores, interessados em aumentar seus ganhos, passaram a produzir textos bem mais próximos da realidade dos leitores, popularizando, assim, a literatura e tornandoa gradualmente mais acessível à população de modo geral. Outro fator desencadeador para o desenvolvimento do romance, como projeto burguês, será a relevância dada às experiências individuais, fruto na nova organização social, política e econômica ocorrida a partir da Reforma Protestante e da Revolução Industrial. No entanto, não se deve confundir o individualismo defendido pela sociedade moderna com egocentrismos. De acordo com Watt (1996:55), o individualismo moderno

pressupõe toda uma sociedade regida pela idéia de independência intrínseca de cada indivíduo em relação a outros indivíduos e à fidelidade aos modelos de pensamento e conduta do passado designados pelo termo "tradição" - uma força que é sempre social, não individual.

Ou seja, atitudes individuais dependem diretamente da retaguarda afiançada pela sociedade. Na análise de Robinson Crusoe, de Defoe, Watt (1996:61) afirma que

a trajetória de Robinson Crusoe baseia-se mais especificamente em alguns dos incontáveis volumes sobre as explorações daqueles viajantes que, no século XVI, contribuíram muito para o desenvolvimento do capitalismo proporcionando o ouro, os escravos e os produtos tropicais de que dependia a expansão do comércio e continuaram o processo no século XVII desenvolvendo as colônias e os mercados internacionais dos quais dependia o futuro progresso do capitalismo.

Assim, as atitudes individuais do herói e seu conseqüente enriquecimento indicam, a nosso ver, as características peculiares do romance a serviço dos ideais da burguesia, detentora de poder e dinheiro na Europa, resultado da expansão da indústria e do comércio que não conhecerão fronteiras e caminharão para além dos muros europeus, iniciando assim o imperialismo como fora concebido no século XIX.

Said (1995:109) considera a opção pela literatura, característica dos impérios francês e britânico, uma das demonstrações do sucesso da empreitada imperialista européia nos séculos XIX e XX, a ponto de afirmar que o romance, "como artefato cultural da sociedade burguesa, e o imperialismo são inconcebíveis separadamente." Justifica sua conclusão ao relacionar características particulares do romance que favoreceriam sua relação íntima com o sentimento colonial, tais como a contemporaneidade do romance, sua forma literária "mais ocidental" e "seu modelo normativo de autoridade social", assim, "imperialismo e romance se fortaleciam reciprocamente a um tal grau que é impossível, diria eu, ler um sem estar lidando, de alguma maneira, com o outro". Ou seja, desde o século XVIII, o romance demonstra a supremacia sociopolítica e econômica da burguesia sobre os povos colonizados ou classes sociais inferiorizadas. Sendo assim, a íntima relação entre a forma romanesca e o capitalismo resultará numa união harmônica, eficiente e sólida que extrapolará as fronteiras do velho continente, no século XIX, rumo às Américas e às colônias de África e do Oriente.

Quando atentamos particularmente para Portugal e a produção literária colonial desenvolvida após os anos 30, do século XX, deparamo-nos com textos alinhados à ideologia expansionista portuguesa, em que prepondera a imagem de um império unificado por colonizadores imbuídos de singelos sonhos, como bem podemos observar, especificamente nos romances O velo d’oiro (s/d) e O sol dos trópicos (1936), de Henrique Galvão.

Ao compararmos os romances coloniais com O Esplendor de Portugal2, verificamos que Lobo Antunes não rompe com o tema colonialismo, analisa-o, em seu romance, a partir do momento em que o enredo é finalizado nos romances coloniais, ou seja, o autor parte do "felizes para sempre" dos romances coloniais, da "perfeita" adequação do colono português à realidade colonial, estabelecendo, assim, uma continuidade narrativa, intimamente marcada pela ininterrupção do processo colonial.

No entanto, Lobo Antunes, ao contrário de Henrique Galvão, não cria um ambiente caracterizado pela simplicidade estética (Noa,2002:43) e (Ferreira, 1987:13), marca dos romances coloniais alinhados à ideologia salazarista. Em O esplendor de Portugal, o autor enfatiza o auge do colonialismo português, assinalado pela opulência das festas nas fazendas, resultado dos altos lucros obtidos nas plantações em Angola. Continuará a narrativa, observando as primeiras crises enfrentadas pelo Estado Novo em solo angolano, o conseqüente abalo da estrutura colonial e o seu final, com morte da protagonista, Isilda, última representante do colonialismo português.

Nos dois textos coloniais destacados, de Henrique Galvão, observamos a chegada do colonizador, a luta e o prêmio. Já, em O esplendor de Portugal, não encontramos essa relação, pois na realidade, quem trabalha e faz o império crescer é o homem negro, e, se existe algum prêmio, não pertence a ninguém, uma vez que a situação de subalternidade obtida por meio de violência terá como resultado uma guerra de libertação também violenta. Assim, o que sobra para colonizados e colonizadores é o gosto amargo da destruição. O fel ainda perdura e impede a racionalização.

Lobo Antunes, em seu romance, toca numa ferida ainda aberta. A realidade colonial, a Guerra, panos de fundo de seu romance, mostram, em alguns momentos, cenas de verdadeiro terror e violência que são, na realidade, a explosão de 500 anos de atrocidades sofridas pelo povo africano.

A construção da casa portuguesa

Nas duas narrativas coloniais, as personagens Venâncio e Rodrigo, respectivamente protagonistas de O sol dos trópicos e O velo d'oiro, insatisfeitas com sua realidade deslocam-se, buscando algo que não encontram no seu espaço de origem. Transferem seus sonhos e ambições para o local de chegada, Angola, onde se sentem renovadas para tarefas, até então, nem pensadas. Oriundas de uma camada social mediana, trabalhavam na Metrópole em serviços burocráticos, não conheciam, portanto, a rudeza do trabalho com a terra, que, aliás, não conhecerão, pois lá encontram "bons amigos", dispostos a lhes servirem.

O primeiro contato com a África, nos dois romances, não é muito agradável, porém esse detalhe não impedirá as personagens de darem seqüência a seus projetos. Ao contrário, o espaço exercerá um papel crucial em toda narrativa e logo no início dos romances, o contato com a terra portuguesa, em Angola, despertará o "hereditário" espírito "construtor" português. O espaço se transforma à medida que as personagens também se transformam. No início da narrativa, elas não acreditam que vencerão os problemas advindos dessa mudança. Aos poucos, no entanto, percebem que têm uma força interna, própria de vencedores predestinados por uma "herança sagrada" e conseguem domar a "terrível" África.

Como podemos verificar em O sol dos trópicos:

Rompi na direcção que me tentava e, quási de repente, dei com uma velha árvore, varada pelo raio, ainda a arder. Tinha sido esgalhada por um lado e lambiam-na ainda línguas esguias de lume. Em baixo, no chão, arrumadas ao tronco, vermelhavam, por entre cinzas leves e quási brancas, tições afogueados em ninho cinzento de brasas. Senti uma alegria viva e transbordante.

Eu, ou homem que trouxera em mim, obcecadamente, a idéia de morrer e a quem a desgraça tinha varado como punhal implacável homem que se despenhara de altas ambições não alcançadas e que era infeliz porque muito desejara - senti-me alagado de ventura por encontrar meia dúzia de tições incandescentes, donde podia tirar lume e calor. (p. 119-120)

Ou ainda em O velo d'oiro:

Ninguém me poderia fazer crer, nesse momento desolado, que a África era, como eu tinha julgado e vim a verificar depois, hospitaleira, boa generosa, e que ainda por lá havia de encontrar sem santa paz, a fisionomia e o coração da minha terra. (p. 16)

Para Bachelard (2000), essa transformação ocorre a partir do momento em que chegam a uma imensidão desconhecida, ou conhecida só de se ouvir falar, e, aos poucos, o espaço casa se estabelece. O colonizador, responsável pela construção do império em África, edifica a "casa portuguesa" transferindo todos seus valores, consciente que "faz a história e sabe que a faz. E porque se refere constantemente à história de sua metrópole, indica de modo claro que ele é aqui um prolongamento dessa metrópole. (...)." (FANON, 1968:38).

Os protagonistas destes romances adaptam-se primeiramente ao clima, às pessoas, ao modo de vida. Quando se sentem seguros, começam a construção da "casa", edificada sobre valorosos pilares: o patriotismo e o casamento, com uma mulher portuguesa apresentada, em ambos os romances, como uma pessoa sofrida com abandono familiar, abuso e doenças, que em vez de fragilizá-la, tornam-na forte e preparada a ajudar seu marido nessa missão.

Observamos assim, o processo de adequação que culmina com a construção da casa, no caso a "casa portuguesa", construída por um povo viril, porém adaptável. Ao processo de adequação sucede-se o de posse: "A acolhida da casa é tão forte que o que se vê da janela pertence à casa" (Bachelard 2000:79). Em O velo d’oiro:

Dois anos depois, instalado já na minha Fazenda, para as bandas do Jau,

nasceu o primeiro filho.

E, quando, por altura das ceifas, certa manhã assomei à janela do meu

quarto mais a minha mulher, estava a seara tão doirada e linda e sol tão

meigo, que a Estela exclamou:

- Parece, oiro, Rodrigo. Que beleza!

E eu voltei:

É oiro, meu amor! (p.272)

Ou ainda em O sol dos trópicos:

A agricultura, a caça, os amanhos todos os dias acrescentava à minha cabana - e por vezes longas conferências com negros que me procuravam, para os tratar ou para me pedirem conselho - enchiam-me todo o dia (...) até ao luzir do sol. (p.230)

Criara um mundo meu, com o meu esforço, a boa fibra que na terra se criara e que para a terra se voltava - e o que desejava era aperfeiçoar esse mundo, nutrir o orgulho exigente das minhas criações, lutar de igual para igual com as dificuldades naturais. (p.311)

E também a casa cresceu. E ao lado dela outra casa - e em frenteum silo, um pouco mais arredada um eira. (p.315)

E o povoado cresceu, cresceu a olhos vistos. (p.316)

Assim, nos romances a figura da janela ou os arredores da "casa portuguesa" simbolizam a abertura para a apropriação, ou seja, tudo aquilo que se vê a partir da "casa" é da personagem. E a representação da janela, que pode ser a da casa, do castelo ou do barco, metaforicamente, são os olhos da cobiça. Entendemos que a casa portuguesa é tão gulosa como a casa citada por Barchelard (2000:70), "mas como uma criança gulosa, tem os olhos maiores que a barriga".

O processo de desconstrução da casa portuguesa Ao compararmos as narrativas coloniais ao romance O esplendor de Portugal, de António Lobo Antunes, observamos a casa portuguesa, aos poucos, sendo destruída, como se uma linha contínua ligasse os três romances. Os lares estabelecidos nos romances coloniais regados de amor, amizade e companheirismo, serão substituídos pelo seu contrário, em que infelicidade, vícios e desrespeito demonstram o processo de desconstrução, desmoronamento da casa portuguesa que, também, pode ser estendido ao império colonial.

Eunice e Eduardo, pais da protagonista, Isilda, vivem um casamento de mentira. Ele, com suas amantes e totalmente adaptado à vida na colônia, não pensa em nenhum momento em retornar à Metrópole. Aconselha inclusive à filha a nunca deixar a colônia, pois para ele os retornados, caso voltassem, seriam classificados como cidadãos de segunda categoria. Já sua mulher, além de suportar suas aventuras amorosas, deixa bem claro sua inadaptação e o sonho de retorno.

Na infância, Isilda recebe todos os mimos de menina branca. No entanto, com a permissão do pai, convive com crianças negras. Assim, brincava suas brincadeiras, comia suas comidas, observava sua cultura. No auge do imperialismo português em Angola, a família de colonos também conhece o poder e a riqueza advinda dos lucros da plantação de girassol, algodão, arroz, tabaco e da mão-de-obra barata dos negros, obrigados a cumprir contratos que mais os aproximavam de escravos. Essa realidade de riqueza e soberba também é vivenciada por outros colonos que, na ausência de lugares para mostrarem a opulência de suas conquistas, convidam e são convidados para festas nas empoeiradas fazendas, onde se comportam como os ricos da Metrópole:

... o meu pai com aquela expressão que não era um sorriso, masparecia um sorriso. - Vês como te fica bem Isilda? Barbeava-se e vestia terno e gravata para jantar na fazenda sob as centenas de lâmpadas do lustre refletida nos talheres e nos pratos, a minha mãe chiquíssima, eu de laço à cintura, e, lá fora, em lugar de uma cidade, Londres, por exemplo, o restolho do algodão, o cheiro da terra entrava pelas janelas abertas de vento a palpitar nas cortinas, o Damião avançava com a sopa numa majestade rei mago, senhoras decotadas de unhas escarlates, sobrancelhas substituídas por uma curva de lápis, que lhes arrumava as feições numa careta de espanto, colocavam-me uma almofada no assento para ficar mais alta e, as sobrancelhas, para mim, em vozinhas de papel de seda. - Que crescida meu Deus! Cavalheiros de smoking fumavam charuto, as luzes apagadas para a sobremesa, atritos de pulseiras, saquitos de vidrilhos, saltos que bicavam o soalho numa pressa de cristal, pernas cruzadas nos sofás, uma mesa de bridge, meu pai distribuindo conhaques e licores com aquela expressão que não era um sorriso mas parecia um sorriso, beijos que me deixavam atordoada de essências, os carros a partirem um a um acendendo o girassol, o algodão, as árvores ao longe e as cubatas, os ombros das senhoras nas escadas, cobertos por uma transparência de xales como se houvesse frio no interior do calor, a minha mãe para o meu pai, entre dentes. (Antunes 1999:26-27)

No fragmento acima observamos uma das muitas lembranças de Isilda e destacamos a opulência do espaço interno da casa que "sob as centenas de lâmpadas do lustre refletidas nos talheres e nos pratos", somado à elegância de Isilda, contrastam com o espaço real de uma fazenda, não de uma grande cidade como chega a imaginar a narradora.

A artificialidade, fio condutor das relações e dos hábitos, é preponderante: Damião, "rei mago", presenteia os convidados com sopa, possivelmente quente. Isilda, uma menina, é promovida ao meio adulto, ajudada por uma almofada. As roupas e jóias dos anfitriões são dignas de uma recepção real. Hipocrisia nos sorrisos e nos beijos. Xales para proteger a frieza dos relacionamentos. Um momento de glória para a menina Isilda. No entanto, a narradora Isilda, numa leitura irônica do período, demonstra o descontentamento de todos ali, cumprindo rituais jamais sonhados se estivessem na Metrópole, como brancos de segunda.

Em relação à deterioração dos espaços sociais na colônia, tomamos como ponto de partida, as lembranças de Isilda, desde a infância feliz, na fazenda, situada na Baixa do Cassanje, até sua morte, em Luanda. Chama-nos atenção também o processo de desocupação colonial visualizada na viagem feita por Isilda: ela sai do interior angolano em direção à Luanda "cidade dos defuntos" (Antunes, 1999:316), num caminho contrário aos dos colonizadores, principalmente os protagonistas dos romances coloniais.

Dessa forma, a casa colonial portuguesa, localizada numa fazenda altamente produtiva, aos poucos vai se degradando. Isilda, entretanto, ao descrever esse processo de desgaste, ao mesmo tempo, insiste em relembrar os bons tempos da casa da colonial, numa tentativa de viver apoiada na grandiosidade de suas memórias de colonizadora, demonstrando completa rejeição às mudanças impostas pela derrocada do Império.

Isilda insiste em reviver o glorioso passado, simbolizado pela fazenda e pela casa. Não aceita a realidade que aos poucos vai se descortinando. O espaço-casa e o espaço-fazenda aparecem associados ao tempo da infância feliz, como também ao tempo de uma felicidade não tão grande, porém, estáveis, representados pelo casamento e pelo nascimento dos filhos, amalgamam-se (Bakhtin 2002:211), provocando o desejo de inalterabilidade, de solidez e, conseqüentemente, de permanência no espaço colonial.

Em relação à deterioração familiar, Isilda contraria o sonho do pai de vê-la casada com um rapaz rico e comprometido com o imperialismo e seus lucros. Casa-se com Amadeu, português da Metrópole, agrônomo contratado por uma empresa prestadora de serviços em Angola, a Cotonang. Ele não traz nenhuma glória antepassada e possivelmente fora obrigado a deslocar-se para a colônia, por não encontrar na Metrópole condições de manter-se empregado. Após o casamento, Amadeu não assume a responsabilidade pela administração da fazenda, torna-se um alcoólatra e passa a representar uma das vergonhas da família.

Os filhos desse casamento são Carlos, Clarisse e Rui. Carlos, filho de Amadeu com uma negra, cozinheira da empresa na qual trabalhavam, fora comprado por Isilda por ser totalmente branco. Clarisse é uma menina extremamente paparicada pelo pai, que estabelecerá com a filha uma relação bastante ambígua, principalmente na adolescência e na juventude. Rui, epilético, causa muitos transtornos à família. Um deles é o alcoolismo de seu pai, inconformado com os ataques do filho.

Carlos, o mais velho, mestiço, rejeitado pelos pais e pela avó, só se sente bem e acolhido na cozinha junto de Maria da Boa Morte, criada da casa que, também, o trata de forma diferenciada em relação a seus irmãos. Ela não o trata por "menino" como a seus irmãos, trata-o por "tu", demonstrando assim a igualdade existente entre eles. Na escola, Carlos conhece Lena, menina moradora do Musseque com quem mais tarde vem a se casar, com a autorização da mãe que não esperava nada "melhor" para ele.

Rui e Clarisse vivem a realidade de filhos brancos da colônia. Ele, por conta da doença, tem suas vontades prontamente atendidas, sendo capaz também de várias maldades, principalmente com os negros, seus alvos preferidos na brincadeira com espingarda de chumbinho. Ela, desde pequena, segundo a mãe, é precoce, inclusive em relação ao sexo, restando-lhe mais tarde a condição de prostituta não só em Angola, como também em Lisboa, onde terá vários amantes, todos eles pertencentes à alta sociedade lisboeta.

Como podemos perceber, a degradação do espaço e a degradação familiar caminham juntas ora em terras africanas, ora em Lisboa, onde, após a independência de Angola, os filhos de Isilda passarão a morar. Lá, eles residirão num pequeno apartamento comprado no bairro da Ajuda, tempos antes, e, colocado em nome de Carlos, o mais velho.

Após três anos em Lisboa, Carlos, detentor do poder familiar, interna Rui num sanatório e expulsa Clarisse do apartamento. Notamos aí, uma movimentação inversa, Carlos, em Angola, não tinha voz ativa diante dos irmãos e mãe.

Era ridicularizado por todos. Sofreu durante toda a vida como uma das vergonhas da família. Já, em Portugal, as posições se invertem. Num espaço seu, numa terra que não é sua, ele exerce o poder e usa-o da forma que quer. Como se assim fosse possível esquecer, apagar seu passado.

Ainda em relação a Carlos, Clarisse e Rui, observamos, no decorrer do romance, a não adequação espacial a nenhuma das terras. Desta forma, a saída dos "desterrados" de Angola que partem de uma pátria inexistente para Portugal, uma pátria que nunca existiu, personifica a derrota da colonização e a vergonha representada pelos milhares de retornados, não mais considerados portugueses, apenas, portugueses de segunda e seus cheiros de África já impregnados devido ao tempo e aos costumes, que muitos diziam não ter, porém guardavam-nos com extrema saudade.

A saudade dos retornados não se configura apenas ao fato de terem se adequado ao espaço angolano, estende-se também aos benefícios que jamais teriam novamente. A condição social, agora, é pior do que aquela vivenciada pelos dos colonos de Henrique Galvão, quando eles saíram em direção a Angola, nos anos 30. Sem falar ainda na inadaptação, pelos menos para a geração desses retornados dos anos 70, representados no romance por Carlos, Clarisse e Rui, que mesmo após vinte anos em terras lusitanas mantêm suas lembranças em Angola, na fazenda, na casa. Quanto ao espaço, em Portugal, mostramse completamente sem rumo, sem pátria, sem casa, com a identidade perdida, ou melhor, aprisionada nas memórias de cada um, em terras africanas.

Referências Bibliográficas

ANTUNES, António Lobo. O Esplendor de Portugal. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de estética: a teoria do romance.

São Paulo: Hicitec, 2002.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1968.

FERREIRA. Manuel. Literaturas africanas de expressão portuguesa. São Paulo: Ática, 1987.

GALVÃO, Henrique M. O velo d'oiro. Lisboa: Livraria Popular. s/d.

O sol dos trópicos. Lisboa: Empresa do Anuário Comercial, 1936.

NOA, Francisco. Império, mito e miopia - Moçambique como invenção literária. Lisboa: Caminho, 2002.

SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SEIXO, Maria Alzira.Os Romances de António Lobo Antunes: análise, interpretação, resumos e guiões de leitura. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

WATT, Ian. A ascensão do romance. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

Notas

1. Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. Universidadede são Paulo (USP). Título da tese: Descaminhos da narrativa portuguesa: estudos dos romances O sol dos trópicos e O velo d'oiro, de Henrique Galvão e O Esplendor de Portugal, de Antônio Lobo Antunes. E-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

2. Nos anos 70 e 80, pós-independência das colônias portuguesas, observamos que o tema colonialismo é recorrente, não só na obra antuniana, como também em boa parte dos romances escritos nesse período. Não quer dizer, no entanto, que mesmo retomando a questão temática dos anos 30, esses romances pós- coloniais se alinham à ideologia salazarista.

Ler 5937 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips