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O Mito e a Poesia em Rostos de Kianda

Escrito por  José Francisco João
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Ted Roberts

 

 

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1.Introdução

Zé Coimbra depois da sua "proposta para o universo da poesia "em Diálogos às Raízes" de 1995, retomou o fôlego e presenteou Luanda com um conjunto de textos literários - distinguidos, aliás, com o Menção Honrosa do Concurso de Poesia" Cidade de Luanda "organizado pelo Governo da província de Luanda através da então Delegação Provincial da Cultura no finado ano de 1998 - onde equilibra a humanização e a antropormifisação da Kianda - um mito local.

Mencione-se que os vinte e oito poemas que compõem o livro manifestam unidade ideo-estética e permitem interpretações várias, variadas, diferentes, que confirmam - desta maneira - a modernidade da poesia que está escrita neste livro só editado - 30 exemplares, já esgotados - no ano de 2008 em edição do autor patrocinada pela Gráfica Popular de Luanda, apresentada ao público às 19 horas do dia 21 de Agosto no Centro de Formação de Jornalistas, CEFOJOR, em Luanda.

O livro distinguido não apresenta uma segmentação em partes mas a temática é distribuída harmoniosamente pretendendo-se com cada poema cantar um matiz, um aspecto, uma carícia, um desgosto, um encanto, para confirmar, definir, esclarecer, completar, aclimatar, a pintura lírica da Kianda.

2.Alguns elementos de análise estético-literária A humanização e a antropormifisação de um mito eram já feitas por Gregos e Romanos, respectivamente, há muitos anos atrás. Parece assim não haver novidade alguma. Todavia a diferença reside na lírica densa, no poema curto, no verso prenhe de ambiguidade, métrica regular, aliteração gramatical e metáfora. A págs. 11. ardentemente⁄ardem⁄os grãos⁄. Iguais a flores⁄florindo lábios⁄de instante⁄as estâncias de Luanda⁄ A págs. 13. Há concerteza, neste canto a Luanda motivos novos que vestem o verso de razões novas para confirmar os momentos de poesia moderna.

Se as razões para emergir uma análise estilística desta poesia não faltam pode-se afirmar que do ponto de vista da Sociologia da Literatura há indiscutivelmente a presença do canto ao pescador, à pesca, à quitanda, ao universo resultante da quitanda, do bairro pobre ou musseque, da vida urbana, da vida suburbana, do mar e da sereia. A partir daqui o verso verte os odores que visitam a praia, o ócio, a diversão que resultam necessário e útil em consequência da fuligem das fábricas repletas de suor de homens e mulheres úteis, dignos, honrados, a cantar todos os dias os cânticos da colmeia e da abelha.Vide a págs.28. de Luanda a baía chupa⁄as uretras das chaminés⁄enquanto de Luanda⁄quando a marginal⁄geme o meio-o dia.

2.1. O mito como texto lírico

A sereia veste também as saias da penumbra. É noite.. É madrugada. É dia. É homem. É mulher. É o encanto. É a dor e a alegria. Assim o mito é humanizado. Tem sentimentos. Tem sensibilidade mas não é senilidade. sobre a crista⁄de uma vaga onda⁄vagueava⁄um silêncio prenhe⁄era o léxico todo de Kianda⁄colhia os rumores⁄embriagados⁄de Luanda andando⁄andando sobre a voz⁄silenciosa da onda⁄a págs. 15. Il y a ansi relation entre cês faits et le sens ésoterique que le mythe a pour but reveler LUBICZ ₍1961₎: l'Écriture, la stuatuaire et les bas reliefs deviennent, comme aux Indes, par exemple, symboles d'une genèse où les faits historiques ne servent que de prétexte, comme le confirment l'affabulation evidente de cês récits, leur non–sens dans les temps et l'espace ₍les lieux geographiques₎, etc.

Se os Gregos e os Romanos são referidos quando se trata de abordar o mito, a referência não ficaria completa sem a menção à existência de textos mitológicos no Egipto Antigo, ou seja no Egipto dos Faraós e da pirâmides, LUBICZ ₍1961₎ afirma que le mythe dont nous avons à parler ici n'est past une fiction mais une ecriture hiéroglyphique faite de fnctions et d'asbractions anthroporphisées. C'est une écriture, car le mythe doit être lu comme un ideogramme, dans la langue et la comprehension proper à chaque lecteur. Cette écriture est hiéroglyphique puisqu'elle ne traite que dês príncipes divins et sacrés dans la Nature, c'est-a-dire de fonctions dans leur signification universelle et d'abstractions qui exigent des symbols pour être exprimées.

Assim mesmo, a poesia, esta poesia de Zé Coimbra não é a negação à afirmação africana do seu iniverso poético. Apesar das frestras continua a povoar a sua sensibilidade das luzes do Sol e do Luar que enchem os céus e as noites de Luanda africana, angolana, que resistiu e conforma-se com a africanidade . A puita pare a brisa/a brisa ximbica a bimba/da Ilha do Cabo ao Mussulo/o dongo colhe o suor de pescados/a quitanda floresce o regaço/quando a puita pare a brisa/a págs. 18. Os versos 1 e 2 são uma manifestação clara, evidente, indiscutível, de um esforço de redistribuição da língua. Há pois um evidente reconhecimento dos pressupostos do estruturalismo linguístico que se consome e consuma-se no plano sintagmático: A puita pare a brisa/a brisa ximbica a bimba/ a págs. 18. No plano paradigmático o leitor poderá certamente experimentar a sensação do vento a empurrar uma embarcação de pesca, de recreio, etc. para um ponto que não seja aquele em que a âncora diz a sua voz-mor. E o mar estaria certamente a dizer aulas de colheita ao ardor de pescador, da procura de peixe da quitanda, das quitandas, da oferta de peixe de uma, duas, várias embarcações ou ainda do mar pacífico transportado à mesa de bar, de casal, de solteiro ou viúvo: de todos os consumidores de peixe de mar. A redistribuição da língua é portanto a verificação de que a performance linguística do falante que escreve o texto apropria-se da fala comum, da fala em língua Kimbundu, da fala em língua portuguesa, e devolve ao destinatário do texto um discurso original eivado de um casamento feliz entre as duas línguas que poderiam representar um léxico autêntico, construído, apropriado, por bantus falantes de líingua portuguesa. A comunicação poderia entretanto subverter a arte poética mas não se trata aqui de navegar em busca de um refúgio, paz e pão. Trata-se de percorrer léguas de cansaço em lavra própria, em terreno próprio, de maneira a saciar a fome de cada dia e construir assim significantes próprios sem a pretensão da usura acima da partilha. E assim a língua reproduz–se, redistribui-se, encanta, diverte, sem deixar de cumprir a função essencial de ligar emissor a receptor. Noam Chonski pode assim não ser uma quimera.O mito persiste agora como a personificação do objecto nominal, a brisa, enquanto que o objecto verbal, ximbica, é um neologismo a dizer rema_forma do verbo remar no presente do indicativo na terceira pessoa do singular - a bimba, a canoa, embarcação, etc. Há smplesmente a dimensão da progressão se isto não significar progresso. É que progresso segundo LUBICZ₍1961₎ signifie, par definition, l'élargissement dês cadres admis.

3.Conclusões

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Apesar de não haver aqui qualquer referência, citação, a Ferdinand de Saussure parece razoável afirmar que não se pode excluir o símbolo. Portanto Luanda não tem nada a perder porque o poeta é malanjino e a obra poderia mesmo assim ser simbolista. O mar não tem apenas Luanda. É o litoral e é muito mais. Sendo assim é a parte pelo todo. Rostos de Kianda tem vinte e oito poemas diferentes sendo que cada um distingue-se do outro pelo título. Há uma polifonia. Há uma hierarquia. Se referida à sociedade humana dir-se-ia que os títulos distinguem as pessoas numa repartição pública, numa organização, no Estado, enfim. Emanam de regras baseadas em valores comungados por cada uma e por todas as colectividades que regradas se harmonizam no espaço público e no espaço privado. Surge assim a coesão social só estigmatizada, violada pela anarquia ou pela desordem. A ordem é pois a aceitação das regras e da hierarquia _ a negação da anomia _ e os títulos académicos e/ou profissionais deveriam ser usados no espaço público, na correspondência pública por respeito aos padrões, às normas, aos valores pois quando a anarquia se instala, a anomia espalha–se e grassa a desfuncionalidade do espaço público e privado pois neste último pai não é igual à mãe nem ao empregado apesar de todos eles serem são e importantes.

Notai na simplicidade de Zé Coimbra o mito tem chaminés, que são mais do que cozinhas onde as domésticas fazem os seus preparados para deleitar os seus amores. São também sinais de mudança técnica, modernização, crescimento económico e aumento de bem-estar social. Para uns, para cada qual e para todos pois o mito redistribui-se pelo território, pelos seus habitantes - autóctones e estrangeiros contempla a dimensão do invisível, da abstracção que comungada por todos os torna em distintos mas únicos: a nacionalidade.

Referências

LUBICZ, R.A. Schwaller de _ Le Roi de la Théocratie Pharaonique.Paris:Flammarion.1961.

JOÃO, José Francisco - Diálogo às Raízes.Luanda: José Francisco João.1995

JOÃO, José Francisco - Rostos de Kianda.Luanda: José Francisco João.2008.

Luanda, 15 de Outubro de 2008

José Francisco João

Engenheiro Agrónomo

Mestre em Economia Agrária e Sociologia Rural

Doutorando em Engenharia Agronómica

Poeta e Novelista

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