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«Qualidade Narrativa em "Uma Bóia na Tormenta", Contos de Rodereick Nehone» Destaque

Escrito por  Larissa Helena Santos Gomes
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Misto. Foi a palavra que encontrei para descrever o que achei deste livro de contos. Tenho certeza que outros adjetivos, mais austeros e sublimes fariam talvez melhor jus à qualidade da narrativa que acabo de ler neste momento (apenas um dia após ter posto minhas mãos no livro, que recebi junto com o material de um Seminário).

Misto. Foi a palavra que encontrei para descrever o que achei deste livro de contos. Tenho certeza que outros adjetivos, mais austeros e sublimes fariam talvez melhor jus à qualidade da narrativa que acabo de ler neste momento (apenas um dia após ter posto minhas mãos no livro, que recebi junto com o material de um Seminário).

Acontece que é só no que eu consigo pensar. Este livro é misto, e esta sua característica foi o que fez com que eu o lesse quase ininterruptamente, apesar da minha descrença quanto à sua qualidade (devo confessar que nós brasileiros acreditamos que devemos aceitar tudo que é de graça, mas que, se for de graça, não pode ser bom!). Mas li o primeiro conto. Apaixonei-me. Corri pelos outros numa velocidade admirável, ignorando os textos acadêmicos sobre os quais deveria estar me debruçando no lugar deste, e acabo de chegar ao fim, com um belo sorriso no rosto e o alívio de um dever cumprido. Segue-se a este o novo dever, de escrever a resenha implicitamente prometida - promessa feita quando pousei os olhos na primeira frase da primeira página. Não sei se vão chamar isto de resenha. Mesmo assim, não me alongo mais em subjetividades. Vão aqui as impressões.

Fiquei de explicar por que misto. Falo dele assim porque coexistem ali histórias sociais, histórias fantásticas, histórias metafóricas, histórias humanas. Entremeadas umas nas outras, cada qual nos fazendo ressaltar uma pontinha de cada um destes aspectos. Num tom deliciosamente digressivo e natural, que contrasta com seus diálogos extremamente poéticos e firmes, li nestas páginas o que podemos chamar de Angolanidade Universal. É o que o título passou a representar para mim.

Confesso que, por meu gosto e formações próprias, tenho uma predileção especial pelas narrativas que beiram o fantástico, com o caso da primeira história, Catrapus!, que engana os leitores com uma perspectiva de final óbvio, trazendo uma surpresa - logo depois quebrada por uma segunda surpresa, que creio ser melhor não explicitar, quem ler que venha entender o que disse.

No mesmo sentido caminham as histórias Luanda a Duas Velocidades e O malefício, esta segunda com uma mistura perfeita da ficção de Asimov e uma percepção social aguçadíssima. A primeira, uma solução bem-humorada pra um problema enfrentado por todas as metrópoles atuais, que deixa o leitor suspenso entre a realidade e a fantasia, devido aos pólos do anúncio: ao mesmo tempo que é feito pelo prefeito, uma figura oficial, é marcado para o primeiro de abril, um dia oficial da fantasia.

As histórias de Jangolê já têm um tom bem outro. Elas trazem uma figura que vira signo marcado de consciência social e nacional para o leitor. Man Jangas inspira simpatia, e traz reflexão. É o que chamei de aspecto humano.

As outras histórias, que se destacam por seu caráter social e crítico da sociedade, não deixam de ser entremeadas de tantos e tão ricos recursos narrativos que é difícil definir, afinal, qual sua característica mais marcante.

Decido então, que a característica mais marcante é a atração do leitor para o livro. Mais que o fantástico, que o social, que o humano, que a mistura e a utilização dos elementos diversos na construção do texto, eu tenho a certeza de poder afirmar que este livro conquista o leitor não só para a leitura, mas também para a reflexão. Então acho que vou mudar meu adjetivo, não uso mais misto, mas sim, instigante.

Larissa Helena Santos Gomes

Rio de Janeiro, 23 de setembro de 2008

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