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Ensinar a Sonhar: O Insólito nas Páginas Fantásticas da Terra Sonâmbula, de Mia Couto Destaque

Escrito por  Ana Maria Abrahão dos Santos Oliveira
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No interior do gênero fantástico, é verossímil a

ocorrência de reações

"fantásticas".Todorov

O escritor é um construtor de mundos inventados. Mia Couto

 

O escritor moçambicano Mia Couto, para representar em sua ficção, a dor, a miséria e as conseqüências traumáticas da guerra civil, que se seguiu à anticolonial e que atropelaram o povo de seu país, tece a narrativa de Terra sonâmbula(1992), utilizando elementos que se aproximam do realismo fantástico e do maravilhoso e fazendo uma literatura de cunho engajado histórica e socialmente. Numa entrevista a Nelson Saúte, Mia Couto fala a respeito do que pensa ser a missão de um escritor em seu país:

O escritor moçambicano tem uma terrível responsabilidade: perante todo o horror da violência, da desumanização, ele foi testemunha dos demônios que os preceitos morais contêm em circunstâncias normais. Ele foi sujeito de uma viagem irrepetível pelos obscuros e telúricos subsolos da humanidade. Onde outros perderam a humanidade, ele deve ser um construtor da esperança. Se não for capaz disso, de pouco valeu essa visão do caos, esse Apocalipse que Moçambique viveu. (apud SECCO: 1999, p. 114)

Na literatura hispano-americana, foram cunhadas as denominações "realismo fantástico" e "realismo maravilhoso". Nas palavras de Bella Jozef,

(...) a literatura contemporânea abandona a visão realista e a descrição direta do mundo declina. A ficção das últimas décadas se afasta da representação direta da realidade primeira e dá preferência à criação de um mundo mágico e simbólico, metáfora do mundo real. Cria-se um cenário de dimensões transcendentais, explorando o reino do subjetivo e do maravilhoso. (JOZEF: 2006, p. 181)

A expressão "realismo animista" para referir-se à arte africana, foi sugerida inicialmente em Angola para definir uma estética mais apropriada às suas narrativas. O escritor angolano Pepetela é que enfatizou a importância de destacar essa expressão, num de seus romances, Lueji (1989).

- Aqui não estamos a fazer país nenhum - disse Lu. - A arte não tem que o fazer, apenas reflecti-lo.

- Eu queria é fustigar os dogmas

- Eu sei, Jaime. Por isso te inscreves na corrente do realismo animista...

- É. O azar é que não crio nada para exemplificar. E ainda não apareceu nenhum cérebro para teorizar a corrente. Só existe o nome e a realidade da coisa. Mas este bailado todo é realismo animista, duma ponta à outra. Esperemos que os críticos o reconheçam.

(...) O Jaime diz a única estética que nos serve é a do realismo animista, explicou Lu. Como houve o realismo e o neo, o realismo socialista e o fantástico, e outros realismos por aí.

(...) isto que andamos a fazer é sem dúvida alguma. se triunfamos é graças ao amuleto que a Lu tem no pescoço. (Pepetela, 1997 apud SECCO: 2007, p. 2) grifo nosso

O escritor português Henrique Abranches, que foi para Angola logo após a Segunda Guerra Mundial, ao ser perguntado sobre os Omakissi (monstros da mitologia tradicional que comem pastores, que atacam as pessoas etc e que aparecem em sua obra), se seria o caso de referir-se ao realismo mágico, refutou:

- Eu acho que não está certo. Não é mágico. Mágico tem outras conotações. No cinema e na literatura americana, o mágico é uma pessoa que faz um gesto e outra pessoa aparece com um chapéu alto.

Quem deu o melhor nome foi Pepetela. Ele chamou a isso uma vez.Disseque eu havia inventado o realismo animista.É claro que não se pode fazer declarações assim sem uma estudo mais sério. (...) O que eu faço muitas vezes são estórias à roda de um realismo animista, que é um realismo que anima a natureza. Que, na realidade tradicional, são qualidades animistas. Não são mágicas. Aquilo está baseado em antepassados e em poderes que existem na natureza. (apud SARAIVA: 2007, p. 5)

Na ficção de Mia Couto, como nos autores mencionados, predomina a valorização da cultura tradicional africana. A presença acentuada do imaginário ancestral direciona as narrativas para o insólito. Os elementos fantásticos presentes no texto e oriundos das cosmogonias africanas, são os traços essenciais no confronto entre a tradição e o mundo atual e atuam aqui como sustentáculo para que se dê a resistência da população assolada pela guerra. A narrativa de Terra sonâmbula inicia-se com o velho Tuahir e o menino Muidinga abrigando-se num ônibus incendiado. O garoto, que fora encontrado num campo de refugiados, quer achar seus pais e isso é apresentado como justificativa da viagem, entretanto, a verdade é que eles "fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a terra. Vão na ilusão de, mais além, haver um refúgio tranqüilo." (COUTO: 2007, p. 09). Deparam-se com muitos corpos carbonizados. Quando vão enterrá-los, encontram um corpo estendido na estrada e junto desse, uma mala em que há umasérie de cadernos que contam a história de Kindzu, o morto que ali estava. A partir desse ponto, duas histórias histórias são narradas paralelamente: a viagem do velho Tuahir e do menino Muidinga, em onze capítulos e o percurso de Kindzu (história narrada em onze cadernos), que procura os naparamas (guerreiros abençoados pelos feiticeiros e que combatiam os "fazedores de guerra") e Gaspar, o filho de Farida, mulher por quem o jovem se apaixonou.

Em Terra sonâmbula, as histórias contadas ou vividas pelos personagens representam a dor do povo moçambicano, atropelado por duas guerras seguidas, além de ser atingido por enchentes e também longos períodos de estiagem. "A miséria era o novo patrão para quem trabalhávamos" (p. 17) Nesse panorama desolador, sonhar é buscar refúgio para o sofrimento, é buscar esperança onde não há pistas que levem a ela, é ter a coragem de ousar buscar caminhos para suportar o tormento que parece não ter fim. A certa altura da narrativa, já no fim, no décimo caderno de Kindzu, o fantasma de seu pai, Taímo, lhe pergunta por que escreve:

- O que andas a fazer com um caderno, escreves o quê?

- Nem sei, pai. Escrevo conforme vou sonhando.

- E alguém vai ler isso?

- Talvez.

- É bom assim: ensina alguém a sonhar.

- Mas pai, o que passa com esta nossa terra?

- Você não sabe, filho. Mas enquanto os homens dormem, a terra anda a procurar.

- A procurar o quê, pai?

- É que a vida não gosta sofrer. A terra anda a procurar dentro de cada pessoa, anda juntar os sonhos. Sim, faz conta ela é uma costureira de sonhos. (p. 182) grifo nosso

Assim, o sonho é sinônimo de fé de que ainda há esperança, o que também é mostrado em uma das falas do velho Tuahir. "O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonha, a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro. (p. 05) Muidinga acompanha Tuahir desde quando aquele ia ser enterrado vivo, por engano, depois de contrair uma doença que o deixou sem memória. Os dois juntos não têm outro caminho, a não ser o sonho, para que possam enfrentar as adversidades com as quais se deparam. Há na narrativa uma valorização da pessoa idosa, dado presente na cultura africana: o velho Tuahir, que salva o menino da morte; Taímo, pai de Kindzu, que representa a sabedoria, aqui retratada com os olhar dos povos antigos - sabedoria que está em sintonia com os antepassados. Taímo era um velho contador de histórias que também fazia previsões. É com saudade que Kindzu fala de sua infância:

Nesses anos ainda tudo tinha sentido:a razão deste mundo estava num outro mundo inexplicável. Os mais velhos faziam ponte entre esses dois mundos. Recordo meu pai nos chamar um dia. Parecia mais uma dessas reuniões em que ele lembrava as cores e os tamanhos de seus sonhos. Mas não. Dessa vez, o velho e gravatara, fato e sapato com sola. (...) Anunciava um facto: a Independência do país. (p.16)

As pessoas idosas têm como uma de suas atribuições, contar histórias e transmitir, através delas, sua sabedoria e experiência aos jovens; entretanto, em Terra sonâmbula,há uma inversão de papéis: é o menino Muidinga que conta as histórias que lê nos cadernos de Kindzu para Tuahir.

Este, por sua vez, habitua-se a ouvir, por isso começa a pedir ao garoto que faça a leitura dos cadernos todos os dias antes de dormir. Se os contadores de histórias seguem um ritual, de que fazer uma conclusão de seus relatos, é parte essencial, não é isso que faz Kindzu. Ele não fecha suas histórias, como o próprio autor do romance, Mia Couto, que enreda seus leitores, com sua "doença de sonhar". Cruzam-se as histórias de Tuahir e Muidinga e a de Kindzu, visto que retratam o mesmo cenário desolador: num fogo cruzado está o povo moçambicano. De um lado, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), que agora ocupava o poder após a independência, ocorrida em 1975; de outro, a RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana), o partido opositor. A população não compreende o porquê do conflito, em que tensões agudas, o ódio, o crime, a violência, a miséria e o sentimento de quem não se sente mais pertencente ao seu próprio país. As pessoas vagam de um lado para outro numa terra em que já não se dorme - a terra sonâmbula - mas em que ainda perduram a arte e o sonho como formas de resistência.

A narrativa de Mia Couto constrói-se com um desfile de personagens e de situações que representam o culturalismo plural de Moçambique: o preconceito moçambicano contra os árabes, que os portugueses reforçaram; os naparamas, que lutavam com os "fazedores de guerra"; o velho Siqueleto, que já assistiu a tantas desgraças e não se deixa mais abater, a presença ameaçadora do colonizador, representado pelo personagem Romão Pinto; Nhamataca, que acredita poder cavar até conseguir fazer um rio; as velhas que têm por missão afastar os gafanhotos e que iniciam sexualmente o menino Tuahir; as missões religiosas, representadas na figura da irmã Lúcia, que também era uma contadora de histórias e tantas outras lendas e cerimônias da cultura africana, como a que mostra a purificação da mãe de Farida. Ela não havia cumprido a tradição que rezava que somente no céu poderia haver gêmeos. Teria de matar uma das crianças (uma das gêmeas que tivera), pois “matara a gêmea só em fingimento” (p. 72) As mulheres que conduziriam a cerimônia necessitavam de alguém que houvesse gerado gêmeos para fazer virem as chuvas.

Precisavam de uma mãe de gêmeos para as cerimônias mágicas. Mandaram que ela mostrasse o túmulo de sua filha.

(...) Quando chegaram à campa, as mulheres verteram água sobre o pote fúnebre. Dançaram, xiculunguelando. Depois meteram a velha num buraco e foram-no enchendo de água

(...) A mãe de Farida visitara o céu e se ela estivesse molhada, certamente as nuvens também se encharcariam. As nuvens viriam, por fim. (p. 72)

Kindzu, como não poderia deixar de ser, através de um sonho, reflete a visão cuja descrição termina a narrativa. A paz chega a Moçambique e a população pode, enfim, concretizar o desejo de (re)construir a sua dignidade. Agora Kindzu já é um naparama e salva o irmão Junhito (nome que é uma homenagem à data 25 de junho, data da independência do país) das garras de personagens que representam a corrupção e a violência.

A narrativa é permeada por elementos que para alguns estudiosos compõem o realismo fantástico e/ ou maravilhoso; para outros, realismo animista. Numa entrevista à Marilene Felinto, o escritor afirma:

Eu não posso compreender a África se não compreender uma coisa que nem tem nome, que é a religião africana, que chamam às vezes de animista. Os próprios africanos também não entendem que têm de procurar esse entendimento do que eles são, das suas dinâmicas atuais, a partir desse entendimento do que é sua ligação com os deuses. (FELINTO: 2008, p. 5)

A linguagem romanesca de Mia Couto "curiosamente tem mais parentesco com a tradição, a fala coloquial e a sintaxe brasileira que a retórica lusitana, (...) (TEZZA: 2007, p. 05) e evoca as mais belas páginas de Guimarães Rosa e Mário de Andrade, elaborada numa prosa permeada de neologismos com toques poéticos, trazendo à tona uma oralidade de origem popular, não obstante "o colonialismo habilmente [ter procurado] manter a distância entre aqueles que, a despeito das grandes diferenças, possuíam e poderiam ter alimentado as franjas de suas identidades." (CHAVES: 2005, p. 249)

Numa sociedade mergulhada em uma profunda crise econômica e cultural, a ficção de Couto mostra a resistência "heróica" daqueles que, por uma veia mítica e pelos caminhos da tradição oral, ainda "ousam" ter esperança, não obstante estarem imersos em situações de barbárie, arbitrariedades e abuso de poder. Escrita que potencializa o valor dos sonhos e o seu talento para converter e regenerar a vida, representa uma literatura engajada no âmbito histórico e também social, que cria e recria o real opressor e opressivo, traços gritantes no Moçambique colonial e pós-colonial.

Referências bliográficas :

ABRANCHES, Henrique. "Da mitologia tradiconal ao universalismo literário." Entrevista. Disponível em: www.uea-angola.org/mostra_entrevistas.cfm?ID=440 Acesso em 05 de jul. 2008.

COUTO, Mia. Terra sonâmbula. São Paulo: Cia das Letras, 2007.

CHAVES, Rita. Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005.

FELINTO, Marilene. "Mia Couto e o exercício da humildade". Entrevista. Disponível em: http//:pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/1393,1.shl. Acesso em 05 jul. 2008.

JOSEF, Bella. "O fantástico e o misterioso" In: JOSEF, Bella. A máscara e o enigma. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S. A ;Eduel, 2006, pp. 180-190.

ROCHA, Enilce Albergaria. "A narrativa ficcional e a identidade cultural: a guerra pós-independência em Moçambique na escrita de Mia Couto". In: Vozes (além) da África. Inacio G. Delgado...[et al.]. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2006.

SARAIVA, Sueli da Silva. "O realismo animista e o espaço não-nostálgico em narrativas africanas de Língua Portuguesa". Disponível em http://www.abralic.org.br/enc2007/anais/80/107.pdf. Acesso em 12 jan. 2008.

SECCO, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro. "Alegorias em abril: Moçambique e o sonho de um outro vinte e cinco (uma leitura do romance Vinte e zinco, do escritor Mia Couto)". Via Atlântica, 18, pp. 111-123, 1999.

"Mia Couto e a 'incurável doença de sonhar'''. In: SEPÚLVEDA, Maria do Carmo; SALGADO, Maria Teresa. (orgs.) Letras em laços. Rio de Janeiro: Yendis, 2000, p. 273.

TEZZA, Cristóvão. "Quebra-cabeça africano". Folha de São Paulo, Mais!, 01/07/2007.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. Tradução: Maria Clara Correa Castello. 3ェ edição, São Paulo: Perspectiva, 2004.

Notas de Referência

*Mestre em Literatura Brasileira e Teorias da Literatura - Universidade Federal Fluminense. Membro do Grupo de Estudos Nação-narração - Uff/CNPq. Publicações: "Entre o verbal e o visual: a fotografia e o haicai na poética de Paulo Leminski" In: Revista A cor das letras UEFS/BA (2007); " Graciliano Ramos: a narrativa metalingüística e os 'cárceres da linguagem'” In: Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades. Universidade UNIGRANRIO (jul-set 2007)"Observação, ceticismo e história: o personagem Aires em Esaú e Jacó e no Memorial".In: Anais do I Seminário Machado de Assis - UERJ/UFRJ/UFF (2008) - a sair; "O Conselheiro Aires: sedução e saudade no Memorial" Palimpsesto - Revista do Programa de Pós-Graduação de Letras da UERJ (a sair)

1. A partir dessa citação do livro de Mia Couto, só indicaremos a página a que nos referirmos, visto que utilizamos a seguinte edição: COUTO, Mia. Terra sonâmbula. São Paulo: Cia das Letras, 2007.

2. Cf. SECCO, Carmem Lucia Tindó Ribeiro. "Mia Couto e a 'incurável doença de sonhar'" In: Sepúlveda, Maria do Carmo; SALGADO, Maria Teresa. (orgs.) Rio de Janeiro: Yendis, 2000, p. 273.

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