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Carpetier e Pacavira: O Novo Romance Histórico na América Latina e Angola

Escrito por  Rosangela M. Mantolvani
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RESUMO: O aparecimento do novo romance histórico na América Latina com a publicação de O reino deste mundo (1949) do cubano Alejo Carpentier iniciou um ciclo de intensa publicação tanto de romances históricos tradicionais quanto de novos romances históricos nas décadas de 1960 e 70 também em outros países, não sendo exceção Angola, cuja publicação de Nzinga Mbandi (1975), de Manuel Pedro Pacavira, confirma uma produção com muitas características do novo romance histórico.

RESUMO: O aparecimento do novo romance histórico na América Latina com a publicação de O reino deste mundo (1949) do cubano Alejo Carpentier iniciou um ciclo de intensa publicação tanto de romances históricos tradicionais quanto de novos romances históricos nas décadas de 1960 e 70 também em outros países, não sendo exceção Angola, cuja publicação de Nzinga Mbandi (1975), de Manuel Pedro Pacavira, confirma uma produção com muitas características do novo romance histórico.

Palavras-Chave: Novo romance histórico; Alejo Carpentier; Manuel Pedro Pacavira; literatura cubana; literatura angolana

Introdução

O romance histórico na América Latina fez suas primeiras aparições durante o Romantismo e, mesmo durante o Realismo e o Modernismo continuou sua existência underground até o final da década de 1970 quando há uma explosão de romances históricos latino-americanos, cuja principal característica fundamenta-se na revisão de uma história em que ecoa uma única voz: a do colonizador. No entanto, muitos desses romances apresentam características que se afastam daquelas teorizadas por Georg Lukács em seu Le roman historique (1965), e por isso, essa recente produção é nomeada como novo romance histórico.

Nestas, de acordo com Seymour Menton (1993, p. 42-5) além de características estéticas e formais inovadoras, as categorias da carnavalização (BAKHTIN, 1981, p. 104-7) surgem como estruturadoras de um novo sub-gênero do romance.

1. Novo romance histórico em Cuba e Angola

Em 1949 o cubano Alejo Carpentier escreve uma história sobre o passado do Haiti, país caribenho, tratando das relações sociais, políticas e econômicas no arquipélago do Caribe. Mas é no final da década de 1970 e seguintes que se intensifica a produção de romances históricos, de acordo com Menton (1993, p. 46). Os contatos entre Angola e Cuba se estreitam nesse período devido ao apoio do país caribenho à reestruturação de Angola, país recém-idependente, e podem ter sido responsáveis pelo aparecimento do romance histórico em nova roupagem no país africano, mas não há nada que comprove qualquer influência. Trata-se, antes, de um trânsito de patterns ideológicos (ABDALA JR, 2007, p. 42-3) entre as duas margens do Atlântico Negro, uma produção de escritores comprometidos com um projeto político-cultural e ideológico capaz de ultrapassar as fronteiras nacionais, produzindo uma "atitude de atrevimento" tanto nos países de língua portuguesa quanto nos de língua espanhola, principalmente nas antigas colônias.

Publicado em 1975 por Manuel Pedro Pacavira, o romance histórico angolano Nzinga Mbandi havia sido escrito alguns anos antes e, assim como O reino deste mundo, trata da relação pouco amistosa entre grupos no interior de espaços disputados por locais e invasores europeus no momento em que estes intentam controlar os africanos. Os dois romances tratam de Impérios e de conquistas, de subidas e descidas, de expulsões, de lutas, enfim, de processos de coroação e destronamentos, da história da luta de grupos, classes e de povos. Guardadas as devidas diferenças em relação aos espaços sociais - o território angolano e a ilha caribenha - os dois romances possuem personalidades históricas transformadas em personagens de ficção como a rainha Nzinga Mbandi, no território angolano - século XVII - e de Mackandal, escravo da Guiné, quilombola e líder da resistência negra – na Ilha de São Domingos, ou Hispaniola, por volta de 1750 - e Henri Christophe - Haiti - entre 1811 e 1820 - todos africanos.

2. Personalidades históricas: as personagens principais Em Carpentier, é contada a história lendária da resistência dos escravos no Haiti determinada pela figura mítica de Mackandal, um feiticeiro conhecedor das artes do vodu e das ervas, a quem eram atribuídas características sobrenaturais não somente pelos seus seguidores mas também pelos brancos. Fisicamente mais forte, Mackandal parecia possuir o poder da palavra dos griôs, pois contava histórias dos antepassados a Ti Noel e aos outros, além de conhecer os segredos da magia. Por isso, sua trajetória como imortal percorre todo o livro e, quando acreditam que morreu, Mackandal simplesmente se transformara em vários animais: é o modo maravilhoso imiscuido à historiografia e à realidade na ficção, uma das características de alguns novos romances históricos.

Entre os grandes nomes da história, encontram-se, ainda, o de Paulina Bonaparte e o do general Leclarc, seu marido, o de Toussaint L'Overture e Jean-Jacques Dessalins, que governou o Haiti de 1804 a 1806.

Entre a história de Mackandal e a de Henri Christophe, escravo alforriado que se torna coronel e se proclama rei no século XIX, encontra-se a figura de Ti Noel, que contará a forma cíclica da exploração do povo africano pela força bruta, em uma história constituída pela seqüência de lutas, resistências, magias e persistências no reino deste mundo, revelando o lado material e maravilhoso da existência humana, apesar dos conflitos.

No romance de Pacavira, Nzinga, neta do rei Ngola Kiluanji, termina por assumir o trono do Reino de Angola, ao mostrar-se mais forte do que os herdeiros masculinos ao trono, enfrentando os portugueses no momento em que estes principiam impor uma sociedade baseada no capital mercantil-escravista no interior do território, a qual ela se opõe terminantemente, chegando a fazer acordo com os holandeses para impedir o tráfico.

Coroada rainha e assumindo o trono do avô, Nzinga imediatamente entra em contato com os colonizadores e, fingindo estar de acordo com suas intervenções no território, trata de sondá-los para perceber-lhes os pontos fracos. Então, ao perceber que o povo não aceita as condições impostas pelos colonizadores, declara-lhes a guerra, tratando de organizar exércitos e persegui-los durante quatro décadas aonde quer que estivessem, atacando-lhes as fortalezas no interior, com o objetivo de preservar as fronteiras de seus territórios e de outras etnias locais.

Sua ação política e militar não se restringiu à perseguição aos militares e comerciantes portugueses, antes tratou de punir todos aqueles que no interior do território colaboravam com o invasor, e, em 1644, aliou-se aos holandeses para expulsar os portugueses. E, apesar de ter vencido muitas batalhas, teve duas irmãs e uma tia seqüestradas, além de muitos fidalgos de sua corte.

1. O Reino deste mundo

A epígrafe de Lope de Vega na abertura do texto de Carpentier ilustra bem o olhar da Europa sobre as terras do Novo Mundo, segundo o pensamento época, comandadas pelo Senhor das Trevas, e revela o olhar do colonizador sobre o colonizado, este mobilizado pelas idéias de "civilização" levada em nome da fé aos "bárbaros". Assim resume a fala do próprio demônio sobre as colônias de América: "Aonde Colombo envias/ para os meus sofrimentos renovar?/ Não sabes que há muito tempo faz/ aquelas terras são minhas?"/, resumindo seu "poder sobre o Novo Mundo". Ironia, pois é justamente uma história de "bárbaros" que o narador vai engendrar, a partir do comentário do próprio autor que enuncia no Introito: "Mas o que é a história da América senão toda uma crônica da Realidade Maravilhosa?" Essa realidade maravilhosa se encontra na história de Ti Noel, escravo negro de Monsier Lenormand de Mezy, e suas andanças pelo território de Santo Domingo, no Caribe, atual Haiti. Nela, a lembrança de Ti Noel resgata a figura de Mackandal e a história oral trazida de África para o arquipélago do Caribe, especificamente a Ilha de São Domingos. É a reiteração pelo contar em língua materna e a preservação dessa história na memória dos homens que os faz reviver no cotidiano de trabalhos forçados os sentimentos de grupo e de solidariedade capazes de mobilizar a resistência contra os seus senhores.

2. O século XVIII na Ilha de São Domingos

A gravura de cobre exibindo um rei africano em seu trono, cercado por figuras de macacos e lagartos faz com que Ti Noel se lembre das histórias de Mackandal, um quimbanda que "cantava em salmos" os "feitos ocorridos nos grandes reinos de Popo, de Arada, dos nagôs e dos fulas." Mas Mackandal conhecia também a "história de Adonhuesco, do rei da Angola, do Rei Dá, encarnação da serpente, o eterno princípio do retorno infinito [...] era prolixo na narração de façanhas de Kankán Muza, o feroz Muza, construtor do invencível império dos mandingas [...]" (CARPENTIER, 1966, p. 3) Aproximando sua focalização a Ti Noel, o discurso do narrador e da personagem se fundem para articular uma comparação entre os reis dos brancos e os reis dos negros, com a supremacia dos segundos. Aqui, o branco é tratado com ironia e comicidade. No texto, a profanação (BAKHTIN, 1981, p. 106) dos valores do catolicismo vem das palavras contadas por Mackandal a Ti Noel a respeito das práticas dos representantes da Igreja em terras do Novo Mundo.

O quimbanda Mackandal foi capturado pelos negreiros de Serra Leoa e trazido como escravo. Sua voz potente e seu porte impressionava homens e mulheres, acrescido do fato de ser um ator e contador de histórias: um verdadeiro griô, tendo em vista que conhecia os segredos da ma-lunda. Em seu contar se encerra o imaginário africano, no compasso da voz do narrador em discurso indireto, ao focalizar os pensamentos de Ti Noel, que nos resgata essas histórias.

É no trabalho da moenda que Mackandal tem parte do braço esquerdo decepado, ficando então maneta. Designado a cuidar do gado, passa a analisar as plantas da região e descobrir-lhes as funções e, posteriormente, fabricou um poderoso veneno capaz de dizimar uma grande quantidade de colonizadores. Aliado de Mamãe Loi, trocava com ela experiências sobre medicina popular e, após fugir da fazenda, abrigou-se em uma caverna secreta, contando com a ajuda dos escravos das estâncias para envenenar as águas e alimentos de seus amos.

As torturas impostas pelos brancos aos escravos acabou obtendo de um fula cambaio a confissão de que o Senhor do Veneno era Mackandal, o eleito pelas forças superiores para acabar com os brancos e montar um império de negros livres em São Domingo.

A captura de Mackandal se tornava quase impossível, pois o quimbanda passava por várias metamorfoses, de acordo com o maravilhoso africano ricamente vivo no imaginário resistente na Ilha: ele tomava a forma de um lagarto verde, uma mariposa, um cão, um pelicano, entre outros, e vigiava seus seguidores para saber se confiavam em seu regresso. De metamorfose em metamorfose, o maneta estava em toda parte, tornando-se lenda e mito durante quatro anos.

Após capturado, Mackandal apareceu em forma de homem, quando "todas as vozes se uniram num yanvalu solene, tão frenético, que dominava os tambores". O canto soava triste, "em coro, o pungente gemer dos povos". (CARPENTIER, 1966, p. 26-7) O líder revoltoso foi sacrificado na fogueira, mas para os escravos ele continuava vivo, pois "tinha cumprido sua promessa, permanecendo no reino deste mundo". (CARPENTIER, 1966, p. 31)

A metáfora da permanência do falecido no reino deste mundo coaduna com os valores do animismo africano e ainda, com o caráter mítico do herói no universo do branco e, assim, o narrador de Carpentier pode celebrar a permanência dos heróis, seja pela crença de que tomariam outras formas como Mackandal, quanto pela sua permanência como mitos da luta pela liberdade na memória popular. E, por quaisquer dos caminhos, continuam no "reino deste mundo". Em algumas passagens, porém, o narrador trata de desfazer pelo discurso realista a visão do maravilhoso (MENTON, 2003, p. 164-7) que, no entanto, se sobrepõe ao final do romance.

Passados doze anos da morte de sua esposa por envenenamento, o amo de Ti Noel, monsier Lenormand de Mezy se encontra em situação lamentável, pois não se recuperara do trauma, tornando-se um bêbado. Em poucos anos envolveu-se com muitas mulheres: da lavadeira Marinetti ao casamento com uma viúva, nada lhe mudara os hábitos e, mais tarde, torna-se amante de uma atriz francesa, terminando como um "voyeur" de escravas adolescentes. As mésalliances formais e as excentricidades (BAKHTIN, 1981, p. 106-7) se encontram no concubinato de Lenormand de Mezy com a francesa, Mademoiselle Floridor, que se embebeda com freqüência, enquanto interpreta na casa da fazenda os papéis que não conseguia representar no teatro. Enquanto isso, Ti Noel resgatava a memória heróica e as narrativas orais de Mackandal, contando-as aos seus doze filhos (que tivera com a cozinheira), encarregados de perpetuar a memória histórica dos heróis de São Domingo. A ausência de Mackandal encontrou novo substituto: o jamaicano Bouckman, que incentivava os escravos a lutar contra os senhores, enquanto na França pessoas influentes reivindicavam a liberdade dos escravos, consideradas ironicamente "divagações dos utopistas franceses que muito incomodavam os proprietários de escravos" do lado de cá do Atlântico.

Os escravos organizam um ataque às fazendas e Bouckman tem o mesmo destino de Mackandal, embora grupos isolados ainda resistissem à soldadesca. Os escravos apanhados vivos foram levados à cidade do Cabo para serem degolados, mas monsier Lenormand de Mezy tratou de salvar doze dos seus, e entre eles Ti Noel, prometendo impor a eles outros castigos. Era o tempo de Maria Antonieta e do Delfim.

3. O século XIX no espaço do Caribe

Da Cidade do Cabo, os escravos de Mezy são transportados para Cuba e lá o amo de Ti Noel encontra seus velhos conhecidos que se haviam transferido para Nova Orleans ou para os cafezais cubanos, vivendo o cotidiano da desordem, já que todas as hierarquias burguesas da colônia haviam caído devido às lutas dos escravos jacobinos.

Na Igreja de Don Estevão Salas, Ti Noel entoava um canto que aprendera com Mackandal: "São Tiago, sou filho da guerra/ São Tiago, / Não vês que sou filho da guerra?/" A sensação de calor do vodu no interior do santuário e a paradoxal existência de Monsieur de Mezy, dividido entre o espiritual e luxurioso coroa as categorias da excentricidade e da familiarização entre os homens, considerando a assídua companhia de Ti Noel, agora íntimo do amo.

As categorias bakhtinianas da excentricidade e da familiarização se perpetuam com a chegada e a permanência de Paulina Bonaparte, irmã de Napoleão, e de seu marido, General Leclarc, no Porto de Santiago (1802), articuladas pelo modo de vida que adotou em terras caribenhas: cercada de criados, do esteticista Soliman e até de um cabeleireiro francês.

Acompanhava o marido que viera para combater os jacobinos negros de Toussaint L'Overture.

Enquanto isso, Lenormand de Mezy perde o ex-escravo Ti Noel em um jogo de cartas, por isso agora ele tinha um patrão cubano e, tendo juntado alguns trocados, propôs-se a viajar de barco e, passado algum tempo, passou a comunicar-se com os objetos e com sua própria sombra. Ao voltar de Cuba a Santiago, percebe que nas montanhas detrás da antiga fazenda de Mezy, ergueu-se um palácio rosado. Era Sans Souci, a residência predileta de Henri Christophe, um reino de negros, "e bem negra era a Imaculada Conceição, erguida sobre o altar-mor da capela [...]" (CARPENTIER, 1966, p. 75) Sempre associado ao percurso de Ti Noel, o narrador contará a história de Henri Christophe, no romance, um cozinheiro, proprietário de "La Corona", uma bodega local. A História nos diz que Henri Christophe comprou a própria alforria, tendo provavelmente lutado na Revolução Americana ao lado das forças francesas; em 1779, distinguiu-se na Revolução Haitiana e tornou-se general em 1802. Posteriormente, com o assassinato de Tiago do Haiti (Jean-Jacques Dessalines reinou de 1804 a 1806 o Haiti), terminou por assumir a presidência, mas sem qualquer poder de decisão, o que abalou profundamente seu orgulho.

Christophe, então, fundou um Império no Norte da Ilha, onde construiu seis castelos, oito palácios e a famosa Citadèlle Laferrière. Em 1811, sua coroação pode ser vista por um documento, o Edital de 1º de Abril: "Henrique, pela graça de Deus e pela Lei constitucional do Estado Real do Haiti, Soberano das Ilhas de Tortuga, Gônave, e outras ilhas adjacentes, Destruidor da tirania, Regenerador e benfeitor da nação haitiana, Criador das instituições morais, políticas e guerreiras, Primeiro monarca coroado do Novo Mundo, Defensor da fé, Fundador da ordem real e militar de Santo Henrique." Governou entre 1806 e 1820 como Henrique I, nome cristão que adotou em batismo. Imediatamente, institui a nobreza haitiana, distribui títulos de príncipe, duque, conde, barão e cavaleiro, ou seja, organiza um reino de negros, ex-escravos, agora livres, sob os moldes europeus, cuja religião oficial é o catolicismo. As insurgências do Sul contra o reino do Norte e a insatisfação do povo em relação à forma autocrática com que regia seu império facilitou as rebeliões. Impotente perante os ataques constantes e a fuga dos súditos, preferiu suicidar-se em 1820 com uma bala de prata a ser deposto.

A história de Henri Christophe foi contada na peça de teatro La tragédie du Roi Christophe (1963), pelo escritor martinicano Aimée Césaire, um trabalho posterior que garante o diálogo intertextual com o romance de Carpentier. O autor trata de resgatar essa figura histórica em O reino deste mundo, mas não é esta a personagem principal do romance, e sim o escravo Ti Noel, o qual figura como elo entre o plano de ação desta personagem, o rei Christophe, e de uma outra personalidade histórica em grande parte dos capítulos: o líder negro Mackandhal, que desfraldou uma rebelião quilombola no Haiti muito antes do movimento independentista sob influência da Revolução Francesa.

A história de Mackandal aparece também na historiografia do afro-trinidadiano Cyril Leonel Robert James, Os jacobinos negros: Toussaint L'Overture e a Revolução de São Domingos (1938) - considerado um dos textos inaugurais do estudo da diáspora negra - em que se esboça um retrato da Revolução Haitiana baseada nos princípios da Revolução Francesa e liderada por Toussaint L'Overture, negro, letrado e seguidor das idéias das Luzes, um hipertexto, cujos aspectos intertextuais se encontram presentes na obra de Carpentier.

A Revolução haitiana configurou-se no maior movimento negro de rebeldia contra a exploração e a dominação colonial das Américas. O caso do Haiti se torna singular em todo o continente como a primeira colônia latino-americana a obter a independência e a abolição da escravatura, cujo processo de revolução foi conduzido pelos próprios escravos que conseguiram a libertação de seu país e, ainda, a sua própria liberdade. Esse acontecimento singular derrubou por terra a idéia defendida na época pelas potências imperialistas de que as populações negras não eram capazes de auto-organização. Com a Revolução, o Haiti se torna a primeira república negra do mundo.

Dos 480 mil escravos presentes no Haiti no momento da Revolução, a grande maioria era originariamente africana, de acordo com Marcelo Grondin (1985), o que propriciava que entre eles se encontrassem vínculos culturais bastante profundos, como a prática do vodu, as crenças animistas e antropomorfizantes, os segredos da imortalidade, as afinidades lingüísticas que lhes facilitavam a comunicação pelos códigos indecifráveis, facilitando-lhes a hegemonia ideológica. Por isso, não aceitaram se curvar ao universo dos brancos, este, desprezado e ironizado pelos olhares de Ti Noel em O reino deste mundo.

Em Carpentier, a ironia funciona sutilmente e, visivelmente maravilhado com as práticas religiosas do vodu de Mackandal que o narrador lança poeticamente no romance por meio lembranças, das falas e visões da personagem. O narrador não se abstém de ironizar certos comportamentos paradoxais de personalidades históricas como Henri Christophe que, apesar do heroísmo e da ânsia por liberdade, assume em seu império a cultura e a dinâmica européias no modo de vida e na administração política.

A dialética é mantida pela força do contraste entre as práticas materiais, essencialmente africanas no comportamento de Mackandal, seus seguidores e de Ti Noel, e as práticas dos brancos, cujo peso da ironia e da caricatura recai sobre a figura de Monsier Lenormand de Mezy, o amo francês de Ti Noel que termina pobre e bêbedo na ilha vizinha, afirmando a categoria da excentricidade, uma das que integram a carnavalização bakhtiniana. Após ter sido levado a uma batucada onde nele baixara o rei de Angola, nasceram rebanhos nas terras de Ti Noel, que ficara vivendo na velha casa do antigo amo, agora caindo aos pedaços, mas respeitado e sempre convidado pelas velhas para beber e fumar. Então, comporta-se muitas vezes como um rei: "Sentado em sua poltrona, a casaca entreaberta, bem assentado, o chapéu de palha e coçando lentamente a barriga, Ti Noel ditava ordens ao vento. Mas eram editais de um governo tranqüilo, já que nenhuma tirania dos brancos ou dos negros parecia ameaçar sua liberdade" (CARPENTIER, 1966, p. 109).

Ti Noel, que passa por todas as fases desde Mackandal até a queda e suicídio de Henri Christophe, assume posteriormente a posição de rei, o rei da liberdade, bufo e excêntrico, poetizando as histórias e lendas que aprendera com Mackandal e assumindo a posição de griô africano dos novos tempos. Cansado da vida tribulada, continua no reino deste mundo após ter se apropriado das artes mágicas do vodu e ter se metamorfoseado em muitos animais ao final do romance: ave, garanhão, abelha, formiga.

Mas a liberdade só duraria até a chegada dos agrimensores - vindo de Port- Au Prince -, e os antigos escravos trabalham agora sob eterna vigilância dos mulatos em imensas lavouras, enquanto Ti Noel se desespera, pois não via uma maneira de ajudar seus "súditos".

Assim, o narrador de Carpentier critica a eterna exploração e expropriação dos que utilizam da força bruta para submeter outros, como o faz também o narrador de Pacavira. O narrador de Carpentier se esmera na fidelidade de Ti Noel à liberdade conquistada: Ti Noel não via uma maneira de ajudar seus súditos, novamente de cabeça baixa sob o chicote de alguém. O velho começava a desesperar ante esse infindável renovar de cadeias, esse renascer de grilhões, essa proliferação de misérias, que os mais resignados terminam por aceitar como prova da inutilidade de qualquer rebeldia. Ti Noel temia que também a ele fizessem trabalhar apesar de sua idade. (CARPENTIER, 1966, p. 113)

Ao lançar seu grito de guerra contra os novos senhores, dando ordens a todos os negros trabalhadores que atacassem os insolentes mulatos investidos de poder e controle sobre os mais fracos, tudo em volta foi varrido por um "poderoso vento Sul", inclusive Ti Noel e, desde então, nada mais se soube dele.

No romance, a história de resistência dos escravos constitui a saga da luta pela liberdade dos negros em território caribenho, confirmando a máxima de que a história do homem é a história da luta de classes, grupos, nações, enquanto a resultante materialista dessa luta determina não apenas o domínio dos vencedores, mas a produção de sua própria história sobre a história dos vencidos.

Carpentier articula, então, um contradiscurso, apoiado na História oficial, a dos vencedores, mas não se alinha ideologicamente a ela, antes se posiciona ao lado dos heróis vencidos, ilustres, como Mackandal, ou desconhecidos, como Ti Noel, contando suas vidas privadas, suas lutas, seus sonhos, desvendando-lhes o imaginários sócio-cultural e político: "Não vês São Tiago que sou filho da guerra?"

4. Nzinga Mbandi: novo romance histórico

O novo romance histórico de Carpentier conta uma história de resistência à escravidão e ao apagamento cultural e identitário; e o mesmo se pode dizer do novo romance histórico de Pacavira. Nele, o desvelamento do confronto entre as forças dos brancos e as de resistência no território angolano, lideradas por Ngola Kiluanji e, posteriormente por Nzinga Mbandi, põem em contraste com essa "outra história" os discursos das historiografias oficiais que se pretendem como história hegemônica da humanidade.

Entre as principais características que determinam Nzinga Mbandi como novo romance histórico se encontram: o fato de que seu enredo representa um tempo histórico anterior ao tempo de vida de seu autor - de acordo com os pressupostos teóricos de Menton (1993, p. 33), ao adotar a definição de Anderson Imbert, de 1951 - tratando das relações entre colonizadores e colonizados nos mais importantes momentos de resistência dos africanos contra os europeus.

O romance de Pacavira não constitui um romance histórico tradicional, porém não possui todas as características do novo romance histórico preconizadas por Menton (1993, p. 42-4). No entanto, pode ser considerado como novo romance histórico, pois nele se encontram presentes as características essenciais: a personalidade histórica como protagonista, a impossibilidade de conhecer a verdade histórica ou a realidade por meio da história oficial, o caráter cíclico e imprevisível da história; a metaficção ou os comentários do narrador sobre os processos de criação, a intertextualidade com a oralitura e os textos da história e da literatura oficial; algumas das categorias bakhtinianas da carnavalização: profanação, livre contato entre os homens (familiarização); excentricidade, embora lhe falte as mésalliances. (BAKHTIN, 1981, p. 105-7). O viés do sério e do cômico garantem o efeito irônico.

No romance, o tempo histórico é bastante marcado por uma cronologia que localiza perfeitamente o leitor no tempo, à excecão de um ou outro momento em que há presença de analepses, mas que podem ser facilmente localizadas. No capítulo quarto da segunda parte, a narrativa estabelece uma ruptura temporal de quinze anos, e trata dos acontecimentos de 1575, anunciando as intensas guerras no território do Kongo, motivadas pela ideologia do mercantilismo, o que fez com que D. Sebastião autorizasse o Cardeal D. Henrique, senhor-mor da Inquisição em Portugal, a enviar uma esquadra para combater os rebeldes do Kongo e restituir o trono ao rei cristão, d. Álvaro I, "tributário e vassalo do rei de Portugal".

Uma outra analepse remonta o texto a 1570, ou seja, cinco anos antes desses acontecimentos, para contar o que se passou em Angola nesse momento histórico, tendo em vista que o narrador faz questão de demarcar os espaços geográficos entre o reino do Kongo e o reino d'Angola. O romance se divide em três partes: na primeira encontra-se a chegada dos portugueses ao reino do Kongo e sua expulsão; na segunda, a trajetória dos portugueses pelo Reino de Angola (dos Ngolas), mas principalmente a trajetória da filha de Ngola Ndambi [Nzinga] pelo espaço geográfico do território, conhecendo muitos povos e terras. No capítulo onze da segunda parte o narrador trata da transferência de D. Paulo Dias de Novais para as terras de Kakulu Kahangu, após ter recebido um ultimatum do Muene- Ngola para sair do Songa, quando então os portugueses impõem o terror nas redondezas. E Muene-Ngola sai em sua perseguição, juntamente com o Ngol'a Mata e um filho de Ngola Ndambi: o rei-soldado Ngola Kiluanji.

E assim a guerra se estende, pois chegam reforços de Portugal, mas as febres e os ataques dos locais reduzem os milhares de portugueses a apenas uma centena e meia de homens. Embora quase destruídos, não desistem de chegar a Kambambi, onde se encontram as minas de prata e, mesmo pedindo socorro ao reino do Kongo, são quase dizimados. Em junho de 1585 estabelecem um castelo entre o rio Lucala e o Kuanza, cercado de rochedos, e formam a Companhia dos Empacasseiros, integrada por muitos negros, e continuam a atacar aldeias e sobados com o objetivo de chegar às minas de Kambambi. Às vésperas de Natal, em dezembro, um ataque surpresa de Ngola Kiluanji destrói um grupo de oitocentos empacasseiros e, em maio de 1589, morre D. Paulo Dias, por dedução no intradiscurso do narrador.

Aos guerreiros de Ngola Kiluanji juntam-se os Jagas, que eram povos que não possuíam um Império centralizado, mas seu território era constituído por muitos sobados e kimbos com administração relativamente independentes.

5. O diálogo com o leitor

A articulação do discurso passa pelo crivo da memória, posto que no capítulo um da primeira parte, o narrador se refere aos processos de composição literária que se encontram no romance, referindo-se às formas de tratamento dispensadas à protagonista por figuras tão ilustres quanto El-Rei D. João IV, "chamavam-lhe Rainha Dona Anna, Rayña Singa [...], Ginga [...] mas o nome dela verdadeiro é esse mesmo que vem na capa: Nzinga Mbandi." (PACAVIRA, 1975, p. 17) [grifo nosso]. E, ainda, o narrador não se furta a ocultar suas "deduções" subjetivas sobre a personalidade histórica: Não devia ser mulher de se dar lá a essas fitas de puxar a cara, amarrar a testa, alçar os peitos, pôr o rabo a pino, e coisas outras dessas. Factos há que nos levam a pensar que ela cresceu bela, carinha bonita, alegre, simpática, sendo o seu defeito: virar bicha-fera-ferida, caso que lhe violassem um direito. Tanto é que uma formidável história ela nos deixou, uma história que mete respeito, o motivo que me traz a conversar aqui com vocês. Mas comecemos pelos tempos dos seus passados. (PACAVIRA, 1975, p. 18) [grifo nosso] Nesse trecho, o narrador estabelece com o co-enunciador um diálogo, pois vai "conversar" com seu leitor, de tal maneira que o convida a mergulhar no passado. Essa, no entanto, constitui uma função conativa da linguagem, a qual necessita que o leitor estabeleça um pacto com o narrador, ou seja, um acordo de que vai penetrar em um tempo muito afastado daquele em que se encontra.

E, assim, no capítulo um, o narrador entrevê em um português quase oral o encontro suspeitoso entre os portugueses - e as gentes de Angola à boca do rio Nzandi, em que as falas dos portugueses exaltam a boa-fé e a questão da religião. Já nessa passagem, o excesso de reverência parece falsear o conteúdo do que é de fato enunciado: "Que são muito boas pessoas, não vieram por mal, a ninguém querem fazer mal, antes pelo contrário. [...] Teriam já os da terra Dele ouvido falar? Jesus Cristo, seu nome. Filho de um Virgem. Teria já a estas terras chegado o seu eco?..." (PACAVIRA, 1975, p. 21) A fala de apresentação dos portugueses, com as mãos ao alto, parece repleta de ironia, se observarmos os significados ocultos em "antes pelo contrário", que pode indicar tanto "a ninguém querem" equivalendo ao contrário de ninguém: "a alguém" ou "a todos". De forma sutil, encontram-se no texto de Pacavira efeitos irônicos e cômicos encerrados no próprio código lingüístico. E é o narrador quem responde pelos "da terra": "Mas os da terra querem é saber de onde é que eles vêm, de que raça, de que nação, com uns ares de amalucados que aparentam, os cabelos parece que passaram no fogo, a cor da pele, tudo, tudo, um albino, filho-sereia. Com um falar que ninguém entende, ainda por cima." (PACAVIRA, 1975, p. 19-20)

A imaginação criativa do autor em torno do "encontro" insólito entre culturas de valores tão diferentes, cujas promessas de amizade e boa-fé tão enaltecidas num primeiro momento podem ser lidas como insinuação muito curiosa, se considerado o momento de produção do romance: a década de 70, as perseguições da PIDE, e as sucessivas prisões do autor: encontro que recorda certos exertos em alguns novos romances históricos hispanoamericanos sobre os primeiros contatos entre os ameríndios e Cristóvão Colombo, também produzidos na década de 70 e 80 (MENTON, 1993, p. 48;106-8).

6. O século XVI em território angolano

Em maio de 1560, a chegada de D. Paulo Dias de Novais2 - a serviço da rainha D. Catheryna de Portugal – em Kakulu, procurando trazer a "Civilização" e a religião aos kimbundus, é tratada com ironia pelo narrador que procura parafrasear entre português e kimbundo os questionamentos do rei de Angola, Ngola Ndambi, a respeito de tal civilização onde vivia a tal rainha: [...] E a gente dessa Senhora Nda Katidina dia Mutudi3 como vivia? Como eram suas casas? Trabalhavam? Tinham lavras? E indústria? E afunantes? Ou passavam o dia todo na boa vida, sem fazer nada? Somente a comer, a beber, a dançar, e a falar desse Deus Senhor Jesus-Não-Sei-que, e a rondar as terras alheias dos outros? Assim como as pessoas de Kimbundu, assim também eram suas pessoas dela Nda Katidina dia Mutudi? Eram?...[...](PACAVIRA, 1975, p. 49)

Paulo de Novais fica detido na Mbanza por seis anos, enquanto o Padre Gouvêa - agora Nganga Ngovêa -, que o acompanhava, termina por integrar-se à comunidade local e se africaniza, "tinha virado mumbundu", mantendo, no entanto, a sua fé cristã.

O narrador se esmera na sutileza da ironia ao tratar do diálogo religioso entre Nganga Ngovêa e Nganga Ndal'a Kabenda, o mais-velho dos mais-velhos de Kakulu, um "doutor das leis que os antigos nos deixaram", que fala ao padre sobre seu deus, Nzambi, criador de todas as coisas e adorado no Ndongo. Também fala sobre a morte e da inexistência do Inferno para os kimbundus. E do mau espírito: Mbungula. No diálogo, novamente não escapam à ironia os portugueses, chamados ndele, significando não o "pássaro branco", mas "uma alma danada que vagueia pelo mundo inteiro, sem lugar de estar, sem terra, sem nada. Um espírito mau atormentado por males [...] E vive agora a atormentar as pessoas, lhes perseguindo, lhes sacrificando de todas as maneiras." (PACAVIRA, 1975, p. 57) Nos capítulos que se seguem na segunda parte do romance, os valores das tradições das comunidades angolanas são sempre colocados em contraste com os valores dos brancos ao longo do intradiscurso do narrador, enquanto alguns discursos de certas personagens organizam um universo particular em kimbundo, impenetrável ao leitor que não domina a língua.

A ironia e o humor não se afastam das cenas em que se discute o código lingüístico e seu caráter de "desencontro" de não-interpretação, pois, segundo Dominique Mangueneau (1996, p.126), a incompreensão reiterada fere a lei de modalidade no discurso: sempre que há uma incompreensão excessiva no processo de interpretação, o efeito cômico, geralmente, encontra-se garantido. Em Pacavira, isso ocorre algumas vezes, como nessa passagem e em outras em que discutem sobre os significantes, a exemplo do significado de "cometa":

Nganga Ndal'a Kabenda diz:

- Ah... Tetemba dia mukila. Estrela-de-rabo.

- E na língua do Nganga Ngovêa? Cometa

- Di' hi?

- Cometa.

- Ah! ... Dicometa.

- Não é "dicometa", não. Dizei: Co-me-ta. Dizei comigo, experimentemos: - Co...

- Co

- Me

- Me

- Ta

- Ta

- Ajuntai...

- Dicometa. (PACAVIRA, 1975, p. 57-8)

A resistência do código, cuja estrutura morfológica e gramatical parece impenetrável à estrutura do branco concretiza na escrita a resistência que se seguiria na prática mesma, por meio da religião, de certas formas de viver e pensar e, ainda, pelas armas.

Do capítulo quatro ao sete, o narrador remete o leitor ao momento do encontro entre o enviado do Rei de Angola à Ilha de Luanda, onde se encontra D. Paulo Dias de Novais, e o momento em que explode a guerra, tratando da mudança do fidalgo português para a barra do Kwanza, o que vem a trazer preocupação ao Ngola Mata, filho de Ngola Ndambi, já falecido.

Das fortificações da Mbanza à construção de quilombos e ninhos de espionagem, o narrador trata de mostrar o crescimento da pequena "quilumba", a filha de Ngola Ndambi: "Sinuosa, cara alegre, voz molhada e quente. Fazia guerra com seus três quatro cinco seis anos para vir a Mulemba com o avô [...]". Assim apresenta o narrador a infância de Nzinga Mbandi.

As movimentação dos portugueses em direção a Mpungu a Ndongo e o prenúncio de guerra - após o incêndio de Kambambi pelos portugueses - coloca muitas povoações em movimento para auxiliarem o rei de Angola: É manhã clara: movimento enorme de povoações que se deslocam. Homens e velhos e mulheres e crianças e coxos e manetas, servos e não-servos, malajeitados e bem vestidos [...] Os motivos desse movimento todo? Sanzalas a se despovoares assim?... Sanzalas e segues e sambas de sobas pelo que se vê?... Os motivos?...

- O mindele! A-tu-lu!...

- Os brancos! (PACAVIRA, 1975, p. 79)

No romance, Pacavira desvela a luta entre as culturas, entre as nações, ou seja, a história do homem como resultante da luta de classes, grupos, povos, desvelando que o sistema econômico e social e suas tecnologias de domínio são os responsáveis pelas condições materiais de vida dos homens, sejam eles dominantes ou dominados. Ao revelar as causas que levarão às guerras contra os portugueses no território angolano, o narrador explicita que nenhuma violência é gratuita, porque há sempre um episódio capaz de justificá-la.

7. A trajetória de Nzinga: século XVII

De Kukala havia partido a comitiva de Nga Ngeng'a Muhondo, o Tandala do Reino de Angola, acompanhado da própria herdeira do Ngola, Nzinga, percorrendo as terras de Entre rios, no Mahungu, seguindo pelas terras de Ndembu Kitexi (dos Jagas), entre os rios Ndanji e Lufuni, chegando até o Lufuni, onde vivem os Lugangos, espécies de banqueiros ou cambistas africanos, tecedeores de paninhos de mabela, os lumbongos, um tipo de moeda africana. Chegam às freguesias do Lufuni, onde se fala kimbundu e kikongo. Depois de atravessar o Ndanji, atravessam a Kilunda e, depois, a região de Hong'a Zanga até pararem nas terras de Kakulu Kahangu que, entre comemorações, deixa claro aos visitantes de Nzinga que não aceita os estrangeiros - portugueses.

Dirigindo-se à Kisama, a rainha fica ali até novembro – kamoxi – e partem para o Kuanza acima em direção a Mapungu a Ndongo, local em que nasceu Ngola Ndambi e seus filhos. Nessa ocasião, o narrador trata de descrever as cenas do mercado à beira rio, para onde afluem as populações de várias comunidades locais para comercializar com alguns portugueses que viviam por ali. Os costumes e os cantos em kimbundo à roda do mussualo encontram-se presentes nesse romance que se constitui a partir de uma mescla de gêneros orais e textuais. "Ngadiuana, ngadiuan'â / Ngadiuana, ngadiuan'â uá!..." [...] (PACAVIRA, 1975, p. 99-102)

Na construção da heroína, o narrador faz sua personagem percorrer grande parte do território angolano, estabelecendo o princípio da viagem e outorgando a ela a experiência e conhecimento tanto geográfico quanto social do território e da diversidade que mais tarde viria a governar, ou seja, esse é o momento em que a protagonista se expõe à experiência e ao conhecimento.

Iniciam-se os preparativos para a guerra contra os portugueses que não se cansam de pilhar e destruir os que não lhe podem oferecer resistência, despovoando muitas comunidades tradicionais. A descrição das desgraças a que se encontram submetidos os kimbos desvelam o que significou a colonização em Angola, tendo em vista que o assentamento de fortalezas e castelos, bem como a da cidade de Massanganu não visavam tão-somente ao tráfico de pessoas para os engenhos do Brasil, mas a apropriação e a exploração das minas de metais preciosos, como as de Kambambi, uma das questões fulcrais da ocupação.

No capítulo doze, ocorre a transição do Governo a D. Francisco de Almeida, indicado já por Felipe I da Espanha - Portugal já se encontra-se sob o domínio espanhol, período político chamado de União Ibérica -, mas o soba Kafuxi não dá trégua aos portugueses e por isso, outro Governador, Jerônimo de Almeida, desiste da empreitada de conquistar o território naquele momento. A sucessão de Governadores não tem fim. Nesse momento, o processo de subidas e descidas ao poder revela a inoperância das missões exploradoras européias.

O falecimento de Ngola Kiluanji permite que o filho assuma seu lugar, mas muda-se para Mbaka, onde é atacado pelos portugueses e, acuado, retira-se para o Kuanza adentro, em Kindonga. Por essa época, os portugueses já haviam se instalado completamente em Luanda.

Aliados a Samb'a Tumba - líder local caricaturizarizado pelo narrador - é indicado para substituir o filho de Kiluanji e os portugueses contam com essa ajuda para conseguir explorar as terras do interior, mas o povo não o aceita como Ngola.

O trono é assumido pela neta de Ngola Ndambi, filha de Ngola Kiluanji Kia Samba, Ngola Nzinga Mbandi. Sobre a protagonista já adulta, diz o narrador: "Alegre, jovial, no vigor da vida, sem cabelos brancos, sem nada. E sem nada que lhe dobre. [...] Nos seus quarenta anos – com vinte e tal anos de andar para trás e para diante. De andar aonde só os filhos de-pássaros dantes podiam passar. E dormir aonde só podiam os bichos dormir [...]" (PACAVIRA, 1975, p. 118)

Indo a Luuanda encontrar-se com o governador português João Correa de Souza [isso teria ocorrido oficialmente em 1621], retorna do entreposto comercial com o nome de Ana de Sousa, dado em batismo católico, o que provocou um descrédito por parte dos súditos da rainha. Mas a rainha volta e nomeia muitos sobas para controlar o território que lhe cabe. E, um mês depois, manda um recado irônico ao sr. Bento Banha Cardoso, em que diz: "[...] o nome Ana de Sousa que o outro quis oferecer não pegou. Não podia pegar. O mesmo sucede com as minhas irmãs, a Kambo não quer o nome de Bárbara, a Fuxi manda dizer que seu nome é mesmo Fuxi. Que ide aplicando o nome de Engrácia às vossas filhas que is parindo, vós outros [...]" (PACAVIRA, 1975, p. 128-9)

E, no conteúdo da Carta a certeza de que Ngola Nzinga lhes fará a guerra, pois diz "armas não nos faltarão, e povo haverá neste mundo capaz de acudir a um apelo nosso, para vos correr com ferro e fogo" (PACAVIRA, 1975, p. 129). No capítulo quinze, Nzinga se desloca para a Matamba. Dois anos e meses depois de deixar a Kindonga, Nzinga sai com seu séquito até as terras da Lunda, onde entra em contato com o rei daquele território, Sa-Yiala Maku. Nessa ocasião, o narrador toma os significantes dos falares da Lunda, ao tratar Nzinga como "Mwana Ngana Na-Chiluachi cha Zinga" e nessa ocasião são contadas as desavenças do reino da Lunda e a traição de um de seus membros que vivia em outras terras, aliado aos portugueses.

O narrador não se furta a retratar o heroísmo da protagonista quando, no capítulo dezesseis da segunda parte, ao serem os kimbundos liderados por Nzing'a Mona no Alto Kuangu, tendo este sido atingido, é a própria rainha quem lidera o contra-ataque: [...] Mas é a própria Ngola que vai lhes ficar à frente do combate. Aí ela vem a descer as quebras de arco e lanças na mão, sem os panos já, apenas de jihondo, com uns corpetes também em franjas de fibras de imbondeiro e lhe vestir os peitos. Entesa o arco, larga... lá vai a sua lança de mistura com a quantidade de lanças a cair sobre os contrários parecendo chuva de pedras. (Id. Ibid., p.147) Apesar do heroísmo da protagonista, nessa ocasião são raptadas suas irmãs: a Fuxi e a Kambo; e ainda, uma tia da rainha pelos portugueses, motivo pelos quais as guerras se intensificam, pois aumenta a ira de Nzinga Mbandi contra os estrangeiros.

A exploração comercial e a rapinagem por parte das elites portuguesas no território angolano não possuíam limites, chegando mesmo a cogitarem a idéia de cunhar uma moeda própria em substituição aos lumbongos locais, apoderando-se também do sistema monetário de trocas, enquanto o povo se queixa constantemente. As condições materiais de existência dos povos funciona como fio discursivo no texto de Pacavira e, embora compreendendo os valores da cultura angolana, procura enfatizar as questões econômicas, políticas e ideológicas.

Por isso, as condições de trabalho impostas a alguns locais que aceitavam servir aos invasores ou eram por eles cooptados não escapa ao olhar crítico do narrador: Se o senhor de um arimo era pai-de-família, cada filho tinha que ter o seu escravo para lhe levar nas costas. As raparigas com a sua masseca. A senhora dona com a sua criada para lha abanar e lhe lavar os pés e não-seimais- onde. Fora a quantidade de lavadeiras e cozinheiros e aqueles que lhes serviam às mesas. Com outros que lhes varriam os quartos e lhes esfregavam o chão. [...] Não entravam nesta conta as remessas de caras negras outras muitas que tinham amontoadas ou nas caves do paço ou nos armazéns ao lado - à espera de naus a vir do Brasil despejar gentes e máquinas de guerra. [...] (PACAVIRA, 1975, p. 154)

O homem como mercadoria, vendido como máquina de produção à elite colonialista na América tornou-se o principal negócio de enriquecimento do colonialismo em África. Assim, o sistema de capital mercantil-escravista português é explicado de uma maneira tão simples que qualquer leitor pode compreender o triângulo entre uma classe de mercadores e fidalgos que aspirava viver de forma aristocrática tanto no Brasil-Colônia quanto no território angolano e, quando enriquecidos, retornar a Portugal como milionários e heróis, o rei e a classe escrava expropriada e geradora das riquezas.

A cobrança de dízimos pelo capitão-mor de cada região ao soba avassalado também é discutido no romance, ou seja, Pacavira justifica a ocorrência de tantas guerras em uma terra tomada por forças invasoras. Por todos esses motivos, os guerreiros kimbundos tratavam de incendiar as matas, revoltosos com a situação, pois "filhos da terra, que perdiam a noção dos valores e dignidade de homem tocam a negociar os sobrinhos, os filhos, os irmãos [...] " (Idem, p. 156)

A morte de D. Álvaro IV, rei do Kongo e o assentamento de Kimpaku, o novo Muene- Kongo permite uma aliança entre este Império e o de Angola, o reino da Matamba. Em Portugal, por essa mesma época, um novo monarca senta-se ao trono, enquanto no Brasil, os colonos desejam a expulsão dos jesuítas que lhes impedem de escravizar os ameríndios.

Pacavira parafraseia, então, um trecho de uma das Cartas do Padre António Vieira ao rei de Portugal: "Em quarenta anos se haviam matado e destruído, na costa e nos sertões, mais de dois milhões de índios e mais de quinhentas povoações como grandes cidades".

Kimpaku, o Muene-Kongo ativa relações com os holandeses que andavam sempre "em visita" às costas angolanas, desde que a Colônia de Brasil fora tomada pelos holandeses (1630 a 1554 – ocupação de Recife e Olinda, em Pernambuco; 1637-1644 – ocupação de São Luiz do Maranhão), considerando-se que entre 1630 e 1637 ocorreu o período de resistência à armada da Companhia das Índias Ocidentais, de Capital neerlandês, cuja empresa multinacional havia obtido dos Doze e do governo de Holanda uma autorização de exploração das Colônias então pertencentes a Portugal, pelo período de vinte e quatro anos, com o objetivo de restabelecer o comércio de açúcar com a Europa. Assim, Pacavira detém-se sobre os acontecimentos em torno da invasão holandesa, quando o reino do Kongo e o de Angola se unem a estes contra os portugueses. Os holandeses invasores ocupam Luanda e Benguela, enquanto os portugueses se retiram para o interior, principalmente Massangano e outras fortalezas.

Na terceira parte, o autor trata dos acordos entre os Impérios locais e os holandeses e da libertação das irmãs de Nzinga, detidas em Massangano, sendo a Fuxi assassinada pelos portugueses nessa ocasião. E assim termina a narrativa assinada pelo autor, escrita entre outubro de 1972 e janeiro de 1973, no Campo de Trabalho de Chão Bom, Tarrafal, na Ilha de São Tiago (Santiago), no arquipélago de Cabo Verde.

No entanto, para efeito de informatividade, o que parece ser uma questão fundamental para Pacavira, encontra-se ao final do livro uma espécie de resumo histórico que abarca os períodos de 1647 a 1890, cujo autor não seria Pacavira, mas Kakulu Ka Henda Ka Mona, em que se narra alguns acontecimentos após a expulsão dos holandeses pelos portugueses, e a posterior aliança destes estabelecida com alguns locais ressentidos de seus direitos durante a ocupação holandesa ou mesmo por ganância, quando os portugueses conquistam posições definitivas no território angolano. Em 1656 desejam um acordo de paz com a rainha da Matamba, em que a reconheciam como senhora de suas terras. Segundo o narrador, Nzinga Mbandi Ngola "morreu em 1663, em 17 de Dezembro, com 81 anos de idade", transformando-se posteriormente em um símbolo da resistência das comunidades tradicionais em África, constituindo uma tarefa quase impossível dissociar sua atuação na história de sua aura mítica e lendária, cujas façanhas eram contadas de geração a geração, como forma de guardar uma das facetas do poder heróico de certas mulheres.

7. O jogo de tensões no texto

O romance Nzinga Mbandi é dedicado às FAPLA – Forças Armadas Populares de Libertação de Angola - "Heróicos Combatentes da Liberdade", ou seja, o exército constituído pelo povo que lutou pela independência do território.

Já em seu "A modos de Introdução", o autor cita Paulo VI (1973, p. 8), no texto L' Observatore Romano4, em que o papa enfatiza a questão e a necessidade da paz, criticando os Imperialistas ao admitir que "isto [a paz] certamente não é fácil, especialmente quando uma grande parte da economia mundial e da organização dos povos se funda sobre o poder das armas e sobre os critérios de emulação de uns sobre os outros". A partir da Dedicatória e da Epígrafe encontra-se o jogo de tensões instalado no romance que, já nesse início revela o grande desejo de paz e, ao mesmo tempo, sua impossibilidade representada pelo exercício da emulação de uns sobre outros, ou seja, a competição e a rivalidade, esta entendida aqui como a expropriação dos que não possuem armas para se defender daqueles que possuem sofisticadas tecnologias de guerra.

No aspecto da linguagem, ou especificamente, do código lingüístico, Pacavira instaura um narrador que possui um português próximo da oralidade do português padrão, enquanto as falas das personagens se apresentam em kimbundo, ou mescladas ao português, às vezes em umbundo, enquanto vez ou outra, o narrador se esmera em comentários metalingüísticos, sem a preocupação de uma tradução oficial para o português de muitos dos usos da língua kimbundo. Isso nos autoriza a compreender que Pacavira escrevia para um público bilingüe, ou seja, seus iguais, capazes tanto de entender português quanto kimbundo ou outras línguas locais.

Essa forma bilingüe do romance plasma a forma mesmo das sociedades daquela época, considerando-se que, no século XVI somente os que viviam em contato com os europeus nos entrepostos de tráfico de escravos é que dominavam a língua portuguesa. Por isso, as personagens de Pacavira falam, tantas vezes, em kimbundo. No entanto, o autor não pode utilizar esse único código em sua escrita, pois seus leitores são falantes de língua portuguesa.

Parece clara, então, a posição do narrador como sujeito inserido nas duas culturas que, aparentemente neutro, não deixa de ser irônico em muitas trechos do romance, apesar da seriedade com que é tratado o assunto e de todo respeito que nutre pela figura histórica da protagonista, desvelado no discurso do narrador.

Os textos abordam as dinâmicas resultantes dos processos de diáspora negra tanto no lado africano do Atlântico - pelo deslocamento das populações que fugiam para o interior para não serem escravizadas no próprio território -, quanto no lado americano do Atlântico, e, embora as populações de Angola seqüestradas para as terras da América não sejam propriamente as do Caribe - onde se encontravam predominantemente os africanos vindos da Guiné, enquanto o vodu como religião dominante é originário do reino de Dahomé -, pode-se concluir que a resistência africana à subserviência constituiu fator comum nos dois lados do Atlântico Negro, e seus sujeitos fizeram história lá e cá .

ABSTRACT: The appearance of the new historical novel in Latin America with the publication of O reino deste mundo (1949) of the Cuban Alejo Carpentier in such a way initiated a publication cycle intense of traditional historical romances how much of new historical romances in the decades of 1960 and 70 also in other countries, not being Angola exception, whose publication of Nzinga Mbandi (1975), of Manuel Pedro Pacavira, confirms a production with many characteristics of the new historical romance.

Keywords: New Historical Novel; Alejo Carpentier; Manuel Pedro Pacavira; Cuban literature; Angolan literature

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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GRONDIN, Marcelo. Haiti: Cultura, poder e desenvolvimento. São Paulo, Brasiliense,1985.

Notas e Referência

1 Mestre em Letras pela UNESP - Universidade Estadual Paulista - Doutoranda em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa - FFLCH - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP - Universidade de São Paulo - Orientadora: Profa. Dra. Tania Celestino de Macêdo.

2 D. Paulo Dias de Novais, fidalgo da Casa Real de Portugal, neto do navegador Bartolomeu Dias.

3 Essa era a forma usada pelo rei de Angola para chamar D. Catheryna, a Rainha viúva.

4 PAULO VI, L' Observatore Romano. Ed. Semanal em Português, 7 de janeiro de 1973, p. 8.

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