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A Palavra na Literatura Angolana

Escrito por  Isabelita Maria Crosariol
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Este artigo discute a importância da palavra em Angola, principalmente da palavra literária, não apenas como forma de revelação social e individual, mas também como elemento fundamental para o surgimento de uma nação.

Este artigo discute a importância da palavra em Angola, principalmente da palavra literária, não apenas como forma de revelação social e individual, mas também como elemento fundamental para o surgimento de uma nação.

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Aquilo que eu sei

alguém mo legou.

Pai Palavra

Mãe Palavra

Palavra anterior

vem e transforma já o meu futuro.

Ruy Duarte de Carvalho

A palavra correspondeu a uma grande conquista da humanidade que possibilitou ao homem interagir com a natureza, individualizar cada novo objeto fabricado, transmitir novos saberes, integrar-se socialmente. Assim, ao mesmo tempo em que o homem se tornou capaz de organizar seu discurso, o mundo e a si mesmo, ao transformar desejos e frustrações em palavra, percebeu o poder e a magia existentes no emprego desse signo. Por todos esses motivos, é possível afirmar que também em Angola a palavra desempenha um papel importante como meio revelador do coletivo e do individual, pois já em todo o continente africano a palavra é responsável por preencher os vazios trazidos com o preconceito, a pobreza e a dominação, uma vez que empregando a palavra o homem se sente capaz de lidar com a ausência do ser, do ter, e com a ausência dos que partiram.

Padilha (1997, p. 144) comenta que "as artimanhas da palavra africana criam, no imaginário negro, uma espécie de festa de recomposição cosmogônica onde se encontram e se retroalimentam o tangível e o intangível, o presente e o passado, o visível e o invisível, a vida e a morte". Logo, a palavra torna-se um signo capaz, não só de condensar as dicotomias oriundas do conflito entre colonizador e colonizado, mas também de resolvê-las.

Partindo do conceito de Complexo de Édipo desenvolvido por Freud, pode-se mencionar que em Angola a palavra foi a arma necessária no processo de matar o pai (Portugal) para que o povo angolano pudesse desposar a mãe Angola. No entanto, ao mesmo tempo em que atuou como arma, a palavra funcionou como uma aliança, como símbolo da união indissolúvel entre o povo e o país. Da mesma forma que os colonizadores europeus empregaram as suas palavras e a sua língua para transmitir as suas verdades, foi justamente por meio da palavra que a realidade angolana começou a ser redesenhada. A língua portuguesa que, ao ser empregada pelos colonizadores, foi instrumento de dominação, transformou-se em instrumento de luta e de libertação ao ser empregada pelos colonizados. Logo, é possível perceber em Angola não apenas a capacidade mágica e criadora da palavra, mas também sua função como arma empregada na luta contra a dominação portuguesa e em favor da igualdade de direitos e deveres entre todos os membros da futura nação:

Trazida com os tiros, a escrita corresponderá a uma espécie de ruptura que será convertida em nova forma de sentir e dizer. Transformando-se em forma de presentificar experiências e organizar o real, a palavra vai sendo trabalhada no sentido de preencher o vazio entre o homem e o mundo, agora redimensionado, nessa nova etapa do processo chamado civilizatório. (CHAVES, 1999, p. 20)

Coelho (2004) menciona que os grandes acontecimentos que mudaram o rumo da história dos homens ou de um povo se eternizam no tempo ao serem transformados em Palavra (ou em Arte), ou seja, em Memória ou Mito. Assim sendo, por meio do emprego da palavra literária, foi trazida à tona a possibilidade de se eternizar na arte como beleza ou emoção do horrível todos os fenômenos contraditórios ocorridos em Angola no processo de luta pela independência.

A produção literária de Angola muitas vezes traz com grande realismo a imagem do preconceito, da dor causada pelos castigos corporais, do sofrimento pela morte dos entes queridos, da exclusão social. Entretanto, essas imagens, por mais tristes ou horríveis que possam parecer, são revestidas pela beleza que freqüentemente permeia as grandes obras artísticas. A exposição via literatura dos fatos, segundo a perspectiva do colonizado, ao trazer essa emoção do horrível para o leitor, correspondeu a uma forma de se responder, de uma forma civilizada, a todas as ofensas, privações e castigos sofridos pelo povo de Angola. Era uma forma de os angolanos mostrarem que estavam adaptados aos valores da cultura e da civilização, sendo capazes de agir, até mesmo, de uma forma mais civilizada e coerente com os valores sociais que os próprios colonizadores, pois:

Se escreviam e publicavam não poderiam, com efeito, receber o tratamento desumanizador que a voz colonial preconizava. E, apesar da alusão ao "diminutíssimo grau de educação literária", destaca-se na redação dos textos coligidos, um aplicado respeito às normas gramaticais da língua portuguesa. Com tal apuro, certamente, os redatores defendiam-se, por antecipação, de outras acusações que a violência colonial lhe poderia imputar. (CHAVES, 1999, p. 41)

Dessa forma, foi empregando a palavra literária que os escritores, inicialmente nos jornais, folhetins e revistas, viram impressos, juntamente com as notícias do país, seus poemas, suas crônicas e outros textos em prosa. Alimentados pelo desassossego e pela inquietação frente a uma realidade que precisa ser mudada, os escritores recorreram à literatura no processo de redescobrir o país para redesenhá-lo, uma vez que "inserido entre os cantos de uma sociedade tão dividida, o escritor acaba por se transformar num ser cortado por contradições das quais a sua obra será a maior expressão" (CHAVES, 1999, p. 49). Matando o pai (Portugal) para eleger o pai ideal (o Brasil - visto pelos angolanos como o exemplo de país vitorioso, que se libertou do jugo da pátria lusitana), a literatura angolana, a partir do século XX, contribuiu para consolidar as rupturas que vinham sendo formuladas desde o século anterior.

Se anteriormente a leitura de obras de escritores portugueses (Camões, Camilo) era incentivada em Angola para funcionar como instrumento ideológico do estado colonial que, ao expor a paixão da portugalidade espalhada pelo mundo, também acentuava a legitimidade da visão dominadora e civilizadora dos colonizadores, a partir dos textos literários escritos de acordo com uma mentalidade angolana - e inspirados em determinados momentos na literatura brasileira -, tornou-se possível fortalecer e disseminar uma ideologia que priorizava os aspectos de uma nação prestes a surgir.

Articulada com outras forças, a palavra literária desempenhou em Angola um importante papel na superação do estatuto de colônia. Presente nas campanhas libertadoras foi responsável por ecoar o grito de liberdade de uma nação por muito tempo silenciado, mas nunca esquecido.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHAVES, Rita. A formação do romance angolano. São Paulo: Bartira, 1999.

COELHO, Nelly Novaes. "A guerra colonial no espaço romanesco" in Via Atlântica. São Paulo: Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH-USP, v.7, p.121-30, 2004.

PADILHA, Laura Cavalcante. "Reconversões" in Via Atlântica. São Paulo: Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH-USP, v.1, p.142-52, 1997.

Sobre a Autora:

Isabelita Maria Crosariol é professora da Rede Estadual de São Paulo. Formada em Letras (Português/ Inglês) é Especialista em Literatura pela Universidade de Taubaté, e Mestranda em Literatura Portuguesa pela PUC-Rio. Suas pesquisas são voltadas para obras da Literatura Contemporânea de Portugal, bem como para obras e escritores das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. E-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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