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Os Intelectuais e a Revolução: Uma Análise de Personagens de Érico Veríssimo e Pepetela

Escrito por  Donizeth Aparecido dos Santos
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RESUMO: Este texto apresenta uma análise do posicionamento sociopolítico das personagens Pablo Ortega, de O senhor embaixador (1965), de Erico Veríssimo, Sem Medo, de Mayombe (1982) e Anibal, de A geração da utopia(2000), de Pepetela, à luz das teorizações de Jean-Paul Sartre (1994) e Edward Said (2005) sobre a função social dos intelectuais.

ABSTRACT: This paper presents an analysis of the socio-political position of the characters Pablo Ortega, in O senhor embaixador (1965), by Erico Veríssimo, Sem Medo, and Mayombe (1982) in A geração da utopia (2000), both by Pepetela from the light of Jean - Paul Sartre and Edward Said’s (2005) theory about the social function of inttelectuals.

PALAVRAS-CHAVE: Literaturas de língua portuguesa; Intelectuais, Engajamento.

KEYWORDS: Literatures in Portuguese language; Intellectuals; Engagement. Érico Veríssimo, no segundo volume de Solo de Clarineta (1976),ao falar do processo de criação de O senhor embaixador (1965), afirmou que um dos propósitos do romance era mexer com um problema que sempre o preocupou: "a participação do intelectual na política militante e, mais especificamente, numa revolução de caráter violento". Dessa forma, o intelectual Pablo Ortega, de O senhor embaixador, que após um período de hesitação toma parte na revolução da fictícia República de Sacramento, representa uma evolução do pensamento do escritor sobre a questão do engajamento ou não do intelectual, já que nessa obra rompe-se com a postura do intelectual hesitante e apolítico de outros romances, fazendo surgir a figura do homem de pensamento que se torna um homem de ação, quando a necessidade histórica e política exige.

Pablo Ortega, um intelectual que não gosta de ser considerado como tal, é filho de uma tradicional família burguesa de Sacramento e trabalha como secretário da embaixada de seu país em Washington. Vive em contradição consigo mesmo, conforme o modelo de intelectual de Jean-Paul Sartre (1994), angustiado por servir um governo corrupto e totalitário tendo, inclusive, mordomias por parte desse governo, enquanto que a imensa maioria da população sacramentenha vive em estado de miséria, analfabetismo e doença. Segundo Daniel Fresnot (1977, p.36), "a história de Sacramento parece resumir todos os aspectos negativos da conturbada vida social e política da América Latina" dos anos 50 a 70, opinião compartilhada também por Joaquim Rodriguez Suro (1985, p.209) para quem essa República é um "compêndio das republicas latino-americanas". Um dos fatos constrangedores que Pablo precisa enfrentar é quando, no seu papel de diplomata, tem que defender um regime que ele abomina:

E o pior... são essas minhas conferências em clubes e universidades em que sou obrigado a contar meias-verdades ou mentiras inteiras sobre o meu país, para manter a ficção de que somos uma democracia. Isso tudo me rebaixa a meus próprios olhos. (VERISSIMO, 1965, p.8).

Esse trecho, além de confirmar Pablo como um homemcontradição, endossa as palavras de Edward Said (2005, p.90) de que o hesitação: o misterioso desaparecimento do amigo Leonardo Gris2 e o desembarque de tropas revolucionárias nos arredores de Soledad del Mar, cidade litorânea da República de Sacramento. Ao saber do desaparecimento de Gris, Pablo finalmente toma a decisão de se demitir do serviço diplomático. Abaixo transcrevemos o trecho em que comunica sua decisão ao embaixador Gabriel Heliodoro:

- Comunico-lhe que acabo de telegrafar ao Ministério do Exterior, pedindo minha demissão do serviço diplomático, em caráter irrevogável. O Embaixador ficou por um instante em silêncio, pensativo, olhando para as próprias mãos. Depois perguntou: - Por quê? - Quer mesmo saber? - É lógico. Pablo engoliu em seco, cerrou os punhos e disse: - É porque não posso continuar a servir um governo de assassinos e ladrões. (VERISSIMO, 1965, p.285)

Desse modo, conforme observação de Guilhermino César (apud CHAVES, 1972, p.58), Pablo, num lance de crua sinceridade, joga pela janela fora uma situação social invejável, sacrificando tudo para ficar bem consigo mesmo. Essa atitude se enquadra na análise que Edward Said (2005, p.23) faz da definição de intelectual de Julien Benda, conceituando-o como "alguém capaz de falar a verdade ao poder, um indivíduo ríspido, eloqüente, fantasticamente corajoso e revoltado, para quem nenhum poder do mundo é demasiado grande e imponente para ser criticado e questionado de forma incisiva." Após seu desligamento do serviço diplomático e ao tomar conhecimento da eclosão do movimento revolucionário em Sacramento, Pablo não teve dúvida que seu lugar era ao lado do povo e dos revolucionários.

Quando Pablo Ortega leu nos jornais a notícia do primeiro desembarque de tropas rebeldes nos arredores de Soledad del Mar, compreendeu que uma nova porta se lhe abria e que seu destino agora estava claro. Não lhe restava outra alternativa senão juntar-se às forças de Miguel Barrios. Várias imagens e vozes em seus pensamentos apontavam-lhe o caminho da Revolução. Decidiu não pensar mais no estado do coração do pai, e começou a preparar-se para partir. Estudou os caminhos mais seguros para chegar à Serra. (VERISSIMO, 1965, p.301)

Segundo Daniel Fresnot (1977, p.38), a decisão tomada por Pablo foi a procura realista de agir em função de sua consciência. E esse seu engajamento extremo e total foi fruto do conhecimento que possuía da realidade de seu país e da clara consciência de que era impossível permanecer inativo diante dessa realidade. No entanto, após juntar-se aos revolucionários começam a surgir divergências entre ele e Roberto Valencia, o braço direito de Miguel Barrios, em razão de Pablo ser um intelectual, filho de latifundiário e um ex-diplomata do governo do ditador Juventino Carrera. Assim, desde o primeiro dia, ele fica sob a suspeita de Valencia, que o acusa de ser um intelectual pequeno burguês que não estava preparado, nem física nem psicologicamente para a ação revolucionária:

Ele me acusou de ser um indeciso, um intelectual que procura oimpossível meio-termo, obcecado por um sentimento de culpa mais mitológico que real. 'Afinal de contas (perguntou ele) você quer libertar seu povo da tirania e da miséria ou quer apenas apaziguar sua consciência de individuo?’ Fiquei furioso porque o diabo do homem havia tocado no nervo vivo do meu problema. Procurou me convencer que o meio-termo não leva a parte nenhuma, pois a História tem provado que só a violência pode partejar as grandes mudanças sociais. (VERISSIMO, 1965,p.331)

Questionado por seu amigo William B. Godkin, um jornalista norte-americano especialista em política latino-americana, sobre o que pretendia fazer, Pablo responde-lhe que continuaria, iria até o fim. Seria um espinho no flanco de Valencia, mas sempre fiel à revolução. Não faria como muitos intelectuais que, em situações como aquela, recuam, ressentidos, e começam uma contra-revolução. Como se não bastasse a desconfiança de Valencia, Pablo também enfrenta problemas com a mãe, que o acusa de ser responsável pela morte do pai, logo no início da revolução quando ele aderiu aos revolucionários. Ele comenta com Godkin como a estação de rádio oficial noticiou o assunto:

Fizeram um grande ruído em torno da morte de Don Dionísio, dum colapso cardíaco. Disseram claramente que foi vitimado pelo desgosto de me ver com a 'canalha revolucionária'. Entrevistaram minha mãe, fizeram a velha gravar uma entrevista na qual confirmava a causa da morte do marido, chamava-me de assassino e declarava que não me queria ver nunca mais...(VERISSIMO, 1965, p.323)

Pablo é considerado traidor pela sua própria família e pela classe social a que pertence, e também é tratado com desdém e desconfiança por Valencia. Aqui é pertinente invocarmos novamente Jean-Paul Sartre para comentar essa situação contraditória vivida pelo intelectual:

Ele não tem mandato de ninguém: suspeito às classes trabalhadoras, traidor para as classes dominantes, recusando sua classe sem jamais poder se livrar totalmente dela, até nos partidos populares ele reencontra, modificadas e aprofundadas, suas contradições; até nesses partidos, se neles entrar, ele se sente ao mesmo tempo solidário e excluído, já que ali continua em conflito latente com o poder político: inassimilável em todos os lugares. Sua própria classe não o quer, assim como ele não a quer, mas nenhuma outra classe se abre para acolhê-lo. (SARTRE, 1994, p.51)

Instalado o governo revolucionário, a situação entre Pablo e Valencia torna-se ainda mais tensa. Pablo solicita a Barrios para ser o advogado de defesa de Gabriel Heliodoro, situação que o coloca em confronto público com Valencia, o promotor de acusação. A permissão de Barrios vem acompanhada de um alerta que esse gesto pode lhe ser prejudicial e que a posição dele dentro do movimento pode ficar consideravelmente enfraquecida e que ninguém compreenderá essa atitude.

Como era esperado, Gabriel Heliodoro foi condenado à morte por fuzilamento e Pablo, mesmo desiludido com os rumos que a revolução tomava, podendo transformar-se numa nova ditadura, percebe "que a luta para ele não terminara com a tomada do poder" (FRESNOT, 1977, p.33), e que num futuro próximo ele poderia ser obrigado a procurar asilo político em outro país.

Em Angola, as obras do romancista Pepetela apresentam intelectuais envolvidos ativamente no front da guerrilha angolana contra as forças portuguesas. Dentre eles estão o comandante Sem Medo, de Mayombe (1982) e Aníbal, de A geração da utopia (2000). Sem Medo é o comandante da Base do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) localizada na floresta do Mayombe, no período da guerra contra o exército colonial português. Ele é, conforme definição de Henrique Abranches (2002, p.63), um intelectual que conhece os valores que condicionam a luta e a nação em formação. Assim, ele pode ser classificado como um verdadeiro intelectual no sentido definido por Sartre (1994, p.40), como aquele que, sendo radical, mas nem por isso moralista ou idealista, sabe que a única paz válida em Angola custará lagrimas e sangue, e que ela começa com a retirada das tropas portuguesas e dos administradores coloniais do território angolano.

Sem Medo vive intensamente a guerrilha, passando a impressão de ser um homem sem passado e sem futuro. Do passado sabemos que viveu um período na Europa, abandonou o curso de Economia em 1964 para se engajar na luta anticolonial, e teve um caso amoroso que lhe deixou algumas marcas. Do futuro nada espera, nem mesmo um lugar dentro da nação que luta para construir. Age, em todos os momentos, guiado pela própria consciência. "Consciência política, consciência das necessidades do povo" (PEPETELA, 1982, p.11), conforme a reflexão do guerrilheiro Teoria.

Em meio aos conflitos que surgem dentro do grupo que comanda, Sem Medo age como um conciliador que busca a unidade do grupo, como uma metáfora da unidade nacional. Agindo dessa forma, ou seja, ao tentar forjar uma identidade na diferença, ele cumpre o seu papel de intelectual, que, segundo Edward Said (2005, p.41) é ajudar uma comunidade nacional a sentir uma identidade comum, e em grau muito elevado. Desse modo, ele procura solucionar o problema fundamental que é encontrar meios de reconciliar a sua identidade e as realidades da própria cultura, sociedade e história com outras identidades, culturas e povos (SAID, 2005, p. 96). Assim, procura unir os guerrilheiros de etnias diferentes em torno de um objetivo único que é a independência de Angola. De acordo com Marina Ruivo, Sem Medo, Aos 35 anos, é um homem irreverente, que busca acercar-se do segredo de cada guerrilheiro, compreendê-los em sua diversidade, desfiando os rótulos com que são enquadrados os seres humanos. Procura considerar a diversidade das pessoas, as individualidades, as particularidades, relativizando o mundo e as coisas. (RUIVO, 2002, p.274-275)

Mas essa postura conciliadora e de respeito a diferença não quer dizer que ele seja uma unanimidade dentro do grupo. Pelo contrário, apesar de respeitado por todos e admirado por muitos, é criticado por outros pelo fato de ser kikongo e intelectual. Vejamos, como exemplo, a crítica feita a ele por dois guerrilheiros da Base. Para Mundo Novo:

O Comandante não passa, no fundo, dum diletamente pequenoburguês,com rasgos anarquistas /.../ O futuro ver-me-á, pois, apoiar os elementos proletários contra este intelectual que, à força de arriscar a vida por razões subjetivas, subiu a comandante. A guerra está declarada.(PEPETELA, 1982, p.110-111)

E para o Chefe de Operações:

Ele é um intelectual, eu um filho de camponês. /.../ Mas Sem Medo é um homem. Quando combate, tem o mesmo ódio ao inimigo que eu. As razões são diferentes; mas os gestos são os mesmos. Por isso o sigo no combate. O mal é ser um intelectual, é esse o mal: nunca poderá compreender o povo. (PEPETELA, 1982, p.231)

Desse modo, Sem Medo se ajusta também naquilo que Sartre (1994, p.51) afirmou sobre os intelectuais, de que eles são suspeitos às classes trabalhadoras e traidor para as classes dominantes, tentando recusar sua classe sem conseguir alcançar o seu intento. Na concepção do Chefe do Depósito, ele "fala como age" (1982, p.204), e é dessa forma, na transformação do seu discurso (pensamento) em ação, que ele demoli a resistência daqueles que insistiam em não reconhecer seu valor como homem, guerrilheiro e líder, que se mostra tanto no pensamento quanto na ação. A narração do Chefe de Operações mostranos o modo como Sem Medo conquistou o grupo:

Os guerrilheiros perceberam e admiraram Sem Medo. Os guerrilheiros, na reunião, elogiaram o comandante pela rapidez com que atuou e pela coragem que deu aos próprios civis. Elogio justo. Eu próprio apoiei. Ele é assim: quando há que defender um camarada, esquece tudo e atira-se para a frente. /.../ Hoje, Sem Medo ganhou o apoio dos guerrilheiros da Base e dos de Dolisie. Não se fala outra coisa, só se fala do Comandante. Esqueceram que ele é Kikongo, só vêem que ele é um grande Comandante. Se todos assim pensam, sobretudo o Chefe do Depósito que já é um mais velho, talvez então seja verdade. Começo a pensar que fomos injustos para ele. É um intelectual. O povo só o compreende quando ele se explica pela ação. E de que maneira se explicou, sukua! (PEPETELA,1982, p.244)

E Sem Medo, sendo um intelectual, não apenas luta pela libertação de Angola, mas também questiona junto aos seus camaradas os objetivos da revolução e o futuro da nação depois de libertada. Assim, ele cumpre uma das funções do intelectual engajado na luta anticolonial, conforme afirmação de Edward Said, embasado em um comentário de Frantz Fanon sobre a guerra de libertação da Argélia:

Não basta que o intelectual participe do coro de vozes consensuais do anticolonialismo corporificado no partido e na liderança. Esse simples alinhamento não é suficiente. Há sempre a questão do objetivo, que, mesmo no auge da batalha, implica a análise das escolhas. Será que lutamos apenas para nos livrarmos do colonialismo (um objetivo necessário), ou estamos pensando no que vamos fazer quando o último policial branco for embora? Segundo Fanon, o objetivo do intelectual de uma nação ou povo subjugado não pode ser simplesmente substituir o policial branco pelo seu correspondente nativo, mas, antes, o que ele denominou, citando Aimé Césaire, inventar novas almas. Em outras palavras, embora haja valor inestimável no que o intelectual faz para assegurar a sobrevivência da sua comunidade durante períodos de extrema emergência nacional, a lealdade à luta do grupo pela sobrevivência não pode envolvê-lo a ponto de anestesiar seu senso crítico ou reduzir seus imperativos.(SAID, 2005, p.50)

Nesse sentido, em uma conversa com João, o Comissário Político, Sem Medo expõe o seu ponto de vista sobre o que virá depois da expulsão das tropas portuguesas do território angolano. Para ele, o socialismo pregado pelo movimento a que pertence não é obra de um dia ou da vontade de mil homens e pode levar de 30 a 50 anos para ser construído, e ao cabo de 5 cinco anos o povo começará a questionar o sistema que lhe prometeu e não conseguiu acabar com as injustiças sociais. Sem Medo expressa uma visão dialética dos problemas que afetarão o Estado angolano, pois para ele, não se pode escapar deles e não há outro meio de combatê-los.

O comandante afirma ao Comissário Político que é uma grande mentira falar sobre um governo do povo, que este será senhor da nação, quando, na verdade, uns poucos, melhores dotados politicamente e intelectualmente governarão em nome do povo:

Porque é demagogia dizer que o proletariado tomará o poder. Quem toma o poder é um pequeno grupo de homens, na melhor das hipóteses, representando o proletariado ou querendo representá-lo. A mentira começa quando se diz que o proletariado tomou o poder. Para fazer parte da equipe dirigente, é preciso ter uma razoável formação política e cultural. (PEPETELA, 1982,p.123)

Para Sem Medo, deve-se dizer ao povo que o Partido é comandado por intelectuais revolucionários que procuram fazer uma política a favor dele, e não mentir a ele, fazendo-o perceber que não participa e muito menos controla o Partido e o Estado, gerando o princípio da desmotivação que leva à desmobilização. No entanto, como todo intelectual que carrega dentro de si o germe da contradição, ele sabe que o único caminho a seguir é este que estão seguindo: o da revolução:

O que estamos a fazer é a única coisa que devemos fazer. Tentar tornar o país independente, completamente independente, é a única via possível e humana. Para isso, têm de se criar estruturas socialistas, estou de acordo. Nacionalização das minas, reforma agrária, nacionalização dos bancos, do comercio exterior, etc., etc! Sei disso, é a única solução. E ao fim de certo tempo, logo que não haja muitos erros nem muitos desvios de fundos, o nível de vida subirá, também não é preciso muito para que ele suba. É sem duvida um progresso, até aí estamos de acordo, não vale a pena discutir. Mas não chamemos socialismo, porque não é forçosamente. Não chamemos Estado proletário, porque não é. Desmistifiquemos os nomes. Acabemos com o feiticismo dos rótulos. Democracia nada, porque não haverá democracia, haverá necessariamente, fatalmente, uma ditadura sobre o povo. Ela pode ser necessária, não sei. Outra via não encontro, mas não é o ideal, é tudo o que eu sei. (PEPETELA,1982, p.124)

Por isso, coerente consigo mesmo e fiel a sua contradição deintelectual, mesmo sabendo que não chegarão ao "paraíso prometido", que a sua luta não produzirá os frutos desejados, ele não recua e continua firme no combate para libertar a nação. Quando isso acontecer o seu papel estará terminado também, pois, em razão de suas convicções pessoais, ele simplesmente não se vê em uma Angola independente, o que não o "impede de lutar por essa independência." (PEPETELA, 1982, p.126)

Dessa forma, a sua morte em combate na floresta do Mayombe, conforme atesta o seu amigo Comissário Político, "resolveu o seu problema fundamental: para se manter ele próprio, teria de ficar ali, no Mayombe". (PEPETELA, 1982, p.168)

Sem Medo não sobreviveu para ver Angola independente e a concretização de suas piores previsões. No entanto, uma outra personagem de Pepetela, o Aníbal, de A geração da utopia (2000), vai viver a decepção que lhe foi poupada.

Aníbal, um angolano formado em Filosofia em Lisboa, a exemplo de Sem Medo, lutou desde o início da guerra colonial contra os portugueses. No entanto, em 1977, dois anos após a independência de Angola, desencantado com os rumos que o governo revolucionário tomou, deixa o exército angolano e vai morar numa casa à beira mar, a 20 km da cidade de Benguela:

...em 1977, quando ele foi a Luanda resolver o diferendo que o opunha à direção do exército e pedir a reforma. Não lhe deram reforma, nem havia lei para isso, mas deixaram-no sair do exército, ele era incômodo. Tinha direito a uma pensão alimentar, apenas. (PEPETELA, 2000, p.237).

Ele é um intelectual que, conforme Sartre (1994), mete-se no que "não é da sua conta", tornando-se um monstro para o poder constituído. Aníbal também é um exemplo de intelectual dissonante que segundo Said (2005, p.60) são "indivíduos em conflito com sua sociedade e, em conseqüência, inconformados e exilados no que se refere aos privilégios, ao poder e às honrarias". Ele joga fora o seu posto no exército por não concordar com os métodos administrativos do governo angolano e completamente desiludido vai viver isolado, sendo considerado um louco por muitos. "E condenam-me porque mandei tudo para o ar, não quis carros, casas, ou várias mulheres, como eles têm, possuidores dum apetite voraz, insaciável" (PEPETELA, 2000, p-241). No reencontro com sua amiga Sara em 1982, ela lembra um comentário que Marta fez quando ele saiu de Lisboa:

- Faz-me lembrar a Marta. Depois de tu saíres de Portugal, a Marta disse que tu só tinhas dois caminhos, ou morrer na guerra, o que seria o melhor pra ti, ou desencantares-te. Adivinhou. Porque perseguias um sonho utópico de revolução. Afinal desiludiste-te mesmo. (PEPETELA, 2000, p.240)

Aníbal responde a Sara: "Eu morri e desencantei-me. Os dois caminhos num só" (Ibid.), e depois comenta a utopia da sua geração, que a seu ver deveria ser chamada "a geração da utopia". Ele tece um comentário duro sobre o que foram e o que hoje são, lamentando a degradação ética e moral ocorrida mesmo antes de chegarem poder:

Pensávamos que íamos construir uma sociedade justa, sem diferenças, sem privilégios, sem perseguições, uma comunidade de interesses e pensamentos, o Paraíso dos cristãos, em suma. A um momento dado, mesmo que muito breve nalguns casos, fomos puros, desinteressados, só pensando no povo e lutando por ele. E depois...tudo se adulterou, tudo apodreceu, muito antes de se chegar ao poder. Quando as pessoas se aperceberam que mais cedo ou mais tarde era inevitável chegarem ao poder. Cada um começou a preparar as bases de lançamento para esse poder, a defender posições particulares, egoístas. A utopia morreu. E hoje cheira mal, como qualquer corpo em putrefacção.

Dela só resta um discurso vazio. (PEPETELA, 2000, p.240) A postura de Aníbal, em razão de seu corte radical com o sistema a que pertencia e seu exílio voluntário, incomoda e causa estranheza até mesmo a Sara. Edward Said comenta o exílio a que o intelectual se submete ou é submetido: "Para o intelectual, o exílio nesse sentido metafísico é o desassossego, o movimento, a condição de estar sempre irrequieto e causar inquietação nos outros" (2005, p.60). Célia Regina Marinangelo, analisando a reclusão e a desilusão da personagem, afirma:

A baia paradisíaca foi escolhida como moradia e refúgio por Aníbal que, nesse momento, vive toda a plenitude de sua decepção. Impõe a si mesmo a reclusão, mas não se aliena dos problemas e miséria que o cercam. Sente-se, no entanto, desiludido e impotente frente aos rumos políticos e sociais que o actual sistema de governo imprimiu em Angola. (MARINANGELO, 2002, p.315)

Embora incompreendido e considerado louco por seu rompimento com o governo angolano, Aníbal é a personagem mais lúcida do romance. Indagado por Orlando, namorado de Judite, filha de Sara, se não pensava em ter uma atividade política, ele, ironicamente, faz uma análise que põe a descoberto o sistema político de países pobres ou subdesenvolvidos.

Para dizer a verdade, tinha vontade de criar o MMP, Movimento dos Marginalizados do Processo. Como único programa, ser oposição ao futuro governo eleito, qualquer que seja. Porque marginalizados só podem ser oposição, nunca ganham eleições, mesmo sendo a esmagadora maioria da população. Se por um azar o Movimento conseguisse ter a maioria dos votos, o que correspondia a uma impressionante tomada de consciência do povo, dissolvia-se automaticamente para não ser corrompido pelo uso do poder. Mas como bom intelectual angolano, não tenho capacidade para pôr em prática essa bela idéia. (PEPETELA, 2000, p.366)

A análise cética e irônica de Aníbal toca no nervo da questão: o poder corrompe e para se manter puro só mesmo rompendo com ele, atestando a condenação solitária do intelectual que, segundo Said (2005, p.17), é "sempre melhor do que uma tolerância gregária para com o estado das coisas", não sendo, portanto, alguém que pode ser facilmente cooptado por governos. Ao tomar conhecimento de si mesmo e da sociedade que o cerca, ele assume a sua condição de intelectual, de homem-contradição.

Sem Medo dizia que não se via em Angola depois da independência. A sua morte, como já afirmamos, poupou-o de ver as suas previsões se realizarem. Aníbal teve outro destino, sobreviveu à guerra para ver a morte da utopia e se ver como um indivíduo que também não tem lugar na nação que ele lutou para construir. As três personagens analisadas, Pablo, Sem Medo e Aníbal, apesar de suas diferenças étnicas e geográficas, possuem muitas características em comum, pois além de serem produtos de uma formação ocidental, estão assentadas ficcionalmente num período histórico, as décadas de 50 e 60, em que África e América Latina enfrentavam problemas similares, guardadas as devidas proporções. A primeira tentava se libertar do colonialismo europeu e a segunda, embora já tivesse passado por essa fase, não conseguia fugir das garras de regimes totalitários e do imperialismo norte-americano. Dessa forma, esses intelectuais conviviam com a miséria de seus povos e com a opressão causadas por governos autoritários de extrema-direita. Nesse período histórico da Guerra Fria, no qual o mundo passava por vários confrontos (de ideologias, de poder e de valores) e o processo de descolonização na África e na Ásia marchava de forma irreversível, não havia espaço para dúvida: era necessário tomar uma posição perante a realidade, e assim o intelectual que vivia sob a opressão de um regime colonial ou de um governo independente autoritário, via-se na obrigação de se engajar e lutar pela liberdade.

Mas, por ser intelectual, comprometido com liberdade e dotado de poder de reflexão, o seu engajamento é conflituoso. Pablo tem divergências ideológicas dentro do movimento revolucionário, que se agravam ainda mais depois da tomada do poder. Ele tem plena consciência de que se transformará num incômodo. Sem Medo tem uma visão profética do que poderá acontecer depois da libertação de Angola, e mesmo sabendo que não terá lugar nesse novo tempo não fraqueja um instante durante a luta. O mesmo fez Pablo durante a revolução em Sacramento. Já Aníbal, além de passar por todos esses problemas e contradições que afligem os intelectuais engajados, presencia aquilo que os outros dois suspeitavam e temiam: a desilusão diante dos desvios de rumo tomados pela revolução.

Dessa forma, embora haja entre Pablo Ortega, Sem Medo e Aníbal algumas diferenças, as suas posturas político-ideológicas diante de revolução armada convergem, quando levamos em conta a condição do intelectual que vive guiado pela sua consciência e pelos problemas sociais de seu povo.

Referências Bibliográficas

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CESAR, Guilhermino. O romance social de Erico Veríssimo. In: CHAVES, Flávio Loureiro (org.). O contador de histórias: 40 anos de vida literária de Erico Verissimo. Porto Alegre: Globo, 1972, p. 52-70.

FRESNOT, Daniel. O pensamento político de Erico Veríssimo. Rio de Janeiro: Edições do Graal, 1977.

MARINANGELO, Célia Regina. A geração da utopia: a lição do mar. In: CHAVES, Rita; MACEDO, Tania (orgs.). Portanto... Pepetela. Luanda: Edições Chá de Caxinde, 2002, p. 311-317.

PEPETELA. A geração da utopia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. _____. Mayombe. São Paulo: Ática, 1982.

RUIVO, Marina. Mayombe: Angola entre passado e futuro. In: CHAVES, Rita; MACEDO, Tania (orgs.). Portanto... Pepetela. Luanda: Edições Chá de Caxinde, 2002, p. 273-280.

SAID, Edward. Representações do intelectual: as Conferências Reith de 1993. Trad. Milton Hatoum. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SARTRE, Jean-Paul. Em defesa dos intelectuais. Trad. Sérgio Góes de Paula.São Paulo: Ática, 1994.

SURO, Joaquim Rodriguez. Erico Veríssimo: história e literatura. Porto Alegre: D.C. Luzzatto Editores, 1985.

VERISSIMO, Erico. O senhor embaixador. Porto Alegre: Globo, 1965.

Solo de clarineta: memórias. 2 volume. CHAVES, Flávio Loureiro (org.) Porto Alegre: Globo, 1976.

Notas

1 Doutorando em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. Universidade de São Paulo (USP). E-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. .

2 Intelectual sacramentenho exilado nos Estados Unidos e desafeto do ditador Juventino Carrera.

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