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As Marcas da Matriz Africana na Actualidade

Escrito por  Jurema José de Oliveira
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O tempo é de lembrar e narrar histórias que recuperam as marcas da africanidade. Segundo Benjamim, traçar o perfil de um narrador não significa aproximá-lo do ouvinte, mais distanciá-lo deste. Os elementos que definem o narrador podem surgir de diversas formas, tais como: um rosto humano ou corpo de animal presente num rochedo.

O tempo é de lembrar e narrar histórias que recuperam as marcas da africanidade. Segundo Benjamim, traçar o perfil de um narrador não significa aproximá-lo do ouvinte, mais distanciá-lo deste. Os elementos que definem o narrador podem surgir de diversas formas, tais como: um rosto humano ou corpo de animal presente num rochedo. Esse afastamento é consequência da impossibilidade de o homem moderno narrar fatos passados, acontecimentos, ou situações vividas ao longo de sua vida, sendo assim, a "arte de narrar está em vias de extinção" (Benjamin, walter, p. 197).

O narrador tem como matéria-prima trabalhar a experiência que passa de pessoa a pessoa e, para continuar passando-a, ele necessita de uma distância tanto temporal como espacial. Assim, os representantes arcaicos dos verdadeiros narradores são os camponeses sedentários (histórias do próprio país) e os marinheiros comerciantes (histórias de outras terras). Os contadores de histórias trazem à tona dilemas humanos com o intuito de construir uma imagem positiva do negro. Os personagens das histórias que serão estudados aqui são dotados de habilidades que lhes permitem pensar e reflectir acerca de diferentes conteúdos. Eles conhecem suas origens, e trazer à tona a memória passada "como força subjectiva ao mesmo tempo profunda e activa, latente e penetrante, oculta e inovadora" (Bosi, Ecléa, p.9) para recuperar ficcionalmente uma visibilidade dos agentes que perpetuam no plano imaginário as histórias de homens e mulheres que contruíram para a formação da narrativa nacional.

Se a verdadeira narrativa tem, em linhas gerais, uma função utilitária, imbuída de reflexão crítica, de uma vivência, de uma norma de vida para tecer na substância viva da decorrente da ancestralidade, não se pode mais respaldar uma visão estereotipada produzida pela tese da 'cordialidade racial' pregada por Gilberto Freire em Casa grande e sanzala. Pressupõe-se, hoje, que o contador saiba desmitificar e abordar positivamente o personagem negro no universo literário.

A performance discursiva de autores comprometidos com a "arte de narrar" possibilita ao leitor estabelecer relações entre o livro e as observações da vida cotidiana. Essa junção pode conduzir a modificação de estereotipias sobre pessoas negras, pois põe em movimento interpretações diálogos que convida o leitor à reflexão. As crianças e os adolescentes são levados a conviver imaginariamente com perfis negros, alegres, bonitos e inteligentes, o que aumenta sua auto-estima. De acordo comPaul Zumthor, todas as sensações boas e ruins são sentidas pelo corpo conjunto de elementos que compõem a vida psíquica.

O corpo de que fala Zumthor enquanto imagem humana sofre as mais variadas pressões e enquanto corpo/texto passou por um processo de metamorfose na era contemporânea, pois a voz enunciativa do mesmo deixou de ser um conselheiro, como bem definiu Benjamin, para partilhar com seus leitores as dúvidas, as mazelas humanas, mas principalmente as experiências da vida diária. Algumas narrativas contemporâneas valorizam o imaginário de uma tradição distinta daquela inaugurada por Monteiro Lobato, que eternizou um estereótipo marcante da história literária brasileira.

Esta imagem estereotipada da contadora de histórias por muitos anos foi recuperada por escritores e escritoras que, impossibilita de visualizar o Outro sem a versão proveniente de um falso julgamento, reforçam com suas narrativas o racismo reinante no ideário colectivo, mas nesse cenário de falsa "democracia racial", surge uma produção literária negra que busca ligar o ontem e o hoje, as experiências antigas e as novas, unindo o fio de histórias que dão visibilidade à "arte de narrar". Num diálogo vigoroso, essas produções recuperam a matriz afro-brasileira do contador de histórias, que vem enriquecendo o imaginário colectivo de forma positiva. As vozes do passado, aquelas mitificadas por natureza que fundamentam imagisticamente o imaginário cultural, são recuperadas pelo narrador/contador que realimenta, permanentemente, via discurso literário as origens da nossa sociedade numa releitura crítica e agradável como forma de resistência aos parâmetros do mundo contemporâneo.

Os narradores de favela minha morada (1985) de Carlos Jorge, contos ao redor da fogueira (1990), Dingono, o pigmeu (1994) ambos de Rogério Andrade Barbosa, A cor da ternura (1991) de Geni Guimarães e Felicidade não tem cor (1994) de Júlio Emílio Braz não sabem falar dos sentimentos humanos mais íntimos e as porânea por meio das configurações inventivas da ficção, pois, se o centro da narrativa épica está na "moral da história", o centro em torno do qual se movimenta a enunciação infantil e juvenil da actualidade é o "sentido da vida", num mundo em que não há mais espaço para concelhos. O autor expõe a unidade da vida, ultrapassando os dualismos interiores e exteriores. O homem perdeu a harmonia com a natureza primordial, mas o escritor devolve a totalidade perdida, por intermédio de uma arte viva, entusiástica, apaixonada. Só conta uma história quem está disposto a viver uma vibração explosiva, transmitindo-a ao ouvinte ou ao auditório. Constata-se na actualidade um resgate do modelo invisível presente na memória, na evocação da tradição. Carlos Jorge dinamiza sua narrativa com fatos que se aproximam de relatos vivificantes, ligados às experiências particulares mas, também, a uma colectividade que reconhece em Favela minha morada. Essa história alimenta os sonhos do menino que vive no interior de cada membro da favela imaginária.

Favela minha morada é um texto autobiográfico e traz à tona um narrador conhecedor das histórias de sua comunidade que retira da memória o tom certo para rememorar um tempo festivo de fuga para um mundo de fantasia.

Numa linha discursiva semelhante de experiências vividas e imaginadas, destacam-se, também Contos ao redor da fogueira de Rogério Andrade Barbosa. De acordo com Camara Cascudo, o conto revela informações históricas, etnográficas, sociológicas, jurídicas e sociais, mentalidades, decisões, julgamentos e experiências. O escritor Rogério Andrade Barbosa, a partir de suas viagens imaginárias e da sua experiência como professor na Guiné-Bissau, evoca da memória a entonação certa para construir suas narrativas.

Em Dingono, o pigmeu, do mesmo autor, a voz da enunciação conta os efeitos de pequenos grandes homens, que vivem em comunhão com a selva, falam com as árvores e entendem os animais. Num trabalho cooperativo, os caçadores são capazes de abater um elefante, sem que isto represente um crime contra a natureza. A narrativa nos mostra o equilíbrio entre o homem e a natureza, recupera a visão mítica de "uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada [por meio] de perspectivas múltiplas e complementares" (Eliade. Mircea, p 11). O personagem central da narrativa é um adolescente que conhece a história de seus ancestrais.

Se a narrativa tradicional era desenvolvida num ambiente escolhido, com hora pré-determinada, os narradores contemporâneos criam novos ambientes e novas formas de promover as experiências comunicáveis, como aquelas vivenciadas por Geni, personagem de A cor da ternura. Este livro narra a história de efectividades, de experiências compartilhadas por uma família que encontra na esperança forças para conquistar dias melhores.

O livro de cunho autobiográfico recupera as primeiras lembranças de Geni, as vozes do passado e do presente, as viagens imaginárias da pequena Geni e o voo literário da mesma após romper com as amarras de um mundo que diferencia os homens pela cor da pele. O espaço privado, o familiar, constitui-se para Geni o alicerce para enfrentar as dificuldades encontradas no espaço público, nas relações escolares, na vida profissional, repleta de dúvidas e perguntas.

A perspectiva discursiva que corrobora a visão de mundo desenvolvido pela escritora Geni Guimarães intensifica a ideia de performance teoriza por Zumthor. Um acontecimento oral e gestual, que adquire na escrita literária o movimento necessário ao preenchimento das fissuras produzidas pela "memória-hábito", da vida diária, dos gestos repetitivos e sem emoção. Os fenómenos da vida adquirem um novo significado na encenação textual desta autora.

A encenação da memória-hábito pode ser percebida também, em Felicidade não tem cor de Júlio Emílio Braz. Num discurso dialógico com o fundador da literatura infantil no Brasil, Monteiro Lobato, Júlio Emílio Braz dinamiza sua narrativa de forma intertextual. Se a personagem Emília de Monteiro Lobato é uma boneca questionadora, irónica e debochada que menospreza a vivência, a sabedoria de Tia Anastácia, a narradora de Felicidade não tem cor, uma boneca preta, numa postura crítica reatualiza de forma positiva a matiz africana presente em nossa tradição cultural. Nesta obra, a voz da sabedoria em um ambiente cultural dicotómico denuncia a falsa "cordialidade racial" num contexto social heterogéneo que precisa reescrever a narrativa da nação.

Conclui-se, desta forma, que os sentidos num só, de que fala Carlos Drummond de Andrade no livro A rosa do Povo, podem ser depreendidos nas enunciações contemporâneas marcadas pelo desejo de restabelecer a unidade perdida para restituir a plenitude da vida e os sentidos da existência.

Referências bibliográficas:

1. BENJAMIM, Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura, 1989.

2. BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças dos velhos. São Peulo: EDUSP, 1994

3. ELIADE, Mircea. Mito e realidade. 2ed. São Paulo: Perspectiva, 1986.

4. ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: EDUC, 2000.

5. OLIVEIRA, Jurema José de. "Como a narrativa africana tece o presente recuperando o passado". In Revista Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, n.º 1, p.89-93, Agosto 1999.

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