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Erros que Matam 1

Escrito por  Jurema José de Oliveira
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O outro nunca é naturalmente outro: é preciso torná-lo outro seduzindo-o, tornando-o estranho a si mesmo, até destruindo se não houver outro meio .2

O outro nunca é naturalmente outro: é preciso torná-lo outro seduzindo-o, tornando-o estranho a si mesmo, até destruindo se não houver outro meio.

O romance Erros que matam, de Antónia Sónia Gomes (2007), conta histórias de pessoas comuns, suas dúvidas, experiências e uma busca constante pelo sentido da vida. A temática central da obra é o HIV/SIDA. Ela se divide em quatro partes intituladas: "Os erros, "Conseqüências", "Reminiscências" e "Depois de Tudo". O cenário, irradiador dos fatos, é uma maternidade pública de Luanda. O enunciado valoriza o espaço e, no registro discursivo, evidencia - se a carga dramática que o lugar imprime à cena: O cheiro de sangue, disperso no chão e manchado nos lençóis, misturado aos diferentes fluidos do corpo, feria as narinas aos visitantes. Porém, as cinco senhoras, com idades que variavam entre os quinze e os quarenta e dois anos, provenientes de diversos níveis sociais e que, no entanto, repartiam as três camas da sala, habituadas como estavam ao desagradável odor, já não davam por ele. O embarque para uma experiência desconhecida para algumas jovens e a lembrança de experiências negativas vividas em partos anteriores para outras mulheres, aliados à ausência constante das parteiras da sala, faziam aumentar o medo, a ansiedade e a dor das parturientes (Gomes, 2007, p. 20).

O personagem dessa narrativa vive sua existência angustiada, com a subjetividade esfacelada. Ele procura sobrepor-se à existência desequilibrada, ora lutando para dominar o medo e o abandono, ora tentando espantar impulsos incontroláveis como as dores do parto. Numa proposição de verdade, os enunciados representam a violência e a violação dos direitos de mulheres que estão prestes a trazer ao mundo um novo ser. Parturientes fragilizadas que aguardam a hora precisa. E estes relatos multiplicam-se no interior da narrativa. As ações dos personagens têm o colorido local nos planos e figuras construídos num espaço-refúgio repleto de gemidos, desespero e um desejo de que a benevolência humana possa neutralizar o cheiro da morte. Logo, a cena recuperada aqui mostra como um profissional em descompasso com sua função exerce de forma destoante o papel de enfermeira numa maternidade pública de Luanda, desprovida de condições materiais e humanas:

- Caramba, a linha acabou! - Jesus ouviu a certa altura a enfermeira queixar-se.

- Falta muito? - a solicitude era da enfermeira que na marquesa ao lado terminava um trabalho idêntico. - Não, só falta coser a parte externa.

- Olha, sobrou uma porção grande do fio desta. Josefa não questionou a oferta:

- Deixe-me ver.

- Tens que procurar no balde de lixo.

Ao inclinar-se sobre o balde pousado nos pés da marquesa ao lado, deteve-se por um momento. Supor-se-ia que um estranho pressentimento poderia ter levado Josefa a desistir da oferta, mas a força do hábito venceu o instante de fraqueza e, com uma pinça na mão, entregou-se à tarefa de resgatar um bocado de linha abandonado num balde de detritos (Gomes, 2007, p.33).

A dinâmica do espaço vai pouco a pouco delineando a forma / conteúdo da obra, bem como o caráter universal da temática e o afastamento do romance em relação às temáticas "fechadas" da literatura angolana. Desta forma, Antónia Sónia Gomes inscreve sua obra nos temas universais. A narrativa exprime-se em termos de paisagem, de lugar e de caminhos. Caminhos estes que levam o leitor a refletir acerca das ações humanas, aquelas oriundas de movimentos positivos, atraentes e transformadores que vem desaparecendo. As pulsões do bem, da aspiração, como a vontade de modificar positivamente o ambiente desgastou-se não se sabe por qual motivo.

Em contrapartida, a má-vontade, o sentimento ou a sensação de aversão, a repugnância ao Outro se reforçaram. Provavelmente, nasceu daí uma energia diferente, uma força que desfaz o sonho, a benevolência vital para o equilíbrio da sociedade. Em função disso, a virulência do Mal aflora nas ações, nos empreendimentos, acarretando, por contaminação, a desordem social. Diante disso, pode-se dizer que as práticas da enfermeira Josefa surgem na narrativa como resultantes de ações de um ser demoníaco que libera os sentimentos mais virulentos no trato com as parturientes, provocando a deterioração da matéria vida:

O ar, cada vez mais carregado de um cheiro de sangue penetrante, irritava os nervos de Josefa; o medo de ser apanhada a executar um parto de modo contrário às regras mesclava-se com o sentimento de impotência diante do insucesso do passo a que recorrera; e os gritos daquelas mulheres flagelavam-lhe os ouvidos. Tudo isso fez descer sobre ela uma fúria mais do que demoníaca. Precisava de um bode para espiar todos aqueles males. E o bode apresentou-se na pessoa de Susana (Gomes, 117).

De acordo com Jean Baudrillard, "o terrorismo, sob todas as suas formas, é o espelho transpolítico do mal. Pois o verdadeiro problema, o único problema é: Para onde foi o Mal? Para toda parte" . Desta maneira, constata-se que a evolução dos estilos contemporâneos do Mal é infinita. Numa sociedade em que está ausente a precaução preventiva de extinção das referências de repulsa ao Outro, proliferam as várias formas de violência. Na impossibilidade de nomear o Mal, de isolá-lo, verifica-se sua metamorfose em todas as formas virais, tornando-se um obsesso no seio das comunidades. O Mal se aloja e se espalha quando encontra espaço num sistema em desequilíbrio. É uma energia dispersa, espécie de projeção de um fenômeno turbulento, o caos. Um fluxo energético pulverizado em contextos que se encontram em estado de deficiência imunitária. O sujeito de enunciação procura dar sentido e explicar a origem dos erros e suas conseqüências. O sentido em sua pluralidade discursiva é o movimento catalisador de significação.

Desta forma, os sentimentos humanos positivos, desfeitos em decorrência das experiências sólitas, encontra seu apaziguamento na linguagem, lugar capaz de ancorar as aflições do sujeito que recupera suas reminiscências. A enfermeira Josefa busca em momentos de reflexão explicações para a origem de seus atos. A voz narrativa - recorrendo ao discurso direto - permite que o leitor tome ciência do verdadeiro sentimento da personagem: "Sim, sou má apesar do meu orgulho teimar em não o reconhecer", acusou-se uma vez mais. "E a minha maldade não é, conforme tentei me persuadir até então, produto da multiplicidade dos males na Sala de Parto. Ela sempre existiu em mim. Na Sala de Parto, tinha apenas encontrado a carne e o sangue de que necessitava para se levantar e se tornar, no palco de tanto sofrimento, dores e mortes humanos, pela própria, vida". "Sim", os pensamentos prosseguiram. "Ali, tinha-se-me libertado o verdadeiro eu, que tive sempre de conter em outros meios, como o lar paterno, a escola, o meu lar, para que a vivência com os meus fosse harmoniosa."(Gomes, 2007, p.121).

O sujeito de enunciação apresenta ao leitor uma personagem doente, ela procura tomar consciência, descobrir a razão ou a causa do mal que a atormenta. No recanto do quarto, espaço de reflexão, a personagem descobre a origem do mal-estar, que está na origem dos Erros que matam.

Em contrapartida, o sentido da vida pode ser percebido nas ações positivas e dinâmicas do personagem Samuel, um médico que acredita na luz no fim do túnel. Ele está na narrativa como o elemento irradiador de novas possibilidades e faz com que a trama avance. No momento de sua aparição, tudo conduz ao resgate do sentido do humano, perdido no seio da Maternidade. Logo, no ápice da obra, o caso é instruído, as testemunhas são convocadas e as informações são recolhidas.

O encontro dos personagens Josefa, Samuel, Octávio e Jesus trazem à tona histórias silenciadas e até então disjuntas umas das outras. Neste estágio da narrativa o leitor toma ciência da origem dos erros em toda sua plenitude. Sendo assim, a passagem a seguir, apesar de longa, é bastante esclarecedora:

Como o mundo era pequeno e como eram irónicas as partidas que o destino pregava às pessoas! Pensou Jesus. A senhora diante de si era a mulher de Octávio. Era a mulher que lhe tinha feito o parto e provavelmente lhe teria infectado com o HIV. Mas ela não levaria a melhor. Porque não era a única vítima naquela situação! - Octávio, o que fizeste comigo? Octávio! Octávio! - repetia a senhora feito uma possessa. E como tendo ouvido o chamamento da esposa e pressentindo a necessidade da sua presença ali, Octávio surgiu diante da porta da casa de Jesus. Mas deteve-se no umbral, como que aterrado ante a visão: ali estavam Josefa, Jesus e um homem desconhecido, todos olhando para ele. E como que repelido pela intensidade daqueles olhares, recuou alguns passos.

Dominado por um agonizante susto e uma sensação infinita de desespero, Octávio projectou o olhar sobre a esposa. Os seus olhos rolaram da esposa indo estacar no ser pequenino aninhado entre os braços de Jesus. E o susto confundiu-se num atordoamento de admiração: a semelhança daquela criança à sua filha de casa era flagrante. O pesadelo em que se transformara a sua vida nas últimas vinte e quatro horas redundara naquilo que ele não saberia denominar (Gomes, p.68-9).

A cena anterior constitui-se num recorte produtivo para uma busca pela cura dos males de existências fraturadas envoltas em sentimentos de humanidade e inumanidade. Assim, dotado dos meios de saber e de fazer saber, de agir e de fazer agir, tendo interiorizado os interesses e os valores da civilidade, o sujeito pode aspirar à plena humanidade, à realização efetiva do espírito como consciência, conhecimento e vontade para neutralizar as forças negativas e cumprir precisamente a condição de ver o Outro não como o Mal que precisa ser destruído, mas como parte do contínuo para alimentar a cadeia da vida.

Notas Bibliográfia

1.Oliveira, Jurema José de. Pós-Doutoral FAPERJ/UUF.

2.Baudrillard, Jean. A transparência do mal: ensaio sobre os fenômenos extremos. 5 ed. São Paulo: Papirus, 1990.

3.Baudrillard, Jean. A transparência do mal: ensaio sobre os fenômenos extremos. 5 ed. São Paulo: Papirus, 1990.

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