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Entre a Memória e a História: A Poesia

Escrito por  Jurema José
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O passado apresenta várias versões, ele está imbricado entre a memória e a história e encontra na linguagem artística o suporte decisivo que "reduz, unifica e aproxima no mesmo espaço histórico e cultural a imagem do sonho, a imagem lembrada e as imagens da vigília atual" (BOSI, Ecléa, 1995, p.56). A memória traz à tona não só as percepções passadas, mas as sensações do presente que confluem e se complementam no instante da criação como força subjetiva e produtora dos símbolos profundos e ativos para compor o universo estético do escritor.

O passado apresenta várias versões, ele está imbricado entre a memória e a história e encontra na linguagem artística o suporte decisivo que "reduz, unifica e aproxima no mesmo espaço histórico e cultural a imagem do sonho, a imagem lembrada e as imagens da vigília atual" (BOSI, Ecléa, 1995, p.56). A memória traz à tona não só as percepções passadas, mas as sensações do presente que confluem e se complementam no instante da criação como força subjetiva e produtora dos símbolos profundos e ativos para compor o universo estético do escritor.

A vigília atual se processa no discurso poético como forma de interpretação do passado. Esta atitude explorada na escrita, além de fazer circular os vários "falares", abre caminho para a diferenciação, para o resgate dos materiais simbólicos à disposição do autor que busca encenar na poesia um conjunto de representações presentes na consciência do sujeito poético. Metaforizando aspectos da memória histórica, Adriano Botelho aproxima o ontem e o hoje em linguagem poética para intercambiar experiências comunicáveis tão valorizadas na tradição oral de sua terra. Na produção do poeta angolano, os movimentos impostos ao sujeito poético advêm da sua habilidade para depreender gestos, hábitos, rituais e ritmos próprios da técnica da poesia moderna de modo que possa socializar com o leitor uma nova forma de visualizar as experiências que amarram a história do indivíduo à história da coletividade.

Valorizando aspectos como a estrutura poético-narrativa, a exploração valorativa das imagens submersas na memória e a estrutura da palavra, num processo de restauração e invenção, o poeta dá o colorido necessário ao texto. Com a recriação frasal por meio de realces materiais, inversões da sintaxe oracional, subversão do sistema de pontuação - como o uso de aspas para realçar aspectos factuais - e a disposição do texto na página, Adriano Botelho instaura um estilo próprio de escrever e inscrever poeticamente a memória e a história.

Numa explosão dos sentidos paradigmáticos da poesia, Adriano Botelho valoriza o estilo narrativo para fazer falar o individual e o coletivo, como bem define o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto: "Somos muitos Severinos / iguais em tudo na vida e na sina". Sina esta, mantenedora do sonho que realimenta uma imagem fugidia de uma utopia desejada, mas dispersa "em muitas aquarelas" como se vê em Luanary.

O discurso poético de Adriano se constrói num processo dialógico. A poesia faz circular os saberes de forma intertextual e cria novas redes de cumplicidades. O trabalho artístico busca respostas para perguntas provenientes das inquietações humanas. A função poética da linguagem está fixada na mensagem e coloca em segundo plano o referente por meio de recursos forma/conteúdo, tais como associações de sons e imagens na língua "alterada" e transformada por recursos estéticos e semânticos, como se depreende no poema a seguir:

<< As gaivotas já foram crianças abandonadas

ainda no berço e podias chamá-las de José. Os nomes

não podem fazer o registo da utopia

porque até o sol apesar da sua altura nunca

oferece o céu para que mais loucos

fiquem assustados à porta do teu palácio. Oh, rei,

tiraste-me o pote de mel e só precisaste

de um café sem açúcar! O movimento da colher

empurrava a sala oval, terrinas de oiro

vazias ficaram cheias dos meus

objectos: anéis, colares... chaves de um BMW, em rotação

diferente, como abrupta queda de mim mesmo. Era

só veres como iluminada estava a foto

do tio que eu abandonara, as minhas

lágrimas nada podiam fazer. Antes de chorar com os filhos,

já os mais fortes da sanzala tinham abandonado

o meu quintal e percebi como a solidão é vizinha da

penúria>> (Luanary).

Seguindo a linha de fuga promovida pelo dialogismo, as imagens expostas no poema acima nos remete a outro poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, e a seu poema "E, agora José?". O José do poeta brasileiro é um operário que, assim como o José do poeta angolano, metaforiza sua contribuição na construção dos palácios onde, concluída a obra, já não poderá entrar. E se "os nomes não podem fazer o registo da utopia" (Luanary), os poetas podem construir a utopia com imagens que impulsionam a vida, mesmo depois de os "mais fortes da sanzala [terem] abandonado o meu quintal" (Luanary) e o José drummondiano ainda perguntar "para onde?".

Nesta obra, as versões do passado são reatualizadas com imagens elaboradas por um procedimento produtor de opiniões que articulam experiências só evidenciadas no presente com a reconstrução factual. Reconstrução esta, capaz de promover o questionamento de vozes individualizadas e coletivas que compõem o mosaico poético e trazem à tona as águas revoltas do passado para reinterpretá-las no espaço literário onde ocorrem reflexões acerca do "silêncio [que] fez a noite ser mais longa pelo rabo de uma cobra que toca os tambores que ainda guardam as lágrimas dos kombas" (Luanary).

As imagens densas da história, sob o prisma da imaginação criadora, transformam o destino pensado por Bachelard acerca das águas entorpecidas, pesadas, símbolo da violência que define o curso da vida em metáforas de leveza repletas de "balões feitos com leves espelhos de água que deixam o mundo mais bonito" (Luanary).

Envolto numa aura de rememoração, Luanary transita entre a tradição e a modernidade, com um discurso entrecortado por traços que ligam o sujeito poético ao discurso do contador de histórias e ao universo artístico que valoriza a descoberta de novos processos que atualizem no imaginário os valores da tradição. E já que as transformações associadas à modernidade modificaram as relações do indivíduo com suas práticas discursivas, o sujeito poético afirma sua forma de estar no mundo individualizando-se e diz:

[...] lá longe, onde só Deus pode escutar, as minhas palavras

perdiam cada vez mais a matiz

da minha identidade e os outros loucos

mais antigos que se suicidavam aproveitando

a vertigem a saldo. Falo de Lameira, Viriato, Aristóteles

e Zaratustra, Luther King, Kwame Nkrumah (Luanary).

Nessa dinâmica discursiva, Adriano Botelho traz à cena figuras históricas e a idéia da perda identitária para promover no cenário poético a crítica a uma época em que

[...] «Oh, Pátria, queríamos

ser os únicos untados com azeite das lamparinas

que protegessem a nossa sorte, aqueles que passassem

pela dor de Njinga como se fosse bálsamo

e trigo para toda a epopéia, mas não podemos deixar de sofrer

com os irmãos que pior dor, sina e morte receberam

de seus camaradas e compadres (Luanary)

Com um dinamismo típico de um contador de histórias, Adriano estabelece um pacto com a tradição para manter viva a chama que alimenta a existência de toda uma coletividade. Sua poesia revigora o ritual de transmissão de conhecimento e irriga com as experiências individuais e coletivas a cadeia primordial da arte de narrar, que nesta obra vai pouco a pouco adquirindo um status mágico, ritualístico - um ato de iniciação ao universo da angolanidade. Podemos dizer então que a poesia de Adriano Botelho atinge a dimensão histórica do narrador/contador de histórias. Essa dimensão corporifica um sistema de valores estéticos capaz de recuperar o espaço matricial da tradição em vários níveis para fazer circular num jogo intertextual as marcas peculiares à memória e à história. Com imagens sensoriais que transitam entre a poesia e a prosa, o autor de Luanary representa, com toda a força que emana das palavras, a vida.

Jurema Oliveira

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