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Pedagogia do Silenciamento: Da Violência do Opressor à Resistência do Oprimido

Escrito por  Maria do Carmo Sepúlveda Campos
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A língua materna do colonizado, aquela que é nutrida por suas sensações, suas paixões e seus sonhos, aquela pela qual se exprimem sua ternura e seus espantos, aquela enfim que contém a maior carga afetiva, essa é precisamente a menos valorizada. Não possui dignidade alguma no país ou no concerto dos povos.

Albert Memmi

 

Esta reflexão sobre a representação da aprendizagem na ficção angolana centra-se na narrativa A menina Vitória, de Arnaldo Santos, considerada significante enunciação do processo de silenciamento veiculado pela instituição escolar no período colonial. Tal representação criativa e, ao mesmo tempo crítica, reconstrói, simbolicamente, o processo de colonização, permitindo ao leitor vislumbrar, desdobrando o tecido de que se compõe, tanto as transformações apresentadas pelos africanos que incorporaram a cultura estrangeira, elegendo-a como seu objeto de desejo, quanto a gestação do processo de resistência que preservou os valores culturais africanos e fortaleceu a luta pela independência.Nesse espaço em que a fala do opressor é silenciadora e o silêncio do oprimido assume variados sentidos, tornando-se tão ambíguo quanto as palavras, pode-se afirmar que:

o sujeito reporta-se a um sistema significante investido de sentidos: é o sujeito significante, sujeito histórico (material), posição sujeito que se produz entre diferentes discursos numa relação regrada com a memória do dizer face às situações, definindo-se em função de uma formação discursiva em relação às demais. (Orlandi, 1998, p. 20)

Assim, dependendo das opções ideológicas eleitas pelos sujeitos, definem-se, no texto, suas posições e delineiam-se diferentes discursos.

No contexto histórico da colonização, o homem africano que vê rejeitada sua herança cultural luta para manter sua identidade, filiando-se aos valores autóctones ou assimila a ideologia do poder passando a representá-la. Nesse cenário caracterizado pelo mascaramento cultural, pela busca de poder e pela resistência aos valores estrangeiros contracenam na narrativa ficcional de Arnaldo Santos: Vitória, opressor que silencia para excluir; Matoso, oprimido que resiste armando-se de silêncio; Gigi, que sem o poder adquirido pelo assimilado e sem o ódio característico do homem africano que se sente usurpado pelo colonizador, situa-se como portador da indefinição entre os dois mundos. Diferentes sujeitos, diferentes discursos.

A imposição aos naturais da terra de conteúdos estranhos, vazios de significado porque dissociados de seu contexto histórico - cultural, causou-lhes graves conflitos, já que estavam habituados a aprender através de experiências vivenciadas cotidianamente com os mais velhos - portadores da sabedoria. Com o passar do tempo, eles viram seus costumes renegados e a sua língua desprestiagiada, sua fala bloqueada nos espaços públicos e sua expressão prejudicada, encontrando-se, então, em uma encruzilhada: permanecerem fiéis ao seu mundo e continuarem vítimas das mais cruéis humilhações ou adaptarem-se aos novos costumes, vestindo a roupagem do outro, adotando seu discurso para ultrapassar a fronteira. Muitos africanos conseguiram fazer da assimilação uma arma para enfrentar o invasor: conhecendo a cultura de seu oponente e dominando sua língua, tornaram-se capazes de empreender contra eles uma luta em condições de igualdade, vinculando-se aos ideais de independência: Outros - caso bem representado na ficção de Arnaldo Santos através da personagem Vitória - de posse do idioma do colonizador, usaram-no para galgar os privilégios oferecidos pelo poder, tornando-se cúmplices dos dominadores no processo de opressão de seus irmãos. E aqui não podemos deixar de convocar Fanon:

Il y a dans la possession du langage une extraordinaire puissance[...] Celui qui s’exprime bien qui possède la maêtrise de la langue, est excessivement craint; il faut faire attention a lui, c’est un quasi Blanc. (Fanon, 1952, p.14/16)

A menina Vitória assume o discurso autoritário, discriminatório, e extremamente repressor da educação formal introduzida pelos portugueses em Angola. Investindo-se do poder adquirido ao tornar-se professora - Tinha tirado o curso na metrópole. (p.40)-, acredita-se portadora do mesmo saber do colonizador e assume a ideologia dominante, fazendo dela sua bandeira exibindo em seu contato com os alunos uma prática discursiva própria do dominador, já que o instrumento da prática política é o discurso. (Pêcheux, 1969)

Vergado na cadeira, não tirava os olhos do livro, nem mesmo quando a menina Vitória se referia a ele, quase sempre com desprezo, ao recriminar outro aluno [...] ele guardava-se cada vez mais à carteira, transido por aqueles comentários impiedosos. (p.40)

No conto de Arnaldo Santos, a professora Vitória, apesar de ser mestiça, é o espelho da cultura européia e, conseqüentemente, mecanismo de manutenção e reprodução do modelo repressor. Assimilando hábitos e posturas do outro, ela nega sua origem e toda a sua cultura. Não tendo desenvolvido ressentimento contra os conquistadores que exploram seu povo, deixa de atuar como elemento de resistência contra a dominação para ser, ela própria, símbolo da estrutura dominante. Aderindo ao jogo do colonizador, realiza um trabalho de silenciamento do oprimido, levando os alunos:

A interiorizar um conjunto de valores que, nos seus aspectos decisivos, contrastam com os que encontram em seu meio familiar, valores que eles notam ser especificamente europeus e contribuirem para tornar os Europeus tão fortes, tão inteligentes e tão poderosos[ ...] Aí está, antes de mais, um meio indireto de lhes sugerir que eles são de uma espécie inferior. (Zahar, 1976, p.92)

Desloca-se, pelo gesto de interpretação dessa personagem, a ótica do colonizado: o olhar de desconfiança que deveria ser lançado aos de fora - estranhos ao seu mundo - volta-se contra os seus iguais como forma de recusa de sua parte negra. Tal recusa não fica restrita aos valores culturais e ideológicos, patenteia-se, ainda, em sua aparência física, pois renovava o pó-de-arroz nas faces sempre que tivesse um momento livre. (p.40) Processo pelo qual esconde, envergonhada, sua pele negra para ostentar, com orgulho, sua máscara branca - passaporte para o mundo do poder.

Percebemos, assim, como a pedagogia do silenciamento, sinônimo, no caso em questão, de opressão e apagamento do negro, é representada no conto. Se, por um lado, temos a figura da mestiça bem sucedida por ter sido capaz de adaptar-se aos novos padrões culturais, por outro, temos os que, humilhados e ofendidos, nutrem em si o embrião da revolta, armando-se para lutar contra os opressores e, também, aqueles que - na fronteira entre os dois universos - não sabem de que lado fincar a tenda da sua identidade. Segundo Michel Pêcheux, (1975) a identidade do sujeito resulta de sua identificação com a formação discursiva que o domina, sob forma de esquecimento, que funda sua unidade imaginária.

Vitória - Gigi - Matoso podem ser vistos como distintas posições-sujeito que, mobilizados por diferentes formações ideológicas e mergulhados em redes de discursos que se entrecruzam no espaço social, constróem, como locutores, variados efeitos de sentido a partir do lugar que ocupam, representando desejos inconciliáveis no tempo-espaço colonial: o desejo de poder, o desejo de prazer e o desejo de liberdade. O poder, exigindo dos africanos a negação de seus iguais; o prazer, interditado para dar lugar a novas concepções de vida; e a liberdade como troféu a ser arduamente conquistado. Reunindo tanta diversidade, a sala de aula: espaço onde o poder acentua as diferenças e nega aos excluídos quaisquer possibilidades de prazer, forjando, com ódio, seres à prova de sofrimento que fazem do sonho de liberdade a grande motivação de suas vidas.

Vitória pratica um autoritarismo exacerbado que estende seus tentáculos ao mais profundo das personalidades de seus alunos negros inibindo-lhes a criatividade e a capacidade de expressão. Nessa escola é proibido falar a língua materna e ostentar com orgulho a origem africana:

Porém, o seu azedume cresceu quando, tempo depois, o Matoso lhe respondeu distraidamente em quimbundo O quê, julgas que sou da tua laia...!? Daí por diante seu nome era jogado pela aula com crueza, criando um símbolo maldito. (p. 41)

Renovar a máscara branca com pó-de-arroz para ocultar sua cor, proibir a comunicação em quimbundo para negar sua língua de origem e silenciar os de sua raça são manifestações inegáveis de um processo de assimilação que só visa à promoção do colonizador. Por isso, temendo reprimendas e críticas, os aluno negros (ou mestiços) vão aprendendo, com as humilhações sofridas a cada dia, os sentidos do silêncio que os fortalece: Mas o menino cafuso chama-se Matoso, o que, de início, pareceu ao Gigi insuficiente para justificar o seu mutismo (...) Pareces o Matoso a falar..., Sujas a bata com o Matoso..., cheiras a Matoso... (p. 40)

O símbolo maldito compõe-se, pela ótica dessa personagem, de uma língua desprezível, de atitudes condenadas e, até mesmo, de um cheiro que caracteriza e estigmatiza uma raça. Parece impossível, para o portador de tantos traços negativos, enfrentar os colegas de cabeça erguida. Mesmo quando o Matoso calava os seus valores, inserindo em suas redações palavras do mundo que ela adotara, só conseguia recriminações: Cada vez pior...! (p. 42)

Diante do círculo intransponível de desprezo que ela erguia a sua volta ele já não se debatia nem chorava. Apenas no rosto as suas feições endureciam sob a pressão dos maxilares contraídos.(p. 42) Porém, o silêncio de Matoso - gestado no ódio e na revolta - significa resistência à dominação, muito mais que submissão e entrega. Confirma-se aqui a afirmação de Eni Orlandi (1985) acerca da diversidade de sentidos que pode ter o silêncio, dependendo de suas condições de produção: O silêncio imposto pelo opressor é exclusão, é forma de dominação, enquanto o silêncio proposto pelo oprimido pode ser uma forma de resistência.

Matoso representa - com a revolta que desenvolve contra os agenciadores da cultura estrangeira - o avesso da menina Vitória, para quem o mundo do colonizador é modelo a ser imitado sem restrições.

À medida que a menina Vitória rejeita a expressão e a criatividade de seus alunos marginais não estimula o desabrochar de indivíduos autônomos, responsáveis e participativos na edificação de uma cultura, limitando sua atuação à formação de alunos apenas capazes de imitar e reproduzir o modelo por ela estabelecido. Com este conto, temos a representação, por excelência, da escola que inibe e conduz ao fracasso os menos privilegiados, acentuando, portanto, as diferenças sociais. Alunos criativos tornam-se tímidos pelos gestos silenciadores da professora:

Nas suas redações, vagueava então tímido sobre as coisas, com medo de poisar nelas, decorava o nome das árvores, das aves, dos jogos descritos no seu livro de leitura. Esvaziava-se das emocionantes experiências de menino livre, agora proibidas e imprestáveis. (p. 42)

Para evitar a vergonha de ser duramente criticado pela mestra e ridicularizado pelos colegas, Gigi tenta renunciar aos seus valores e ao prazeres oferecidos pelo seu universo, procurando apagar de sua memória as cores e sabores do seu mundo e as emoções proporcionadas pelo contato com a sua realidade. Nega suas experiências significativas e profundas para vaguear tímido na superficialidade da imitação de um mundo que lhe é estranho e insignificante, fazendo uso de um discurso que não lhe é próprio e que portanto, não lhe permite expressar seus desejos e suas vivências. Neste caso, a ação de Vitória funciona como uma censura que:

estabelece os limites do dizer (...), impede o movimento de identificação do sujeito com formações discursivas proibidas (...) e o movimento de identidade do sujeito na sua relação com a história(...), trabalhando apenas o conjunto do dizível. (Orlandi, 1992)

A personagem Gigi situa-se entre o símbolo maldito e a possibilidade de poder, representando assim, a fragmentação do ser africano e sua indecisão entre o seu mundo e o mundo do outro. Em dado momento chega a acreditar que, superando o traço original de sua cultura, seria capaz de alcançar algum tipo de alegria:

O Gigi naquele dia estava contente com o seu trabalho. O tema era sobre uma figura importante do Governo e ele não esquecera os adjetivos mais expressivos que na véspera a professora tinha proferido. Isso dar-lhe-ia com certeza satisfação. (p. 43)

Agradar para ser aceito passa a ser a posição de Gigi, porém, mais uma vez intransponível se torna o abismo que o separa do sucesso. No limiar da fronteira, uma figura que parecia de pedra barrava-lhe, friamente, a travessia: Ouve lá ... tu julgas que ele anda sujo e roto como tu, e come funge na sanzala ... (p. 44) Seu pecado - falha imperdoável - tinha sido tratar por tu a tão importante figura do governo, erro que o coloca, diante da turma, na mesma posição do Matoso: deformado com uma caricatura. (p. 44 ) Então, no auge de sua fraqueza e humilhação, Gigi - representação do colonizado - se dá conta de que o único caminho para reconquistar sua integridade é renegar o universo que o rejeita. Furor e indignação tomam conta do seu ser:

Os seus músculos crisparam-se e o caderno começou a amarrotar-se-lhe nas mãos. Depois mal sentiu a violência da palmatória. Só nas faces a queimadura viva da humilhação, só nos ombros a responsabilidade de sua condição, de que ele não tinha culpa, mas que queria aceitar mesmo dolorosa como as pulsações que lhe ressoavam nas palmas da mãos inchadas. (p. 45)

Com a consciência de que é impossível mudar de pele para assemelhar-se ao outro, Gigi assume sua diferença e escolhe seu caminho. Ao lado dos que fazem do silêncio uma trincheira de luta, agora seu choro é de raiva e seu maior desejo é esconder sua angústia com os olhos secos, enxutos, e orgulhosamente raiados de sangue, como os do Matoso. (p. 45) Enfraquece-se o poder do silenciamento e extingue-se o lugar da indefinição, patenteando-se o tempo da resistência com o olhar de admiração lançado por Gigi aos seus iguais. Agora, o seu silêncio deixa de ser apagamento para ser resistência, pois neste caso, o silêncio é materialidade significativa(...), é produção de sentido(...) é presença. (Orlandi, 1992)

Como o discurso mudo e pleno de sentidos apreendido por Gigi no olhar orgulhoso de Matoso, muitos outros se teceram no silêncio da resistência e, driblando a censura da colonização, forjaram, com dor e esperança, a independência dos angolanos.

Referências bibliográficas:

FANON, Frantz. Peau Noir, Marques Blancs. Paris: Seuil, 1952.

ORLANDI, Eni Puccinelli. O próprio da análise de discursos. Escritos n.º 3. Unicamp:Campinas,1998.

A Fala de Muitos Gumes. Conferência apresentada em Curitiba, II Encontro de Semiótica, 1985.

Cadernos de Estudos Lingüísticos. Campinas (19): 75-95, julho / dezembro 1990.

As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992.

PÊCHEUX, M. Analyse Authomatique du Discours, Paris: Dunod, 1969.

Les Verités de La Palice. Maspero: Paris, 1975.

SANTOS, Arnaldo. Prosas. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1985.

ZAHAR, Renate. Colonialismo e Alienação. Trad. Amadeu Graça do Espírito Santo. Lisboa: Ulmeiro, 1976.

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