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Elementos Para o Conhecimento da Poesia Contemporânea Angolana (Da Segunda Metade da Década de Setenta Até ao Ano 2005) (Proposta)

Escrito por  Abreu Paxe
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A poesia contemporânea angolana vem sendo conhecida pela sua produção: através de concursos literários, das edições, das associações literárias, da media, das feiras do livro, em suma das instituições literárias surgidas no país depois da independência e pela crítica. Esta poesia, nos nossos dias, apresenta diversas linhas de investigação literárias.

A poesia contemporânea angolana vem sendo conhecida pela sua produção: através de concursos literários, das edições, das associações literárias, da media, das feiras do livro, em suma das instituições literárias surgidas no país depois da independência e pela crítica. Esta poesia, nos nossos dias, apresenta diversas linhas de investigação literárias. Estas estão demonstradas na ruptura e na continuidade, face a literatura oral e escrita, legitimando a sua revindicação e o seu lugar na literatura angolana. Neste artigo pretendemos expor alguns pontos que se constituem nos elementos de reflexão para o seu conhecimento.

1. Introdução

No vasto labirinto em que se cruzam as múltiplas tendências da poesia a partir dos anos 50, com a geração de Mensagem, uma situação inovadora, como ideia de viragem decisiva, assim pensamos, pareceu contudo impor-se com evidência na década de oitenta. Quer dizer, através do envolvimento de muitos jovens cujos trabalhos prometeram sério e mais abrangente tratamento do fenómeno literário angolano, historicamente reconhecido. Estes marcaram diferentes contribuições à literatura angolana e universal. Muito mais deles ainda se espera nesse infinito espaço de possibilidades. Espaços de surpresas e ascensão estética, disseminando o diálogo entre o texto oral e o texto escrito em línguas africanas de Angola (literatura oral) e a literatura escrita sob influência ocidental, ou seja, traços de continuidade entre este material oral ou escrito em línguas africanas de Angola e o escrito, por um lado. Por outro, entre o material escrito verifica-se momentos de ruptura entre a poesia da década de 40/50/60, com a da década de 70 até aos nosso dias. No qual é de destacar o papel das instituições literárias, na sua produção e divulgação. Pelo carácter breve desta comunicação vamos apenas apontar o diálogo entre o texto oral e escrito na prática poética angolana.

2. Literatura oral tradicional vs Literatura Escrita

Angola possui um universo cultural com inúmeras línguas, etnias e práticas tradicionais. Nesse caldeirão de culturas. Encontramos a poesia oral e a escrita. O texto oral ou escrito nas línguas africanas de Angola são de cunho ritualístico, como os poemas cantados dos grupos étnicos: Umbundu, Kimbundu, Kikongo, Kwanyama e Nyaneka - Nkhumbi. A poesia tradicional oral reflecte a vida do povo Angolano em toda a sua essência. E através desta, que nós conhecemos os seus costumes, a sua filosofia, a sua moral, a sua cultura, as suas tradições, religiões e outros aspectos da sua vida do dia a dia. Aparece sempre ligado à música, sob a forma de canto, resultando deste facto a sua grande musicalidade e expressão rítmica. Embora nem o volume total das suas práticas culturais, nem a sua diversificação linguísticas a salvem da sua quase ausência obsoluta, definida num público leitor bantu quase inexistente e acresce-se a isso a inclusão tardia destas línguas no sistema de ensino, permitindo que até agora esta forma se impusesse significativamente. Os textos escritos (poesia) contemporâneos. esta com a presença colonial, outras práticas culturais incluindo a língua portuguesa (adoptada como língua oficial), fizeram sentir-se no nosso meio, forçando este povo ao inevitável processo de miscigenação cultural que tem suscitado em nós as mais contraditórias, conflituosas e inesgotáveis discussões entre a diferença e a identidade resultante do impacto europeu sobre o substrato angolano. Este impacto só foi assegurado no século vinte, pelos portugueses, por uma sociedade e uma cultura estáveis. Fruto deste impacto na literatura angolana conjugam-se a face duma literatura do texto oral que é milenar e doutra literatura escrita que dura desde 1849, altura da publicação do primeiro livro e por sinal de poesia. Ela na sua fase de escrita seguiu de perto as escolas e géneros literários europeus e não só. Produzindo assim, uma poesia de mestiçagem cultural, ou seja, uma poesia que conta com a longa tradição literária portuguesa e universal mas se apoia firmemente numa problemática autóctone regulada nas dimensões estéticas universais. Tomemos como exemplo os livros Idades das Palavras João Maimona, O Brilho do Bronze de Lopito Feijóo, Ritos de Passagem de Paula Tavares e Lavra Reiterada de Ruy Duarte de Carvalho .

Nestes livros os autores apresentam o texto poético em forma do tradicional poema asiático, de origem japonesa, o Haikai introduzido por Matsu Bashô em que o poema é feito apenas de três versos: um poema muito breve, sem explorarem a sua essência na íntegra como se vê no brasil com os vários grémios de Haikai existentes em São Paulo, Maimona, o primeiro, busca este modelo poético como forma de economizar os diversos ritos, voltamos para o texrto oral cantada na cerimónia de circuncisão. Lopito Feijóo, o segundo, faz também um apelo ao tradicional, vê-se claramente que os referentes textuais do que ele chama de Haikai dialogam com a nossa a paisagem rural e mescla neste exercício o Português e o Kimbundu, acabando por obter o mesmo resultado que o primeiro. Paula Tavares e Ruy Duarte de Carvalho com um texto em poesia mais extenso, têm o mesmo efeito de retorno.

Neste caldo poético a poesia colocou/coloca o homem nos seguintes desafios: numa primeira fase como formas de perceber a natureza, de cantar o amor, a guerra ou expressar angústia, perplexidade, traições, a canção de louvor à arte de Fundição do ferro de carácter sobrenatural, o sentido de beleza e do sagrado, ou seja, representa ela uma excelente fonte de estudo do viver de seus povos, temas tradicionais do texto oral. Somaram-se, numa segunda fase, a outras de cunho social e político, na virada o século XX. A plena maturidade desta poesia é atingida nos trabalhos publicados nas décadas de 60-70. No entanto, na década de oitenta (80), herdeira destas décadas em parte, dá-se início publicamente a um processo artístico no domínio da poesia que se traduz na sua independência, vindo confirmar a atitude de alguns poetas contemporâneos de Angola os já citados e acrescentando outros com obras muito recentes e interessantes; de manterem um diálogo vivo com as peças da tradição oral, harmonizando os três tempos da consciência - passado, presente e futuro, estamos a pensar nas formulações de Ohandadji.

A aventura da poesia neste período e nos que se seguem tem sido, desde as suas origens, definir a matéria verbal, o homem e o mundo como sinais de contínuo vir-a-ser. Nestes textos as práticas orais, ou seja, o material oral está representado tanto nos seus géneros literários, como nos culturais de uma forma geral, assim como de outras propostas estéticas que dialogam com outras disciplinas artísticas potenciando a relação bi-unívoca entre o verbal e o não verbal numa infinidade de propostas estéticas

Pese embora o carácter mestiço da nossa poesia como ficou aqui demostrado os nossos poetas olham para nós e projectam esta imagem para o mundo. É isto que nos identifica e nos diferencia. E assim se vai construindo qualitativamente a nossa poesia e sua identidade, buscando outras zonas luminosas, como bem o disse Rui Augusto "mas nós/trazemos o código/das mutações/e há uma eternidade nova/latente/na nossa face*" . Esta face é que nos identifica e nos diferencia. Cumprindo o princípio da lei dos contrários.

Portanto, já para concluir retomaríamos Francisco Soares em que literatura trabalha assim. Desde logo porque o escritor tem que ser original. A autoria é um sinal de diferença, de propriedade, um sinal distinto. Porém, quando um escritor se torna igual a si próprio torna-se um chato e, como ler um livro dele é o mesmo que ler todos, na verdade vamos deixando de o ler. Podemos coleccionar-lhe os livros na estante mas não os lemos. A condição do escritor é, portanto, essa: ou muda, ou morre.

O trabalho poético é todo ele baseado numa constante mudança, é uma constante experimentação da possibilidade de mudar a linguagem e a língua, mesmo quando se lhe chama "correcção", ou se diz que "fala e escreve correctamente". A poesia codifica e descodifica. Lança um enigma e logo a seguir dá-nos condições para o resolvermos, portanto, para que ele deixe de ser o que é.

A descodificação, por sua vez, confrontada com uma releitura ou com a leitura de outra pessoa, ora recodifica, ora suscita novo enigma e vai transferindo assim o carácter enigmático da poesia. A linguagem poética está sempre a levar uma coisa inesperada para o lugar de outra esperada. Ao mesmo tempo está sempre a identificar-se com o indizível, porque precisa de mudar a língua para dizer o que quer, portanto, quer dizer algo não dito ainda, não "conseguido". Se a linguagem é metafórica pela sua própria função e definição, a poética é duas vezes metafórica. A poesia traz ao idêntico, ao simulacro, ao já metaforizado por uma língua, a efervescência, a intranquilidade, a promiscuidade, a religação ao outro e pelo outro - que entretanto mudou. Nesse constante revirar ela sabe também que o outro, diferente e mudado, somos nós, é uma imagem de nós. Somos, concerteza, os mesmos.

Nota

*.Poeta angolano, publicado na Antologia da Nova Poesia Angolana (1985-2000), Imprensa Nacional Casa da Moeda (2001), Lisboa, p.157.

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