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Escarcéu dos Corpos

Escrito por  Fábio de Oliveira Ribeiro
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As relações entre literatura e sociedade tem ocupado o centro da atenções da teoria e crítica literárias a bastante tempo. O presente trabalho tem por objeto a análise do realismo fantástico de Jorge Miguel Marinho e o contexto histórico-social em que uma de suas obras foi produzida.

As relações entre literatura e sociedade tem ocupado o centro da atenções da teoria e crítica literárias a bastante tempo. O presente trabalho tem por objeto a análise do realismo fantástico de Jorge Miguel Marinho e o contexto histórico-social em que uma de suas obras foi produzida. Todavia, antes de entrar diretamente no tema, entendemos que algumas considerações teóricas são indispensáveis.

Anathol Rosenfeld defende a tese de que a obra literária não espelha o momento em que foi produzida, porque: "embora tenha por sua vez raizes sociais, não pode ser reduzida a elas e é reelaborada de um modo complexo e pessoal, embora sob a influência de novas situações histórico-sociais." Para referido autor, a grande obra literária revela a ideologia dominante mesmo quando exalta valores corruptos. Assim, a crítica literária também teria por finalidade revelar, sob as camadas textuais, a ideologia que a obra registra e/ou pretende criticar.

Para René Vellek e Austin Waren : "O escritor não se limita a ser influenciado pela sociedade: o escritor influencia a sociedade. A Arte não só reproduz a vida, como lhe dá forma. As pessoas podem moldar suas vidas nos modelos dos heróis e heroínas da ficção." Por isto, sugerem que a literatura também pode ser considerada como um retrato da realidade social.

Tratando da especificidadade das relações entre a literatura fantástica e a sociedade, Jorge Schwartz assevera que: "O fato fantástico, que se contrapõe em geral a um mundo (ou valor) estruturado solidamente, vive apenas através da linguagem. Sua existência, que somente se define em função do referente acima descrito, é puramente lingüistica, criando assim um paradoxo em relação ao mundo real que a constitui. Fundamentado num universo empírico, sobrevive apenas na dimensão da escritura, tornando-se paradoxal pela sua capacidade de nomear aquilo que é e não é ao mesmo tempo." . Mais adiante o crítico frisa que: "... a possibilidade de conotação social enriquece o signo narrativo, permitindo que ele se projete além do fenômeno meramente ficcional. Sintetizando as relações entre a literatura fantástica e a realidade, o mestre Antonio Cândido enfatiza que: "o dado sobrenatural é um artifício da imaginação para remeter a conflitos originários da própria realidade."

Das citações podemos inferir que literatura e realidade interpenetram-se. Mais que isto, que o realismo fantástico privilegia a análise das relações entre o texto e a realidade histórico-social das quais ele surgiu e às quais retorna. Sem uma abordagem desta natureza é impossível a construção do sentido da obra para além de suas propriedades meramente lingüisticas.

O fantástico não é muito difundido na Literatura Brasileira. O gênero foi introduzido em nossas letras pela novela "Noite na Taverna", de Álvares de Azevedo . Desde então, alguns autores dedicaram-se eventualmente ao gênero. Contudo, apenas Murilo Rubião faria dele sua profissão de fé literária . Seguindo seus passos, Jorge Miguel Marinho procura popularizar o gênero em diversas de suas obras. No presente trabalho analisaremos seu livro "Escarcéu dos Corpos" .

"Escarceu dos Corpos" trata-se de um livro composto de sete contos, de autoria de Jorge Miguel Marinho. Escritos sob clara influência do realismo fantástico. Os textos aparentemente não tem qualquer ligação. No final deste trabalho, tentaremos, se possível, estabelecer algumas relações entre os contos.

No primeiro conto, "A mulher Azul", a cor de Dona Rebeca muda progressivamente até ela ficar azul. À medida que se transforma, passa a enfrentar sérios problemas no ambiente familiar. Além de constituir-se numa bela metáfora acerca da discriminação devotada aos velhos, revela algumas questões mais profundas. Como por exemplo, os problemas resultantes de uma família ampliada, em que três gerações convivem ou são obrigadas a conviver num mesmo espaço físico. É a dependência (econômica ou psicológica) que gera toda a tensão. Em uma sociedade em que pessoas como Dona Rebeca tivessem condições de suportar o peso da nova cor (idade, condição), não haveria qualquer drama, nem tampouco o desfecho previsível. Desde logo, portanto, o livro sugere a existência de vínculos estreitos entre a realidade e a ficção. Ao quebrar a lógica do cotidiano, possibilita ao leitor questioná-lo. Afinal, é porque estamos tão acostumados a aceitar as dificuldades econômicas e o preconceito como naturais que não nos damos conta de eles são absurdos. A sociedade não só não precisa ser como é, mas pode efetivamente ser diferente. Indagando porque as famílias são ampliadas, porque os velhos são considerados dispensáveis, podemos instaurar uma nova ordem.

O conto termina com a saída forçosa ou expontânea da personagem do lar. Contudo, Rebeca procura e acaba encontrando um lugar em que não será discriminada. A possibilidade de superação da tensão, a criação de uma nova harmonia pela reunião dela aos seus iguais minimiza o efeito trágico do texto.

Ao contrário do que possa parecer, o texto tem um final feliz.. A uma porque a personagem deixa de ser rejeitada, a duas porque assume em toda sua amplitude a nova condição e, mais que isso, manifesta, afirma diante do mundo sua vontade de ser diferente e, portanto, paradoxalmente igual. Por fim, a própria sociedade que gera a tensão, possibilita um novo equilíbrio.

Já no segundo texto, "Fornada", o emprego da quebra das expectativas, da lógica usual do mundo acarreta um efeito tragicômico mais evidente.

Três semanas depois do casamento Dona Gema fica grávida do esposo. Nascem os gêmeos Gisberto e Gilberto. Ela engravida novamente dando a luz a trigêmeos. Depois de nascer o sexto filho, Gaspar, ela começa a tomar anticoncepcionais. Entretanto, a fecundidade do casal aumenta em virtude do emprego de métodos anticoncepcionais. Este fato imprevisível, somado à previsível ausência de mobilidade social: "Artur não chegou à gerência.", gera uma tensão no limite entre a ficção e a realidade.

"Fornada" pode ser entendido como uma metáfora acerca do sofrimento das famílias de classe pobre, em cujo seio o próprio prazer é regulado pela incapacidade de criar os filhos. Mais que isto, denuncia o efeito perverso das dificuldades materiais, as quais acabam acarretando distanciamento e impessoalidade entre pais e filhos. Entretanto, se entendermos filhos como metáforas dos problemas conjugais a intelecção do texto é mais ampla e interessante. Especialmente porque cria uma associação entre prazer/dor, a qual está ou pode estar presente em todas famílias, independente de suas condições econômicas. No caso, as divergências acabam separando o casal sem sepultar a atração. O poço em que mergulham as personagens, que bem pode ser entendido como o desconhecido, a escuridão, o imprevisível, a separação, não resolve os problemas, apenas cria outros. Assim, mesmo diante da solução, temos o binômio:- prazer/dor.

Em "Fornada" há um certo fatalismo, que pode ser resumido no desejo insatisfeito de Artur de ser promovido. Mas não será este desconcerto do mundo apenas o resultado da incapacidade das personagens (e das pessoas também) de aceitá-lo tal como ele é?

Há um evidente parentesco entre o "Fornada" e "Aglaia" de Murilo Rubião . Neste conto do autor mineiro, Aglaia engravida apesar de usar anticoncepcionais. Feito o abordo, volta a engravidar apesar das precauções. Assim os filhos começaram a vir. Um após o outro a despeito do cuidado do casal. Nem mesmo a abstinência sexual evita novas fecundações e partos. Com o tempo, o período de gestação diminui. Os filhos passam a vir mais rapidamente. Depois às ninhadas. Os conflitos começam e aumentam à medida que a prole vai nascendo. Depois do nascimento das meninas de olhos de vidro, desquitam-se e Aglaia continua parindo.

Apesar das semelhanças evidentes, existem diferenças substanciais entre os textos. Murilo Rubião antecipa o caráter fantástico do texto antes de contar a história propriamente dita: "São meus filhos. Os da última safra - explicou . A história de Jorge Miguel Marinho é linear. Só depois de vários partos Dona Gema resolve recorrer ao uso de anticoncepcionais e o fantástico toma conta da história. Aglaia, ao contrário, desde que casou evitava engravidar. Parir era seu destino, mesmo depois da separação. Ao contrário dos outros textos, "O complexo de Ephedron" também apresente preocupação de natureza estética. A crítica ao Romantismo: "...fora uma flor, exceto para uma poética caduca que untava o sexo fraco...", seguida da aplicação de uma formula Realista: "...As tímidas informações lançadas pelo supletivo sacudiram a sua compleição delicada..." , dá ao texto um colorido diferente, muito embora a mudança de sexo da esposa de Ephedron esteja rigorosamente dentro de um registro fantástico.

Ephedron encontra a felicidade no corpo e na submissão da esposa. Dora procura algo (conhecimento, autoconhecimento) e encontra o verdadeiro Ephedron, um homem infeliz diante da verdadeira esposa. Verdadeira? Esposa? O texto lança escuros nos claros das relações familiares, dúvidas nas certezas sexuais, anormalidade na tranqüilidade cotidiana dos casais.

À crescente perplexidade de Ephedron diante da mudança de sexo da esposa, segue-se a nascente perplexidade de Dora diante da mudança (insegurança) do esposo. Ephedron sente-se e enganado. No entanto, ele mesmo enganou a esposa (mostrava-se tolerante sem sê-lo). Todavia, haverá verdadeiramente um engano?

A dinâmica da vida e as frustrações acarretadas pelas mudanças não nos permitem considerar a verdade como algo pronto e acabado. Dessa forma Ephedron sente-se, mas não foi nem poderia ser ludibriado (assim como Dora). A tensão, a tragédia, a angústia resultante das transformações da esposa (e, por via de conseqüência, no próprio Ephedron) pode ser creditada a uma fixação, a uma obstinação neurótica por uma imagem do objeto amado. Mas, se Ephedron não era apaixonado pela esposa e sim por uma imagem que dela fazia como pode sentir-se enganado, enganando-se duas vezes?

Só uma coisa me ocorre para tentar desvendar "O complexo de Ephedron". É da natureza do amor ser transitório e sujeito à transformações; é da natureza dos homens exigí-lo constante imutável. Enfim, a realidade imita a arte. Afinal, quantos de nós não poderiamos nos colocar no lugar de Ephedron ou de sua esposa?

O texto critica o Romantismo, emprega uma formula Realista dentro de um contexto fantástico. Será só isto? Que mais pode nos oferecer Ephedron?

A perplexidade de Ephedron pode ser comparada à perplexidade do autor diante da obra de arte. Queira ou não, todo artista tem uma idéia acabada de sua obra ao concebê-la, mais que isto, é justamente em virtude desta idéia que a concebe. Entretanto, ao destacar-se do autor, a obra assume outras, variadas, formas. Adquire sua própria personalidade, que é e não é a soma da multiplicidade das personalidades que se fundem a ela ao contemplá-la. Isto gera ou pode gerar uma tensão. Se o autor não está apto a conviver com a nova ou novas obras de arte que emergem daquela que originalmente concebeu, é bem possível que experimente a mesma angustia que o personagem. À angústia do autor, do mundo, soma-se o desconcerto da própria arte. Afinal o objeto de arte é ser ou é ente. É como tal ou é em virtude de atributos que lhe são conferidos, os quais mudam quando mudam os observadores? Quem define o que é obra de arte? O artista, a sociedade ou a própria obra? Ephedron/Dora, autor/obra, arte/mundo, indagam profundamente o leitor.

"Forquilhas" é um texto caviloso. Possivelmente escrito sob inspiração de Machado de Assis, confunde o leitor. Trata-se de um texto escrito em primeira pessoa. Entretanto, o narrador é sexualmente indeciso. Ora as desinências verbais indicam que é do sexo masculino (enrolado - p. 52), ora que é do sexo feminino (apanhada - p. 48). A indefinição também é sugerida pelo emprego obsessivo do pronome de primeira pessoa "eu", que pode designar tanto homem quanto mulher. O texto parece metaforizar a vida interior do narrador-personagem. Ele convive com suas múltiplas personalidades (femininas, masculinas e neutras) esforçando-se para contê-las na intimidade e segurança do lar (vida interior). A passeata representa ou pode representar a existência do mundo exterior, terrível, inexplicável, em que os sujeitos da psiqué do narrador, onde suas diversas personagens querem habitar. Entretanto, o medo da reprovação, a experiência da dor (simbolizada pela repressão policial), cria a tensão e a necessidade de diálogo interior em que cada face se alterna até chegar-se a um consenso.

Ao situar-se na confluência entre o privado e o público, o narrador-personagem recria o cotidiano do leitor, colocando-o frente a frente com suas próprias faces. Mais do que em qualquer outro conto, em "Forquilha" a forma está ajustada ao propósito subliminar do texto. Com efeito, o texto é um único parágrafo. Exatamente como um fluxo de contínuo de consciência, não respeita a ordenação das idéias segundo um critério rigoroso de agrupamento das unidades temáticas em unidades menores.

Em "A gorda do Carandiru" o autor quebra as expectativas de maneira análoga ao conto "Fornada". Se lá os métodos anticoncepcionais estimulam a procriação, aqui os remédios para emagrecer fazer a personagem engordar. A repetição da formula sugere a idéia recorrente de que é isto que fazemos em nossa vida. Repetimos sempre os mesmos comportamentos sem nos darmos conta disto. Todavia, aquilo que no cotidiano é inconsciente, na literatura é intencional e tem a finalidade evidente de preparar o leitor para reler sua realidade sem submeter-se ao absurdo de considerá-la necessariamente cíclica.

A primeira impressão que o texto sugere é a do conflito entre a imagem que Norma faz de si e aquela que deseja e não consegue alcançar. A frustração, a infelicidade decorrente de sua incapacidade de se aceitar tal como é, apesar dos problemas que isso possa acarretar para a sociedade, gera a tensão. A tensão é fruto do desejo, este esfomeado que nunca para de alimentar-se, engordando, engordando... Engordando e causando infelicidade. Assim, pode-se considerar o conto como inscrito dentro da tradição oriental. No hinduismo e no budismo, o "sansara", o circulo vicioso nascimento/ sofrimento/morte/renascimento, é fruto do desejo. Eliminando-o, deixando-se de alimentá-lo, a infelicidade desaparece.

Norma, presa de seu destino (ou de seu desejo), observa a prisão ao longe. Esta visão é que a faz sentir-se livre. Preconceito, segregação são questões inevitavelmente colocadas pelo conto. Contudo, é nisto que se resume o conto? O narrador de terceira pessoa enfatiza o tempo todo a infelicidade de Norma. Diz-se seu esposo ou companheiro ("...Dormíamos tão bem, envoltos pela colcha de flanela, agarrados de frio."). Não é apenas um esposo, é um esposo onisciente, que sabe exatamente o que se passa no íntimo da companheira. Será que devemos confiar inteiramente nele? Ao monopolizar o discurso o narrador exclui a esposa de cena. Norma não se manifesta diretamente no texto. Portanto, pode-se concluir que Norma bem pode não ser presa da própria infelicidade em razão de ser gorda, mas vítima do insaciável desejo do esposo de vê-la mais magra. Afinal, é Norma que sente vergonha de exibir-se ou é o narrador que pretende escondê-la do público?

A exemplo de "Forquilhas", "A gorda do Carandiru" também parece ter sido escrito sob influência de Machado de Assis.

O sexto conto, "Circunstâncias de uma harmonia", ficcionaliza a ficção. A narradora pretende escrever uma estória sobre o esposo. Fazendo-o expõe e põe em xeque as relações conjugais. Se a esposa tem que recriar a imagem do esposo para poder destruí-la, qual o status que ocupa na família? Contudo, ao ficcionalizar a ficção, a obra aproxima-se da realidade. Afinal, não é isto que fazemos o tempo todo? O crime passional decorre ou pode decorrer da incapacidade que algumas pessoas tem de ficcionalizar aquilo que acreditam realidade. Realidade que é, às vezes, apenas e tão somente decorrente de um sentimento (o ciúmes, por exemplo) e, portanto, pura ficção.

Em "Alívio", último conto do livro, retoma-se o tema do primeiro conto. Família ampliada, exploração da velhice, conflito de gerações, preconceito, são questões colocadas pelo texto. No conto, a rebeldia sonhadora (do velho) une-se a fantasia em construção (da criança) para derrotar a lógica dominadora da maturidade. Não é a toa que o pai abate a filha com uma paulada na cabeça, parte do corpo tradicionalmente relacionada à faculdade de pensar, de racionalizar. Ao longo do texto, o narrador abusa de metáforas coloridas e delicadas. O resultado só podia ser uma estória encantadora, em que o cotidiano assume proporções épicas. Coragem e cumplicidade coroadas de êxito. Mas não será assim mesmo o amor?

"Escarcéu dos Corpos" é uma obra variada. Variada como a capacidade do autor de falar de diversas maneiras dos mesmos temas: solidão, amor, preconceito, carência econômica, alienação, etc Os textos ligam-se não somente por serem fantásticos, mas em razão de denunciarem o absurdo do caráter cíclico das ações humanas através da retomadas de um mesmo padrão de quebra das expectativas em diversos contos.

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