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Assomada Nocturna: Quando o Passado Reescreve o Futuro

Escrito por  Elsa Rodrigues dos Santos, Maria Armandina Maia, Inocência Mata
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Viver sob o sol é a nossa condição irreversível. E também sob a sua sombra. José Luís Hopffer C. Almada in "O Parto da Sombra ou Confissões do Autor", À Sombra do Sol, volume I, Praia,1990

Assomada Nocturna: Este livro é uma edição refeita e reelaborada da que foi publicada com o mesmo título, nos inícios da década de 90. A actual edição é apresentada como «poema de N'Zé di Sant'y Águ», enquanto que na edição anterior havia uma ligeira diferença, como poema de Zé di Sant'y Águ. José Luís Hopffer Almada Assomada Nocturna (Poema de N'Zé di Sant'y Agu) Cadernos da Lusofonia, Viana do Castelo, 2005

Assim, o autor deste livro assume-se como um heterónimo, ou, pelo menos, como um semi-heterónimo, uma vez que assina simultaneamente o seu próprio nome.

Vejamos, então, o que representa esse heterónimo. Em O Parto da Sombra, referindo-se a N'Zé di Sant'Y Águ afirma: «Zé sou eu. Um simples signo do Adão e Eva, petrificados no Piku Ntoni, o patriarcal Monte de Santiago de Cabo Verde».

Noutra passagem dizia: «Esse heterónimo simboliza a sacralização dos elementos essenciais da nossa mitologia: os santos (em primeiro lugar, o S. Tiago) e a Água: a ilha, a raiz do Arquipélago.»

Por isso, representando tudo o que está na sua memória, ao nível telúrico, toponímico e literário, significa igualmente um «Eu» colectivo, ético, cultural e estético.

Este conjunto de poemas constituem uma unidade, ou melhor, uma espécie de narrativa poética, onde surgem vários elementos que coincidem com a sua própria vivência.

Inicia-se com a alusão ao seu nascimento e crescimento na terra natal. O poema intitula-se «Autobiografia ortónima, o que pressupõe um contraponto entre a sua personalidade e outra(s) figura(s) imaginada(s), criada(s), isto é, o(s) seu(s) heterónimo(s).

«Nasci numa aldeia à sombra de um sobrado e da austera penumbra das montanhas criança ainda galguei as exaustas margens das ribeiras a húmida orografia da Assomada e fiz-me árvore do planalto.»

Depois o poeta sugere uma segunda fase da sua vida, a sua ida da Vila de Assomada para a cidade da Praia:

«O serpentear das estradas onde o poeta fez-me desembocar no mar e desaguar no silêncio junto a uma cidade espraiada em azul e murmúrio.»

Uma terceira fase, a sua partida para a Alemanha, mais concretamente para Leipzig, onde concluiu os seus estudos superiores em Direito. «de costas para o mar insinuei-me para além da ilha - na lenta e transparente caminhada das nuvens para de Leipzig beijar a neve com odor a carvão e melancolia para da europa largamente acariciar o níveo e silente frio.»

Esta experiência da diáspora em terras frias da Alemanha não o fez esquecer o seu berço, antes pelo contrário, avivou-lhe a consciência de identidade e, sobretudo, a identificação com a ilha de Santiago, onde se ergue o Pico de António.

«hoje sei que sou um simples signo de Adão e Eva e do seu éden pétreo no pico de António» «Autobiografia ortónima» que resume alguns dados biográficos, assenta, sobretudo, nessa relação umbilical com a terra que vai ser desenvolvida através de um discurso poético memorialista, iniciado pela interrogação «lembras-te?», em que traz à boca de cena os companheiros de infância da Vila de Assomada, protagonistas com ele das aventuras, das brincadeiras, de toda a vivência própria de uma adolescência passada num meio pequeno, com as características cabo-verdianas.

Perpassam no cenário das longas noites de Assomada meninos como Dhigo, Txikoza, Djidjinho, Juan, Zé Preta, Kaká, António Pedro, Ima, Álvaro, Zélio, Nando, Horácio, Adriano, Djoni, Txantxan, Lalan, Carlinhos, Djonka, Mito, Txide, Loló, Barrusco, Pira, Jorge Padjudo, Totó de Txubinha, Bumba, Julinho, Danny, Zé de Nair, enfim, uma longa lista de nomes que se transformam num «nós» colectivo:

«Todos nós éramos pretos brancos mulatos todos éramos peles-vermelhas de escalpes crioulos.»

Esse grupo de adolescentes representado por «todos nós» vai crescendo, passando das brincadeiras de piratas, das infatigáveis correrias e dos esconderijos, «das bolas saltitando», «dos piões rodopiando» à consciência de que era necessário serem os guardiães das sementeiras, das colheitas, «espantando o azedume/ os corvos os macacos as monas»/ as galinhas de mato as codornizes/ os gatos da serra os pombos selvagens.»

E o poeta lembra a Kaká «das fontonas dos charcos/ das poças de águas pútridas/ infestadas de insectos de vermes/ do cheiro nauseabundo/ boiando nas águas fétidas lamacentas / dos homens afogados/ como Nhô Nando fisgados/ do pântano e do esquecimento» e tudo isso «pela covarde indiferença/ dos senhores dos paços de concelho/ entretidos com o clube/ as concubinas os jogos de fortuna/ e as noites longas de Assomada.»

E se « todos nós éramos Almas em cinza (...) a amargura da fome as sombras da dor nos cabelos crespos e no extenuado resfolegar no coração da tenacidade» também «todos nós éramos emigrações inscritas nos esqueletos das montanhas. (...) Todos nós éramos Corpos nómadas Sonhando navegar Nas noites hedónicas Inesperadas de amsterdão.»

O sentimento da insularidade insinua-se no sonho da viagem para paragens desconhecidas, inevitável na imaginação dos jovens ilhéus.

Mas já há nesse sentimento e no desejo da partida, a experiência do poeta, da dor da ausência, da saudade do lar materno. E vêm-lhe à mente as raparigas da infância, das primeiras experiências amorosas, «os sorrisos/ tímidos marotos/ e nos ínvios caminhos da arribada/ propícios ao rapto ao amor à intimidade/ do sangue jorrando/ dos hímens rasgados/ destroçados/ sobre a sua terra árida e bufa/ salpicada de verde e de ausência.»

E de lembrança em lembrança, o poeta chama os seus amigos um por um e vai-se tornando adulto com eles, com a vida, com os sonhos, vendo passar como num painel, a puberdade, os primeiros anos da juventude, com os seus anseios, os bailes de fim de ano, por entre os fraques e os longos vestidos, as mornas, as mazurcas, as polcas e o maxixe, o violão, o cavaquinho e a rabeca.

O poeta traz igualmente à memória, com toda a tragicidade, a miséria da ilha, as mulheres de amor comprado, as noites de álcool, a «dor derramada/ nos lombos de Patxitxa / carregador de sacos/ carregador da noite/ carregador do funaná.»

«As noites de Assomada de paraísos sonegados de infernos esconjurados no leito de Olívia refugo e refúgio de rico e de pobre sombra e semente de todos os pudores desflorados de todas as virtudes desgraçadas suicidas explodindo no êxtase da carne na euforia da coxa.».

E lembra também os mortos por inanição ou de queda em fundos precipícios, no passado, mas no âmbito da emigração recente, as prisões sobrelotadas, os rostos escuros devolutos nos bairros degradados em Portugal. Deste modo, compara a morte física com outra espécie de morte que é a emigração forçada pelas condições económicas.

O discurso poético vai-se adensando , à medida que a obra progride. O verso alonga-se, o poeta, tomado de uma febre catártica, qual um Álvaro de Campos, vociferando, delirando e é todo o Cabo Verde, com os seus operários emigrantes derramados nas ruas de Lisboa ou da Amadora, «da pedreira dos húngaros da cova da moura/ de santa Filomena da azinhaga dos besouros/ nos estaleiros derruídos de Alcântara/ (...) nas mãos laboriosas madrugadoras/ benzendo as escolas as pontes as autoestradas.»

Mas é igualmente o contraste de classes. Por um lado, os meninos de família, «amodorrados no conforto» a que ele e muitos dos seus companheiros pertenciam, «bastardos da cor/ excessivamente clara/ bastardos da cor/ excessivamente escura/ brancos da terra/ descendentes dos venerandos moradores de Santiago/ filhos das secas e de outras intempéries/ encurralados entre o salão e o quintal.» (todos nós éramos/ meninos bonitos / «prisioneiros da primogenitura/ dos agasalhos da família enobrecida» e, por outro, os pobres da terra. ( «os infantes carregadores/ da lenha do sisal/ do massapé» e as «mulheres artesãs de fonte de lima » , «palmilhando os caminhos pedregosos».

À interpelação do poeta a um «tu», «lembras-te?» responde um «nós colectivo» , «todos nós» que se assume como um coro de tragédia clássica, reflexo da voz do povo, da voz da razão , da sabedoria , e da memória. («todos nós éramos).

E é no tom entre a tragédia e a epopeia que se desenha a saga do povo cabo-verdiano, resgatando o passado, a história, preservando um património humano e cultural, no binómio entre o espírito dionisíaco e o espírito apolíneo, isto é, entre a embriaguez, a festa, a pulsão sexual, a desmesura e, por outro lado, o sonho, o sentido da harmonia e da beleza. «Todos nós éramos doloridas silhuetas de achadas escalvadas de colinas escaveiradas

Todos nós éramos Alucinações imponentes colinas azuis Biriandas erguidas sobre a terra mulata e estéril como memoriais de paciência e perseverança contra a seca e a miséria confundindo-se com o perfil das rochas.»

Nas longas noites de Assomada , erguem-se os espectros do passado de negros, mouros, judeus, árabes, bárbaros indo-europeus, corsários, rebelados das ilhas, negros fujões. As noites metaforizam-se e são tempo.

O tempo que faz a história, que é a vida rolando. E se o discurso poético se desenvolve num «crescendo» e tal como uma ária musical, num lirismo grave e solene, servindo-se de todos os instrumentos que, no poema, são as palavras na sua potencialidade, a metáfora, a hipérbole, o verbo, as assonâncias, enfim, toda a catedral estilística, vai terminar num «descendo», em fina harmonia lírica. O verso encurta de novo, torna-se mais contido, sustentado pelas anáforas «noites» e «lembras-te», esta já mais espaçada, mas sobretudo o gerúndio, tornando presentes as longas noites de Assomada na sua história e vivência.

Aliás, a música não se pode dissociar da poesia. É o génio musical que dá origem ao nascimento da tragédia clássica e a comprovar a existência do coro.

José Luís Hopffer Almada manifesta uma grande sabedoria ao compor esta obra poética, bebendo das fontes clássicas e orquestrando o poema com belíssimas imagens, transfiguradoras da realidade social e histórica de Cabo Verde.

Mitificando o povo, ora elevado à categoria de herói, ora mostrando-o na sua face de anti-herói e trabalhando o ritmo nas suas variações, o poeta oferece-nos esta bela peça poética, por vezes, alternando o patético com a contenção, a exuberância da imagem com a sobriedade , mas tendo sempre em atenção a harmonia, a sonoridade, a virtualidade lexical, a força emotiva, dotando a obra de uma qualidade que o coloca ao nível dos grandes poetas de Cabo Verde , enriquecendo, com este valioso contributo, a sua literatura.

Parabéns, José Luís!

Elsa Rodrigues dos Santos Presidente da Sociedade da Língua Portuguesa

Viver sob o sol é a nossa condição irreversível. E também sob a sua sombra. José Luís Hopffer C. Almada in "O Parto da Sombra ou Confissões do Autor", À Sombra do Sol, volume I, Praia,1990

Tendo seguido de perto o trabalho de José Luís Hopffer Almada, como investigador, editor e divulgador da cultura caboverdeana, cumpre-me, antes de mais, registar a qualidade do seu trabalho nestes diferentes domínios, que o tornam um nome de referência no que respeita à difusão do património cultural de Cabo Verde. De facto, a profunda coerência com que tem exercido este ofício de agente cultural em permanente missão, acabou por impor o seu nome, como o de alguém inexoravelmente ligado à tarefa de tornar visíveis as vozes que ainda não vemos.

Esta menção à restante obra de José Luís Hopffer Almada reveste particular importância na leitura de Assomada Nocturna, dado que todo o trabalho poético deste autor se integra numa linha de preservação patrimonial, bem patente nas três publicações anteriores: À Sombra do Sol, volume I e À Sombra do Sol, volume II (Maio de 1990) e Assomada Nocturna (s/d, 1993?).

A edição de Assomada Nocturna, assinada pelo próprio José Luís C. Hopffer Almada, reaparece aqui, sob o mesmo título, não obstante a distância temporal que separa as duas edições.

No entanto, a obra reunida nesta "nova" Assomada Nocturna é-nos apresentada como um único poema, de NZé di Sant’ y Águ, que vem absorver, substituindo-o como uma sua variante mais complexa, o nome literário Zé di Sant’y Águ ,criado em 1978, em Assomada, como "personalidade (....) profundamente ancorada no chão telúrico de Santiago e de Cabo Verde", nas palavras do autor ortónimo e, aqui, reiterada como "responsável pela escrita poética em crioulo e por aquela poesia lusógrafa de maior substancialidade telúrica ou em que, interrogadas as matrizes da condição humana, se detecte uma indagação estética da universalidade fundada na pretensão de uma autenticidade cabo-verdiana, historicamente situada". Referindo-se a Zé di Sant’y Águ, diz José Luís Hopffer C. Almada em "O Parto da Sombra(...)", que esse "heterónimo" (...) simboliza a sacralização dos elementos essenciais da nossa mitologia: os santos (em primeiro lugar o S. Tiago (...) e a Água; a ilha, a raiz do arquipélago. Zé sou eu. Um simples signo de Adão e Eva, petrificados no Piku Ntoni, o patriarcal Monte de Santiago de Cabo Verde". Santiago, Sant’ Iago, S. Tiago, pois, como premissas histórico, memorialística, telúrica,, toponímica e identitária para a afirmação sustentada da personalidade literária e da respectiva obra. Diz ainda o autor ortónimo, em texto ainda inédito: É essa pretensão de afirmação que é plenamente assumida e incorporada neste livro com a fusão/integração do N (o eu forte e afirmativo, a primeira pessoa do singular cabo-verdiano) e do Zé, associado à vizinhança, à proximidade e à intimidade e que se confunde com o nome próprio e o nome comum (nominho e nome de casa) dos seres humanos do nosso escalavrado chão em cumplicidade com a banalidade das coisas e a vulgaridade dos dias, as quais, por sua vez, se fundem na individualidade identitária do cidadão, do actor social, do autor, do sujeito poético. O NZé, pois, para significar também a busca de uma sacralidade que, sendo um dom cobrado e arrancado ao labor do artífice do verbo, pretende afirmar-se como deliberação de mestria da palavra, como sugere o swahili. Fica pois implicitamente dito que NZé di Sant’y Águ representa uma personalidade poética que se quer plenamente amadurecida e capaz de superar pelo seu aperfeiçoamento a linguagem e a escrita poéticas de Zé di Sant’y Águ, nas suas modalidades lusógrafa e crioulógrafa, superação essa também testemunhada pela aguda maturidade da nova "Assomada Nocturna", em edição, agora, consideravelmente revista, aumentada e, assim, refeita.

Julgo que valeria a pena aprofundar, noutro espaço que não o deste posfácio, o modo de produção de José Luís Hopffer C. Almada, bem como a integralidade que subjaz à heteronímia que reivindica no seu trabalho poético. A este propósito, sublinho a fundamental importância de "O Parto da Sombra ou Confissões do Autor", texto de abertura à obra À Sombra do Sol, Volume I, para uma maior compreensão das "várias almas" que sustentam a sua escrita.

Outras pistas poderiam - e deveriam - ser verificadas, na construção do trabalho que aqui nos é apresentado: a dinâmica do mundo rural, não só como contraponto da mundividência urbana, de alguma forma presente na Vila da Assomada, mas ainda como espaço de dupla insularidade, um espaço em que a Assomada, de costas para o mar, é do tamanho do mundo, a sua medida e a sua única proporção. De igual modo, mereceria um estudo mais alongado a universalidade deste poema, criada a partir de uma geografia íntima e regional. Apesar do muito que já se disse sobre esta matéria, creio que valerá a pena explorar a qualidade literária que se assinala nesta obra, restrita mas não restritiva e, por isso mesmo, capaz de propor uma nova e necessária dialéctica do regional e universal.

A dualidade, entre as indagações, próximas da oralidade, Lembras-te? é ritualmente co-respondida por uma outra voz, indiciada no texto pelas marcas de Todos nós éramos, que intersecta, recria, amplia e transforma o olhar virginal e cristalino dos meninos, as crianças circulares de beleza que povoam a Assomada e a tomam de assalto ardendo vegetalmente, que ocupam um território primordial na economia do poema de NZé di Sant' y Águ.

As evocações constantes aos meninos com quem cresci, para usar palavras do próprio autor (edição de Assomada Nocturna de 1993), assinalam a função iterativa dos companheiros invocados, Lembras-te?, como testemunhos de uma mundividência tão forte quanto viril, tão insular quanto protectora, tão secreta quanto codificada.

O chamamento do autor é de tal forma imperioso que reescreve o seu tempo, o tempo em que se edificaram, como uma fortaleza, na sua singular condição de crianças sedentas de galgar as exaustas margens das ribeiras para se fazerem árvore do planalto. Mas os meninos heróis são-no também pela sua constante vigilância, de fisgas retesadas/ fundas preparadas(...) espantando (...) os corvos os macacos as monas, dupla vigilância, aliás, para iludir a severidade da tutela familiar, sem perder nunca de vista o seu cinema paradiso, espaço de sigilo e liberdade.

A voz "outra" contextualiza as personagens e cenários desta infância livre e proibida, estabelecendo-se como paradigma de exigência e rigor históricos, revisitados com o valor acrescentado da maturidade e compreensão de fenómenos que os olhos de meninos da Assomada, bolas velozes apavoradas poderiam apenas pressentir.

É assim de crucial importância procurar na aparente hibridez do deslumbramento da evocação da infância, as linhas doloridas com que ela se coseu. Nem a alegria dos corpos nus, nem a agilidade em galgar espaços, nem as improvisadas jangadas, obliteram os meninos alimentados a batata assada/ café escasso e leite dormido, perante a covarde indiferença/dos senhores dos paços do concelho/ entretidos com o clube/ e as concubinas os jogos de fortuna/e as noites longas da Assomada?

A função evocativa da memória é amplificada pela fidelidade e minúcia exaustivas, enquadradas por uma adjectivação também exaustiva, em que se reiteram o afecto, a generosidade, a audácia e a beleza como elementos preciosos e primeiros, no refazer de uma memória colectiva: Todos nós éramos/guardiões leais das sombras/ de quem estimamos(...) como medor e outros cães/ (...) guardando-nos as covas de milho/os muros das hortas/o branco caiado dos quintais. A fusão dos seus passos com os espaços da natureza, exuberante e quase violenta, de tão quotidiana e banal, confere um movimento vital imanente ao poema:

Todos nós éramos/ espectros tímidos/ circulares de beleza/ ardendo vegetalmente/ ante o mistério da magnólia da madalena/ da gardénia da margarida da dália da rosa/ e das outras plantas/ e das outras flores crescendo/ exuberantes cuidadas nocturnas/ nos jardins da Assomada.

A memória cumpre-se neste texto de modo magistral, a partir da reconstrução "infalível" do lugar de origem, como fundador de um espaço de liberdade e colectividade fulcrais. Mas é o valor acrescentado desta mesma memória que confere ao poema a sua dimensão única, em termos patrimoniais. José Luís Hopffer Almada repõe as suas origens no quadro social e familiar de um Cabo Verde revisto e revisitado:

Todos nós éramos/atentos sedentos ouvintes/dos amigos retornados/aos lugares tantas vezes nomeados/da pátria desfraldada/espectaculares nos seus fatos impecáveis/sapatos polidos cabelos luzidios/tristes porém e amedrontados/pelo olhar condescendente meticuloso/ dos parentes dos primos metropolitanos/ sobre os éres pouco carregados/ na sua timidez ultramarina e insular/os is resplandecentes de Santiago/pavoneando-se estranhos e pardos/ entre o reboliço vário/o esquisito bulício de Lisboa/ dos colégios internos/ do exílio de nós.

À luz da sua função testemunho, este "guardador de rebanhos" chega ao lugar de infância sem nunca de lá ter saído, com a mesma ternura e a mesma fragilidade com que o viveu. Mas também com "o outro olhar", a outra voz, dolorosa consciência de si e do mundo que o leva a intercalar os territórios da infância com a sua inexorável interpretação.

O diálogo entre as vozes Lembras-te? e Todos nós éramos não visa estabelecer uma função dicotómica, mas antes uma unidade (pro)funda, uma circularidade épica entre todos os momentos vividos, na sua candura iniciática ou na sua condição de solilóquios de pedras nuas/velando a geometria encarcerada da vida.

No monodiálogo entre as duas vozes, que mais não são do que o outro de si, vai impor-se, de forma crescente e visível, um território crítico e audacioso, em que se renova a tessitura da insularidade e da emigração: Todos nós éramos emigrações/inscritas no esqueleto das montanhas/navios de todos os atlânticos/ancorados na fisionomia/raquítica e contorcida/das purgueiras ao sol/da rala vegetação/nas raízes da fome e da carestia.

José Luís Hopffer C. Almada e NZé di Sant' y Águ constroem assim uma dupla invencível, capaz de restaurar uma dinâmica algo saturada entre "o partir e o ficar", de que se tem alimentado muita da crítica sobre a cultura caboverdeana.

Mantendo intactos os lugares e figuras que lhes pertencem, como pedras basálticas, desfilam perante o leitor, num rosário de contas cuja litania quase se ouve, as histórias de vidas mínimas, vidas de ninguém que nunca fariam história, se não pertencessem a este lugar que José Luís Hopffer Almada consagra no poema, na intenção evidente de salvar do esquecimento todos quantos pertencem àquela origem, por mais desviados ou inglórios que tenham sido os seus caminhos como esse relojoeiro lendário hermafrodita/temido incendiário das casas da pobreza/da cobardia e da rotina do quotidiano/por seis anos escorraçado do convívio/da decência dos homens honrados/ e da intimidade da folhagem/do poilão da boa entrada.

Neste texto, lucidamente contemporâneo, refazem-se (e reconciliam-se?) outras trágicas dimensões da humanidade roubada, aqui evocada com uma integridade que tornam este livro um objecto precioso, pelo resgate de heróis a que deu vida, através de uma senda luminosa que conduz o tempo ao Tempo: navegando lestos/quais pérolas do oceano/sulcando ríspidos/sobre os morgadios/ e sobre a infame ousadia/dos que podem mercadejar/ com os tempos de ser Tempo/nas noites longas da Assomada.

Está assim cumprido o desígnio desta Assomada Nocturna, a assinalar um marco literário, um legado que NZé di Sant' y Águ nos pôs nas mãos no dia em que (por acaso ou destino?) se assinala a Independência de Cabo Verde.

Maria Armandina Maia Lisboa, 5 de Julho de 2005

A linguagem do escritor não tem por incumbência representar o real, mas significá-lo." - Roland Barthes

Disse um dia o escritor queniano Ngugi Wa Thiong'o, romancista e ensaísta e um dos maiores intelectuais africanos vivos (infelizmente a viver nos Esatdos Unidos), que só falava do passado principalmente porque estava preocupado com o futuro. Afirmação polémica, poderia pensar-se, se a História, isto é, o discurso de reflexão sobre o passado, não visasse precisamente a construção do futuro.

É o que acontece neste livro de José Luís Hopffer Almada, Assomada Nocturna, a que o autor quis regressar - metaforica e geograficamente - numa atitude de inusitada convocação simultaneamente lírica, de dominante elegíaca, e épica, de dominante conativa. Isto é, no processo de rememoração do passado da infância e juventude, o sujeito faz a celebração de um grupo, não propriamente através do que realmente tenha acontecido, mas sim através de uma vivência fictícia, isto é, através da significação da lembrança do vivido. Bem lembra Roland Barthes , que "a linguagem do escritor não tem por incumbência representar o real, mas significá-lo" (Barthes, 1978: 205). Isto é, ainda que o longo drama narrativo) de oitenta e nove segmentos que é Assomada Nocturna (quando o primeiro Assomada Nocturna tinha apenas trinta e dois) pareça referir eventos acontecidos nas mil e uma noites solarangas da então vila de Assomada, com actores que conhecemos e com os quais privamos, com uma disposição eventualmente em progressão factual (vêm-se disseminados sinais do acontecido), a sua ligação com a história (realidade sujeita ao desenrolar cronológico) ganha um carácter que ultrapassa a simples função de comunicar ou exprimir para - de novo Barthes - "impor um além da linguagem que é ao mesmo tempo a História e o partido que nela se toma" (Barthes, 1997: 11). Este tempo pode considerar-se a fase de "conhecimento do mundo" - que se fez tanto nas noites de leitura do Padre António Vieira à História das ilhas feita de grilhetas e engenhos, do yé-yé, rock n roll, twist, rumba, merengue, cúmbia, coladera à imaginação do maravilhoso e fabulosa:

Io ioi Irondina

N ba ta pasa na Matu Njenhu

N atxa kuatu boi na gera

dos ta da

dos ta npara

kel ki npara

ki ê más balenti

más balenti ê Nhônhô Rita

Nhônhô Rita di bongolon

sabola berdi ádju madur

io ioi Irondina

Tempo de aprendizagem após o qual todos se disseminaram pelas quatro partidas do Mundo e pelos vários trilhos da Vida: estas figuras não funcionam mais do que metonímias da História da Assomada, microcosmos, por sua vez, da nação cabo-verdiana. Este poema é, assim, um hino a uma Assomada original em que a "comunidade" era, de facto, o produto de um desideratum que existia performativamente...

Se é verdade que a narrativa é a modalidade discurso que melhor permite representar o passado, uma vez que é uma arte essencialmente temporal, a poesia é a modalidade privilegiada para a expressão de sentimentos, mesmo se no caso estamos perante recordações que advêm das vivências afectivas e históricas, humanas e espácio-temporais, sonhos e aspirações geradas na mátria santacatarinense, cujo núcleo uterino é a Assomada. Sobretudo se essa poesia se faz presentificação de eventos, acontecidos ou imaginados, através de estratégias verbais próprias do discurs framático - pois sabemos que as categorias "real" e "imaginável" podem ser fundamentos da veridicidade e da verosimilhança, mas não da história e da literatura. Existe, de facto, nesta Assomada Nocturna a exponenciação de uma dinâmica temporal em dois movimentos (o passado e o presente em actividade rememorativa): logo o primeiro poema, "Autobiografia ortónima" (poema que antes, na Assomada Nocturna de 1993, se intitulava apenas "Autobiografia"), é um poema em que se torna evidente o transcrescimento do sujeito enunciador e, simultaneamente, se anuncia a expansão espacial (isto é, geográfica) e espiritual e cultural da criança que um dia cresceu e se aventurou por outros horizontes, exteriores à "comunidade imaginada":

criança ainda

galguei as exaustas margens das ribeiras

a húmida orografia da Assomada

e fiz-me árvore do planalto

(...)

de costas para o mar

insinuei-me

- para além da ilha -

na lenta e transparente

caminhada das nuvens

para de Leipzig beijar

a neve com odor

a carvão e melancolia

para da Europa

longamente acariciar

o níveo e silente frio

É tão importante este "manifesto de vida"” que a partir deste momento o longo poema vai ler-se como a rememoração de um ritual de iniciação de cujo aprendizado os iniciados se serviriam para resistir às "noites em marcha"”, "noites várias/ estilhaçadas/ no alvorecer/ das esporas guerreiras/ no amanhecer/ das esporas diurnas/ no estremecer/ do canto exacto amotinado/ dos galos da Assomada". Neste processo mais não foi, perceberá mais tarde o sujeito, de aprendizagem da vida juntamente com os inúmeros amigos de infância, seus interlocutores, de entre os quais se destaca Digho, como o paradigma desse processo de presentificação do passado, pois que é interpelado no início e no final da narração rememorativa: e não é despiciendo facto de, no final, o enunciador se dirigir a Digho com uma fina amargura, num tom subtimente elegíaco: "Lembras-te ainda, Digho?" (meu sublinhado).

Na verdade, esta oração (no sentido da oratória, da arte de discursar, da eloquência, ou seja, no sentido de fala eloquente em ocasião solene) tem uma dinâmica que se projecta no futuro, em nostalgia de um tempo cujo significado não terá sido entendido no presente daquele passado e que o sujeito quer recuperar na sua significação histórica, discorrendo, neste balanço, pelos trilhos de uma linguagem testamentária, no final dessa viagem rememorativa.

Nesse processo de vazamento rememorativo, a poesia, embora muito intimista (daí o intenso lirismo deste poema), resulta pungente e corrosiva não raro, feita de linguagem de transbordante ludismo retórico, em que o equilíbrio entre o sobredito e o entredito é, por vezes, desigual, acabando, de certa maneira, por desorientar a imaginação crítica. A significação tece-se de muitos subentendidos que se reportam à História, como nos cinco trechos (p. 96-100) que se referem a Gustavo e Homero (de cuja memória se faz a história de Assomada):

1. Ai noites de Assomada

noites de Homero e Gustavo

sob as vestes da noite

proclamando

o sagrado do chão trilhado do chão beijado

por Nho Naxo e pelas suas palavras

ricocheteando másculas como provérbios

percutindo prematuras e ascéticas como profecias

ali ben tenpu

ki orina di bránku

nen pa ramédi

ka ta atxadu

(…)

2. Noites de Homero e Gustavo

inclinando-se

reverentes

em veneração

dos cadáveres imaginários

de Gervásio Francisco e Narciso

arcabuzados

traídos

na sua exangue

na sua alucinada visão

de um Santo Domingo badio

de um Haiti verdiano

irrompendo da noite de monte agarro

e das grilhetas da ilha

de Santiago de Cabo Verde

(...)

3. Noites de Homero e Gustavoperfilando-se

solenes

em rememoração

da lucidez de Nho Nhonhô Landim

ladino chefe dos rabelados

(...)

4.Noites de Homero e Gustavo

deslumbrando-se

com a parcimónia sem mácula

despida de pânico

das courelas de terra

(...)

5. Noites de Gustavo e Homero

proclamando

na primeira das esquinas

o advento de Amílcar vivo

(...)

É significativo o facto de esta citação da História terminar em e com Amílcar. Amílcar Cabral que se quer e se mantém vivo: os tempos de vivência, reportando-se aos anos de juventude, ganham significado da consciência histórica do enunciador (anos depois, ainda jovem, em espaço-tempo de formação, então Leipzig) e na representação do cerzir do espaço cabo-verdiano, agora em espaço-tempo de reflexão: não é possível ignorar o facto de o poeta ser, hoje, uma voz pertinente na actividade pensativa da nação. Ganha, por isso, signifcação extratextual um dos últimos trechos da peroração (p. 80):

Todos nós éramos

artefactos de barro

por mãos rudes rigorosas

por mãos negras neolíticas

torneados

por mãos divinas

moldados

e inoculados com o sopro da alegria

Existe nesta enunciação uma dimensão nitidamente adâmica, primordial. Quer dizer, o sujeito enunciador apresenta-se e apresenta a sua geração como entidades moldadas por mãos contaminadas pelo poder criador da divinidade até, porém por mãos que funcionam como sinédoques do Homo Faber, pensado na sua materialidade, na sua espiritualidade e na sua culturalidade, e animadas por um sopro mágico: da nação por vir. Isto reforça a dimensão iniciática desse tempo, da Assomada nocturna que se representa através de uma geografia identitária, a nível sócio-político, ideológico e afectivo, identidades que se expandem em cartografias outras e solapam o tempo da vila, hoje cidade, insular e nacional.

Em texto que serviu prefácio a este livro de José Luís Hopffer Almada, a que dei o título de "Corografias da memória" (2005: 7), afirmei que a convocação dos vários actores do tempo de infância e juventude, "nos seus diversos e diferentes meandros espácio-temporais, gera uma sinergia centrípeta que culmina na mais eufórica solaridade, antecedida da evocação dos tempos de convivência e comunhão (que na edição de 1992 era reforçada pela convocação dos lugares de memória infanto-juvenil, numa original apoteose toponímica)".

Noites solarengas

Noites claras

explodindo

evidentes

no cântico

ridente

estridente

de repente

em manhãs verdes

às portas abertas de chão bom

às portas libertas despertas das ilhas

na alvorada da Assomada

Lembram-se, mocinhos?

Esta convocação intenta, no entanto, uma revitalização do seu próprio ser, da sua condição de agente da história. É como se o sujeito, nesse processo de expressão apelativa ("Lembras-te?), quisesse, ele próprio, não esquecer e reenergizar-se com o fio das suas palavras. É, por isso, significativo que logo no início, no primeiro poema, "Autobiografia ortónima", o enunciador nos informe que:

hoje sei que sou

um simples signo de adão e eva

e do seu éden pétreo no pico de antónio

- reforçando, com a citação explícita aos míticos primeiros homens, Adão e Eva, a dimensão demiúrgica, formativa do rapaz que viveu a voragem das mil e uma noites da Assomada matricial. Esta Assomada Nocturna acaba, por ser, afinal, um convite ao conhecimento da geração daqueles meninos que mais não são metonímia da caminhada do país, Cabo Verde.

Inocência Mata - Professora da Faculdade de Letras de Lisboa Queluz, 25 de Novembro de 2005

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