testeira-loja

Tempo e Memória nas Águas de Um Rio

Escrito por  Valci Vieira dos Santos
Classifique este item
(0 votos)
O objetivo deste trabalho é mostrar a possibilidade de diálogo entre os contos «A terceira margem do rio», de Guimarães Rosa e «Nas águas do tempo», do escritor moçambicano Mia Couto. Ambas narrativas se constróem em torno de um rio cuja simbologia nos autoriza direcionar sua leitura para a busca do conhecimento através do resgate de uma memória ancestral, garantidora da perpetuidade humana.

O objetivo deste trabalho é mostrar a possibilidade de diálogo entre os contos «A terceira margem do rio», de Guimarães Rosa e «Nas águas do tempo», do escritor moçambicano Mia Couto. Ambas narrativas se constróem em torno de um rio cuja simbologia nos autoriza direcionar sua leitura para a busca do conhecimento através do resgate de uma memória ancestral, garantidora da perpetuidade humana.

No conto de Rosa, um pai de família ordeiro e cumpridor de seus deveres, um dia, sem dar maiores explicações, resolve construir para si uma canoa cuja resistência pudesse durar de vinte a trinta anos. Sem que ninguém entendesse, esse homem, silenciosamente, vai viver nas águas do rio. Desde o dia em que partira, nunca mais travou contato com nenhum membro da família. Seus parentes e os amigos várias vezes tentaram inutilmente uma aproximação a fim de que ele retornasse para casa e desistisse dessa estranha empreitada.

Sua mulher e os filhos mais novos desistem e vão embora para a cidade, cabendo apenas ao filho mais velho o compromisso de não abandonar o pai. Por todo tempo que o velho permaneceu nas águas do rio, esse filho lhe foi fiel levando roupas e alimentos necessários para sua subsistência.

Depois de alguns anos, achando que o pai já não tinha mais vigor para continuar nessa tarefa, propõe substituí-lo nessa canoa. Inesperadamente, o velho atende ao pedido. No entanto, no momento da troca, o filho recua e fraqueja nessa missão de ocupar o lugar de seu pai na solidão do rio.

No conto de Mia Couto, um velho silencioso leva seu neto numa canoa para as águas de um rio para que pudesse transmitir-lhe a tradição de seu povo:

Depois viajávamos até ao grande lago onde nosso pequeno rio desaguava. Aquele era o lugar das interditas criaturas. Tudo o que ali se exibiam, afinal, se inventava de existir. Pois, naquele lugar se perdia a fronteira entre água e terra. Naquelas inquietas calmarias, sobre as águas nenufarfalhudas, nós éramos os únicos que preponderávamos. Nosso barquito ficava ali, quieto, sonecando no suave embalo. O avô, calado, espiava as longínquas margens. Tudo em volta mergulhava em cacimbações, sombras feitas da própria luz, fosse ali a manhã eternamente ensonada. Ficávamos assim, como em reza, tão quietos que parecíamos perfeitos. De repente, meu avô se erguia no concho. Com o balanço quase o barco nos deitava fora. O velho, excitado, acenava. Tirava seu pano vermelho e agitava-o com decisão. A quem acenava ele? Talvez era a ninguém. Nunca, nem por instante, vislumbrei por ali alma deste ou de outro mundo. Mas o avô acenava seu pano. – Você não vê lá, na margem? Por trás do cacimbo? Eu não via. Mas ele insistia, desabotoando os nervos. (COUTO, 1996, p.10)

Por diversas vezes, o menino fora levado pelo avô ao rio, numa canoa, para que pudesse aprender a ver o pano branco que se agitava do outro lado do rio. Era preciso dar continuidade a um conhecimento que atravessara gerações. No entanto, era um esforço em vão, pois o menino nada via. Até que, um dia, inesperadamente, o menino passa a compartir da visão de seu avô: «Foi então que deparei na margem, do outro lado do mundo, o pano branco. Pela primeira vez, eu coincidia com meu avô na visão do pano.» (COUTO, 1996, p.13) Com isso, garantia-se a manutenção do saber dos seus antepassados, possibilitando, dessa forma, a continuação da existência humana. Esse menino seria, assim, a ponte na qual se faria a travessia das gerações anteriores para as futuras. O narrador encerra o conto fazendo a seguinte afirmativa: «Eu acabava de descobrir em mim um rio que não haveria nunca de morrer.» (COUTO, 1996, p. 13)

Como vimos, nos contos de Guimarães Rosa e Mia Couto, o espaço físico e espiritual onde se desenrola a ação são as águas de um rio. No conto de Rosa, a chave para decifrá-lo nos é dada pelos desenhos feitos pelo próprio autor para ilustração do sumário de Primeiras estórias. O título desse conto vem acompanhado por cinco desenhos: no centro, um homem remando dentro de uma canoa cercado por dois símbolos do signo zodiacal de Libra ; na ponta esquerda, o signo de Sagitário; e, na ponta direita, o símbolo matemático do infinito. Segundo Jean Chevalier, «a flecha, à qual se assemelha o sagitário, dá a síntese dinâmica do homem voando em direção a sua transformação, pelo conhecimento, de ser animal em ser espiritual.» (CHEVALIER, 2003, p. 796) Sendo assim, é possível, já a partir desse signo, perceber o sentido da atitude desse homem que levava uma vida absolutamente normal e de repente, contrariando o senso comum, decide viver rio adentro numa canoa:

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa. Para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho. (ROSA, 1976, p. 28)

As pessoas especulavam o significado dessa atitude absurda, procurando um entendimento para esse comportamento que se opunha à lógica racional:

Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele.(ROSA, 1976, p. 28)

No entanto, essa atitude não pode ser compreendida no plano racional, daí a dificuldade de as pessoas perceberem o real significado de um homem se isolar nas águas de um rio.

A outra figura usada na ilustração, o signo de Libra, sugere que a conduta insólita desse homem esteja ligada ao desejo de autocontrole e harmonia, uma vez que o equilíbrio pode decorrer do conhecimento.

Entre os signos de Libra, no centro, encontra-se um homem remando numa canoa. Como a canoa simboliza a viagem, talvez o autor queira apontar a necessidade se fazer uma travessia do terreno material, “o mundo de cá”, para a esfera do espiritual, “o mundo de lá”, para que a sabedoria e o equilíbrio sejam alcançados. Na ponta da direita, temos o símbolo matemático do infinito. Há nessa travessia do plano material para o espiritual o desejo de eternidade. Nos dois contos em estudo está presente esse desejo de tornar-se eterno. O narrador de «Nas águas do tempo» encerra sua estória fazendo a seguinte revelação: «Eu acabava de descobrir em mim um rio que não haveria nunca de morrer.»(COUTO, 1996, p. 13). Em outra passagem desse conto, o avô alerta seu neto para o sentido inextinguível existente naquele espaço do rio: «– Nesse lugar, não há pedacitos. Todo o tempo, a partir daqui, são eternidades.» (COUTO, 1996, p. 11) Essas passagens do texto compartilham com o pedido final do narrador de «A terceira margem do rio”: “Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água, que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio.» (ROSA, 1976, p. 32)

Rica em simbolismo a água está presente em diversas religiões, sempre remetendo à idéia de renovação e de perenidade. Na Bíblia, por exemplo, representa a vida espiritual e o Espírito oferecidos pelo Pai aos homens por meio de seu filho. Como afirma Jean Chevalier em seu Dicionário de símbolos, «São Atanásio explica o sentido dessa doutrina, dizendo: O Pai sendo a fonte, o Filho é denominado de rio, e diz-se que nós bebemos o Espírito (Ad Serapionem,1, 19). A água se reveste, então, de um sentido de eternidade.» (CHEVALIER, 2003, p. 18)

Ao lado dessa imagem de vida eterna sugerida pelas águas do rio, temos um outro elemento que será fundamental para a construção dessa existência que se quer perpetuar: a memória.

É por meio da memória que o narrador de «A terceira margem do rio» dará continuidade à existência de seu pai – «Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.» (ROSA, 1976, p. 30)

Assim, quando, ao final do conto, esse filho, o único da família a demonstrar fidelidade ao pai, propõe ao velho substituí-lo nessa difícil missão, o leitor é levado a supor que a continuidade da existência desse homem no rio, num âmbito particular, e da própria humanidade, numa perspectiva universal, dar-se-á mediante esse filho: «– Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... o senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!...» (ROSA, 1976, p. 31-32)

Entretanto, o filho fraqueja nesse seu objetivo, ao ver o pai responder ao seu chamado, sente medo e recua apavorado:

Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto – o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... (ROSA, 1976, p.33)

A despeito desse falimento, a luta pelo desejo de eternidade não se desfaz uma vez que existe a memória, elemento fundamental para a perpetuação da existência humana. Simbolicamente, todo o relato é construído pela lembrança do narrador: “Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos.” (ROSA, 1976, p. 27) É por meio da memória que o homem e a sua história permanecem. Segundo Walter Benjamin

A memória é a mais épica de todas as faculdades. Somente uma memória abrangente permite à poesia épica apropriar-se do curso das coisas, por um lado, e resignar-se, por outro lado, com o desaparecimento dessas coisas, com o poder da morte. (BENJAMIN, 1985, p. 210)

Para os povos da África, particularmente, a memória desempenha papel fundamental para a preservação de sua cultura. Numa sociedade cuja tradição e história foram repassadas às gerações futuras, basicamente, por via oral, a ausência de memória equivale à morte desse povo. É possível que o culto aos antepassados, o respeito aos mais velhos estejam ligados à essa necessidade de sobrevivência. Na cultura africana, há a figura do griot, que é o velho detentor do saber e contador de histórias. No conto de Mia Couto fica bem transparente a preocupação pela permanência da tradição:

(...) nós temos olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para ver os sonhos. O que acontece, meu filho, é que quase todos estão cegos, deixaram de ver esses outros que nos visitam. Os outros? Sim, esses que nos acenam da outra margem. E assim lhes causamos uma total tristeza. Eu levo-lhe lá nos pântanos para que você aprenda a ver. Não posso ser o último a ser visitado pelos panos. (COUTO, 1996, p. 12)

Vimos, assim, nesses dois contos a ânsia do homem pela imortalidade. E esse desejo é construído não só pela presença da água, como também pelo resgate da memória. Em “A terceira margem do rio” toda a história daquele homem em seu isolamento se refaz por meio da recordação. O pedido do filho de ser colocado, ao morrer, “numa canoinha de nada, nessa água, que não pára” reitera a idéia de perenidade. Em “Nas águas do tempo”, de Mia Couto, fica bastante explícita essa intenção de tornar sempre viva a existência de um povo por meio da perpetuação de uma memória ancestral:

Enquanto remava um demorado regresso, me vinham a lembrança as velhas palavras de meu velho avô: a água e o tempo são irmãos gêmeos, nascidos do mesmo ventre. E eu acabava de descobrir em mim um rio que não haveria nunca de morrer. A esse rio volto agora a conduzir meu filho, lhe ensinando a vislumbrar panos da outra margem. (COUTO, 1996, p. 13)

Referências bibliográficas:

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.

CASTRO, Dácio Antônio. Primeiras estórias: roteiro de leitura. São Paulo: Ática, 1993.

CHEVALLIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 18.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.

COUTINHO, Afrânio. (Org.) Guimarães Rosa. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. COUTO, Mia. Estórias abensonhadas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.

GALVÃO, Walnice Nogueira. Mitológica rosiana. São Paulo: Ática, 1978.

ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. 8. ed. Rio de Janeiro: 1976.

Ler 7535 vezes

Contacto

AV. Ho-Chi-Min, Largo das Escolas
1.º de Maio - CEP 2767 Luanda

Telefone: (222) 322 421 Fax: (222) 323 205

e-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Blogs

blogspotuea1    blogspotueamulembeira           blogspotueanguimba
         
ytlogo2   blog-poetenladen   logotips