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A Alma Feminina: Uma Pintura Dilacerada Pela Colonização

Escrito por  Raquel Cristina dos Santos Pereira
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Arde em ti

a carne despudorada

de dor, culpa e desespero

O brilho das lanças

não apaga o fogo

de tua alma suja,

O sangue não purifica

tua carne maldita,

manchada de Vergonha,

És a vitória

da vida suja

que sai vermelha

de entre tuas pernas

. Séculos se passarão

até que tua vergonha

te liberte da Mão Santa do Senhor.

Fátima Borges (Diretora teatral e Escritora)

 

Ao perpassarmos pelos impérios, pelas classes dominantes da História da Humanidade, talvez sinta um envolvimento mágico do nosso «corpo» para com o corpus histórico das civilizações. Envolvimento este, que após algumas reflexões não se mostrará tão mágico assim, pois em todos os momentos decisivos da História, as nações determinaram predeterminaram o futuro promissor dos continentes como o colonialismo, que não apenas marcou os séculos em que se manteve presente, mas, também demarcou atitudes e comportamentos dos séculos posteriores.

Movido pela necessidade da expansão do poder, conforme outros sistemas governamentais, o colonialismo, o elo dos desencantos das nações, é notadamente reconhecido pela propagação da diferença entre as classes duma sociedade. Pautado nos conceitos reformulados pela Igreja, durante a última fase do Concílio de Trento, de 1559 a 1563, criará no universo feminino os sentimentos do desprazer, da recusa e do medo da existência. Por séculos menosprezada a «mulher colonial» continuará ainda mais recharcida e marginalizada, apesar de pertencer a uma sociedade, na qual as autoridades acreditavam que o progresso e o desenvolvimento do sistema dependiam das atitudes femininas. Tal pensamento apenas refletia a preocupação dos bravejadores do mundo moderno em ocupar rapidamente os novos espaços geográficos «descobertos». Daí a importância do papel feminino.

A Igreja, sem dúvida, uma das entidades políticas mais representativas do colonialismo, e a responsável pela educação familiar, buscou nos séculos anteriores a «inspiração», quer dizer, as regras de que necessitava para moldar essa «nova» sociedade. Contudo, sem o intento de inovar, mas de progredir política e economicamente, a fórmula encontrada pela classe clerical para que o colonialismo resultasse principalmente, num lucrável sistema político, traduziu-se na domesticação feminina.

O «adestramento» feminino representa a temática da obra elucidativa Ao Sul do Corpo, de Mary Del Priore. Uma historiadora apaixonante e apaixonada pelo percurso histórico da mulher, especificamente, da brasileira.

A leitura de Ao Sul do Corpo nos proporciona uma viagem histórica, que parece transformar-se, por vezes, num encontro interior, num singular retorno à primitiva memória feminina. Através do discurso direto e da linguagem pormenorizada, a autora descreve em sua obra o desprezível, o insano trato colonial para com aquelas que trataram de prolongar o colonialismo com o uso do corpo, isto é, por meio da procriação.

O ato de procriar transformou-se na única função colonial realmente importante destinada à mulher (DEL PRIORE, 1995, p.30). O sexo passa a ser uma obrigação, pois só tem serventia para a procriação, ou seja, o prazer, as fantasias que uma relação amorosa pode proporcionar eram totalmente cortadas do imaginário da nação. Junto a este conceito embutiu-se a noção da negação da individualidade (DEL PRIORE, 1995, p.30). As «marcas» da colonização portuguesa tinham a intenção de privar a liberdade da mulher. Tais «marcas» ainda encontram-se em algumas nações, como em Moçambique, por exemplo.

Ao contrário do que se realizou na colonização, Moçambique de hoje, retratada na obra de Eduardo White utiliza-se do mesmo recurso adotado pelo colonizador para moldar a sociedade: são os conceitos em torno do corpo e da auto-estima. Neste caso, ou seja, dos moçambicanos, o corpo, a auto-estima terão seus significados direcionados para um outro olhar- o de aprender a se tornar livre.

Para White, o corpo nunca poderia representar a fonte do pecado, do aprisionamento das fantasias, e sim a fonte da libertação e da esperança em alcançar os objetivos idealizados durante os terríveis anos de luta pela descolonização do país.

O sexo, o erótico, o corpo na obra de White não representam o desejo sexual, no sentido restrito da palavra, mas jogando com a questão da capacidade de que a sexualidade permite extravasar a fantasia, a imaginação, e o ato da criação. Nota-se a presença da metaforização do erotismo, para referir-se aos sonhos sociais e políticos dos quais os moçambicanos sempre almejaram realizar. Assim, a questão do erotismo está ligada à liberdade, à liberdade do sonho... de uma Moçambique totalmente «leve», «livre», «independente...»

Tal posicionamento ideológico justifica o fato do erótico na colonização, ser considerado uma ameaça à ordem imposta. Daí, os dominadores «tosarem» a sexualidade feminina (DEL PRIORE, 1995, p. 181 e 254).

O desconhecimento e o mistério que envolviam o corpo da mulher passaram a representar os critérios para essa opressão feminina (DEL PRIORE, 1995, p. 191).

Além disso, o colonizador acreditava também que por ser a mulher a responsável pelo nascimento, ela representaria a base, o poder supremo em relação ao objetivo do colonialismo, que era expandir-se rapidamente. Por isto, a mulher e seu corpo eram considerados perigos terríveis para a sociedade colonial. Segundo os representantes da Igreja a sexualidade feminina era ameaçadora por ter sido associada à natureza devido ao ímpeto, a impulsividade, enfim as pulsões que direcionam a mulher, assim como ocorrem com os elementos naturais. Partindo deste princípio pressupôs-se que se a mulher tivesse a liderança ou um papel de destaque no poder social, a realidade tornarse- ia desordenada e multifacetada, pois sendo a índole feminina semelhante à natureza, significava, que assim que seus desejos, vontades e efeitos passassem, uma nova realidade seria traçada, ou seja, a mulher representava a subversão em todo o contexto.

Tal pensamento abalava as bases da colonização, já que esta deveria ser mantida na ordem, na mesmice do cotidiano para que seus objetivos de exploração e escravidão fossem realizados com sucesso (DEL PRIORE, 1995, p. 107).

Uma outra questão abordada por Mary Del Priore no estudo histórico, é que o sistema colonial tornou-se muito autoritário, principalmente, porque no Antigo Regime, os conceitos morais não eram mais respeitados, e a Igreja tinha perdido totalmente as rédeas do controle da sociedade como um todo (DEL PRIORE, 1995, p. 105-106). Eis, o porquê da organização do Concílio de Trento, que tinha como objetivo a reestruturação da Igreja e o resgate da autoridade sobre a sociedade antes dissipada.

Então, conseguindo aliar-se ao sistema colonial ela acabou se tornando o eixo político e econômico desta organização opressora. Apesar do sucesso do colonialismo, ele não passou ileso a críticas e a insubordinação dos habitantes das colônias. Uma dessas manifestações provêm dos poemas de Gregório de Matos, que de modo sarcástico descreve algumas situações do cotidiano feminino colonial.

Ao Sul do Corpo nos oferece enfim um encontro com as questões que ainda hoje são determinantes e tabus no universo feminino. A finalização da apresentação desta comunicação tem a intenção de promover uma real mudança no olhar da sociedade em relação ao comportamento feminino, pois, senão continuaremos por séculos discutindo, criticando, expondo o que fez a alma feminina perder a sua real memória e a sentir o que expõem as poesias a seguir:

Sinto a colonização na roupa das cristãs

Sinto a ilusão do despudor das mundanas

Sinto a opressão no véu das muçulmanas

Sinto o desprezo no canto das idosas...

Sinto... porque sou mulher

e procuro em cada uma

a construção da minha,

da nossa identidade singular feminina.

Sinto cada vez mais a incapacidade

de amar, rir, brincar

Parece-me que cada riso é o pecado

Quando? Até quando?

Não poderei mais sorrir para o destino,

o único, talvez...

capaz de retroceder da memória – o castigo de Ser.

Sentir..., não, não sinto...

Ilusão... acho que um dia sentimos...

Raquel Cristina dos Santos Pereira

Sinto a chicotada do desprezo

ainda hoje, no meu corpo

Sinto a escravidão do negro,

no fundo da minha alma

Essência domesticada junto ao navio negreiro,

mas sem a abolição.

Esqueceram de abolir

no decorrer dos séculos

a maledicência, o menosprezo, a inferioridade

do ser – mulher.

Raquel Cristina dos Santos Pereira

Referências bibliográficas:

BATAILLE, Georges. O erotismo. Tradução de Cláudia Fares. São Paulo: Arx, 2004.

CHEVALIER, Jean. Dicionários de símbolos: (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números) / Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, com a colaboração de André Barbault...[et al.]; coordenação Carlos Sussekind; tradução Vera da Costa e Silva...[et.al.] – 12.ed. Rio de Janeiro: José Olympio,1998.

DEL PRIORE, Mary. Ao Sul do Corpo: Condição feminina, maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. 2.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. Tradução de Maria Theresa da Costa Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

JABOR, Arnaldo. «O sexo já foi um comício e hoje é um mercado». O Globo. Rio de Janeiro: 20/11/2001, Segundo Caderno, p.8.

OLIVEIRA, Roberta. «Uma porção da arte africana no CCBB». O Globo. Rio de Janeiro: 12/10/2003, Segundo Caderno, p.2.

MEMI, Albert. Retrato do Colonizado Precedido do Colonizador. 2.ed. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1977.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Uma varanda sobre o índico: entrelugar de sonhos, mitos e memórias... In: SILVEIRA, Jorge F. da. Escrever a casa portuguesa. Belo Horizonte, UFMG, 1999.

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