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O Perfume e o «Entrelugar» no Sujeito em Busca de Sua Autognose

Escrito por  Fernanda Dias de Los Rios
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«Procuro despedir-me do que aprendi

Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram

E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,

Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,

Desembrulhar-me e ser eu, ..»

(Fernando Pessoa, 1997, p.43)

 

«Procuro despedir-me do que aprendi

Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram

E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,

Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,

Desembrulhar-me e ser eu, ..»

(Fernando Pessoa, 1997, p.43)

O conto O perfume de Mia Couto faz parte do livro publicado pelo escritor em 1994, intitulado «Estórias abensonhadas», da fase literária do pós-guerra como definiu Fernanda Angius. O tamanho do conto, que ocupa pouco menos de cinco páginas, esconde uma riqueza de detalhes que poderiam nos levar a horas de análises complexas.

Na impossibilidade de abordar todas as questões que constituem a tessitura do conto, optei por uma análise mais geral, com enfoque mais específico a um tema muito recorrente na literatura contemporânea e de todas as épocas, que na realidade nunca saiu de foco e acredito jamais se tornará ultrapassado: o da busca do sujeito por si mesmo, muitas vezes retratado como a famosa «crise do sujeito».

Partindo de uma situação do cotidiano real - o desgaste de um relacionamento conjugal - Mia Couto rompe com fronteiras preestabelecidas e nos possibilita uma releitura de conceitos através de uma narrativa ficcional rica em metáforas plurissignificativas, neologismos e sinestesias.

Através de recursos da escrita, sobretudo de artifícios poéticos da linguagem, nós leitores somos introduzidos pelo escritor na atmosfera difusa do interior do conto e submetidos assim a uma indefinição espacial e temporal, a um entrelugar plural em possibilidades e incitador de questionamentos.

Como cita a professora Carmem Lúcia Tindó Ribeiro Secco, em Mia Couto e a «Incurável Doença de Sonhar»:

Por esse constante procedimento transgressor, ou seja, pelas «imaginografias poéticas», Mia Couto converte sua escritura numa arte de pensar não só a linguagem, mas também a história de seu país e do mundo, assim como os sentimentos e as emoções universais do ser humano. (SECCO, p. 265).

Pelos neologismos marcantes nas obras do escritor percebemos a tentativa deste em romper com uma linguagem impositiva, pronta, dominante e de recriá-la a fim de com ela ampliar novas formas de leitura.

Somos, desta maneira, impelidos a pensar e a sentir e inebriados na poética artificiosa de Mia Couto passamos a testemunhar e a compartilhar o caos vivido por Glória e o cosmos que esta alcança a término da narrativa.

O cenário do baile surge como demarcador do «rito de passagem», palco em que se dará o rompimento do laço matrimonial e consequentemente o início da crise existencial do «sujeito-personagem» Glória.

É por meio de um «convite ao desencontro» feito por Justino à esposa, que este procura «desatar os nós» (dimensão plurissignificativa) do casamento arrastado (semântica indicativa da metáfora do desgaste).

A questão do abandono nos é segredado por Mia Couto nas entrelinhas do texto: uma das sinalizações se dá quando o narrador nos aponta a ocupação de Justino - reparador de ferrovia: espaço possibilitador de uma viagem, ainda que no âmbito da simbologia. Representa o paradigma entre o partir e o ficar incorporado no homem que procura por sua identidade. É a primeira pista para o entrelugar tão marcado na narrativa, a fronteira diluível entre o consciente e o inconsciente ou a anulação da fronteira entre ausência e presença.

O próprio título O perfume constitui em si a analogia do abandono que se confunde com o vapor e o cheiro que se esvaem no tempo.

A relação de simulacro estabelecida por Justino, que simula uma nova possibilidade em si, prepara a reinauguração do corpo de Glória pelo ritual da transformação composto pela dança, pelo vestido, pelo batom, pelo perfume ....

Embora o personagem Justino também configure a fragmentação existencial do sujeito em busca de sua autognose, foi pela personagem Glória que essa questão do sujeito me marcou mais, pelos adjetivos explícitos ou não que tanto contrastam a personagem subvivente (aquela que vive abaixo da superfície) daquela de olhar cognoscente do desfecho da estória.

Podemos perceber duas dimensões muito bem definidas na caracterização de Glória: a primeira reflete uma Glória mergulhada no minimilismo existencial, que se enxerga sempre em sua menor representação; sua visão de si mesma aparece marcada no texto por adjetivos coisificadores que a reduzem ao niilismo total. No entanto, seu olhar inocente e pré-colegial, destituído de conhecimentos, revela-se inaugural.

Sua identidade encontra-se tão apagada, tão a sombra de Justino que ela já não se reconhece no espelho (o significado implícito na simbologia do espelho é muito profundo, pois o espelho representa aquele que devolve à pessoa a sua verdadeira identidade), pois tornou-se espectro do esposo.

O dado social, presente na descrição dessa Glória «inicial», revela uma cultura de cunho patriarcal em que a mulher possui um espaço delimitado de ação, cerceador de liberdade, representado pelo espaço interior (ambíguo significado, que remete ao interior da casa, espaço físico, e ao interior do ser feminino, cuja voz é silenciada).

O processo pelo qual ao longo do conto Glória vai sendo transformada por fora é acompanhado pela transformação interior dessa personagem coisificada à personagem sujeito (importante perceber que há sempre uma correspondência entre sujeito e mundo ou entre o mundo individual e o coletivo (exterior)). À revisitação do corpo de Glória por Justino, segue uma revisitação de Glória em si

mesma.Ainda que, a princípio, Glória não se identificasse com a nova «ornamentação» que lhe vestia, aos pouco acaba por reconhecer-se uma nova perspectiva. Neste momento, Mia Couto retoma a simbologia da máscara ou personae, ligando os objetos de que faz uso o sujeito à personalidade que este encerra.

Ao ver-se abandonada pelo marido, Glória chega ao conhecimento de si mesma, de sua verdadeira essência através da dor, da desilusão e do sofrimento.Ao despedir-se de Justino, ela se despedia daquela que havia se tornado com ele - extensão do outro com quem convivia.

Vendo-se sozinha, recupera sua sensualidade através do resgate telúrico, alcançando o ápice da liberdade em contato direto com a natureza acolhedora quando sente «seus pés serem acariciados pela areia quente».

Aqui, sutilmente, Mia Couto faz alusão à cultura africana, como não poderia deixar de fazer, ao associar romântica e poeticamente a sensação de liberdade de contato físico com a «mãe terra».

A nova Glória nos é apresentada num contexto «espacitempo» difuso, entre sonho e realidade, entre o consciente e o inconsciente, nos «degraus da escada», diluída na ilusão dos sentidos que recuperam, na memória, «em olfatos só da alma», o perfume, que é a projeção do desejo inconsciente dela de retomar a paixão há tempos vivida por Justino e não de retomar a sua convivência com Justino.

O mundo sensorial figura como elo de ligação entre o sujeito e os acontecimentos exteriores a este. Assim, o olhar, janela d’alma, espelho do mundo, centralizador em si dos desejos e das paixões, é recriado e reinaugurado em Glória. Sua nova percepção de mundo a faz compreender que «só o amor concede a ilusão do eterno».

Como disse o próprio autor (Couto, 1991, p.21): «Afinal de contas, quem imagina é porque não se conforma com o real estado da realidade.» A imaginação apresenta-se como fuga da realidade, como um artifício do sujeito que procura a felicidade, numa realização utópica.

O desejo de Glória pela volta da paixão está tão vivo que seus sentidos acabam por confundi-la, remetendo-a a uma experiência ilusória muito bem sugestionada pela sua mente que recria uma realidade compatível com o seu sonho.

Antes de chegarmos ao clímax final de O perfume, gostaria de elucidar mais uma vez a temática do sujeito em sua condição fragmentária, indefinida, fronteiriça, fazendo desta vez uma ponte entre essa questão no conto e o próprio autor, Mia Couto.

Desejo com isso mostrar que não é gratuito o fato desse assunto estar sempre presente nas obras do autor e de modo peculiar no conto aqui analisado.

Para tanto, recorro mais uma vez ao texto já citado, da autoria da professora Carmem Lúcia, que num dado momento dá voz à Mia Couto que diz:

Sou um escritor africano de raça branca. Este seria o primeiro braço de uma apresentação de mim mesmo. Escolho estas condições – a de africano e a de descendente de europeus – para definir logo á partida a condição de potencial conflito de culturas que transporta.» E continua: «como outros brancos nascidos e criados em África, sou um ser de fronteira».Para melhor sublinhar minha condição periférica, eu deveria acrescentar: sou um escritor africano, branco e de língua portuguesa. Porque o idioma estabelece o meu território preferencial de mestiçagem, o lugar de reinvenção de mim. Necessito inscrever na língua de meu lado português a marca da minha individualidade africana: Necessito tecer um tecido africano, mas só o sei fazer usando panos e linhas européias. (COUTO , 08 out. 1997,p.59).

Cabe aqui mencionar os contadores de histórias africanos que ao narrarem as histórias iam registrando, pictograficamente em tecidos, a mesma. Essa correspondência entre a subjetividade de Mia Couto e a sua obra foi o que me chamou muita atenção para a forma como o espaço e o tempo, sempre mediadores entre duas realidades, entre o real e o imaginário, constituem a própria dimensão do sujeito que busca situar-se, desse sujeito que, como o próprio Mia Couto, é a representação de um não-espaço ou de um espaço fronteiriço entre diferentes mundos (culturas, línguas...).

O sujeito, portanto, procura conhecer-se através da tentativa de definir, com maior clareza, a linha divisória entre o que lhe é conflito, internamente, a fim de harmonizar-se consigo mesmo e com o outro (mundo exterior).

O ápice de O perfume está na ausência de um desfecho da estória, como a professora Carmem Lúcia registrou no seu texto: «Mia Couto também não fecha sua histórias. Estas, labirintivamente, enredam os leitores, contagiando-os com essa mesma «doença dos sonhos».

Na realidade, essa característica do autor está enraizada na cultura oral dos contadores de histórias africanos de uma maneira propositalmente contraditória: esses contadores africanos seguem um ritual «sagrado» de fechamento das histórias. Ao terminarem a narração de uma história eles se dirigem a esta como se ela fosse uma entidade e lhe dizem: «voltem para casa Zavane e Guana (equivalente à Adão e Eva, 1º casal humano). É dentro desta caixa que estão as histórias. Voltem para casa Guana e Zavane».

Esse ritual é feito, pois há a crença africana de que se uma história não é fechada pode fazer adoecer os que a assistem, incutindo-lhes uma doença de sonhar. O objetivo de Mia Couto, ao não proceder com o fechamento do conto, e exatamente o de nos fazer «adoecer de sonhos», deixando a nosso cargo a interpretação final que fica no ar.

Ao término da leitura uma questão nos inquieta: Em que consistiria o dado inaugural da «Estréia do sangue da felicidade de Glória?»

Talvez na descoberta de que a ida do marido era inconscientemente desejada por ela, embora ela ainda fosse apaixonada não por ele, mas por uma lembrança do que viveu anos atrás. Se nos distanciarmos um pouco da tentativa de obter respostas prontas para o final do conto, nos flagramos, de fato, contagiados pela epidemia africana de sonhar e reconhecemos que como Glória ou o próprio autor somos, todos nós, o entrelugar, «geradores de sementes, sonhos a engravidar o tempo», território onde vamos refazendo e molhando de esperança o rosto da chuva, água abensonhada”, eixos paradigmáticos entre o ser e o não ser, entre o ir e o ficar, parque das possibilidades. E é isso que eu acredito que o autor moçambicano tenta insuflar em nós e consegue: a capacidade de nos permitirmos sonhar no espaço da literatura.

Referências bibliográficas:

COUTO, Mia. Estórias abensonhadas. Lisboa: Caminho, 1994.

LEPECKI, Maria Lúcia. «Mia Couto: Vozes Anoitecidas, o acordar». Sobreimpressões. Estudos de Literaturas Portuguesa e Africanas. Lisboa: Editorial Caminho, 1988. p. 175-178.

SECCO, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro. «Mia Couto e a Incurável Doença de Sonhar». África e Brasil: Letras e Laços. p.261-286.

ANGIUS, Fernanda e ANGIUS, Matteo. O desanoitecer da palavra: estudo, seleção de textos inéditos e bibliografia anotada de um autor moçambicano. Praia, Mindelo: Embaixada de Portugal; Centro Cultural Português, 1998.

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