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O Conceito de Leveza em Mia Couto e em Roberto Chichorro

Escrito por  Miriam de Andrade Levy
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Este trabalho integra o projeto «Letras e Telas: Sonhos, Paisagens e Memórias em Poetas e Pintores de Moçambique», coordenado pela Professora Doutora Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco. Ao invés de traçar paralelos entre uma tela e um poema, trabalharemos com o conto «O embondeiro que sonhava pássaros», de Mia Couto, por ser escrito em prosa poética, o que pressupõe um conceito lato de poesia. A tela escolhida foi «Concerto para noite de luar», de Roberto Chichorro.

Este trabalho integra o projeto «Letras e Telas: Sonhos, Paisagens e Memórias em Poetas e Pintores de Moçambique», coordenado pela Professora Doutora Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco. Ao invés de traçar paralelos entre uma tela e um poema, trabalharemos com o conto «O embondeiro que sonhava pássaros», de Mia Couto, por ser escrito em prosa poética, o que pressupõe um conceito lato de poesia. A tela escolhida foi «Concerto para noite de luar», de Roberto Chichorro. Mostraremos a seguir os elementos que servem de ponte de comunicação entre as obras, com o objetivo de interpretar a simbologia dos pássaros empregada pelos artistas.

O conto, retirado do livro Cada homem é uma raça, se passa na época colonial e descreve um vendedor de pássaros que seduz a cidade dos brancos com suas aves encantadas, despertando a admiração das crianças e a suspeita dos adultos.

Os pássaros são elementos constantes na produção de Mia Couto. É comum encontrarmos aves mitológicas de Moçambique inseridas em suas narrativas como, o Ndlati, ave do relâmpago1, ou o flamingo, responsável pelo primeiro poente2. No conto não há a descrição de uma ave em particular, mas sim do deslumbrante bando:

Aquele negro trazia aves de beleza jamais vistas. Ninguém podia resistir às suas cores, seus chilreios. Nem aquilo parecia coisa daquele verídico mundo. Os portugueses se interrogavam: onde desencantava ele tão maravilhosas criaturas? Onde, se eles tinham já desbravado os mais extensos matos? (...) Os senhores receavam as suas próprias suspeições – teria aquele negro direito a ingressar num mundo onde eles careciam de acesso?

Encontramos, então, outro fator recorrente da obra de Mia Couto: o «fantástico». Normalmente, os personagens costumam conviver naturalmente com acontecimentos sobrenaturais. Nesse caso, há um estranhamento por parte dos estrangeiros. Estes, ao contrário dos habitantes da terra, carecem de acesso ao universo mítico. Entendemos este como um suplemento ao mundo concreto onde residem as lendas, os sacerdotes, os antepassados etc. Por séculos os colonizadores tentaram invalidar esse mundo, argumentando se tratar apenas de crendices. Historicamente eles não compreendiam o «fantástico» africano e a ficção de Mia Couto faz essa denúncia.

A obra de Roberto Chichorro também é permeada de elementos «fantásticos». A escolha das cores em seus quadros propõe uma subversão da realidade. Suas matizes recriam as situações do cotidiano, transformando-as diante de nossos olhos. Em suas pinturas encontramos um retrato de Moçambique: seu povo, seus hábitos e seu inconsciente.

O pintor, assim como o escritor, recorre aos pássaros freqüentemente para representar o sobrenatural. Na tela «Concerto para noite de luar» observamos dois pássaros que habitam voluntariamente uma gaiola, que se confunde com uma sanfona. Em entrevista ao Jornal de Letras de Lisboa, o pintor explicou que em sua obra «as gaiolas não são prisões. São as gaiolas dos nossos amores, da nossa afetividade»3. Podemos encontrar semelhante transfiguração da idéia de cativeiro na narrativa de Mia Couto.

Em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, um dos personagens mantinha uma gaiola sempre aberta, na esperança de que algum dia um pássaro nela entrasse voluntariamente. No final do romance, quando o personagem desiste do projeto frustrado, nos deparamos com outra manifestação do «fantástico»: «Pega na gaiola e lança-a no ar. A gaiola se desfigura, ante o meu espanto, e se vai convertendo em pássaro. Já toda ave, ela reganha os céus e se extingue» 4.

A mesma inversão do significado de prisão pode ser observada no conto «O embondeiro que sonhava pássaros»: «Ele mesmo fabricava aquelas jaulas, de tão leve material que nem pareciam servir de prisão. 5»

Como já foi dito anteriormente, os pássaros que ocupam essas gaiolas fazem parte do animismo africano. Em diversos dicionários de símbolos encontramos o pássaro como aquele que «exerce papel intermediário entre a terra e o céu» 6 ou como símbolo da imortalidade da alma. Essas definições parecem coincidir com a epígrafe do conto: «Pássaros, todos os que no chão desconhecem morada».

Se as gaiolas são redomas de amor e de afetividade para Roberto Chichorro, podemos entender que os moçambicanos se reconciliaram com o outro-mundo, representado pelos pássaros. Em verdade, é possível observar a influência cada vez maior desse universo nas manifestações artísticas contemporâneas de Moçambique.

Existe ainda um outro elemento que rompe os limites das grades: a música. No conto, para compor a imagem do vendedor de pássaros, é introduzido o som da muska, uma gaita da etnia xi-sena. «O homem puxava de uma muska e harmonicava sonâmbulas melodias. O mundo inteiro se fabulava»7. Essa gaita executa um dueto com a sanfona da tela e o som por elas produzido evoca a liberdade.

Os dois «músicos» fictícios parecem ser regidos pelo luar. Na descrição do tocador de gaita encontramos que «(...) seu astro não era o Sol. Nem seu país era a vida.». Por oposição, podemos afirmar que seu astro é a lua. O sanfoneiro, ao executar um concerto para noite de luar, também deixa entrever suas influências.

A lua é para o homem o símbolo da passagem da vida à morte e da morte à vida. O fragmento do conto nos explicita que o passarinheiro habita o país da morte e, regido pela lua, executa essa comunicação entre os dois mundos.

«A lua conhece uma história patética, semelhante à do homem (...) mas sua morte nunca é definitiva. Este eterno retorno às suas formas iniciais, esta periodicidade sem fim fazem com que a lua seja por excelência o astro dos ritmos da vida» 8. Na cosmogonia africana, a vida também é conhecida como eterno retorno. «Esta vida (...) é vista como um movimento circular, que vai do nascimento à morte e da morte ao nascimento.» 9 Esse ciclo, assim como o da lua, é incessante.

Os idosos e as crianças possuem uma ligação muito forte, pois constituem os dois extremos do círculo da vida: onde um termina, o outro inicia. Ambos possuem uma espécie de comunicação com o mundo invisível, no qual habitam os antepassados.

Nesse conto, o passarinheiro só consegue interagir com as crianças. Elas possuem um canal de comunicação que é maior que os limites de credo e nação. Ainda não foram contaminadas com o racismo dos pais. Sua ingenuidade possui a seriedade necessária para acreditar nos mitos.

«Mais que todos, um menino desobedecia, dedicando-se ao misterioso passarinheiro. Era Tiago, criança sonhadeira, sem outra habilidade senão perseguir fantasias»10. Tiago passa a conviver com o passarinheiro e conhece a sua residência: «um embondeiro, o vago buraco do tronco». Aprende com ele a abrir os olhos para uma outra realidade e, com esses, já consegue enxergar os sonhos.

Mas nem todos conseguem ver as coisas com outros olhos e a convivência entre os dois mundos se torna insustentável. Os brancos não suportam mais a invasão desses pássaros fabulosos em seu mundo tão concreto. O som da muska e o chilreio das aves parecem entoar um hino, anunciando algo que os colonos não queriam ouvir. Para calar esse canto, espancam o passarinheiro e o prendem em uma gaiola. Tiago tenta intervir, mas só consegue a gaita do velho. Sem ter mais o que fazer, põe-se a tocar e desperta a passarada. Olha para a cela e não encontra mais o cativo. Sem saber para onde ir, Tiago volta ao embondeiro para aguardar seu amigo. Toca a gaita mais uma vez e desperta a atenção dos guardas, que tentam resgatar o prisioneiro.

As tochas se chegaram ao tronco, o fogo namorou as velhas cascas. Dentro, o menino desatara um sonho: seus cabelos se figuravam pequenitas folhas, pernas e braços se madeiravam.(...) O menino transitava de reino: arvorejado, em estado de consentida impossibilidade. E do sonâmbulo embondeiro subiam as mãos do passarinheiro. (...) As chamas? De onde chegavam elas, excedendo a lonjura do sonho? Foi quando Tiago sentiu a ferida das labaredas, a sedução da cinza.

Na primeira das Seis propostas para o próximo milênio, Ítalo Calvino demonstra como a leveza pode ser um valor na ficção. O conto se enquadra nesta teoria ao utilizar elementos «leves» como o luar, os pássaros e as gaiolas «aladas». Em seu desfecho, utiliza a leveza como espelho para refletir com suavidade o peso concreto dos acontecimentos trágicos.

A leveza também pode ser observada nas imagens de Chichorro. Com seus tons oníricos, retira toda a sujeira, a miséria e a tristeza dos bairros do subúrbio onde nasceu e que até hoje lhe servem de paisagem.

Os pássaros, afinal, fazem o intermédio entre o mundo visível e o invisível. Em outra interpretação da tela, as aves não estariam em uma gaiola, mas sim em seu âmago, na altura de seu coração. Como é daquela terra, tem acesso aos outros mundos e os pássaros fazem parte do seu ser. O mesmo ocorre no conto de Mia Couto. No caso de Tiago, foi preciso que ele transitasse de reinos para migrar por completo para o universo mítico e fizesse girar a roda do eterno retorno.

«Então, o menino, aprendiz da seiva, se emigrou inteiro para suas recentes raízes».11

Notas

1 COUTO, Mia. «O dia que explodiu o Mabata bata». Vozes anoitecidas. Lisboa: Editora Caminho, 1987.

2 COUTO, Mia. O último vôo do flamingo. Lisboa: Editora Caminho, 2000.

3 JL JORNAL DE LETRAS. Lisboa: ano VI, nº 230, 29/11 a 05/12/1986. Pp 26 - 27.

4 COUTO, Mia. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Rio de Janeiro: Cia. das Letras, 2003. P. 246.

5 COUTO, Mia. «O embondeiro que sonhava pássaros». Cada homem é uma raça. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1988. P. 63.

6 CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 16ª ed. RJ: José Olympio. P. 688.

7 COUTO, Mia. «O embondeiro que sonhava pássaros». Cada homem é uma raça. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1988. Pp. 63 e 64.

8 CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 16ª ed. RJ: José Olympio. P. 561.

9 KABWASA. Nsang O’Khan. In: Correio da Cidadania da Unesco. Brasil: ano X, nº12, 12/1982. P 14.

10 COUTO, Mia. «O embondeiro que sonhava pássaros». Cada homem é uma raça. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1988. Pp. 63 e 64.

11 COUTO, Mia. «O embondeiro que sonhava pássaros». Cada homem é uma raça. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1988. P. 64.

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